Uma Crítica Cristã: O Transumanismo Religioso Considerado e Comparado

Forcing Change, Volume 8, Edição 1.

Prefácio: Como muitos leitores de Forcing Change sabem, fui um palestrante no encontro da Associação Mórmon Transumanista do ano passado, realizado em Salt Lake City. Como fui um participante convidado, fui depois solicitado a apresentar minha palestra na forma de um ensaio para ser considerado para inclusão no relatório das atividades da MTA no ano de 2013. Esse ensaio será revisado por membros selecionados da MTA e, se aceito, circulará entre os membros da associação e terceiros interessados. O primeiro rascunho revisado já foi enviado para o painel revisor.

Algumas vezes, as portas se abrem de uma forma totalmente inesperada.

Este foi o caso em maio de 2012, quando Lincoln Cannon, o presidente da Associação Mórmon Transumanista (MTA), contactou-me por correio eletrônico e perguntou se eu estaria disposto a comparecer à conferência da MTA em 2013 e apresentar uma "crítica ao transumanismo cristão"? Fiquei surpreso com o convite, mas agradeci a oportunidade e elogiei a MTA por considerar trazer um crítico à mesa. Aquela era uma porta aberta e concordei em participar. Como foi que isto aconteceu?

Em 2010, compareci à conferência Transumanismo e Espiritualidade, da MTA, em Salt Lake City, no estado do Utah e, em seguida, escrevi um ensaio crítico a respeito do movimento — tanto no senso geral e com aquilo que ocorreu no evento. [1]. Isto levou a uma troca de mensagens de correio eletrônico e comentários em blogs entre os membros da MTA e eu e, em certa ocasião, quando fiz uma apresentação sobre o transumanismo em uma conferência cristã que foi posteriormente publicada no YouTube, Lincoln respondeu com algumas críticas construtivas. Obviamente, já havia uma conexão entre nós antes de eu receber o convite. Apesar disso, ele foi inesperado.

Ele também foi apropriado, pois muitos cristãos de mente conservadora estão começando a compreender o significado do transumanismo e seu potencial para moldar o discurso religioso, social e político. Embora o conceito de transumanismo — independente se ele foi chamado assim ou não — possa ser rastreado em todo o século 20 e até antes, a ideia ganhou ímpeto continuamente durante as duas últimas décadas. Assim, à medida que as organizações transumanistas cada vez mais interagem com a sociedade geral e que os cristãos conservadores desenvolverem uma conscientização, descobriremos que os defensores do transumanismo religioso e os cristãos tradicionais inevitavelmente trombarão uns nos outros quando se envolverem no mercado das ideias.

Ao contemplar o que eu deveria compartilhar com a MTA, considerei os caminhos mais óbvios da provável controvérsia, incluindo os argumentos bioéticos, o uso da tecnologia para influenciar os valores e as fronteiras sociais, e as premissas com relação ao que significa ser humano.

Mas, cada um desses tópicos debatidos de modo algum é exclusivo para os cristãos preocupados, pois a comunidade transumanista religiosa luta com esses mesmos temas. Portanto, fui compelido a explorar a tensão central entre estes dois campos — o "transumanista religioso" e o cristianismo histórico, particularmente a partir de uma perspectiva evangélica e conservadora.

Antes de esta tensão principal ser avaliada, três qualificadores precisam ser colocados sobre a mesa que ajudarão você a compreender um pouco do contexto subjacente. O primeiro demonstra que os seguidores do Cristianismo ortodoxo não são opostos à ciência [3], e isto está sendo declarado porque encontrei alguns indivíduos na comunidade transumanista que acham que os cristãos contribuíram muito pouco (ou nada) para fazer avançar a condição humana a partir de uma posição técnica ou material. O segundo qualificador afirma as referências que estarei usando neste ensaio e a terceira reconhece que o ponto final do Cristianismo histórico fala das similaridades encontradas dentro do círculo transumanista religioso.

1. O Cristianismo histórico não se opõe à obtenção da melhoria humana, à longevidade, à expansão das capacidade, a busca por avanços médicos ou a superação dos problemas humanos por meio da tecnologia. David F. Noble, um historiador da ciência e da tecnologia que lecionou na Universidade de York, em Toronto, reconheceu que a história moderna e o crescimento do desenvolvimento tecnológico ocidental estão inextricavelmente enraizados no pensamento e na filosofia cristã. [4]. O sociólogo francês Jacques Ellul, também observou o papel importante do Cristianismo no contexto moderno do avanço técnico, como também o historiador cultural e pensador cristão norte-americano Francis A. Schaeffer, que não somente reconheceu a influência do Cristianismo na Revolução Científica, mas o papel que exerceu no desenvolvimento da arte e da cultura. [5].

Embora Noble, Ellul e Schaeffer igualmente reconheçam as cisões e deficiências no que se refere à influência cristã sobre a ciência, o contexto maior permanece firme: a cosmovisão judaico-cristã exerceu um papel monumental em fazer a ciência moderna avançar para a melhoria do conhecimento e desenvolvimento humano. De fato, embora o publicamente declarado abismo entre a ciência e a religião seja frequentemente citado jocosamente pelos comentaristas, o fato permanece que os cristãos e os aderentes do pensamento teológico têm e são uma parte importante da comunidade científica e contribuíram muito para nosso mundo: desde Pascal até Isaac Newton (que escreveu extensamente sobre teologia) a Michal Faraday, a Werner Heisenberg, Francis Collins, do Projeto Genoma Humano, ao químico sintético e engenheiro da nanotecnologia James Tour. [7].

Além disto, o Cristianismo tem um longo e inigualável registro de realizações na melhoria da condição humana por meio da fundação de incontáveis hospitais, escolas, orfanatos, casas de proteção e abrigos. Da mesma forma, o Cristianismo formou a base para muitas universidades de primeira linha — exemplos são Yale, Harvard, Princeton, Colúmbia, Brown, Dartmouth, e muitas outras.

Gerações de cristãos seguiram o mandamento de Jesus Cristo de "amar o próximo como a si mesmo" [Mateus 22:39], exemplificando tangivelmente o chamado do livro de Tiago, no Novo Testamento, de viver "com fé e com obras". É verdade que existem exemplos de cristãos vacilantes e que deixam de cumprir este chamado, porém o fato permanece que os cristãos — motivados por uma cosmovisão bíblica — fizeram muito para fazer avançar a ciência para a melhoria da condição humana.

2. Para este ensaio, "o transumanismo religioso" será considerado como aquele lado do movimento transumanista que se identifica com ou por meio de uma estrutura religiosa, ou orientado para a espiritualidade, independente se é uma fé reconhecida mundialmente, uma ramificação de uma filosofia mística, ou um novo movimento, como Terasem, que se auto-intitula como uma trans-religião.

O "transumanismo cristão", uma extensão do "transumanismo religioso", para o propósito deste ensaio, incluirá uma ou mais das seguintes dimensões:

A) Os defensores do transumanismo que afirmam uma identidade cristã e colocam sua visão de avanço técnico humano dentro de uma orientação decididamente cristã.

B) Uma religião organizada, seita, ramificação ou movimento de fé que se conecte a uma persuação ou rótulo cristão para crenças de ascensão induzida pelo próprio homem.

C) Aqueles que se opõem ao Cristianismo ortodoxo, porém abertamente empregam sentimento cristão dentro dos argumentos para o desenvolvimento humano. Um grande generalização é necessária para esta classificação e ela está sendo incluída principalmente para propósitos históricos, pois aqueles em questão provavelmente afirmariam uma posição ateísta ou agnóstica. Saint Simon, um pensador social do século 19, se encaixaria nesta categorização, como alguém que considerou a noção de Deus "obsoleta", porém imaginou um "Novo Cristianismo" — "para pronunciar anátema sobre a teologia e condenar como profana qualquer doutrina que tente ensinar os homens que existe algum outro modo de obter a vida eterna, senão a de trabalhar com todo seu poder para a melhoria das condições da vida dos outros homens." [8].

Além disso, ao considerar o transumanismo cristão, dois modificadores precisam ser observados, especialmente para as posições A e B: apenas porque um indivíduo, grupo, ou religião afirma uma orientação cristã não significa que uma visão ortodoxa/histórica seja defendida. Na verdade, a natureza do transumanismo cristão — usando os exemplos listados posteriormente neste ensaio — seria considerado fora da norma do Cristianismo tradicional.

Segundo, apenas por que uma designação cristã seja usada, isto não significa que ela seja universalmente aceita ou esteja fora de contestação. Por exemplo, um relatório de 2012 do Pew Research demonstrou que 97% dos mórmons consideram sua fé uma "religião cristã", porém, ao mesmo tempo, uma porcentagem considerável de protestantes e evangélicos (47%) não, e até mais, 66%, disseram que "o Mormonismo e sua própria religião são muito ou bastante diferentes". [9]. Além do mais, os teólogos e apologetas protestantes e evangélicos rotineiramente adotam a posição que o Mormonismo é uma religião singular, baseada na mensagem de Joseph Smith, ao mesmo tempo que apontam diferenças doutrinárias fundamentais com o Cristianismo ortodoxo e criticam os ensinos de Smith, incluindo suas afirmações de revelação divina. [10].

Nuanças aparecem à medida que tentamos definir "Transumanismo Religioso" e "Transumanismo Cristão", mas em ambas as designações encontramos a linguagem e conceitos de imortalidade, perfeição e salvação — tipicamente construções religiosas — como sendo razões centrais para os esforços transumanos.

3. Um resultado final sobre o qual o Cristianismo tradicional fala poderia ser rotulado como "transumano" no sentido que aponta para um tempo de redenção física/material, imortalidade e perfeição — uma transformação para escapar das fraquezas da nossa atual condição humana, atualmente marcada pela doença, falhas morais, problemas e morte. Assim, um melhoramento futuro e final é previsto à medida que os cristãos aguardam a promessa de Jesus Cristo, que disse: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá." [João 11:25-26]. [11]. Jó, o personagem do Velho Testamento que viveu muitos séculos antes de Cristo, falou dessa promessa de redenção com grande expectativa: "Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior." [Jó 19:25-27].

Portanto, a salvação que vem de Cristo tira as pessoas do caminho do pecado e da morte e as traz de volta ao caminho da vida — e isto é compreendido primeiro em termos da salvação espiritual e, depois, no tempo escolhido por Deus, na translação física.

Obviamente, existem pontos em comum entre o Cristianismo tradicional e o transumanismo religioso, e o transumanismo em geral; ambos os lados concordam que nossa atual condição humana é problemática, limitada e imperfeita. Ambos desejam uma melhor existência e uma realidade melhorada. Ambos desejam a "morte da morte". Mas, embora os dois lados tenham aspirações de um futuro perfeito, aqui é onde a tensão central existe entre o Cristianismo histórico e o transumanismo cristão.

Como o Dr. Brent Waters, um pesquisador no Centro de Bioética e Dignidade Humana, escreveu em seu ensaio Whose Salvation? Which Eschatology?:

"Para os transumanistas os humanos deixaram de alcançar seu verdadeiro potencial, enquanto que para os cristãos, os humanos ainda não se tornaram o tipo de criatura que Deus tem em vista para eles. Em resposta, ambos concordam que os humanos requerem a libertação de sua condição atual. Para os transumanistas essa liberação é obtida por meio da transformação tecnológica, enquanto que para os cristãos, o homem e mulher são transformados por sua vida em Cristo." [12].

É claro que o Dr. Waters estava comparando o transumanismo geral com o Cristianismo histórico, mas a divisão se mantém verdadeira com o transumanismo religioso/cristão. Para compreender melhor essas tensões, precisamos explorar o Cristianismo ortodoxo e o "transumanismo cristão" em duas rápidas investigações. A primeira, um exame em quatro partes do Cristianismo histórico — admitidamente mais extensa que a investigação seguinte — é realizada por meio de lentes evangélicas. Compreenda que esta é apenas uma análise abreviada, pois muitos livros já foram escritos sobre estes quatro pontos em vista.

O Cristianismo: Uma Investigação em Quatro Pontos

1. "No princípio criou Deus os céus e a terra." [Gênesis 1:1]. Aqui, a identidade daquele que criou é expressa: Deus criou. Além disso, em Gênesis 2:4, um título mais preciso é fornecido: o SENHOR Deus (Yahweh Elohim), o nome personalizado para o Deus do povo israelita é expresso quando Ele se envolve no ato da criação.

Alguns itens a observar emergem a partir deste encontro na Escritura. Primeiro, Yahweh (Jeová ou Iavé) está Se apresentando à Sua criação e, ao fazer isso, vemos implícito um ambiente relacional: Deus quer ser conhecido e, como a identidade está sendo comunicada, um relacionamento significativo entre Criador e a criação é concebido.

A identidade em Gênesis 1 e 2 também demonstra propriedade legal. Como criador, Jeová, e ninguém mais, tem o direito juridicamente legal inicial e final sobre o universo, visível e invisível. Este aspecto de propriedade (posse) é visto em Deuteronômio 10:14: "Eis que os céus e os céus dos céus são do SENHOR teu Deus, a terra e tudo o que nela há." A posse estende-se também às pessoas, colocando Deus acima da humanidade: "Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto." [Salmos 100:3].

Este conceito da propriedade legal também fala de capacidade criativa de Deus. Jeová não usou materiais pré-existentes para modelar os materiais dos céus e da terra, que poderiam depois ser reivindicados ou revogados por alguém. Ao contrário, como o Gênesis nos diz, Ele trouxe todas as coisas à existência. O Salmo 33:6 reitera esta criação ordenada: "Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca." Deus pensou, proferiu o pensamento e criou.

O erudito judeu Dr. Yehezkel Kaufmann, ao contemplar a cosmologia do Velho Testamento, diz: "Em parte alguma descobrimos que os elementos do cosmos — isto é, a terra, os céus, o sol — foram modelados a partir de materiais pré-existentes... A Bíblia não tem necessidade de um reino pré-existente. Certamente, o Deus bíblico modela algumas de suas criaturas a partir de matéria já existente. Mas, essa matéria não está viva ou carregada com forças divinas; ela também não se opõe e nem participa na criação." [13]

Deus falou e aspirou o fôlego, trazendo a matéria e a vida à existência. Como isto aconteceu tecnicamente continua sendo um mistério e a complexidade e escala da criação nos deixam maravilhados. Considerando os caminhos de Deus, o rei Davi escreveu o seguinte: "Grande é o SENHOR, e muito digno de louvor, e a sua grandeza inescrutável." [Salmos 145:3]. E o apóstolo Paulo escreveu: "Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?" [Romanos 11:34]. A grandeza e autoridade posicionais de Deus são incomparáveis, confirmando a singularidade no universo. Isto é amplificado em Isaías 44, onde Jeová declara que é o redentor de Israel: "Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, e seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus... Porque vós sois as minhas testemunhas. Porventura há outro Deus fora de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça." [14].

Novamente, em Isaías 45: "Anunciai, e chegai-vos, e tomai conselho todos juntos; quem fez ouvir isto desde a antiguidade? Quem desde então o anunciou? Porventura não sou eu, o SENHOR? Pois não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há além de mim. Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro." [15].

Finalmente, o Novo Testamento nos dá uma compreensão mais completa. Jesus Cristo (Yeshua em hebraico, o que signfica "Salvador" e Libertador") [16], fez uma afirmação que está em paralelo com a reivindicação de Isaías 44 como "o primeiro e o último" (Apocalipse 22:13), é Deus manifesto em carne — a divindade literalmente participando na natureza da humanidade com o propósito da redenção — e, subsequentemente, reconhecido como Criador: "O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele." [Colossenses 1:16-17]. João 1:3 afirma esta posição: "Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez."

Jesus Cristo, Criador (autor da vida), Deus em carne, revelado à Sua criação — e, assim, estendendo o relacionamento como o autor do amor.

2. A humanidade foi criada à imagem de Deus (Gênesis 1:26-27). Isto não implica igualdade com Jeová, ou a ideia de se tornar um deus, embora fale de uma qualidade física. João 4:24 nos diz que Deus é espírito, mas pode-se argumentar que Ele nos criou de um modo físico que é um reflexo de como Ele se expressa para nós. Existem diversas metáforas, analogias e exemplos do Velho Testamento que falam sobre isto, mas é no Novo Testamento que encontramos a implicação mais profunda — Deus se revelou encarnando-se em um corpo humano para o propósito da salvação: Yeshua, Jesus Cristo como Salvador. [17].

Além disso, Jesus Cristo é colocado em paralelo com o Gênesis quando recebe o título de "Último Adão" e o "Homem Celestial" [1 Coríntios 15:45,49]. Como o apóstolo Paulo observou, nós que estamos em Cristo Jesus, "também teremos a imagem do homem celestial" [18]. Finalmente, em uma linguagem reminiscente do Gênesis, Cristo é apresentado como "a imagem do Deus invisível" [Colossenses 1:15] por excelência.

Outro aspecto é que a humanidade como uma "portadora da imagem" contém atributos qualitativos e comunicáveis, refletindo algumas das características de Deus: a capacidade de entrar em relacionamento, amor e empatia, consciência moral, racionalidade, retidão e conhecimento consciente. Todas essas características demonstram que a humanidade é uma criação especial desenhada para exibir e transmitir valores transcendentes. Assim, a "imagem e semelhança" de Deus, colocada na humanidade está comunicando uma realidade espiritual mais interior que tem o propósito de refletir a bondade, o amor e a justiça de Deus. A aplicação prática é a seguinte: Um relacionamento significativo entre o Criador e a humanidade pode ocorrer, conforme exemplificado nos eventos de Gênesis 2, onde Deus atende às necessidades do primeiro casal humano e tem comunhão direta com ele.

Pelo fato de ter sido criada à imagem de Deus, o valor da humanidade não é medido pelos padrões do marketing humano, ou por éditos políticos, mas pelo próprio Deus. Ao compreender que foi criada à imagem e semelhança de Deus, cada pessoa tem, portanto, valor intrínseco e eterno, e é nisso que descobrimos o fundamento para a dignidade humana. Idealmente, nossas ações individuais e coletivas, incluindo nossos esforços técnicos e científicos, deveriam ser direcionados para a preservação e avanço dessa visão fundamental da dignidade humana.

3. Deus é o autor do amor e a escolha é necessária para o amor existir. Amar sem opção de escolha é servidão. Em Gênesis 2, uma escolha é colocada diante de Adão e Eva — a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a opção de experimentarem o fruto dela é deixada disponível, ou obedecerem a Deus e se absterem. Entretanto, com essa escolha vem uma advertência: "Porque no dia que dela comeres, certamente morrerás." A racionalidade dessa consequência aparentemente severa tem uma explicação lógica. Como Deus é o autor e detentor legal da vida, escolher deliberadamente um caminho diferente daquele que Ele traçou — Sua bênção da vida — é entrar automaticamente no caminho da morte.

Em Gênesis 3 a humanidade fica diante de um tentador, chamado alternadamente de Satanás ou Diabo. As interpretações artísticas desse adversário vão desde um monstro medieval até uma figura chifruda das revistas em quadrinhos, ou até de um homem de negócios elegante. Em 2 Coríntios 11:14 a apóstolo Paulo diz que o Maligno pode aparecer como um "anjo de luz".

Aqui, em Gênesis 3, o tentador oferece a justificação para desobedecer a ordem anterior de Deus, revertendo a advertência feita por Deus: "Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal." [19]. A intenção parecia boa — ser "como Deus" por meio de conhecimento especial, "a obtenção de sabedoria" [20] com a promessa da imortalidade. O primeiro casal humano comeu e, ao fazer isso, tomou a decisão de seguir um caminho da autodireção, afastando-se, portanto, do Autor da Vida na busca de sua própria divindade dirigida. Assim, as promessas "angélicas" de conhecimento divino e vida eterna caíram por terra em pedaços quando as bênçãos da comunhão de Deus foram perdidas. Ao contrário de ganhar sabedoria, o rompimento relacional do homem com Deus distanciou a humanidade da fonte da verdadeira sabedoria. As mortes espiritual e física vieram em seguida e, desde então, lutamos constantemente para cumprir a visão de se tornar "como Deus" e, subsequentemente, reconquistar a imortalidade.

Dois versos de Provérbios falam do erro e a cura do dilema do homem: "Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte." [Provérbios 14:12]. "O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência." [Provérbios 9:10].

Todavia, desde a Queda do Homem, a humanidade tem se esforçado para recuperar aquilo que foi perdido, praticando rituais, técnicas, religiões e ensinos esotéricos, ciclos infindáveis de boas obras, cargas de obrigações, iluminação pessoal e o peso infindável de atos experimentados, porém fracassados, de auto-realização — incluindo o sonho da perfeição tecnológica. [21]. As afirmações que o homem pode se tornar Deus por meio da autodescoberta evolucionária e/ou experiências iniciatórias são legião, [22] frequentemente com revelações angélicas ou de um outro mundo, atuando como catalisador para inspirar outra repetição da mesma promessa.

4. Dois mil anos atrás Deus entrou no domínio terreal da humanidade por meio de Jesus Cristo, literalmente Deus em carne entre os homens, como o antídoto para nosso problema do pecado e da morte — "E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado." [1 João 3:5].

Nosso Salvador Jesus Cristo "aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho" [2 Timóteo 1:10]. Isto requereu que o próprio Jesus Cristo, o Salvador e libertador, experimentasse separação e morte — prenunciado no sistema sacrificial dos hebreus durante vários séculos — e mais importante, para superar a morte por meio da ressurreição física. Nisto a plenitude de Deus foi revelada quando Deus, o Pai, ressuscitou Jesus (Romanos 10:9), Jesus ressuscitou a Si mesmo (João 19:19-22) e o Espírito O ressuscitou: "E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita." [Romanos 8:11].

Como tratado no livro de Hebreus, este ato de Jesus Cristo foi uma obra finalizadora. De que forma qualquer coisa poderia ser acrescentada? O Velho e o Novo Testamento nos dizem repetidamente que não há ninguém que seja igual a Deus, nem ninguém que se equipare à Sua santidade. Ao contrário, descobrimos que para Deus nossas justiças são como trapo de imundícia" (Isaías 64:6) e que "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Romanos 3:23). Portanto, somos incapazes de nos justificar a nós mesmos com nossas próprias forças.

Entretanto, neste ato sacrifical de Cristo, o amor é apresentado com uma escolha — crer que Jesus Cristo somente restaura o relacionamento rompido entre o homem e Deus, e que somente Deus fornece a salvação, a promessa da imortalidade e a perfeição. Isto requer que humildemente reconheçamos nossa incapacidade de salvar a nós mesmos. Este é um reconhecimento da nossa desobediência, do orgulho da nossa proclamação de autodivinização e do pecado que isto tudo produziu.

Vemos um prenúncio disso com o rei Davi no Salmo 51. Confrontado com seu próprio pecado, Davi compreende que Deus não deseja sacrifícios, que eram realizados diariamente pelos sacerdotes: "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus." Isto abre a porta para a graça, o favor não merecido.

Um exemplo chocante disto ocorre na crucificação de Jesus Cristo. Colocado entre dois malfeitores convictos, Jesus ouviu blasfêmias e maldições de um deles. O outro, reconhecendo a situação, expressou temor a Deus e pediu que Jesus se lembrasse dele ao entrar em seu reino (Lucas 23:42).

É notável como Jesus Cristo respondeu. Ele não disse ao ladrão: "Primeiro, saia da cruz e vá praticar boas obras", ou "Vá encontrar uma solução técnica para seu problema da morte", ou "É uma pena que você não tenha sido batizado", ou "Você precisa fazer parte do sacerdócio e cumprir suas obrigações antes que eu possa aceitá-lo." Em vez disso, Jesus disse: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso." [Lucas 23:43] A linguagem aqui também é importante, pois Jesus não disse ao ladrão que ele chegaria "perto do paraíso", ou a um certo nível de existência. Ao contrário, o ladrão usufruiria de total comunhão com Cristo.

O ladrão não estava em condições de praticar obras ou ações para salvar a si mesmo, exceto a única coisa necessária: temer a Deus e ter um coração contrito.

Como Efésios 2:8-9 nos diz: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie."

Romanos 4:2-8, referenciando o Velho Testamento, fornece mais compreensões: "Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça. Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado."

Mas, as obras exercem um papel vital no sentido que demonstram a existência de uma fé viva, exatamente como o livro de Tiago observa ao citar a vida de Abraão. Noé também exibiu isto de um modo tangível (Gênesis 6:9-22): primeiro ouvindo e crendo em Deus — tendo fé que aquilo que Jeová disse era verdadeiro — e depois agindo com base nessa fé com obras. Deus sela Noé e sua família, Deus promete e salva; Noé, por sua vez, trabalha de acordo com sua fé. [23].

Efésios 2:10 ajuda a colocar isto em perspectiva. "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas."

Portanto, como reconciliamos "pela graça somente" — os escritos de Paulo — com "o homem é justificado pelas obras, e não apenas pela fé" — os escritos de Tiago? Sem entrar em uma discussão longa e tediosa, o ponto com Tiago é que ele está combatendo uma fé derivada de forma intelectual e que não traz evidências de uma vida transformada, como visto quando ele disse corretamente: "Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem." [Tiago 2:18-19]. Paulo, por outro lado, está combatendo o erro de ter fé em um objeto: lei e obras.

O Dr. Douglas J. Moo, erudito em Novo Testamento na Wheaton College Graduate School, tem o seguinte a dizer: "A diferença entre Paulo e Tiago consiste na sequência de obras e conversão: Paulo nega que exista alguma eficácia nas obras pré-conversão, mas Tiago mostra a absoluta necessidade de obras pós-conversão." [24].

Em tudo o que foi dito acima, as palavras de Hebreus 10:12-14 vêm à mente: "Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados."

O Transumanismo Cristão

Ao dar alguns exemplos do Transumanismo Cristão, é minha esperança que a diferença entre o Transumanismo Religioso/Cristão e o Cristinismo ortodoxo se torne evidente.

1. Como observado anteriormente, o transumanismo cristão pode cobrir um amplo espectro e poderia, na verdade, incluir elementos místicos e seitas gnósticas. Historicamente, poderíamos colocar Saint Simon na mistura, pois embora ele rejeitasse a ortodoxia cristã e a Igreja Católica Romana em particular, apesar disso ele propôs um "Novo Cristianismo" e, assim, fez uso de um sentimento social-religioso na busca por uma nova ordem. Com isto, ele desejava um "uso apropriado dos objetivos materiais... para procurar o grau mais alto de felicidade alcançável pela espécie humana na Terra..." [25].

Ele acreditava que o "Novo Cristianismo", como uma fé moralmente forte, materialista e fraternal, se tornaria a "religião universal". Todos os povos estariam assim aliados, sob o governo de "cientistas, artistas e industriais", que se tornariam "os diretores-gerentes da espécie humana". As artes, ciência e tecnologia se tornariam um "estudo sagrado" e a "adoração" seria um "modo de lembrar aos homens, no dia de descanso, dos sentimentos filantrópicos". O estudo bíblico seria descartado como uma perda de energia, especialmente porque afasta as pessoas de "trabalharem por um sistema político em que os interesses comuns serão gerenciados pelos homens mais hábeis da ciência, das artes e da indústria". [26].

A doutrina cristã tradicional de salvação por meio de Jesus Cristo seria proibida, substituída por "trabalhar com todas as suas forças para a melhoria das condições de vida..." [27].

Chamar Saint Simon de "transumanista" pode ser um exagero, pois ele viveu em uma época anterior ao aparecimento do termo, de modo que não poderia prever o resultado biológico/tecnológico. Entretanto, a ideia dele de uma sociedade derivada cientificamente como um novo modo de organizar a humanidade se encaixa dentro do contexto tranhumanista. A razão é que o transumanismo, em seu desejo de transformar a humanidade, inevitavelmente transformará as culturas, a política e outras estruturas sociais.

2. O cosmista ortodoxo russo Nikolai Fedorov (1829-1903), retratado à direita, certamente se encaixa no escopo maior do transumanismo cristão. Combinar crenças ortodoxas russas com elementos do pensamento da Teosofia e de outras linhas ocultistas, e misturando isto tudo com as realizações científicas e técnicas — atuais e futuristas, como os voos espaciais, o Cosmismo apresentou um sonho transumanista de imortalidade criada pela engenharia e a ressurreição técnica dos mortos. Portanto, a "tarefa comum" da humanidade era a fuga científica da morte e, por meio desse processo, o universo material seria aperfeiçoado na Terra e nos céus.

George M. Young, em seu livro The Russian Cosmists, aponta para a natureza final universal do Cosmismo: "Outro aspecto do pensamento russo relevante ao Cosmismo é sua inclinação totalitária, sua tendência em direção a uma solução universal e total." [26]. O Cosmismo falava da necessidade de um todo constituído tecnicamente, uma realidade onde todos participariam na transcendência da humanidade: uma unidade sem fim que se estenderia a todas as áreas da existência, incluindo religião e todos os contextos sociais. Ninguém, vivo ou morto, ficaria de fora da abrangência da transformação. Como Young escreve:

"Unificar todas as pessoas vivas em uma tarefa para superar o único verdadeiro inimigo de todos os viventes, isto é, a morte. O projeto da ressurreição física, ativa e literal, representaria um grande passo em direção à solução de muitos outros problemas que parecem insolúveis hoje. As energias e recursos agora direcionados à guerra seriam direcionados para a ressurreição." [29].

Fedorov, um bibliotecário pacato e reclusivo, eventualmente exerceria uma não assumida, porém importante, influência sobre homens como o gigante literário Tolstoy, o teórico da biosfera/noosfera Vernadsky, e Konstantin Tsiolkovsky, o pioneiro da tecnologia dos foguetes na Rússia. A exploração espacial seria mais do que apenas uma busca científica por descoberta, mas um passo em direção à ressurreição. Temas religiosos inegáveis baseados em motivos cristãos foram e estão interligados dentro da cosmovisão Cosmista: Cristo é um "modelo" para a ressurreição, o reino de Deus a ser estabelecido por meio da ação humana e a salvação alcançada por meios científicos.

3. O controverso místico católico Teilhard de Chardin, frequentemente emerge nas discussões da história do pensamento transumanista. Embora melhor conhecido por sua hipótese da noosfera, uma rede planetária e espiritual de consciências globais despertadas, ele utilizou o termo "transumano" ao descrever os futuros humanos. Falando de um ponto crítico transumano nos anos 1950s, Chardin previu uma tendência evolucionária no desenvolvimento humano onde os avanços espirituais, sociais e tecnológicos fisicamente unificariam a humanidade em uma alma comum a ser convergida com o "Cristo Cósmico". [30]. Isto, ele declarou, nos moveria em direção ao Ultra-humano

Como John L. Reed escreveu em sua histórica crítica da técnica: "Chardin... fundiu as visões utópicas do super-homem e a super sociedade em seu conceito do super-humano.'" [31].

A tecnologia, para Chardin (retrato à esquerda), permite à humanidade deter o poder de alterar o futuro. Esse poder de tecnologia, além disso, levaria a um "passo para cima na consciência do homem", pois "todo par de mãos liberados significa um cérebro liberado para o pensamento." [32]. Decidir o futuro poderia não ser meramente acidental: "a vida não pode mais seguir de forma aleatória — a tecnologia traz consigo a necessidade inescapável de uma ideologia." [33].

Dois estratos ideológicos foram considerados: Materialismo, com técnica e organização, e a espiritualidade, particularmente uma extensão mística das obras cristãs que ofereceriam um "centro divino" e se tornar a religião do progresso — "Deus é infindávelmente alcançável na totalidade das nossas ações". [itálico no original] [34].

A humanidade planetária universal — o "transumanismo cristão" de Chardin postulou a salvação e a apoteose por meio do coletivismo social, espiritual e científico da humanidade. O poder e a técnica nos moldariam para dentro de uma síntese utópica.

4. Um "Novo Homem" está surgindo: organizando e coletivizando — dirigindo a evolução — por meio do poder da tecnologia e do conhecimento e qual será o resultado final?

Desde o fim dos anos 1950s e início dos 70s, uma pletora de pensadores sociais, acadêmicos e pesquisadores científicos escreveu sobre a questão da evolução humana futura por meio da tecnologia. Este súbito interesse foi baseado em diversos fatores: desde a publicação póstuma dos ensaios de Chardin, até chamado de Julian Huxley, feito em 1957, [35] para uma nova existência espiritual baseada no humanismo — o "transumanismo" — para o aparecimento da organização computacional. O ritmo alucinante da corrida espacial e da corrida armamentista foi uma contribuição importante, como também o controle dos animais feito pelo Dr. José Delgado usando implantes de rádio no cérebro.

As transformações sociais e culturais também contribuíram para esta trasição, pressionando por uma nova dinâmica psicológica e metafísica por meio do advento do psicodélico e um marcante aumento do interesse pelas filosofias orientais. Era evidente então que um Novo Homem social e tecnológico estava nascendo.

O pensamento e técnicas de sistemas estavam sendo contemplados como um meio para um novo fim humano e livros como The Children of Frankenstein, de Herbert J. Muller exploraram as possibilidades da sociedade tecnológica. Na verdade, The Biological Time Bomb, de Gordon Taylor, forneceu uma cronologia sugerida para a grande transformação humana. Escrevendo nos anos 1960s, ele especulou que por volta de 1975, seríamos capazes de transplantar membros e órgãos, ter um "poder extenso de adiar a morte clínica" e conseguir apagar memórias.

Por volta do ano 2000, tentemunharíamos "extensas modificações da mente e a reconstrução da personalidade", a edição da memória, os primeiros animais clonados, quimeras homens-animal, e usufruiríamos a energia da juventude prolongada. Após o ano 2000, veríamos o controle do envelhecimento, as ligações cérebro-computador, pessoas clonadas, cérebros fora do corpo, manipulação dos genes, "o adiamento indefinido da morte' e quimeras homem-máquina." [36].

Portanto, não foi surpresa, que por volta do início dos anos 1970s, um segmento crescente da comunidade cristã tenha olhado para o desenvolvimento tecnológico como um meio de modificar a humanidade. "Uma nova espécie de homem está nascendo em nosso meio", escreveu Clyde Reid para a Igreja Unida de Cristo.

O livro de Reid, 21st Century Man Emerging, embora se possa argumentar que não tenha sido altamente infuente, apesar disso falou do interesse crescente dentro dos círculos teológicos de um futuro humano baseado na tecnologia. Compelido em grande parte por Chardin e pelas transformações científicas daquele tempo, Reid delineou um cenário para o vindouro "Homem Mundial". O Homem Global. O Homem Universal." [37]. A humanidade evoluída experimentaria uma nova liberdade moral, desejar uma participação ativa em criar o novo mundo, adotar uma expansão da consciência, encontrar o ecumenismo religioso e novas experiências espirituais e se tornar um "Homem Cósmico". Como um professor de teologia, Reid focou grande parte de seu trabalho no aspecto social e cultural dessa transição, mas a tecnologia foi reconhecida como um catalisador e um conduíte.

"O transporte rápido, a viagem espacial, a comunicação eletrônica, todos estes e muito outros (desenvolvimentos tecnológicos) poderiam ser elaborados. Talvez seja suficiente dizer que parece haver uma resposta à pressão acumulada desses fatores que está começando a transformar o estilo do comportamento humano." [38].

Seguindo imediamente o reconhecimento da mudança tecnológica, Reid aponta para uma preocupação central: "A questão real diante de nós é se o novo homem emergirá a tempo para nos salvar da autodestruição. Estamos claramente em uma corrida conosco mesmos." Entretanto, a esperança deveria ser encontrada na premissa da questão. "Há um futuro. Há um novo dia amanhecendo e um novo homem que está chegando." [39].

Obviamente, o termo "transumanismo cristão" não estava em uso da forma referida nos exemplos acima, porém desde Fedorov até Chardin e Reid, a visão estava ali. Hoje, o termo está sendo considerado e usado por aqueles que se conectam a uma concepção cristã para a noção do transumanismo. Sem dúvida haverá variações e nuanças de significado para aqueles que se identificam com esse rótulo, mas a diferença qualitativa como ela se relaciona ao Cristianismo tradicional/ortodoxo — e o estresse subjacente a essa diferença — permanecerão em jogo, pois o transumanismo, por sua própria natureza, busca uma salvação técnica para o problema da morte e da imperfeição.

Aqui, então, está a tensão: Um lado diz que a salvação, ressurreição e perfeição são encontradas somente em Jesus Cristo, sem esforços humanos, sem obrigações e sem obras tecnológicas como um adicional necessário, e depois expressa essa fé — sempre que possível — por meio de palavras e obras. É uma fé que evoca a situação anterior à Queda, reconhecendo que Deus somente provia (Gênesis 2) e que nessa provisão as "obras" tinham um significado que não estava baseado em mérito salvífico, mas em relacionamento. É uma fé que diz: "Deus somente fornece a perfeição e eu confiarei Nele para esse fim, porque não posso salvar a mim mesmo. Portanto, se um "anjo dos céus prega outro evangelho", tentando me afastar da graça de Cristo, como Gálatas 1:8 nos diz, então devo rejeitar esse "outro evangelho" — seja ele uma mensagem de salvação pregada por um anjo da tecnologia ou por um anjo das boas obras.

O outro lado diz que a humanidade pode realmente salvar a si mesma, e estamos obrigados a tentar e fazer tudo o que pudermos para esse fim, pois embora Jesus Cristo tenha morrido e ressuscitado — o único que venceu a morte — Ele de algum modo não é suficiente. Embora isto não seja dito explicitamente, forma o pano de fundo sobre o qual testamos e pintamos nosso próprio quadro de imortalidade e perfeição futuras. Isto é similar à fé pós-Queda de Gênesis 3: por meio da nossa sabedoria, e pela quantidade de obras das nossas mãos, a humanidade pode alcançar a perfeição. Jesus Cristo pode entrar no quadro, mas recebe a posição de um auxiliador — importante, mas não suficiente — ao tentarmos salvar a nós mesmos acrescentando as boas obras, a tecnologia, as obrigações, rituais, etc. Como qualquer movimento ou sistema religioso que peça por "obras +", os "mais" continuam ad infinitum, pois nos esforçarmos, mas nunca alcançamos a perfeição — e, assim, o relacionamento renovado — que vem por meio do Criador não criado.

Notas Finais

1. Carl Teichrib, "O Aparecimento dos Tecno-Deuses: A Fusão do Transumanismo com a Espiritualidade", artigo disponível em A Espada do Espírito.

2. Veja, David F. Noble, The Religion of Technology: The Divinity of Man and the Spirit of Invention (Penguin Books, 1999), para uma interessante discussão histórica do desenvolvimento humano e sonhos de ascensão por meio das lentes da tecnologia.

3. Isto não impede que alguns aspectos históricos e contemporâneos da Cristandade tenham, de fato, batalhado com o pensamento científico. O caso controverso e complexo da Igreja Católica Romana e Galileu — ele próprio um homem que cria nas Escrituras — é citado frequentemente. Além disso, embora a questão da Evolução/Criação/Projeto Inteligente seja usada por muitos críticos da religião para demonstrar o analfabetismo científico dos cristãos, deve-se notar que alguns cientistas religiosos e seculares questionam a Teoria da Macroevolução com argumentos científicos. Por exemplo, o famoso engenheiro da nanotecnologia James Tour, embora questionando a Criação e admitindo não ser um teólogo, admite publicamente sua descrença na Macroevolução a partir de um ponto de vista científico. Embora a situação do Dr. Tour seja interessante, sua descrença na Macroevolução não é única.

4. Este tema da tema da tecnologia--cristianismo forma a parte principal de seu livro The Religion of Technology.

5. Jacques Ellul, The Technological Society (Vintage Books, 1964), pág. 32-38; Francis A. Schaeffer, How Then Shall We Live? The Rise and Decline of Western Thought and Culture (Fleming H. Revell, 1976), veja o Cap. 7 sobre o impacto do Cristianismo sobre a Revolução Científica.

6. Isto não implica que todos estavam ou estão de acordo em cada ponto teológico ou doutrinário, mas cada um identifica de um modo sério uma perspectiva e/ou identidade cristã, e que o Cristianismo foi/é uma parte fundamental de suas vidas.

7. Tour, como um cientista que proclama abertamente sua fé cristã, escreveu um artigo fascinante sobre a questão da Evolução/Criação. O artigo é intitulado "Layman's Reflections on Evolution and Creation: An Insider's View of the Academy" e pode ser encontrado no sítio na Internet do James M. Tour Group, em http://www.jmtour.com. Além disso, Tour recentemente deu seu testemunho no Fórum Veritas, da Georgia Tech, onde detalhou seu trabalho com a nanotecnologia e depois responde, de um modo provocativo, uma pergunta sobre o assunto da Evolução/Criação. Esta palestra pode ser assistida aqui: http://youtu.be/PzrxTH-UUdI.

8. Henri de Saint-Simon, New Christianity, Social Organization, the Science of Man and Other Writings (Harper Torchbooks, 1952), pág. 105.

9. Mormons in America: Certain in Their Beliefs, Uncertain of Their Place in Society (Pew Research Center/The Pew Forum on Religion & Public Life, janeiro de 2012, estudo dirigido por Luis Lugo), págs. 10-11. Nota: A pesquisa de opinião descobriu que os católicos estão mais inclinados a aceitarem o Mormonismo como uma fé cristã.

10. Reconhecendo que meus amigos mórmons provavelmente discordarão, ou verão desfavoravelmente as posições feitas e o propósito objetivado delas, mesmo assim estou listando essa fonte como um ponto inicial para considerar as diferenças, críticas e argumentos. Uma visão muito curta e básica das diferenças entre o Mormonismo e o Cristianismo pode ser encontrada no panfleto on-line "Seven Differences Between Mormonism and Christianity", em http://mormoninfo.org/files/tracts/Eng_Differences.pdf. Uma fonte on-line com muitos artigos e ensaios que demonstra as diferenças é o Mormon Research Ministry, em http://www.mrm.org. Para exemplos de aspectos contestados dos ensinos de Joseph Smith, veja a produção em vídeo The Bible vs. Joseph Smith, baseado em uma discussão aberta entre Joel P. Kramer, um cristão evangélico e Greg Gifford, um mórmon que nasceu em uma família que há várias gerações segue o Mormonismo (produzido por Living Hope Ministries/SourceFlix, 2010). Finalmente, uma fonte datada, porém importante da análise crítica vem do clássico do Dr. Walter Martin, O Caos das Seitas.

11. Daniel 12:1-3, João 6:40, 1 Tessalonicenses 4:16 e Apocalipse 20:4-6, junto com muitas outras passagens do Velho e do Novo Testamento, falam da ressurreição.

12. Brent Waters, Whose Salvation? Which Eschatology? Transhumanism and Christianity as Contending Salvific Religions, Transhumanism and Transcendence: Christian Hope in an Age of Technological Enhancement (Georgetown University Press, 2011), pág. 164.

13. Yehezkel Kaufmann, The Religion of Israel: From Its Beginnings to the Babylonian Exile (University of Chicago Press, 1960), pág. 68. Esta citação é uma composição de duas seções. A primeira é encontrada no topo da página 68, e a segunda no meio da mesma página.

14. Isaías 44:6,8.

15. Isaías 45:21-22.

16. Veja Thomas R. Yoder Neufeld, Recovering Jesus: The Witness of the New Testament (Brazos Press, 2007), pág. 106. Neufeld é um professor associado no Conrad Grebel University College.

17. Veja João 14:9, Colossenses 2:9 e Hebreus 10:5.

18. 1 Corintios 15:49.

19. Gênesis 3:4-5.

20. Gênesis 3:6.

21. Veja David F. Noble, The Religion of Technology.

22. Alguns exemplos: a Teosofia, que recebeu suas revelações por meio de comunicações de reluzentes Homens Aperfeiçoados do outro mundo, ensina que o homem se torna Deus por meio de processos iniciatórios grupais e da evolução espiritual. Levi, que recebeu visões etéreas e assim foi capaz de decoficar seu livro revelado, The Aquarian Gospel of Jesus the Christ, ensina que o homem se torna Deus; o Livro de Urântia, uma gigantesca compilação de mensagens de "personalidades celestiais", ensina que o homem se torna Deus por meio da evolução espiritual; os ensinos esotéricos da Alvorada Dourada, que invoca encontros angélicos por meio de rituais, ensina que o homem pode se tornar "Mais do Que Humano" — um Homem Aperfeiçoado e divino; a Antiga e Mística Ordem Rosa-Cruz, reconhecendo e transmitindo os ensinos dos Mestres do outro mundo, aponta para a perfeição humana e que o homem pode ascender como um Mestre cósmico por meio de experiências iniciatórias e da evolução espiritual; Elizabeth Claire Prophet recebeu visões angelicais e mensagens celestiais que proclamam que o homem é Deus; e o Movimento de Nova Era está repleto de exemplos de visitações e comunicações angelicais e cósmicas que proclamam continuamente que o homem é Deus. Finalmente, o Mormonismo se encaixa com este modus operandi, pois o ensino de Joseph Smith do homem/Deus emerge a partir de seus encontros angélicos-divinos. É interessante que quando examinamos a Bíblia, vemos anjos proclamando duas mensagens principais: o anjo de luz caído prometendo a divindade do homem por meio de conhecimento especial e os anjos justos que apontam para o único Deus (dois exemplos: os anjos no nascimento de Jesus, como encontrado em Lucas 2, e o anjo de Apocalipse 22, que diz ao apóstolo João para não adorá-lo, mas adorar somente a Deus).

23. Quero agradecer a James Carrol, da Associação Mórmon Transumanista, por indicar a situação de Noé, em uma mensagem de correio eletrônico em 2013. Embora provavelmente discordemos em parte, agradeço suas críticas e sua seleção do evento de Noé em nossa correspondência.

24. Dr. Douglas J. Moo, James (Inter-Varsity Press, 1985), pág. 102.

25. Saint Simon, New Christianity, Social Organization, pág. 99.

26. Idem, págs. 105-107.

27. Idem, pág. 105.

28. George M. Young, The Russian Cosmists: The Esoteric Futurism of Nikolai Fedorov and his Followers (Oxford University Press, 2012), pág. 25. Recomendo este livro para qualquer um que esteja interessado em uma melhor compreensão histórica do Cosmismo.

29. Idem, pág. 48.

30. Pierre Teilhard de Chardin, The Future of Man (Harper Colophon Books, 1969). Veja os capítulos 19 a 22, todos escritos em 1950 e 1951, com uma porção do capítulo 22 — "Cosmic Life" — impresso em 1968.

31. John L. Reed, The Newest Whore of Babylon: The Emergence of Technocracy – Study in the Mechanization of Man (Branden Press, 1975), pág. 41.

32. Pierre Teilhard de Chardin, Activation of Energy (Harcourt Brace Jovanovich, 1970), pág. 160.

33. Idem, pág. 161.

34. Pierre Teilhard de Chardin, The Divine Milieu: An Essay on the Interior Life (Harper Torchbooks, 1965), pág. 63.

35. Julian Huxley, Transhumanism New Bottles for New Wine (Harper & Brothers, 1957), pág. 17.

36. Gordon Rattray Taylor, The Biological Time Bomb (The World Publishing Company/New American Library, 1968), págs. 204-205.

37. Clyde Reid, 21st Century Man Emerging (Pilgrim Press/United Church of Christ, 1971), pág. 83.

38. Idem, pág. 118.

39. Idem, pág. 118.



Fonte: Forcing Change, Volume 8, Edição 1.
Data da publicação: 11/3/2014
Transferido para a área pública em 22/2/2016
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