Parte 1

O Transumanismo e Suas Implicações Religiosas, Políticas e Sociais

Forcing Change, Volume 6, Edição 4.

Parte 1:

A Doutrina do Homem: Uma Crítica ao Transumanismo Cristão

Autor: Chris D. Putnam

Nota: Chris Putnam ofereceu gentilmente este seu excelente ensaio para publicação em Forcing Change. Chris é um pesquisador, autor e conferencista sobre apologética cristã. Seu site na Internet é http://www.logosapologia.org).

Introdução

O propósito deste ensaio é tratar algumas das muitas implicações teológicas que envolvem o Transumanismo, especialmente em relação à sua consistência com uma cosmovisão cristã. O tópico é tão amplo que pode ser melhor tratado paradigmaticamente, examinando suas tecnologias e filosofias fundamentais. Esta apresentação fará primeiro um breve resumo do tópico e depois apresentará uma visão geral das tecnologias envolvidas. À medida que as tecnologias forem discutidas, algumas críticas específicas serão feitas e respostas cristãs apresentadas. Em seguida, veremos as questões teológicas.

Primeiro, analisaremos os fundamentos filosóficos do movimento e depois interagiremos especificamente com os proponentes mais visíveis que tentam reconciliá-lo teologicamente com o Cristianismo. Os principais pontos oferecidos em defesa da tese são que os promotores do Transumanismo cristão são dirigidos por uma antropologia sem base bíblica, uma visão pelagiana do pecado e um profundo erro de compreensão da vida cristã, todos os quais característicos do liberalismo teológico.

O primeiro ponto de análise será a antropologia, que naturalmente influencia as pessoas a rejeitarem o relato bíblico da Criação e do pecado original. A negação da autoridade das Escrituras nas questões da origens e do pecado resulta na adoção de uma cosmovisão naturalista e leva a uma abertura para ideias como o Transumanismo cristão. Isto será revelado como arrogância e um pecado potencialmente grave.

Finalmente, algumas sugestões serão oferecidas como uma resposta cristã. Este ensaio demonstrará que, embora existam alguns que afirmem serem Transumanistas cristãos, o Transumanismo é uma cosmovisão antropocêntrica baseada em pressupostos naturalistas e que é incompatível com o Cristianismo bíblico ortodoxo.

Resumo

O Transumanismo está no caminho de se tornar uma cruzada cultural e internacional que promete romper as limitações humanas e reprojetar de forma radical a humanidade. Defendo a opinião que o Transumanismo atende à definição básica de uma religião e cosmovisão. Os aderentes dessa cosmovisão planejam estender a duração da vida, aumentar a capacidade dos sentidos, expandir grandemente a capacidade de memória e, de um modo geral, usar a tecnologia para aprimorar a condição humana. É tentador intentar depreciar o Transumanismo como imaginações fantásticas de alguns excêntricos e fãs de ficção científica. Entretanto, esses indivíduos não são simples malucos; ao revés, são professores de universidades de primeira linha, como Yale, MIT e Oxford e têm uma visão secularizada do futuro, uma escatologia alternativa, por assim dizer. A Bíblia promete o mesmo por meio de Cristo. Essas duas visões não são compatíveis e uma colisão cultural será inevitável.

A filosofia moderna do Transumanismo foi criada em 1990 por Max More, no ensaio "Transhumanism: Toward a Futurist Philosophy" (Transumanismo: Rumo a uma Filosofia Futurista). De acordo como More, "o Transumanismo é uma classe de filosofias que querem nos guiar rumo a uma condição pós-humana." [1].

More é abertamente antiteísta, o que será tratado na seção de interação crítica. O filósofo Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, refinou e amenizou a posição inicialmente virulenta de More. Todavia, a maioria dos transumanistas é formada por ateístas ou agnósticos, e a crítica que "eles estão brincando de Deus" não os perturba nem um pouco. [2]. Com base na premissa que a Evolução naturalista é verdadeira, o Transumanismo procura moldar a espécie humana por meio da aplicação direta da tecnologia. Entretanto, isto depende de uma infinidade de variáveis. Poderemos terminar com o homem de seis milhões de dólares, ou com o monstro Frankenstein. Existe um estado de perplexidade nas perguntas. O que significa ser pós-humano? Quais são as consequências espirituais? E a alma? Um cristão pode ser transumanista? Embora estas questões permaneçam sem respostas, existem aqueles que tentam fundir o Cristianismo com o Transumanismo. Uma resposta para a última questão será oferecida perto do fim deste ensaio.

O consenso cristão ocidental passou para a história e estamos agora vivendo em uma era pós-cristã. O secularismo está se tornando cada vez mais agressivo, encontrando voz no Movimento Neoateísta, que tem como seus principais expoentes Richard Dawkins, Daniel Dennet, Christopher Hitchens e Sam Harris. A retórica deles de cientificismo triunfante é o Zeitgeist (o espírito do tempo) do século 21. Em grande parte, os transumanistas compartilham essa fé devotada na ciência, porém a cosmovisão transumanista é mais enigmática.

Não pode haver dúvidas que o progresso científico e os avanços técnicos estão agora preparados para transformar radicalmente a humanidade. Isto está caminhando em um ritmo tão rápido que é imperativo que os cristãos atentos ofereçam uma perspectiva bíblica no mercado de ideias. Embora isto esteja se tornando cada vez mais impopular, não devemos nos atemorizar. Esta questão tem enormes implicações para a teologia.

Infelizmente, muito pouco até aqui foi escrito sobre o Transumanismo dentro dos círculos evangélicos conservadores. Existe uma Associação Mórmon Transumanista, o que não é surpreendente, tendo em vista o politeísmo e a doutrina da apoteose do homem, que os mórmons possuem. [3]. No nível popular, existem dois sítios na Internet criados por um instrutor de operações nucleares, James Ledford, chamados Technical-Jesus.com e HyperEvolution.com, bem como um livro que ele mesmo publicou e que promove o "Transumanismo cristão". [4]. O teólogo Paul Tillich é frequentemente citado em suporte.

Ultimamente, o Transumanismo tem encontrado justificação teológica em obras de teólogos da Igreja Evangélica Luterana da América, como Phillip Hefner, Ted Peters, e outros. Na verdade, no inverno de 2005, toda uma edição da revista luterana Dialog foi dedicada ao assunto. [5]. A missão dos luteranos parece bem-intencionada, tentando fazer uma ponte entre a ciência e a fé. Eles são bem-vindos em arenas em grande parte seculares e o trabalho deles está sendo considerado com seriedade. Infelizmente, com exceção de Thomas Horn, vozes cristãs conservadoras não estão sendo ouvidas, embora talvez elas também não sejam bem-vindas. [6].

Bostrom, Hefner e Ledford argumentam que não há nada de errado com o fato de um cristão adotar uma cosmovisão transumanista. Eu discordo pelas razões que serão discutidas na seção de interação crítica deste ensaio. Primeiro, para compreender essa cosmovisão, precisamos investigar rapidamente a ciência e a tecnologia que estão por trás dela.

A Tecnologia

O Transumanismo é dirigido pelo ambicioso rolo compressor da moderna revolução científica e tecnológica. Todas as tecnologias subjacentes ao Transumanismo são partes da explosão da biotecnologia e incluem genética, neurofarmacologia, robótica, cibernética, inteligência artificial e nanotecnologia. Todas elas estão interrelacionadas e são alimentadas pela sempre crescente capacidade computacional, que, segundo a Lei de Moore, dobra a cada dois anos.

Para o propósito desta discussão, examinaremos essas tecnologias de um modo muito limitado em duas categorias amplas: a biológica/genética e as tecnologias eletromecânicas dos computadores. Dessas duas, a primeira tem recebido mais atenção por parte dos pensadores cristãos, devido a questões como a pesquisa com células-tronco, clonagem e o holocausto infantil mundial. Como resultado, os cristãos têm uma posição coerente sobre o valor intrínseco de toda a vida humana desde a concepção até a velhice. Portanto, a posição básica expressa por Francis Beckwith no debate sobre o aborto é uma boa plataforma a partir de onde começar. [7]. Entretanto, um dos novos grandes desafios que estão diante dos pensadores cristãos é nossa recém-adquirida capacidade de alterar a natureza para nossos próprios fins, por meio da engenharia genética e da biotecnologia.

A descoberta do ácido desoxirribonucleico (DNA) por James Watson e Francis Crick, em 1954, abriu a arquitetura da vida à intervenção humana de uma maneira que era inconcebível anteriormente. Em 2003, o Projeto do Genoma Humano produziu um mapa completo do genoma humano. Consequentemente, somos agora capazes de usar a engenharia genética para alterar a nós mesmos. O procedimento menos controverso é a terapia somática dos genes celulares, que envolve a inserção de material genético saudável em pacientes com doenças, como a Doença de Hunington. [8].

O procedimento secundário é chamado de terapia genética germinal e envolve rearranjar o material genético defeituoso de um modo que produza genes saudáveis. Esta técnica aumenta as possibilidades que as alterações sejam passadas para os descendentes. [9]. Assim, segue-se que poderíamos alterar permanentemente as espécies com esta tecnologia. A atual terapia genética é experimental e a FDA (Food and Drug Administration; NT: órgão regulador das indústrias farmacêutica e de alimentos nos EUA) está se movendo com cautela, pois essas técnicas estão agora sendo desenvolvidas para propósitos terapêuticos. [10]. Entretanto, não é difícil imaginar o uso delas pelos militares, engenheiros sociais e transumanistas utópicos.

A terapia do aprimoramento genético é algo à qual os cristãos devem se opor. Ela envolve a introdução de novos materiais genéticos simplesmente para aprimorar as capacidades humanas. Os transumanistas preveem a alteração ou até a adição do DNA de outras espécies dentro do código humano para criar o "Humano Mais" — essencialmente, um ser humano geneticamente modificado. [11].

Uma analogia instrutiva é considerar a diferença entre o diabetes e o uso da insulina e um atleta usar anabolizantes. Há uma clara e normativa distinção moral, uma distinção que deveria formar o consenso cristão. Até mesmo em uma base secular, a melhoria também apresenta um risco mais alto. Corrigir um gene defeituoso com o que já deveria estar ali apresenta baixo risco para o paciente, mas adicionar alguma coisa nova pode afetar adversamente inúmeros caminhos bioquímicos relacionados. [12]. Assim, é vitalmente importante distinguir os procedimentos terapêuticos do aprimoramento. Finalmente, a ética bíblica desincentiva o aprimoramento genético, porque os cristãos são chamados para seguirem o modelo de Cristo em autonegação e humildade. (Lucas 9:23; Mateus 23:12; Romanos 12:1,16).

A categoria mais controversa é a engenharia eugenista, que envolve direcionar características para melhorar um banco genético específico. [13]. Isto traz à mente os livros Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932, e A Abolição do Homem, de C. S. Lewis, publicado em 1947, ambos previsões prescientes, porém perturbadoras dos nossos atuais dilemas morais. Embora a engenharia eugenista possa parecer extremamente insípida, a ideia está sendo discutida dentro dos círculos de intelectuais. Em um livro recente que discute as ideias perigosas, o biólogo evolucionista e expoente do ateísmo Richard Dawkings (foto à direita), lamenta que antes de Hitler, os cientistas nos anos 1920s e 1930s não tinham problemas de consciência com a ideia de bebês de projeto. Ele então considerou:

"Eu me pergunto se, mais de sessenta anos após a morte de Hitler, poderíamos pelo menos nos aventurar a perguntar qual é a diferença moral entre gerar filhos com capacidade musical e forçar uma criança a receber lições de música? Ou, por que é aceitável treinar corredores velozes e saltadores, mas não criá-los por via reprodutiva?" [14].

Além da imagem de Deus em todas as pessoas (Gênesis 1:26-27), não existem fundamentos para resistir ao ímpeto atual pró-engenharia social. Afinal, o atual uso generalizado dos exames genéticos pré-natais é uma forma privada disso. Talvez o mundo de Huxley, de reprodução compulsória em tubos de ensaio não esteja tão longe no nosso futuro? A verdade desconfortável é que hoje, podemos fazer isto. O filósofo, economista político e autor americano Francis Fukuyama, concorda. Ele afirma que "a ameaça mais significativa representada pela biotecnologia contemporânea é a possibilidade de ela alterar a natureza humana e, desse modo, nos levar para um estágio 'pós-humano' da história." [15].

Infelizmente, hoje existem caminhos concorrentes para esse fim. Outras tendências perturbadoras incluem a clonagem humana, a produção de quimeras animais e humanas e o uso de drogas psicoativas. Agora que a clonagem humana é possível, está sendo proposta a utilização de tecidos fetais coletados de fetos clonados, ou geneticamente criados por engenharia, na terapia de genes, ou até para uso como peças sobressalentes. [16]. Em 2007, os cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Nevada criaram uma ovelha que tinha 15% de células humanas e 85% de células de carneiro. [17]. Além disso, a neurofarmacologia já está sendo amplamente usada para controlar o comportamento e as emoções. Embora existam usos legítimos, drogas psicotrópicas, como a Ritalina, estão sendo distribuídas às crianças em idade escolar de forma rotineira. O Prozac e seus similares estão sendo consumidos por 28 milhões de americanos, ou 10% da população. [18]. Isto parece estar caminhando para aquilo que os transumanistas otimisticamente veem como uma utopia induzida por meios bioquímicos:

"Tecnologias como interfaces cérebro-computador e a neurofarmacologia poderão amplificar a inteligência humana, aumentar o bem-estar emocional, melhorar nossa capacidade de comprometimento contínuo com os projetos da vida, ou com uma pessoa amada, e até multiplicar a variedade e riqueza das emoções possíveis." [19].

À luz da história do século 20, isto parece ingênuo, no mínimo. A cosmovisão secular, enraizada no reducionismo materialista e no determinismo genético, deixa pouco espaço para a dignidade inerentes de toda a vida humana. Preparados ou não, já entramos no admirável mundo novo. Em 1965, o cofundador da Intel, Gordon E. Moore, escreveu um trabalho de pesquisa em que descreveu a tendência de aumento na velocidade dos circuitos microeletrônicos, que veio a ser chamada de Lei de Moore. A lei descreve a propensão persistente do poder computacional dobrar a cada dois anos. Esse padrão tem se mantido e é, na verdade, considerado uma estimativa conservadora para o crescimento futuro. Com base nisto, o cientista do MIT, futurista e autor Ray Kurzweil (fotografia à direita) predisse aquilo que veio a ser chamado de "Singularidade" — um ponto no tempo em que a inteligência artificial supera as capacidades humanas e começa a projetar novas tecnologias sozinha. [20]. Neste tempo, ele prediz que o crescimento tecnológico será vertical na curva exponencial.

Kurzweil também visualiza o próximo passo na evolução humana como a união do homem com a máquina. Na realidade, não é tão fantástico quanto parece. Atualmente, implantes estão sendo feitos no cérebro de modo a restaurar a capacidade auditiva. As interfaces cérebro-máquina estão sendo usadas para "ajudar pacientes paralisados, habilitando-os a operar máquinas com gravações de suas próprias atividades neurais." [21]. Hoje, tecnologias similares estão disponíveis para jogos de computador, como eletrônica de consumo. [22]. Isto é real, está crescendo e não vai desaparecer. O entusiasmo otimista de Kurzweil pelo progresso é emocionante e é fácil compreender a atração que isto exerce sobre os amantes da tecnologia.

Kurzweil é, inegavelmente, um dos principais inventores do nosso tempo e tem sido chamado de "o herdeiro legítimo de Thomas Edison". [23]. Se alguém postulasse que o Transumanismo é uma religião, os livros de Kurzweil, The Age of Spiritual Machines (A Era das Máquinas Espirituais) e The Singularity is Near (A Singularidade Está Próxima), provavelmente seriam considerados textos sagrados. Kurzweil desenvolve sua apresentação com base no paradigma da Evolução natural, dedicando uma grande seção do seu livro The Age of Spiritual Machines para estruturar o Transumanismo como uma consequência evolucionária inevitável.

O paradigma da Evolução Darwiniana é um pressuposto fundamental no conceito de Kurzweil, pois ele propõe que algoritmos computacionais modelam explicitamente a seleção natural. [24]. Ele argumenta que esta e outras heurísticas derivadas pela engenharia reversa do cérebro humano, combinadas com a tecnologia das redes neurais, prometem o rápido desenvolvimento da inteligência artificial senciente e consciente. [25]. Portanto, ele prediz que os computadores alcançarão a capacidade de memória e velocidade computacional do cérebro humano por volta do ano 2020.

Além disso, Kurzweil prediz que por volta de 2029, o computador de 1.000 dólares será mil vezes mais poderoso do que o cérebro humano, e que implantes de circuitos computacionais projetados para conexão direta com o cérebro estarão amplamente disponíveis. [26]. Com relação à inteligência artificial, ele prediz que por volta de 2029: "As máquinas afirmarão que possuem consciência e um conjunto tão amplo de experiências emocionais e espirituais quanto seus progenitores humanos, e essas afirmações terão ampla aceitação." [27].

Ele também prediz que, eventualmente, a consciência humana poderá ser transferida (baixada) para os computadores, introduzindo a imortalidade. A afirmação é a seguinte: Por volta de 2099, as máquinas e os seres humanos se fundirão em um ponto em que não haverá distinção entre homem e máquina, ou entre real e virtual, eliminando assim todas as guerras, a pobreza, a morte e as doenças. [28]. Esta promessa parece ser familiar para você? (Veja Apocalipse 21:4)

Crítica Teológica

A escatologia transumanista da transferência da consciência humana para um computador está repleta de suposições sem fundamento. Eles simplesmente negam a alma a priori, vendo a consciência como puramente um epifenômeno. Nossos corpos são considerados simples matéria (como o hardware do computador) uma prótese biológica, que podemos recriar e aprimorar pela engenharia. Eles veem a natureza essencial do nosso ser como padrões de informações e dados armazenados no cérebro. [29].

Consequentemente, os transumanistas imaginam que a imortalidade possa ser obtida por meio da transferência de si mesmos para dentro dos computadores, na forma de seus padrões cerebrais. Kurzweil chama isto de patternism. [30]. O teólogo luterano da Igreja Evangélica Luterana da América, Ted Peters, tratou este assunto, observando que "ele assume que a inteligência humana e a personalidade humana possam se tornar desencarnadas." [31].

Isto cria uma interessante dissonância com o típico paradigma da identidade naturalista mente-corpo. Em típica linguagem teológica liberal, Peters argumenta que o termo alma é um "marcador de lugar simbólico para identificar a dimensão de quem somos que se conecta com Deus." [32].

Isto é problemático à luz das Escrituras (veja Mateus 10:28 e Apocalipse 6:9 e 20:4). Entretanto, para seu crédito, ele conclui que o conceito cristão de alma não é em nada similar ao dos transumanistas, de padrões de atividade cerebral que podem ser levados para fora do corpo.

De acordo com Kurzweil, a imortalidade humana pode ser obtida por meio da transferência do homem para a máquina (NT: como em uma transferência de arquivos). Para demonstrar a impossibilidade do patternism, o filósofo Derek Parfit propôs uma inteligente experiência mental. [33]. A ideia é que você é um astronauta que está viajando em uma missão para um planeta distante por meio uma nova forma de teletransporte. Para realizar a viagem, os padrões do seu cérebro e seu tipo físico serão transferidos e enviados para o planeta para serem reconstruídos a partir de matéria criada precisamente por meio de um exame de varredura feito em você. Neste processo, seu corpo na Terra será destruído, mas isto não é problema, pois você logo em seguida existirá em um novo corpo. Deveríamos embarcar nesta viagem? No paradigma de Kurzweil, isto deve funcionar, mas na realidade não funciona. E isto não é tanto uma questão de metafísica como lógica: a Lei da Não-Contradição não permite isto.

Considere um cenário em que você não está destruído na Terra, porém a transferência dos arquivos foi bem-sucedida. Obviamente, a pessoa no outro planeta não é você. Como essa pessoa claramente não é você neste caso, segue-se que também não foi você quem foi destruído. Portanto, independente do quanto os transumanistas possam desejar que isso aconteça, a transferência não anulará a morte (Hebreus 9:27). Isto pertence a Cristo somente (Apocalipse 20:14).

Fantasias e imortalidade à parte, pode-se perguntar maravilhado o que exatamente Kurzweil quis dizer com "uma máquina ter uma experiência espiritual". Isto se torna mais esquisito, e é aqui que ocorre a interseção com o liberalismo teológico. No livro The Singularity is Near, ele expressa sua crença na necessidade de uma nova religião: "Um papel principal da religião tem sido o de explicar a morte, pois até aqui havia muito pouco construtivo que podíamos fazer a respeito dela." [34]

Ele declara que essa nova religião "manterá dois princípios: um da religião tradicional e um das artes e ciências seculares — da religião tradicional, o respeito pela consciência humana; do mundo secular, a importância do conhecimento." [35]. Isto não é diferente do humanismo laico tradicional. Portanto, precisamos perguntar: "Onde é que Deus se encaixa nesta nova religião?" Kurzweil ambiciosamente dá a solução: "Uma vez que saturarmos a matéria e energia no universo com inteligência, ele 'despertará', será consciente e sublimemente inteligente. Isto é estar o mais perto de Deus que posso imaginar."

Na verdade, isto soa estranhamente similar ao conceito panteísta do teólogo liberal Paul Tillich, de Deus como "o poder de tudo ser". [36]. Todavia, na mente de Kurzweil, o homem está envolvido na criação de Deus, o que é efetivamente a antítese de Gênesis 1:26. De fato, é exatamente o contrário: Deus criado à imagem do homem.

Em sua articulação original, Max More não escondeu o fato de querer substituir a religião convencional. Como Dawkings, ele vê a religião como uma ficção obscura e acredita que a ciência desacreditou a cosmovisão bíblica. Consequentemente, ele argumenta que o Transumanismo suplantará a religião tradicional. Ele se vangloria: "O crescimento do Humanismo nas últimas décadas iniciou esta obra, mas agora é hora de utilizar uma opção mais inclusiva e atraente de Transumanismo." [37].

O Humanismo Secular convencional se qualifica como uma cosmovisão no sentido que fornece um conjunto completo de ideias por meio das quais seus aderentes veem a realidade. Seguindo esta linha de raciocínio, ele também é uma religião, pois tenta responder ao mesmo conjunto de questões fundamentais sobre teologia, metafísica, identidade, origens, destino e moralidade que outras religiões. [38]. Na verdade, a Suprema Corte dos EUA já julgou no caso James J. Kaufman x Gary R. Mac-Caughtry que o Humanismo Secular é uma religião. [39]. À luz desse status, parece justo argumentar que o Transumanismo simplesmente define sua escatologia. Assim, é vitalmente importante observar o abjeto fracasso do Humanismo Laico até aqui. O progresso científico sem paralelos não produziu uma utopia secular; ao revés, levou a um pesadelo humano. O total mundial no século 20 é de 262 milhões de assassinatos pelos governos e, em grande parte, fora das guerras, na busca do ideal político do Marxismo dos humanistas secularizados. [40].

Desde a expressão inicial veementemente secular de More, a filosofia transumanista tem sido polida pelo filósofo Nick Bostrom, da Universidade de Oxford. Embora Bostrom negue que o Transumanismo seja uma religião, ele reconhece que "o Transumanismo poderá servir a algumas das mesmas funções que as pessoas tradicionalmente procuram na religião." [41]. Ele declara sucintamente que o Transumanismo é uma percepção naturalista, e em uma entonação decididamente superior diz que, "os transumanistas preferem derivar sua compreensão do mundo dos modos racionais de investigação, especialmente o método científico." [42]. Se alguém é cristão em qualquer sentido significativo, isto não é aceitável. Na verdade, temos aquilo que o mundo secular não tem: princípios infalíveis e atemporais revelados pelo próprio autor da vida (2 Timóteo 3:16). Entretanto, isto é mais do que uma questão de dar respostas curtas com textos de prova. O homem é a mais elevada criação de Deus na Terra e recebemos a ordem de sermos bons mordomos da Terra e de seus recursos, de defender e respeitar a vida humana, pois fomos criados de um modo muito singular. Assim, temos um mandado de utilizar algumas das tecnologias discutidas, mas com o cuidado explícito de que elas sejam direcionadas exclusivamente para o aspecto terapêutico da medicina.

O Transumanismo está encontrando algum suporte teológico no paradigma "cocriador criado" do teólogo Phillip Hefner, da Igreja Evangélica Luterana da América. Hefner tornou-se bastante conhecido nos círculos transumanistas, escrevendo artigos como The Created Co-Creator Meets Cyborg (O Cocriador Criado Encontra o Ciborgue) e The Animal That Aspires to Be an Angel: The Challenge of Transhumanism. (O Animal Que Aspira Ser um Anjo: O Desafio do Transumanismo). Epistemológica da ênfase exagerada da imanência de Deus no liberalismo teológico, a ideia dele assume que os seres humanos emergiram como agentes resolutos e livres de um processo evolucionário natural e que a natureza humana é moldada tanto pela herança genética quanto cultural. [43]. Finalmente, o homem é o instrumento de Deus para cumprir seus propósitos na criação. [44]. Essa construção teológica é articulada por ele da seguinte forma:

"Os seres humanos são cocriadores criados por Deus, cujo propósito é ser o agente, atuando em liberdade, para criar o futuro que seja mais salutar para a natureza que nos trouxe à vida — a natureza que não é apenas nossa própria herança genética, mas também toda a comunidade humana e a realidade evolucionária e ecológica em que e à qual pertencemos. Exercer esse papel de agente é a vontade de Deus para os humanos." (Hefner, 1993, 26).

Esta visão tem sido criticada por diminuir o excepcionalismo humano com sua aceitação da Evolução naturalista, ao mesmo tempo que presume elevar o ser humano ao mesmo nível de Deus. [45]. A teologia liberal de Hefner é derivada de sua visão reduzida da revelação especial. Além disso, Hefner interpreta o relato da criação no Gênesis como mitologia primordial, que usa símbolos e metáforas para o passado evolucionário do homem. [46]. Ele cita Tillich frequentemente em seu tratado sobre a queda. Por exemplo, "Antes do pecado ser um ato, ele é um estado." [47]. Esta é uma referência à ideia que não houve uma queda do homem real no espaço-tempo, mas a "queda" representa simbolicamente a tensão inevitável entre o ideal cultural e o instinto primordial que apareceu à medida que o homem evoluiu de sua origem mais simples. Na verdade, Hefner rejeita a compreensão bíblica tradicional, considerando-a obsoleta:

"Além disso, certas compreensões tradicionais estão seriamente desafiadas, incluindo a necessidade de rejeitar simplesmente algumas compreensões historicamente populares. As noções (1) do primeiro casal, (2) conceitos da Queda que insistem em algum ato primordial praticado pelos primeiros humanos e que alterou a natureza humana subsequente e (3) certas formas de interpretação etiológica estão entre os elementos que precisam ser vistos com grande ceticismo. (Hefner, 1993, 98).

Isto é altamente problemático, pois é claro nas Escrituras que Jesus afirmou a existência do primeiro casal (Mateus 19:4). Além disso, essa visão não se qualifica como Evolução teísta de um sentido cristão significativo. Como Millard Erickson expressou, "Com respeito aos dados bíblicos, a Evolução teísta frequentemente aceita um casal inicial real, Adão e Eva." [48]. Com relação à sua completa rejeição da historicidade do Gênesis, a visão de Hefner parece mais alinhada com a Evolução deísta. Para um teólogo que se diz evangélico, seu quase cientificismo é preocupante.

A principal fraqueza nesta linha de pensamento é que ele solapa totalmente a base para a mensagem do Evangelho. O apóstolo Paulo proclamou: "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida." [Romanos 5:18].

Assim, segundo o pensamento de Paulo, a negação de um pecado original efetivamente nega a expiação pela cruz. Além disso, se o pecado é meramente uma memória vestigial, então a cura não pode ser uma restauração via santificação em Cristo. (Romanos 6:22). A cura para o pecado torna-se necessariamente a eliminação dos instintos animais que ainda restaram. Erickson argumenta: "Este conceito da cura pelo pecado adota a crença otimista que o processo evolucionário está levando a espécie humana na direção correta." [49]. Embora essa ideia seja lindamente consistente com o pensamento transumanista, Jesus ensinou que "muitos se escandalizarão, a iniquidade se multiplicará e o amor de muitos esfriará" no tempo quando a evangelização mundial estiver concluída (Mateus 24:10-14). Além disso, as Escrituras suportam o fato que o aumento da apostasia e da iniquidade ocorrerão (2 Tessalonicenses 2:3; 1 Timóteo 4:1-2; 2 Timóteo 4:3; 2 Pedro 3:3). Finalmente, considere que Jesus "não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem." [João 2:25].

O fato de a teologia deles ser antitética às Escrituras não parece incomodar teólogos liberais, como Paul Tillich (figura à esquerda) e Philip Hefner. A adoção do Darwinismo e da Alta Crítica para interpretar o relato bíblico da Criação e julgar a inerrância das Escrituras torna a pessoa mais vulnerável às tendências pós-modernas mais recentes. Em seu artigo The Animal That Aspires to Be an Angel: The Challenge of Transhumanism, Hefner intencionalmente ofusca a distinção entre cura e aprimoramento, frequentemente tergiversa e confunde o Transumanismo com a medicina. Para seu crédito, ele adverte que embora tenhamos sido criados para forçar nossos limites, "não somos Deus, somos finitos e pecaminosos" [50]. Entretanto, é preciso ter em mente que a visão dele sobre o pecado não é uma visão cristã ortodoxa. Embora ele recomende cautela, isto efetivamente equivale a dar proteção às suas apostas. A proibição ao homicídio em Gênesis 9:6 está baseada no fato de a humanidade ter sido criada à imagem de Deus. Parece razoável, então, estender isto para incluir a alteração pós-humana. Mas, Hefner afirma que se opor ao Transumanismo com base na "imagem de Deus" impõe uma antropologia normativa não-garantida, afirmando que:

"Outros pensadores argumentam que existem qualidades invioláveis, principalmente qualidades humanas invioláveis e dignidade humana, que também são ameaçadas pela biotecnologia. A dificuldade com esse raciocínio é que ele impõe uma qualidade estática à natureza que não se conforma na verdade com aquilo que sabemos sobre o caráter dinâmico da natureza." (Hefner 2009, 166)

Parece que ele está argumentando que o mandato evolucionário supera a ideia que a dignidade humana seja fixa. Parece que ele vê o Transumanismo como o próximo passo inevitável na evolução humana, que o Transumanismo é uma consequência natural do status do homem como um cocriador com Deus. Em outras palavras, é uma Evolução deísta por meio da ação do homem como um agente. Em suas conclusões teológicas, ele escreve: "O Transumanismo não é, primeiro de tudo, uma questão de moralidade. Nossa existência como cocriadores criados que têm diante de si as possibilidades do Transumanismo é profundamente uma expressão da nossa natureza humana." [51].

Ele também afirma que "desacreditar nossa natureza dada por Deus é em si mesmo uma rebelião contra Deus." [52]. Em outras palavras, temos um mandato de Deus para o Transumanismo. Não é difícil ver por que o cocriador criado, de Hefner, é um pilar do pensamento dos assim chamados "Transumanistas cristãos".

Embora não tão sofisticado quanto Hefner, as páginas na Internet de Ledford também usam as obras de Tillich para justificar o Transumanismo Cristão. Especificamente, uma ideia que Tillich chamou de "doutrina profunda do humanismo transcendente", que é a ideia de Tillich que "Adão está cumprido em Cristo". [53]. Como Tillich explica, "isto significa que Cristo é o homem essencial, o homem que Adão deveria se tornar, mas na verdade não se tornou." [54].

Isto não está alinhando com a Cristologia ortodoxa, que coloca Cristo como a eterna segunda pessoa da trindade. É também logicamente incoerente, porque Adão foi criado por Cristo (João 1:3). A confiança de Ledford em Tillich não é surpreendente. A ênfase excessiva de Tillich na imanência de Deus tem sido criticada como equivalente ao panenteísmo, e parece preocupantemente similar com o conceito de Kurzweil. [55]. As páginas de Ledford na Internet parecem ser um sincretismo de misticismo de Nova Era, Cristianismo e ideologia transumanista. Exemplos notáveis incluem "O céu permite a Hiper-Evolução", e clichês como "Você não pode fazer nada errado quando o espírito do amor, o Espírito Santo, está com você." [56].

Ledford realmente não se esforça para ser coerente com as Escrituras, oferecendo platitudes como "O caminho para Deus é amplo, pois somos diferentes. Além disso, o caminho para Deus converge no chamado dele." [57]. Logicamente, isto está em contradição direta com o que Jesus disse: "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela." [Mateus 7:13]. Ledford não é um teólogo e seu trabalho não oferece desafios para qualquer um que possua uma compreensão básica da doutrina cristã. Infelizmente, os buscadores menos sofisticados serão enganados por ele.

Quanto à questão "Pode um cristão ser um transumanista?" — isto revela uma condição de coração obstinado. O Transumanismo é menos um pecado do que é orgulho e arrogância. O Evangelical Dictionary of Theology faz a distinção que:

"Enquanto que arrogância significa a tentativa de transcender as limitações indicadas pelo destino, pecado refere-se a uma indisposição de romper nossas estreitas limitações em obediência à visão da fé. Embora a arrogância tenha a conotação de falta de moderação, o pecado consiste de um comprometimento errado. Arrogância é tentar ser super-humano; pecado é se tornar não-humano. Arrogância significa subir ao nível dos deuses; pecado significa tentar tirar Deus do lugar ou viver como se não houvesse Deus." (Bloesch 2001, 1104).

Com base nisto, o Transumanismo é arrogância na mais alta ordem, enquanto que se tornar pós-humano é um pecado. A "obediência à visão da fé" mencionada acima não é a de Tillich, ou de Hefner, mas a de Paulo. O apóstolo exortou assim os colossenses: "Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade." [Colossenses 3:12]. Tillich, Hefner e Ledford demonstram todos uma enorme incompreensão da condição humana. Os humanos são tanto finitos quanto pecaminosos. Não temos a sabedoria e a pureza moral necessárias para decidir as questões da "perfeição" humana. Os cristãos precisam assumir uma posição bem-informada sobre o Transumanismo, compreender tanto o uso apropriado da tecnologia e os perigos potenciais que ela apresenta. Assim, uma teologia de cura, oposta à de aprimoramento, precisa ser desenvolvida de acordo com sólidos princípios bíblicos.

O Transumanismo é uma nova religião anticristã que está em formação. O globalismo está levando o mundo a uma "tecnocracia", ou governo pelas elites. [58]. Quando o aprimoramento transumano se tornar amplamente disponível, e provavelmente se tornará em breve, somente a elite conseguirá pagar por ele. Isto criará um novo sistema de castas. Além disso, o potencial dentro dessas tecnologias para manipulação da mente abre as portas para o totalitarismo orwelliano. Francis Schaeffer e C. S. Lewis fizeram advertências prescientes à comunidade cristã que isto iria acontecer. Schaeffer escreveu, em 1976:

"Ao considerarmos a chegada de um governo autoritário e da elite, para preencher o vácuo deixado pela perda dos princípios cristãos, não podemos pensar com ingenuidade nos modelos de Stalin e Hitler. Precisamos pensar em um governo autoritário e manipulador. Os governos modernos têm formas de manipulação à sua disposição que o mundo nunca conheceu antes." (Schaeffer 1976, 228)

De fato eles têm. Uma grande fonte de financiamento para a pesquisa transumanista é a Fundação Nacional de Ciências [59] e as aplicações militares são terríveis. Já vemos essa tendência de manipulação da mídia controlada e da política cada vez mais globalista. Considerando a predição de Kurzweil que haverá redes de computadores fazendo interface com o cérebro humano por volta de 2029, o potencial para controle centralizado se torna mais perturbador. [Nota do Editor da FC: Esta tecnologia está em rápido desenvolvimento e exemplos dela poderão estar prontos antes de 2029.] Surpreendentemente, Ledford prediz que "o Anticristo provavelmente emergirá, mas da mesma forma Cristo. Isto se torna um sinal que o Transumanismo Cristão é o caminho." [60].

Embora eu discorde da última frase, pode haver alguma verdade na primeira.

Conclusão

Na arena pública, está se tornando cada vez mais difícil obter espaço para expor os valores cristãos e, ao mesmo tempo, permanecer fiel às Escrituras. Não estamos convencendo o público sobre o aborto, e o presidente americano Barack Obama emitiu recentemente uma ordem executiva que expandiu a pesquisa com células-tronco embrionárias. Embora essas questões estejam sendo examinadas pelos tribunais, existem inúmeras tecnologias ainda mais perturbadoras que são em grande parte desconhecidas do grande público. A história da ciência não é silenciosa em um ponto: o Transumanismo não esperará que os cristãos acordem e vejam o que está acontecendo. Embora tenhamos o dever de nos educarmos para tratar questões altamente técnicas com os princípios das Escrituras, é duvidoso que muito possa ser feito além de orar seriamente sobre o assunto. Historicamente, o complexo militar-industrial nunca foi transparente a respeito de seus projetos. Além disso, não há nada que impeça cientistas ambiciosos de simplesmente se mudarem para países como a China, para trabalharem em suas ideias mais controversas. Isto vai acontecer. Embora muitos não quererão participar, os cristãos devem assumir uma posição firme contra o aprimoramento. O Transumanismo será uma questão que trará divisões.

Este trabalho de pesquisa ofereceu um resumo rápido do tópico e uma ampla investigação sobre as tecnologias envolvidas. Isto foi seguido pela análise crítica do pensamento transumanista e suas implicações para a teologia. Foi demonstrado que os fundamentos filosóficos são ateístas e estão em oposição ao Cristianismo. Além disso, a esperança transumanista de imortalidade via transferência para computadores foi revelada como uma incoerência lógica. Atenção especial foi dada àqueles que tentam reconciliar o Cristianismo com as ideias transumanistas. A crítica mostrou que a teologia está baseada em uma antropologia naturalista, negação do pecado original, negação do relato bíblico da Criação e uma ênfase exagerada na imanência de Deus.

No fim, precisamos confiar que o Senhor tratará a extrema arrogância e a pecaminosidade do coração humano. Nada temos a temer. Afinal, já sabemos como será o fim de tudo. (Apocalipse 21-22).

Notas Finais:

1. Max More, "Transhumanism Towards a Futurist Philosophy", MaxMore.com, 1990, http://www.maxmore.com/transhum.htm (página visitada em 8/12/2010).

2. Christopher Hook, "Transhumainism and Posthumanism"., Encyclopedia of Bioethics, Stephen G. Post (Nova York: MacMillan, 2007), 2519.

3. Carl Teichrib, "O Aparecimento dos Tecno-Deuses: A Fusão do Transumanismo com a Espiritualidade", tecnodeuses-1.htm, pág. 2.

4. James Ledford, Christian Transhumanism, http://www.hyper-evolution.com/Christian%20Transhumanism.pdf.

5. Dialog: A Journal of Theology, 44, 4 (Winter 2005).

6. Thomas Horn, "An Open Letter to Christian Leaders on Biotechnology and the Future of Man", http://www.raidersnewsupdate.com/leadstory94.htm (página visitada em 16/12/2010).

7. Francis J. Beckwith, "What Does It Mean To Be Human?", Christian Research Journal, 26, 3 (2003).

8. Michael McKenzie, "Genetics and Christianity: An Uneasy but Necessary Partnership", Christian Research Journal, 18, 2 (1995).

9. McKenzie, "Genetics", 2.

10. Human Genome Project Information, "Gene Therapy", http://www.ornl.gov/sci/techresources/Human_Genome/medicine/genetherapy.shtml.

11. Teichrib, "O Aparecimento dos Tecno-Deuses", pág. 3.

12. McKenzie, "Genetics", 2.

13. McKenzie, "Genetics", 2.

14. Richard Dawkins "Afterword" In What Is Your Dangerous Idea?, John Brockman, 297-301. (Nova York: Harper Perennial, 2007), 300.

15. Francis Fukuyama, Our Posthuman Future. (Nova York: Picador, 2002), 7.

16. Jim Leffel, "Engineering Life: Human Rights in a Postmodern Age".

17. Claudia Joseph, "Now scientists create a sheep that's 15% human", Daily Mail UK Online, março de 2007, http://www.dailymail.co.uk/news/article-444436/Now-scientists-create-sheep-thats-15-human.html (página visitada em 12/12/2010).

18. Fukuyama, Our Posthuman, 43.

19. Nick Bostrom, The Transhumanist FAQ Version 2.1. (Oxford: World Transhumanist Association, 2003), pág. 5.

20. Ray Kurzweil, The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology. (Nova York: Viking Penguin, 2005), pág. 25.

21. Richard Andersen, "Selecting the Signals for a Brain-Machine Interface". Current Opinion in Neurobiology, 14 (2004), pág. 1.

22. Mike Yamamoto, "Gaming by Brainwaves Alone", Cnet News, 1/3/2007, http://news.cnet.com/8301-17938_105-9692846-1.htm.

23. "Ray Kurzweil Bio", Kurzweil Accelerating Intelligence, http://www.kurzweilai.net/ray-kurzweil-bio (página visitada em 14/12/2010).

24. Ray Kurzweil, The Age of Spiritual Machines: When Computers Exceed Human Intelligence, (Nova York: Viking Penguin, 1999), pág. 89.

25. Kurzweil, The Age, pág. 62.

26. Kurzweil, The Age, pág. 163.

27. Kurzweil, The Age, pág. 163.

28. Kurzweil, The Age, pág. 212.

29. Hook, "Transhumanism", pág. 2517.

30. Kurzweil, The Singularity, pág. 282.

31. Ted Peters, "The Soul of Transhumanism", Dialog: A Journal of Theology, 44, no. 4, (Winter 2005): 385.

32. Peters, "The Soul", pág. 393.

33. Derek Parfit, "Divided Minds and the Nature of Persons.", Mindwaves (1987), págs. 19-28.

34. Kurzweil, The Singularity, pág. 275.

35. Kurzweil, The Singularity, pág. 275.

36. Millard J. Erickson, The Concise Dictionary of Christian Theology, Rev. ed., 1st Crossway ed. (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 2001), pág. 201.

37. More, "Transhumanism."

38. Norman L. Geisler & Frank Turek, I Don't Have Enough Faith to Be an Atheist (Wheaton, IL: Crossway Books, 2004), pág. 20.

39. David Nobel, "Secular Humanism". The Popular Encyclopedia of Apologetics, Ed Hindson, págs. 443-446. (Eugene OR: Harvest House, 2008), pág. 444.

40. R. J. Rummel, 20th Century Democide, Freedom, Democracy, Peace; Power, Democide, and War, http://www.hawaii.edu/powerkills/20TH.HTM (página visitada em 26/10/2010).

41. Bostrom, The Transhumanist FAQ, pág. 46.

42. Bostrom, The Transhumanist FAQ, pág. 46.

43. Millard J. Erickson, Christian Theology, 2nd ed. (Grand Rapids, Mich.: Baker Book House, 1998), pág. 501.

44. Hefner, The Human Factor: Evolution, Culture and Religion,(Minneapolis: Fortress Press, 1993), pág. 32.

45. Hubert Meisinger, "Created Co-Creator", Encyclopedia of Science and Religion, (Macmillan-Thomson Gale, eNotes.com. 2006), http://www.enotes.com/science-religion-encyclopedia/created-co-creator.

46. Philip Hefner, "Biological Perspectives On Fall And Original Sin", Zygon, 28, 1 (March 1993), pág. 77.

47. Paul Tillich, The Shaking of the Foundations. (Nova York: Charles Scnbner's Sons 1948), pág. 155, citado por Hefner em "Biological Perspectives", pág. 92.

48. Erickson, Christian Theology, pág. 505.

49. Erickson, Christian Theology, pág. 616.

50. Hefner, "The Animal", pág. 166.

51. Hefner, "The Animal", pág. 166.

52. Hefner, "The Animal", pág. 166.

53. James Ledford. Christian Transhumanism. (Hyper-Evolution.com. 2005), págs. 164-165, http://www.hyper-evolution.com/Christian%20Transhumanism.pdf.

54. Paul Tillich, A History of Christian Thought From Its Judaic and Hellenistic Origins to Existentialism, (New York: Harper and Row Publishers, 1967), 45.

55. Erickson, Christian Theology, pág. 333.

56. Ledford, Christian Transhumanism, pág. 29.

57. Ledford, Christian Transhumanism, pág. 58.

58. Teichrib, "O Aparecimento", pág. 14.

59. Hook, "Transhumainism", 2518.

60. Ledford, Christian Transhumanism, 51.



Parte 2

Transformando para o Transumano

Autor: Carl Teichrib

"A tecnocracia prevê outra forma de domesticação, uma forma em que o homem poderá se tornar mais do que homem." — Harold Loeb (1933). [1].

"Este não é o tempo, então, de abandonar as noções de progresso, aprimoramento, ou, na verdade, a perfectibilidade humana. O simples fato é que o homem é capaz, agora mais do que nunca, de elevar-se por sua própria conta." — B. F. Skinner (1955-56). [2].

"A espécie humana pode, se desejar, transcender-se..." — Julian Huxley (1957). [3]

No fim nos anos 1950s, Loren Eiseley escreveu sobre sua experiência de visitar o "Salão do Homem", uma exposição em um museu famoso nacionalmente. Ele estava acostumado com esse tipo de lugar. Como presidente do Departamento de Antropologia da Universidade da Pensilvânia, e "curador do Homem Primitivo no Museu na Universidade", este era seu ambiente profissional. Entretanto, algumas coisas chamaram sua atenção durante essa visita em particular.

Primeiro, ele observou que a exibição terminava com uma interrogação. Após exibir a linha evolucionária desde "algo que dificilmente se poderia considerar humano" até a era moderna da ciência, a apresentação final deixava o visitante em um estado de perplexidade. O professor Eiseley descobriu que concordava com uma frase apresentada: "Uma questão está diante da humanidade. O que será do homem?"

Segundo, ele observou que todo o rastro evolucionário, conforme apresentado na exibição, centrava-se em energia e tecnologia. Em outras palavras, a ascensão evolucionária da humanidade estava correlacionada com a obtenção de energia e o desenvolvimento material que isto produz. O primeiro exemplo era "Fogo", onde o título dizia em parte: "O homem inicia sua ascensão tecnológica na escada da energia." Quando ele chegou ao painel final, a fonte de energia era uma central nuclear. O professor Eiseley fez uma observação crítica: que é com base nessa escala energia-tecnologia que baseamos a condição do avanço humano. Entretanto, aquilo que o homem tinha sonhado em seus relacionamentos com os outros homens — o fator social civilizador — basicamente não estava visível para o visitante.

Eiseley achou essa dicotomia perturbadora: havia uma separação evidente entre "a corrida tecnológica para a sobrevivência" e a "tradição humana" — arte, filosofia, ética, valores, desenvolvimento social, até qualidades religiosas e espirituais. Logicamente, existem divisões mais profundas do que essas. A Evolução Darwinista é seriamente questionada e rejeitada por muitas pessoas, religiosas e não religiosas. Da mesma forma, ela também é aceita como evangelho por indivíduos em ambos os campos.

Mas, qual é o significado dessa aparentemente irrelevante visita ao museu, narrada pelo professor Eiseley? Simplesmente esta: ela abre a suposição antiga que a energia e a tecnologia exercem um papel fundamental no processo evolucionário da humanidade. Como um evolucionista, Eiseley não argumenta contra esta noção; ele simplesmente queria que o componente social estivesse representado, pois ele, que acreditava no aspecto dos valores da existência humana, tinha sido colocado de lado pelo "naturalismo científico dogmático". Como ele escreveu em um artigo publicado em The Saturday Evening Post: "O homem nunca viveu antes em uma época de realizações exteriores tão grandes, uma projeção tão tremenda de si mesmo em suas máquinas, um período não tão desanimador em tudo o que isto representa para os aspectos mais nobres do sonho humano." [4]. Contudo, o professor fez uma interessante observação: "O homem não está concluído — este é o segredo de seu comportamento paradoxal. Ele não está finalizado. Talvez ele esteja prestes a ser finalizado." [5].

Isto nos leva à questão do Transumanismo. O homem será criado, ou modificado, via tecnologia. A humanidade, acredita-se, experimentará um salto evolucionário por meio da obra de suas próprias mãos. Afinal, o desenvolvimento e a Evolução são aceitos como unidos na causa da transformação das espécies — particularmente da espécie humana.

Por outro lado, a história demonstra algo diferente. O fogo, a domesticação dos animais, a metalurgia, a construção das pirâmides (e de outras grandes estruturas), a ciência da navegação, a construção naval, a pólvora, a imprensa, a máquina a vapor, o telefone e o computador, a aviação e os foguetes, a energia atômica e a ciência nuclear — em todos os desenvolvimentos técnicos, grandes ou pequenos, incluindo aqueles que foram tão revolucionários que desencadearam gigantescas mudanças de paradigmas na civilização, o homem permaneceu sendo humano.

Novas Garrafas para um Novo Vinho

O termo "Transumanismo" não é novo. A partir do ponto de vista de um modernista, o conceito existe desde que Francis Galton, um primo de Charles Darwin, lançou a ideia da eugenia: a aplicação da ciência à biologia humana. O termo também tem suas raízes na ideologia perfeccionista das ordens místicas e das sociedades esotéricas, como a Maçonaria e a Teosofia (isto será explorado em uma edição futura de Forcing Change). Até mesmo o socialismo exerce uma parte nesta transformação de mudança de vida, conforme explicado por J. Ramsay MacDonald em seu livro The Socialist Movement, publicado em 1911:

"... o método Socialista é o método científico. Ele é o método da Evolução aplicado à ciência. Ele assume que a sociedade está cumprindo sua passagem ao evoluir das formas mais eficientes do futuro... O método Socialista é o método Darwiniano... a força motivacional que está por trás do Socialismo não é meramente a perfeição mecânica e a economia social, mas a própria vida." [6].

Assim, o Socialismo nos daria uma ordem mundial avançada para um homem evoluído.

James J. Hughes, um dos defensores mais eloquentes do Transumanismo moderno, fornece vínculos históricos entre o Socialismo, o Marxismo e o ideal transumanista em seu fascinante ensaio intitulado The Politics of Transhumanism (A Política do Transumanismo):

"Marx e Engels convenceram milhões que o avanço da tecnologia estava lançando o fundamento não somente para a criação de uma nova sociedade, com diferentes relações de propriedade, mas também de novos seres humanos reconectados com a natureza e consigo mesmos. A Esquerda do século 19 e 20, desde os sociais democratas até os comunistas, tem enfatizado a modernização industrial, o desenvolvimento econômico e a promoção da ciência, razão e ideia do progresso. Os transumanistas e a esquerda revolucionária também compartilham o conceito de uma revolução social determinada pela tecnologia. Como a Singularidade, a revolução marxista é uma súbita, global e descontínua ruptura social, produzida pela mudança tecnológica, depois da qual não podemos prever a forma que a sociedade tomará, e sobre a qual não faz sentido especular."

"Talvez o maior transumanista entre os socialistas do início do século 20 tenha sido H. G. Wells. Wells referenciava repetidamente as possibilidades atraentes e horrendas dos estágios pós-humanos da Evolução. Ele acreditava que as novas tecnologias da guerra levariam a civilização para a beira da destruição, mas achava que a humanidade aprenderia com a carnificina e estabeleceria um governo mundial socialista. Wells acreditava que o caminho para a utopia passava pela tecnocracia, o governo pelos especialistas científicos e, como consequência, foi a princípio um admirador do Comunismo soviético estabelecido por Lenin, que proferiu uma frase que se tornou famosa: "Comunismo é socialismo mais eletrificação.'" [7].

Com isto tudo em mente, é interessante observar que a primeira vez que o termo "Transumanismo" foi usado, pelo menos de um modo que enfatuou o mundo dos intelectuais (ele tinha sido usado antes nos círculos teosóficos), foi no livro de Julian Huxley, New Bottles for New Wine (Novas Garrafas para um Novo Vinho). Huxley (foto à direita), o primeiro diretor-geral da UNESCO, era um forte apoiador da transformação mundial total em linhas científicas. Com isto em mente, aqui estão algumas seleções desse seu livro:

"Como resultado de mil milhões de anos de evolução, o universo está se tornando consciente de si mesmo, capaz de compreender algo de sua história passada e seu futuro possível. Essa conscientização cósmica está sendo realizada em um minúsculo fragmento do universo — em alguns de nós, seres humanos." (pág. 13).

"É como se o homem tivesse subitamente sido indicado diretor-gerente da maior empresa de todas — a empresa da Evolução — indicado sem que lhe perguntassem se ele queria ou não, e sem adequada advertência e preparação. Além disso, ele não pode recusar o cargo. Quer ele queira ou não, quer esteja ou não consciente do que está fazendo, ele está efetivamente determinando a direção futura da Evolução neste planeta. Este é um destino inescapável e, quanto mais cedo ele entender isto, e começar a acreditar nisto, melhor será para todos os envolvidos."

"O trabalho realmente se resume no seguinte: a realização mais plena das possibilidades do homem, seja pelo indivíduo, pela comunidade, ou pela espécie em sua aventura na procissão pelos corredores do tempo." (págs. 13-14).

"A espécie humana pode, se desejar, transcender a si mesma — não apenas esporadicamente, um indivíduo aqui de um modo, outro indivíduo ali de outro modo, mas em sua totalidade, como humanidade. Precisamos de um nome para esta nova crença. Talvez Transumanismo sirva: o homem permanecendo homem, mas transcendendo a si mesmo, descobrindo novas possibilidades da e para sua natureza humana."

"'Creio no Transumanismo': quando houver um número suficiente de pessoas que realmente possa dizer isto, a espécie humana estará no limiar de um novo tipo de existência, tão diferente da nossa quanto a nossa é do Homem de Pequim. Ela estará, finalmente, cumprindo conscientemente seu verdadeiro destino." (pág. 17). [8].

Embora Huxley receba o crédito de ter cunhado o termo, ele não estava oferecendo uma ideia original. Outros antes dele, como Galton, Friedrich Nietzsche, Benjamin Kidd, e H. G. Wells tinham apresentado variações sobre o tema. A essência permanecia inalterada: transformação global. Os pares de Huxley, da mesma forma, imaginavam uma transição similar: Arthur C. Clark, Pierre Teilhard de Chardin, Stuart Chase, e seu irmão, Aldous Huxley, todos promoviam a evolução planetária e a mudança social em massa. Alguns poucos anos antes, o místico padre jesuíta Teilhard de Chardin, tinha postulado que "alguma forma de existência transumana" culminaria por meio das forças evolucionárias e como "fruto da socialização". [9].

Em escritos relacionados, Chardin (foto à esquerda) acrescentou mais peças ao quebra-cabeças da transformação: harmonização política e social mundial, evolução espiritual, o aparecimento da Noosfera — uma consciência global que surge por meio dos processos coletivos do homem — convergência planetária e avanços técnicos que unem a humanidade. Tudo seria parte da grande transição.

"O que vemos tomando lugar no mundo hoje não é meramente a multiplicação dos homens, mas a moldagem, a formatação continuada do Homem", explicava Chardin. "De uma forma ou de outra algo ultra-humano está nascendo que, por meio do efeito direto ou indireto da socialização, não poderá deixar de aparecer no futuro próximo." [10]. E aquilo que Chardin chamou de Ultra-Humano — a humanidade em total compreensão e unidade — depois que florescer, evoluirá para algo mais — o Transumano. A cosmovisão mística de Chardin enfocava um coletivismo evolucionário e a harmonização com o cosmos.

Julian Huxley não tinha uma orientação tão mística, porém também seguiu uma abordagem do quadro grande. Ele acreditava que um governo mundial de base científica era necessário, como também uma "religião humanista e socialmente firmada". [11]. Em seu livro UNESCO: Its Purpose and Philosophy (UNESCO: Seus Propósitos e Filosofia), publicado em 1947, Huxley detalhou os objetivos sociais, filosóficos e políticos que a UNESCO precisaria promover de modo a testemunhar uma transição global. Essencialmente, o que funciona para a UNESCO funcionaria para o mundo. Embora ele não tenha usado o termo "Transumanismo" em seu livro, o fundamento maior da evolução social estava sendo lançado:

• "... a filosofia geral da UNESCO deve ser o humanismo mundial científico, global em sua extensão e evolucionário em seu pano de fundo." [pág. 8].

• "Nossa primeira tarefa precisa ser clarificar a noção da direção desejável e indesejável da Evolução, pois disso dependerá nossa atitude quanto ao progresso humano..." [pág. 8].

• "... a luta pela existência, subjacente na seleção natural, é cada vez mais substituída pela seleção consciente, uma luta entre ideias e valores na consciência. Por meio dessas novas ações, a velocidade possível da evolução é agora enormemente acelerada." [pág. 9].

• "A evolução no setor humano consiste principalmente de mudanças na forma da sociedade, nas ferramentas e máquinas, em novos modos de utilizar as velhas potencialidades inatas..."

Huxley então acrescentou que uma melhoria adicional dos poderes mentais do homem poderia ser alcançada "por medidas deliberadas de eugenia", mas que agora "é principalmente na organização social, nas máquinas e nas ideias que a evolução humana se manifesta." [págs. 9-10].

• "A partir do ponto de vista evolucionário, o destino do homem poderá ser resumido de forma muito simples: alcançar o máximo de progresso no mínimo de tempo... A análise do progresso evolucionário nos dá certos critérios para julgar a exatidão ou a imprecisão de nossos objetivos e atividades... Assim, a aplicação da ciência médica poderá aumentar o número de seres humanos em uma determinada região, mas reduzir a qualidade, ou as oportunidades para eles gozarem a vida; se isto acontecer, à luz do nosso critério básico de direção evolucionária, é errado." [pág. 12].

• "Em geral, a UNESCO precisa testar constantemente suas políticas de acordo com o padrão do progresso evolucionário. Um conflito central do nosso tempo é aquele que existe entre o nacionalismo e o internacionalismo, entre o conceito de muitas soberanias nacionais e uma soberania mundial... quanto mais unidas as fontes de tradição do homem se tornarem, mais rápida será a possibilidade de progresso, várias fontes de tradições separadas, concorrentes, ou até mutuamente hostis, não podem ser tão eficientes quanto uma fonte de tradição comum para a humanidade... o melhor e único modo certo de garantir isto será por meio da unificação política... A moral da UNESCO é clara... Ela precisa contemplar alguma forma de unidade política mundial, seja por meio de um governo mundial único, ou alguma outra forma, como o único meio correto de evitar a guerra... em seu programa educacional a UNESCO pode enfatizar a necessidade final de uma unidade política mundial e familiarizar todos os povos com as implicações da transferência da soberania total das nações separadas para uma organização mundial." [pág. 13]. [12].

Tudo o que Huxley propôs centrava-se no objetivo evolucionário. Em New Bottles for New Wine, ele delineou alguns dos obstáculos para esse destino final.

"O humanismo evolucionário tem a implicação adicional que o homem é, ao mesmo tempo, o único agente para realizar o progresso maior da vida, e também o principal obstáculo no caminho para essa realização..."

"O homem aprendeu em grande medida a compreender, controlar e utilizar as forças da natureza externa: ele precisa agora aprender a compreender, controlar e utilizar as forças de sua própria natureza. Isto se aplica tanto ao ímpeto cego para a reprodução quanto à ganância pessoal ou o desejo pelo poder, tanto à arrogância e ao fanatismo, sejam nacionalistas ou religiosos, quanto ao sadismo ou à indulgência consigo mesmo." [13].

A eugenia e o controle populacional corrigirão o "desejo cego para a reprodução", o socialismo dominará a "ganância pessoal", uma organização mundial corrigirá o problema do "nacionalismo arrogante" e uma espiritualidade evolucionária — uma espiritualidade que combine os sentimentos elevados com a ciência — cuidará dos obstáculos religiosos. Depois que estiver liberto dessas tendências negativas, o homem estará desimpedido para ascender. Como Huxley escreveu: "'Creio no Transumanismo': quando houver um número suficiente de pessoas que verdadeiramente diga isto, a espécie humana estará no limiar de um novo tipo de existência." [14].

Em comparação com a era de Huxley, Chardin e do professor Eiseley, o movimento transumanista atual tem à sua disposição um campo tecnológico muito mais vasto, incluindo a genética, a nanotecnologia, a inteligência artificial, a robótica, a realidade virtual e as interfaces mente-computador. A caminhada do professor Eiseley na exposição no museu desde o fogo até a energia atômica parece ter sido curiosa. Entretanto, a filosofia central permanece a mesma: o homem, evoluindo por meio da tecnologia, precisará assumir o controle de seu próprio destino. Assim, a antiga ordem mundial, com seus métodos antiquados, suas afirmações de verdade e sua mentalidade estreita precisa ser colocada de lado à medida que a evolução da tecnologia lançar a nova ordem mundial, com novas normas sociais, novos contextos políticos e novos padrões para a religião. Hoje, quando você raspa a superfície das arrogantes discussões tecnológicas a respeito de uma realidade transumana, torna-se rapidamente aparente que aquilo que está por emergir não é apenas um "Novo Homem", mas toda uma nova sociedade.

Notas Finais

1. Harold Loeb, Life in a Technocracy: What it Might Be Like (Syracuse University Press, 1996, publicado originalmente em 1933), pág. 174.

2. B. F. Skinner, "Freedom and the Control of Men", The New Technology and Human Values (Wadsworth Publishing Company, 1966/68, editado por John G. Burke), pág. 283. Este ensaio de Skinner foi publicado originalmente em The American Scholar (1955-56).

3. Julian Huxley, New Bottles for New Wine (Harper & Brothers Publishers, 1957), pág. 17.

4. Loren Eiseley, "An Evolutionist Looks at Modern Man", Adventures of the Mind, The Saturday Evening Post (Alfred A. Knopf, 1959), pág. 8.

5. Idem, pág. 14.

6. J. Ramsay MacDonald, The Socialist Movement (Williams & Norgate, 1911), págs. 90, 115, 248.

7. James J. Hughes, The Politics of Transhumanism, março de 2002, apresentado originalmente no encontro anual de 2001 da Sociedade para Estudos Sociais da Ciência, Cambridge, MA (http://www.changesurfer.com/Acad/TranshumPolitics.htm)

8. Julian Huxley, New Bottles for New Wine (Harper and Brothers, 1957).

9. Pierre Teilhard de Chardin, The Future of Man (Harper Colophon Books, 1969), pág. 311. Extraído de seu ensaio, "From the Pre-Human to the Ultra-Human", escrito originalmente em 27/4/1950 in Paris, França.

10. Pierre Teilhard de Chardin, The Future of Man, pág. 275.

11. Para conhecer a visão de Julian Huxley a respeito de uma religião humanista mundial, veja seu livro Religion Without Revelation (Watts and Company, 1945). Veja tembém o último capítulo de New Bottles for New Wine.

12. Julian Huxley, UNESCO: Its Purpose and its Philosophy (Public Affairs Press, 1947).

13. Julian Huxley, New Bottles for New Wine (Harper and Brothers, 1957), págs. 296-297.

14. Idem, 17.


Parte 3

O Transumanismo nos Filmes

Autor: Carl Teichrib

A cultura popular está imersa no tema do Transumanismo e isto é particularmente evidente na indústria do cinema, com o gênero principal sendo a ficção científica. Ao analisarmos diversos filmes que contêm elementos do transumanismo, devemos observar que aparecem uma mistura de imagens positivas e negativas. Alguns, como Avatar, apresentam ao espectador um mundo de maravilhas. Outros, enviam sinais mistos, como O Exterminador do Futuro, em que o herói e o vilão são ambos ciborgues — a repulsa é evidente por um lado, mas pelo outro, há um inegável vínculo emocional do homem com a máquina. Alguns filmes repetem a advertência de como esse "admirável mundo novo" poderá ser perigoso. Outros, apresentam o tema como uma mensagem de abertura, tolerância e aceitação social, como o filme Eduardo Mãos de Tesoura. Na maioria dos exemplos de filmes, se não em todos, questões significativas aparecem como pano de fundo, ou até mesmo no primeiro plano. Pode o homem se tornar mais do que humano? Quais são os limites do aprimoramento físico e/ou cognitivo? Como definimos a existência senciente? A natureza do homem mudará? Ela pode ser mudada? Em caso afirmativo, quais devem ser os objetivos da mudança? Como podemos definir a humanidade?

Aqui está uma pequena amostra de filmes que tocam no assunto do transumano / pós-humano. Os temas podem incluir um ou mais dos seguintes: desenvolvimento evolucionário humano, inteligência artificial senciente, realidades virtuais e mundos simulados, aprimoramento genético, híbridos homem-máquina e vínculos emocionais entre eles, transformação por meio da alteração química, clonagem, aumento da longevidade, vínculos da mente global como a rede de relacionamentos em uma colmeia, questões relacionadas com a realidade humana e o que significa "ser humano", etc. Nota: A lista a seguir está longe de ser completa:

Avatar (2009) — Este filme está carregado com temas transumanos do início até o fim, incluindo interface da mente e da consciência com redes, transcendência humana, evolução futura da humanidade, cibernética, transferência mental e biológica e uma "espiritualidade evoluída" — um paganismo avançado que introduz uma "inteligência da natureza" de alta ordem que pode ser acessada por meio da ligação física da mente com a natureza.

2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) — Inteligência artificial senciente, evolução humana.

Gattaca (1997) — Aprimoramento genético.

Matrix (trilogia: 1999, 2003) — Interface da mente com a máquina, inteligência artificial senciente, expansão por meios químicos.

Eu, Robô (2004) — Inteligência artificial senciente.

O Exterminador do Futuro (série: 1984, 1991, 2003, 2009) — Inteligência artificial senciente, vínculos (e dissonância) entre o homem e máquina.

Splice — A Nova Espécie (2009) — Modificação genética.

TRON: O Legado (2010) — Realidade virtual e mundos simulados.

Jornada nas Estrelas (série: 1979, 2009) — Jornada nas Estrelas contém uma ampla variedade de temas sobre o transumanismo, clonagem, existência de ciborgues e inteligência artificial senciente, mundos virtuais, redes na forma de uma colmeia, etc.

Assassino Virtual (1995) — Inteligência artificial senciente, realidades virtuais e mundos simulados.

Blade Runner — O Caçador de Andróides (1982) — Modificação genética, longevidade, consciência e o significado da humanidade são também questões levantadas por este filme.

Os Substitutos (2009) — Realidade virtual e mundos simulados.

Soldado Universal (série: 1992, 1999, 2009) — Criogenia, aprimoramento genético e programação mental.

O Homem Bicentenário (1999) — Inteligência artificial senciente, vínculos emocionais entre o homem e a máquina.

XMen (série: 2000, 2003, 2006, 2009, 2011) — Desenvolvimento evolucionário humano.

O Ciborgue do Futuro (1995) — Interface mente-computador, transferência da memória para um computador, realidade virtual.

O Sexto Dia (2000) — Clonagem.

O Traficante de Sono (2009) — Realidade virtual e mundos simulados, interface mente-máquina, existência das redes de colmeia.

Eduardo Mãos de Tesoura (1990) — Vínculo afetivo entre homem e máquina, transcendência da realidade humana e aceitação de existências anormais.

A Ilha (2005) — Clonagem, longevidade.

Estranhos Prazeres (1995) — Realidade virtual e interfaces com o computador.

Replicante (2001) — Clonagem.

O Passageiro do Futuro (1992) — Realidade virtual, evolução e aprimoramento por meio de mundos simulados.

Equilibrium (2002) — Modificação individual/social via agentes químicos. A rigor, não é um filme sobre transumanismo; entretanto, o tema de alterar quimicamente os indivíduos de modo a criar uma nova sociedade mundial apresenta questões que provocam um estado de perplexidade com relação ao papel da autonomia individual versus os resultados sociais, particularmente por meio do uso da tecnologia — a modificação química e a vigilância.

A Batalha dos Ciborgues (2003) — Interfaces da mente com o computador, ofuscando as linhas da realidade humana e a existência artificial senciente, ciborgues e vínculos emocionais entre o homem e a máquina.



Fonte: Forcing Change, Edição 4, Volume 6.
Data da publicação: 23/7/2012
Transferido para a área pública em 9/10/2014
Revisão: http://www.TextoExato.net
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/fc-4-2012.asp