Investigando a Cosmovisão do Humanismo Secular

Forcing Change, Volume 8, Edição 7.

Ao longo dos anos, a Forcing Change examinou diversas cosmovisões que desafiam o Cristianismo e que moldaram a cultura moderna. Esta edição examina uma cosmovisão que forma grande parte do pano de fundo referente às tendências atuais no transumanismo, o ímpeto pró-governo mundial e o estabelecimento da ética global baseada na Lei Internacional: o Humanismo Secular.

Brad Ales, o autor de "Iniciando no Fim", gentilmente permitiu que este seu ensaio sobre o Humanismo Secular fosse reproduzido aqui. O ensaio oferece um importante ponto inicial para compreendermos as implicações e aplicações da cosmovisão Humanista Secular.

Parte 1

Iniciando no Fim: O Humanismo Secular

Autor: Brad Alles

Nota do Editor: Brad é o autor de Starting at the End: Worldview, God’s Word & Your Future (Iniciando no Fim: Cosmovisão, a Palavra de Deus e o seu Futuro (Concordia Publishing House, 2013). Ele leciona cosmovisões religiosas na Faculdade Luterana de Milwaukee e é um instrutor adjunto na Concordia University Wisconsin. Você pode ler mais sobre o trabalho dele em http://www.bradalles.com. Este artigo, "Iniciando no Fim: o Humanismo Secular" é usado com permissão do autor.

"O homem finalmente está se tornando consciente que ele somente é responsável pela realização do mundo de seus sonhos, que tem dentro de si mesmo o poder para alcançar esses sonhos. Ele precisa aplicar inteligência e disposição para cumprir a tarefa." [1].

É ássim que o Manifesto Humanista I termina. Escrito em 1933, o documento descreve a vida como ela deveria ser — de acordo com os humanistas seculares. Quarenta anos mais tarde, em 1973, o Manifesto Humanista II continuou esta visão para o futuro:

"Também exortamos o uso da razão e da compaixão para produzir o tipo de mundo que queremos — um mundo em que a paz, prosperidade, liberdade e felicidade são amplamente compartilhados... comprometimento com toda a humanidade é o mais elevado comprometimento que somos capazes de fazer; isto transcende as estreitas fidelidades com igreja, estado, partido, classe ou etnia, em direção a uma visão mais ampla da potencialidade humana. Que objetivo mais ousado para a humanidade do que cada pessoa se tornar, tanto em ideal como na prática, um cidadão de uma comunidade mundial!" [2].

Iniciar no fim é essencial para compreender por que as pessoas advogam sua cosmovisão. Mas, observe que "comprometimento com toda a humanidade é o mais elevado comprometimento", maior do que seu comprometimento com família, país, ou Deus. Por quê? Porque Deus não existe. Além disso, o homem "somente é responsável pela realização do mundo de seus sonhos".

Pressuposto — Ateísmo

Não pode haver dúvidas que a pressuposição subjacente do Humanismo Secular é o ateísmo, a crença que Deus não existe. Existem incontáveis citações que poderiam ser investigadas, mas somente algumas serão oferecidas aqui para ilustrar o ponto.

O Manifesto Humanista I diz: "Estamos convencidos que o tempo para o Teísmo, Deísmo e Modernismo já passou." [3]. Em outras palavras, fora com o Teísmo (a crença que existe um Deus pessoal), com o Deísmo (a crença que Deus existe, porém não está envolvido com Sua criação) e com o Modernismo (a crença que os ensinos da igreja devem ser definidos à luz das descobertas científicas).

Além disso, o Manifesto Humanista II declara enfaticamente: "Achamos insuficientes as evidências para a crença na existência de um sobrenatural; o sobrenatural não tem significado algum ou é irrelevantes para a questão da sobrevivência e realização da espécie humana. Como não-teístas, começamos com os humanos, não com Deus, com a natureza, não com a divindade." [4].

Corliss Lamont, autor de The Philosophy of Humanism (A Filosofia do Humanismo), afirma que "O Humanismo considera todas as formas do sobrenatural como mitos." Ele depois diz que qualquer coisa fora da natureza "não existe". [4].

Lembre-se que toda cosmovisão inicia com um pressuposto e o Humanismo Secular faz isto de forma bem clara e audível. A autora e conferencista Nancy Pearcey resume assim: "O próprio Secularismo está baseado em crenças, exatamente tanto quanto o Cristianismo." [6]. Todavia, o perigo deixar de lembrar que toda cosmovisão iniciar com um pressuposto leva à noção que o Humanismo Secular é de algum modo neutro, não enviesado, enquanto que o Cristianismo está unicamente baseado em opiniões particulares. Pearcey continua: "É impossível pensar sem algum conjunto de pressupostos sobre o mundo." [7].

Tradução: ninguém é neutro. É por isto que fazer a pergunta: "Como você sabe que Deus não existe?" ajuda a expor a premissa inicial deste mapa.

Filosofia — Naturalismo

Tendo estabelecido o ponto inicial do mapa, vamos examinar agora a realidade segundo os humanistas secularies. Nâo deve ser surpresa que existe apenas um mundo natural, sem o sobrenatural (Deus, Satanás, anjos, demônios, etc.), como Corliss Lamont declarou taxativamente. Retornando ao Manifesto Humanista II, ele diz:

"Qualquer relato da natureza deve passar pelos testes da evidência científica; em nosso julgamento, os dogmas e mitos das religiões tradicionais não passam... A natureza pode de fato ser mais ampla e mais profunda do que sabemos agora; entretanto, qualquer nova descoberta somente irá ampliar nosso conhecimento do mundo natural." [8].

Dito de outra forma: o humanista secular elimina a possibilidade do sobrenatural, pois ele não é observável ou mensurável pelo método científico.

Mas, essa visão naturalista, acreditando que somente as coisas físicas compõem a realidade, [9] então descarta a alma também, pois ela é imaterial. A alma não pode ser medida ou observada. Temos um cérebro, que pode ser visto ou examinado durante uma cirurgia cerebral, mas não temos uma alma. Na cosmovisão deles, a mente (ou alma, ou personalidade) é apenas uma manifestação do cérebro, pois a matéria é tudo o que existe. Todavia, pensando sobre a mente ou alma, o apologeta cristão C. S. Lewis declara que o humanista secular perde aquilo que está flagrantemente aparente: "No momento que alguém dá atenção a isto, é óbvio que o próprio pensamento do indivíduo não pode ser meramente um evento natural e que, portanto, existe algo além da natureza." [10].

Em outras palavras: os pensamentos e a lógica não são feitos de matéria. Há mais na vida do que apenas o estado material das coisas.

A negação do sobrenatural também descarta a existência do céu e do inferno. Corliss Lamont diz: "Nâo há possibilidade que a consciência humana, com sua memória e conhecimento da auto-identidade intactos, possa sobreviver ao choque e desintegração da morte... o corpo e personalidade vivem juntos, eles crescem juntos e morrem juntos." [11].

Portanto, quando você morre, tudo está acabado. Não existe vida após a morte, pois a natureza e a matéria são tudo o que existem. De forma até mais seca, o Manifesto Humanista II diz: "As promessas de salvação imortal ou o temor da condenação eterna são ilusórios e prejudiciais... Não existe evidência confiável que a vida sobrevive à morte do corpo." [12].

Aparentemente, a tumba vazia de Jesus Cristo, as vidas transformadas das testemunhas oculares, bem como os relatos de Josefo com referência à ressurreição de Cristo não podem ser levados em conta. [13].

Todavia, esta filosofia explica por que o humanista secular está tão focado nesta vida do presente: ela é tudo o que existe. Você tem direito ao carrossel da vida apenas uma vez e isto é tudo. Além disto, esta posição filosófica, iniciando com o pressuposto que Deus e o mundo sobrenatural não existem, tem implicações nas visões éticas daqueles que adotam essa cosmovisão.

Como exatamente devemos nos comportar segundo este mapa?

Ética — Relativismo Moral

De acordo com o Humanismo Secular, os seres humanos evoluíram ao longo de milhões de anos. Para citar o Manifesto Humanista II: "A ciência afirma que a espécie humana surgiu a partir de forças evolucionárias naturais." [14].

Com o passar do tempo, ganhamos vida a partir da matéria inanimada (em contrariedade com a Lei da Biogênese, que diz que somente coisas vivas podem dar a vida), desenvolvemos o pensamento (um conceito imaterial em um universo formado somente por matéria), e nos tornamos progressivamente mais avançados. Mas, independente do quão avançados os seres humanos se tornam, há sempre a presença do mal à espreita. Sem um Deus para criar, ou Satanás para tentar, esta questão do mal em um mundo naturalístico apresenta um problema. Vários psicólogos humanistas seculares declaram que os seres humanos são "essencialmente construtivos em sua natureza fundamental", "perfetíveis", e sem "qualquer instinto intrínseco para o mal". [15]. Mas, se a humanidade é basicamente boa, então por que existe o mal? Alguns afirmam que nossa cultura nos faz praticar o mal; as influências sociais são as culpadas. Todavia, a lógica desta posição não faz sentido. O autor e conferencista David Nobel pergunta com toda razão: "Como a cultura ou a sociedade puderam se tornar más se não existe uma tendência dentro de nós para o mal?" [16].

Entretanto, outros apontam não para nossa cultura, mas para nossos corpos. A suposição é que a evolução produziu o corpo humano, e que ela também precisa ter produzido as crenças e os comportamentos. Uma ideia muito popular hoje é que nossos genes nos fazem praticar o bem e o mal. Por exemplo, essa explicação é dada em livros como The Selfish Gene, Evolutionary Origins of Morality, e Demonic Males: Apes and the Origins of Human Violence. Mas, não existem provas para esta hipótese. O geneticista H. Allen Orr diz: "O fato terrível é que não temos a mínima evidência que a moralidade nos humanos evoluiu ou não evoluiu por seleção natural.. Não temos dados." [17].

Os pressupostos iniciais que Deus não existe e que o homem é basicamente bom torna este mapa altamente suspeito.

Todavia, embora este mapa não descreva precisamente a origem do mal, ele mostra o que é comportamento aceitável: é qualquer coisa que você sinta que seja certa.

O Manifesto Humanista II declara: "A ética é autônoma e situacional, não requerendo sanção teológica ou ideológica." [18]. Isto é relativismo moral individual. A moralidade é determinada por cada pessoa, com relação às suas ideias individuais. Mas, embora você decida qual comportamento é correto para você, o restante da sociedades também precisa ser considerado.

O Manifesto Humanista II continua: "Acreditamos na máxima autonomia individual consoante com a responsabilidade social." [19]. Em adição à noção de cada pessoa determinar o certo e o errado, as culturas também podem formar os códigos morais. O comportamento aceitável pode mudar de cultura para cultura — isto é relativismo moral cultural. [20]. Todavia, se cada um de nós decidir o que é permissível, ou se cada cultura decidir, então como tratamos os choques inevitáveis que ocorrerão? Quem diz o que é certo ou errado? Podemos julgar um ladrão ou um exército invasor como praticantes do mal?

Sem absolutos morais ou Deus para nos dizer, como julgamos as ações? Este dilema é razão por que o relativismo moral parece tão bom, porém não funciona na prática.

Para ilustrar isto, veja a posição da ACLU (American Civil Liberties Union), sobre a questão da pornografia infantil. Servindo na Comissão Sobre Pornografia, do Procurador-Geral dos EUA, o promotor Alan Sears ouviu a ACLU dizer que "governo algum deveria ter a permissão de limitar a distribuição de pornografia infantil entre adultos consensuais." [21].

Para as pessoas que utilizam este mapa do Humanismo Secular com seu relativismo moral, é preciso se perguntar: "Existe alguma coisa que possa ser errada?" Alguém tem de decidir. Os humanistas seculares acreditam que certas pessoas deveriam mapear totalmente nosso comportamento e nosso futuro segundo a visão deles.

Futuro — Governo Global

Uma vez que a noção que mais de sete bilhões de pessoas no planeta, fazendo cada um tudo aquilo que quiser, não funciona em um sentido prático, o mundo precisa ter regras. Não podemos todos simplesmente nos comportar de todas as formas que quisermos — isto tornaria a vida insuportável. Portanto, os humanistas seculares têm uma ideia: um governo global para fazer a vida ser um céu na terra (já que não existe vida após a morte, apenas esta realidade física).

Retornando ao Manifesto Humanista II, os autores afirmam: "Deploramos a divisão da humanidade com bases nacionalistas... Assim, queremos o desenvolvimento de um sistema de lei mundial e de uma ordem mundial com base em um governo federal transnacional." [22].

Em outras palavras, a existência de países separados é ruim, de modo que um governo global, ou "transnacional", é necessário para formar uma comunidade mundial.

Esta não é uma ideia isolada. Visões de governo mundial podem ser rastreadas até o início dos anos 1910s. Por exemplo, considere o panfleto da Fundação da Paz Mundial de 1912, International Good-Will as a Substitute for Armies and Navies (A Boa-Vontade Internacional como uma Substituta para os Exércitos e Marinhas), de William C. Gannett.

Este documento propõe uma ordem internacional baseada em cinco áreas que são buscadas hoje em nome do governo global. Essas cinco áreas são: 1) um sistema judicial mundial; 2) um Parlamento ou Congresso Internacional; 3) Leis Mundiais; 4) uma força militar global; e 5) uma arquitetura unificadora para garantir a obediência global e a segurança sob a direção de um protetorado internacional. [23]. Por este motivo, não é mera coincidência que tenhamos hoje o Tribunal Penal Internacional, as Nações Unidas, tratados e resoluções das Nações Unidas e a Força de Paz das Nações Unidas.

Além disso, nos últimos cem anos, várias pessoas contribuíram com ideias sobre o que essa autoridade internacional deve fazer. Recentemente, o Movimento Federalista Mundial, o maior grupo de lóbi pró-governo global, advogou a reforma das Nações Unidas, a instituição de um tributo mundial e a construção de uma nova moeda global. [24]. Como um exemplo dessa potencial nova moeda global, no Encontro de Cúpula do G8, o presidente russo Medvedev mostrou uma moeda que tinha estampada a frase "Moeda do Mundo Futuro Unido". [25]. Até mesmo o papa Bento XVI propôs uma "verdadeira autoridade política" para gerenciar as questões internacionais. [26]. Portanto, se tivermos um governo global, o que acontecerá com o nosso país?

Citações Sobre a Ordem Mundial

Há muito tempo que pensadores e líderes humanistas defendem o "governo mundial". Aqui estão diversas citações de humanistas sobre a "necessidade" de uma ordem e gestão internacionais:

"Evidentemente foi alcançado um ponto na evolução da cultura humana em que o desenvolvimento de uma organização econômica política e social em todo o planeta não é somente o próximo passo lógico, mas é a alternativa para o caos continuado e a pavorosa destruição." — Scott Nearing, United World (Island Press, 1945), pág. 183-184.

"... quanto mais unida a tradição do homem se tornar, mais rápida será a possibilidade de progresso... o único e melhor meio correto de garantir isto será pela unificação política." — Julian Huxley, UNESCO: Its Purpose and its Philosophy (Public Affairs Press, 1947), pág. 13.

"A necessidade de um governo mundial, para que o problema da população possa ser solucionado de uma maneira humana, é completamente evidente nos princípios darwinianos." — Bertrand Russell, The Impact of Science on Society (Simon & Schuster, 1953, pág. 105.)

"... podemos definir nossas finalidades: a busca da hominização na humanização via obtenção da cidadania da Terra... para uma comunidade planetária organizada." — Edgar Morin, Seven Complex Lesson in Education for the Future (UNESCO, 1999), pág. 62.

"Fortalecer a ideia de uma civilização mundial fornecerá o palco para comunicar, interagir, associando e rejeitando aquilo que não se encaixa com os códigos globais. As pessoas precisam se tornar cidadãs da Terra, não de uma única cultura." — Gustavo Lopez Ospina, Planetary Sustainability in the Age of the Information and Knowledge Society (UNESCO, 2003), pág.141.

Richard Rorty, um filósofo pós-moderno, acredita que "os EUA irão algum dia ceder sua soberania para aquilo que o poeta Tennyson chamou de 'o Parlamento do Homem, a Federação do Mundo’”. [27].

Nesta mesma linha, o Manifesto Humanista de 2000 diz: “A ideia de um Parlamento Mundial é similar à evolução do Parlamento Europeu, ainda em sua infância. A atual Assembleia Geral da ONU é uma assembléia de nações. Esse novo Parlamento Mundial aprovará políticas legislativas de uma maneira democrática." [28]. As eleições para esse governo global seriam baseadas na população e representariam as pessoas, não seus governos.

Isto é diferente daquilo que experimentamos hoje. O embaixador do nosso país na ONU representa nosso governo, não nosso povo. O embaixador precisa ser nomeado pelo presidente e confirmado pelo Senado. Nós não escolhemos o embaixador — o presidente escolhe, e podemos dizer aos nossos senadores aquilo que pensamos sobre a escolha, mas no fim, eles é que confirmam o candidato.

A razão por que não votamos no embaixador é devido ao fato de sermos uma república, não uma democracida direta. Em uma democracia direta, todos os cidadãos debatem e decidem os assuntos do governo e as decisões são alcançadas por voto da maioria. O povo vota em todas as questões, de modo que isto é governo direto determinado pela maioria. Uma república é diferente: ela é um governo limitado constitucionalmente e do tipo representativo, criado por uma Constituição escrita. [29]. Em outras palavras, uma república é governo representativo (o Congresso) governado pela lei (a Constituição). [30]. Portanto, somos uma república e a cada quatro anos escolhemos quem decide e qual rumo nosso governo deverá seguir, obedecendo as estruturas definidas pela Constituição. Assim, aparecem as seguintes questões: Nós escolheremos nosso representante neste governo global, ou ele será indicado para nós, como nosso embaixador é? Ainda poderemos contactar nosso representante para expressar nossa opinião? Isto será uma república ou uma democracia direta? Ou alguma outra coisa? Quem escolherá a agenda para este governo global?

Evidentemente alguns já determinaram a agenda. Segundo os autores do Manifesto Humanista II, este governo mundial deve renunciar à guerra, planejar cooperativamente o uso dos recursos do planeta, fornecer assistência econômica para aqueles que necessitam dela, e expandir a tecnologia, as viagens e as comunicações. Isto tudo parece bom — quem se oporia a isto? Entretanto, aparecem problemas quando as políticas são determinadas sem participação popular.

Austin Ruse é presidente do Instituto dos Direitos Humanos e da Família Católica, que enfoca a política social internacional. Ele diz que as leis derivadas dos tratados da ONU estão sendo usados "para estabelecer normas que estão sendo forçadas sobre os governos e sobre a população. Essas novas normas nunca foram submetidas à votação. Elas estão sendo perpetradas pelas mesmas pessoas que chamam a si mesmas de progressistas transnacionais. Elas não acreditam no processo democrático; elas acreditam em sua própria superioridade." [31].

Uma ilustração desta incursão dos tratados das Nações Unidas sobre a lei americana foi claramente declarada pelo diretor-executido da ACLU, Anthony Romero: “Nosso objetivo é nada menos que criar uma nova era de justiça social em que os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, sejam reconhecidos e impostos nos EUA." [32].

E assim a agenda humanista secular avança. O Manifesto Humanista II continua:

"O mundo precisa estar aberto para diversos pontos de vista políticos, ideológicos e morais e evoluir um sistema mundial de televisão e de rádio para informações e para a educação. Assim, propomos a plena cooperação internacional na cultura, ciência, artes, tecnologia entre as fronteiras ideológicas." [33].

Dito de forma mais simples: precisamos contemporizar e cooperar. Somente então o mundo poderá ver a paz por meio de uma ONU reformada, ou de algum governo global futuro. Todavia, se devemos estar abertos para ideias diversas, por que os humanistas seculares decidiram que o tempo "passou" para a crença em Deus? As pessoas não deveriam estar abertas para isto também?

Segundo Noebel, "os humanistas seculares acreditam que a cosmovisão deles é capaz de promover a tolerância, a contemporização e a cooperação em uma comunidade mundial." [34]. Mas, eles são intolerantes à religião!

Observe também que um absoluto moral foi estabelecido: "O mundo precisa estar aberto para pontos de vista políticos, ideológicos e morais diversos." [ênfase adicionada].

Quem diz que o mundo precisa ter a mente aberta? Os humanistas seculares dizem. Mas, esta é uma contradição ao relativismo moral, em que cada um de nós pode decidir o que é certo. Eles sabem que precisa haver uma autoridade final para julgar o comportamento das pessoas como certo ou errado. Além disso, como Deus não existe na cosmovisão Humanista Secular, o governo precisa ser a autoridade final — o governo precisa ser "deus".

Noebel diz: "Se Deus é negado, o Estado precisa usurpar o papel que seria de Deus. Assim, o poder cai nas mãos dos políticos — pessoas que não são, apesar do otimismo em contrário, infalíveis." [35]. É por isto que a cosmovisão Humanista Secular é tão perigosa. De modo a realizar os sonhos de uma comunidade do mundo perfeito, não é possível que as ideias, moral e crenças de todos sejam aceitas. O chamado foi feito para a contemporização, porém quem tem a palavra final sobre o que é ou não aceitável? O governo tem. Mas, quando aqueles que estão no poder decidem para o restante de nós o que é permitido, a liberdade é perdida e a tirania aparece logo em seguida.

Tirania, por definição, é quando o governo tem o poder absoluto. O autor e conferencista Jonah Goldberg observa que em um governo tirânico ou fascista, "Qualquer ação do Estado é justificada para alcançar o bem comum... O Estado assume a responsabilidade por todos os aspectos da vida, incluindo nossa saúde e bem-estar e procura impor a uniformidade de pensamento e de ação, seja pela força ou por meio de regulamentações e da pressão social." [36].

Você pode se perguntar se isto é um exagero: "O Estado assume a responsabilidade por todos os aspectos da vida." Infelizmente, não é. Considere, por exemplo, o fato que algumas promoções da rede de lanchonetes McDonald's estão proibidas em San Francisco por causa de um problema de obesidade infantil que existe na cidade. A lei proíbe "oferecer um brinquedo gratuito junto com refeições que contenham mais do que certos níveis definidos de calorias, açúcar e gordura. A determinação também requer que os restaurantes ofereçam frutas e legumes junto com todas as refeições que incluam brinquedos como brindes para as crianças." [37].

Por mais que pareça engraçado, isto também ilustra o poder de legislar em cada aspecto da vida das pessoas — até mesmo se alguém pode ou não comer batatinhas fritas. Em San Francisco, se você quiser a promoção Lanche Feliz com um brinquedo, é melhor comer seus legumes! Em vez de as crianças e os pais delas decidirem, o governo decide por eles. Goldberg continua: "Tudo, incluindo a economia e a religião, precisa estar alinhado com os objetivos do governo. Qualquer identidade rival é parte do 'problema' e, portanto, é definida como "inimiga'". [38].

Para os cristãos, isto estabelece um tom ominoso. Como já somos vistos como retardados por crermos em Deus, e como julgadores, por aceitarmos os absolutos morais, é de se admirar que sejamos o "inimigo"?

Carl Teichrib, editor do site Forcing Change, descreve com o que isto se parece:

"Seu papel como um cidadão global será o de revolucionar seus valores e radicalmente alterar seu estilo de vida; mas este é um preço pequeno a pagar em nome da sustentabilidade e do progresso. A solução é tecnocrática: engenheiros sociais, usando uma abordagem sistemática trabalharão para transformar seu comportamento — até mesmo o significado de ser uma pessoa humana — enquanto que novas tecnologias socias coletivizarão o sistema." [39].

Em outras palavras, os "engenheiros socais" são os dominadores habilidosos entre nós que acreditam que possam transformar a população humana porque o planeta está com problemas profundos. Usando uma mentalidade científica e de engenharia, essa transformação será feita em todos os aspectos da sociedade — economia, indústria, educação e tudo o mais — para recriar o mundo. Depois que o mundo estiver recriado à imagem e semelhança deles, então haverá harmonia social — paz na terra e boa-vontade entre os homens. [40].

Também não haverá mais crianças obesas, pois nenhum Lanche Feliz virá com batatinhas fritas!

Como as pessoas não são inteligentes o suficiente para fazerem boas escolhas, as escolhas serão feitas para elas. Segundo Goldberg, os humanistas seculares acreditam que é tempo para o homem colocar de lado noções antiquadas como religião, liberdades constitucionais e o capitalismo, de modo a "crescer para a responsabilidade de criar o mundo à sua própria imagem. Deus morreu muito tempo atrás e já passou da hora de os homens assumirem o lugar que era Dele." [41].

A visão "antiquada" que a vida é injusta, o homem é pecador, e que a única utopia real é aquela que nos espera nos céus é rejeitada pelos humanistas seculares. Goldberg lista o que motiva estas pessoas: "Uma fé na perfetibilidade do homem... a busca por comunidade... a autoridade dos especialistas... e a necessidade de um Estado todo-poderoso coordenar a sociedade no nível nacional ou global." [42].

Os seres humanos terão de tomar posse do futuro, pois, segundo o Manifesto Humanista II, "nenhuma divindade nos salvará; precisamos salvar a nós mesmos." [43].

Todavia, a história está repleta com tentativas no passado de criar essa utopia. Infelizmente, somente depois que vimos suas terríveis consequências é que elas foram colocadas na lata de lixo das ideias ruins. Examine a Revolução Francesa, o Nazismo na Alemanha, o Fascismo na Itália e o Comunismo na Rússia, para citar apenas algumas dessas tentativas. Infelizmente, as pessoas ainda tentam reciclar essas ideias e reapresentá-las com novos nomes. Após o papa Bento XVI propor uma "verdadeira autoridade política global" que teria de "garantir a obediência de suas decisões por todas as partes", o escritor Thomas Eddlem advertiu sobre os perigos do governo global à luz da história:

"Um governo mundial poderoso o suficiente para 'garantir a obediência às suas decisões por todas as partes' também é um governo mundial poderoso o bastante para impor uma tirania global que poderá resultar na morte de incontáveis milhões. A história do mundo ensina que a maioria das pessoas não recebeu de seus governos no passado, ou até mesmo no presente, a permissão de ser livre. Em sua maioria, as pessoas que já viveram neste mundo passaram suas vidas como escravas do Estado. A linguagem descuidada sobre a suposta 'necessidade urgente' de uma autoridade política global poderá convencer muitos católicos e outros cristãos a aceitarem qualquer governo mundial que eles puderem conseguir e, provavelmente, eles terminarão — se a história for uma guia confiável — com uma tirania brutal." [44].

Até mesmo o afamado filósofo e ateísta Bertrand Russel (gravura à direita) afirmou que um governo mundial seria brutal no início, formado pela imposição.

"Tendo em vista a estupidez humana, acredito que um governo mundial somente será estabelecido pela força e que, portanto, no início será cruel e despótico. Mas, acredito que isto seja necessário para a preservação de uma civilização científica, e que, depois de alcançado, gradualmente permitirá o surgimento de outras condições para uma existência tolerável." [45].

A partir deste ponto de vista, o governo global é um mal necessário e que justifica os fins de algumas pessoas. Todavia, observe como esse filósofo ateísta admitiu que o governo global será "cruel e despótico por causa da estupidez humana". Isto fala da natureza humana — não somos bons! Este é o maior problema que precisa ser tratado! Portanto, como o homem é imperfeito, a vida não pode ser perfeita. O quarto presidente dos EUA e "Pai da Constituição", James Madison, declarou isto claramente em The Federalist #51:

"Mas o que é o próprio governo, se não a maior de todas as reflexões da natureza humana? Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Se anjos fossem colocados para governar os homens, controles externos e internos sobre o governo também não seriam necessários. Na estruturação de um governo que será administrado por homens que estarão governando os outros homens, a grande dificuldades está nisto: você precisa primeiro permitir que o governo controle os governados e, em seguida, obrigá-lo a controlar a si mesmo." [46].

Se um governo global vier a se tornar realidade, uma das maiores preocupações é que não haverá para aonde ir quando o governo se tornar corrupto e maligno. Atualmente, as pessoas aqui neste país não olham para o mundo desta forma. Nunca enfrentamos o problema de nosso país agir como Deus, ao contrário da Alemanha nazista, da União Soviética ou da China comunista. Hoje, com cerca de 200 países no mundo, uma pessoa pode mudar de um país para outro para tentar iniciar uma vida melhor. Isto não acontecerá em um Estado global sob a liderança de uma autoridade única.

C. S. Lewis disse:

"Não nos deixemos enganar por frases sobre 'O homem tomar responsabilidade por seu próprio destino'."

"Tudo o que realmente pode acontecer é que alguns homens assumirão a responsabilidade pelo destino dos outros. Eles serão simplesmente homens, nenhum deles perfeito, alguns gananciosos, cruéis e desonestos. Quanto mais completamente tudo for planejado, o mais poderosos eles serão. Existe alguma nova razão por que, desta vez, o poder não corromperá, como fez anteriormente?" [47].

Iniciando no fim com o Humanismo Secular, é possível ver um mundo unido sob um governo, as aspirações de criar um governo global que um dia darão início a um mundo melhor com base na ideia desse governo de um planeta ideal. A soberania das nações precisará ser sacrificada pelo bem da Terra. A perda de representatividade e de voz no governo precisará ser permitida para fazer avançar a agenda global. Além disso, a perda das liberdades precisa ser aceita em nome de um futuro mais brilhante.

Como Deus não existe, o governo é a autoridade final; além disso, como a humanidade é basicamente boa, as pessoas corretas em postos de comando fornecerão um amanhã melhor. Todavia, olhe para o mal que está ao nosso redor e analise os relatos históricos dos países que tentaram esse tipo de utopia. Em seguida, pergunte a si mesmo qual cosmovisão espelha a realidade — a Cristã ou a Humanista Secular? O Dr. David Noebel declara a escolha de forma bem apropriada:

"Estamos na encruzilhada, com um camimho que leva à liberdade individual e o outro a um futuro vivido sob o domínio dos Condicionadores. Qual caminho nossa sociedade seguirá depende das escolhas que fazemos hoje e se essas escolhas estão baseadas nos princípios de vida de Deus, ou nos princípios do homem secularizado." [48].

Notas Finais:

1. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II (Amherst, NY: Prometheus Books, 1973), pág. 10.

2. Idem, pág. 23.

3. Idem, pág. 8.

4. Idem, pág. 16.

5. Conforme citado por David Noebel, Understanding The Times (Manitou Springs, CO: Summit Press, 2006), pág. 60.

6. Nancy Pearcey, Total Truth: Liberating Christianity from Its Cultural Captivity (Wheaton, IL: Crossway Books, 2005), pág. 42.

7. Idem, pág. 94.

8. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II, pág. 16.

9. David Noebel & Chuck Edwards, Lightbearers Worldview Curriculum, 3rd Edition (Manitou Springs, CO: Summit Press, 2008), pág. 61.

10. Conforme citado em David Noebel, Understanding The Times, pág. 91

11. Idem, pág. 105.

12. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II, pág. 16.

13. Brad Alles, Life’s Big Questions, God’s Big Answers (St. Louis, MO: Concordia Publishing House, 2010), pág. 93.

14. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II, pág. 16.

15. Conforme citado em David Noebel, Understanding The Times, pág. 226.

16. Idem, pág. 227.

17. Nancy Pearcey, Total Truth: Liberating Christianity from Its Cultural Captivity, pág. 211.

18. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II, pág. 17.

19. Idem, pág. 18.

20. David Noebel & Chuck Edwards, Lightbearers Worldview Curriculum, 3rd Edition, pág. 82.

21. Alan Sears and Craig Osten, The ACLU vs. America (Nashville, TN: B & H Publishing Group, 2005), pág. 95.

22. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II, pág. 21.

23. “In Their Own Words: International Good-Will” Forcing Change, Volume 6, Issue 1.

24. Carl Teichrib, “Setting the World Agenda,” Hope for the World Update, Spring 2008, pág. 13-16.

25. Carl Teichrib, “Question of the Month,” Forcing Change, vol. 3, no. 7, 2009, pág. 10.

26. Encíclica “Caritas In Veritate”.

27. Conforme citado em David Noebel, Understanding The Times (Manitou Springs, CO: Summit Press, 2006), pág. 10.

28. Idem, pág. 334.

29. “An Important Distinction: Democracy versus Republic” Disponível on-line em http://www.lexrex.com/enlightened/AmericanIdeal/aspects/demrep.html (citado em julho de 2011).

30. “Republic vs. Democracy”, disponível on-line em http://www.c4cg.org/republic.htm (citado em julho de 2011).

31. Austin Ruse, “The Hard Left Is on the Move”, Citizen, outubro de 2010, pág 18.

32. Alan Sears and Craig Osten, The ACLU vs. America (Nashville, TN: B & H Publishing Group, 2005), pág. 174.

33. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II (Amherst, NY: Prometheus Books, 1973), pág. 22.

34. David Noebel, Understanding The Times (Manitou Springs, CO: Summit Press, 2006), pág. 334.

35. Idem, pág. 455.

36. Jonah Goldberg, Liberal Fascism (Nova York, NY: Doubleday, 2007) pág. 23.

37. “San Francisco bans Happy Meals”, disponível on-line em http://articles.latimes.com/2010/nov/02/business/la-fi-happy-meals-20101103 (citado em julho de 2011).

38. Jonah Goldberg, Liberal Fascism (Nova York, NY: Doubleday, 2007) pág. 23.

39. Carl Teichrib, “Criando um Novo Mundo: Tecnocracia e Transformação”, Forcing Change, julho de 2010 .

40. Idem, pág. 4.

41. Jonah Goldberg, Liberal Fascism (Nova York, NY: Doubleday, 2007) pág. 31.

42. Idem, pág. 14-15.

43. Paul Kurtz, Humanist Manifestos I and II (Amherst, NY: Prometheus Books, 1973), pág. 16.

44. “Pope calls for ‘world political authority’”, disponível on-line em http://www.thenewamerican.com/culture/education/1375 (citado em fevereiro de 2012).

45. Citado por Carl Teichrib em “One World, One Force”, Forcing Change, Volume 5, Edição 6.

46. "The Federalist #51", disponível on-line em http://www.constitution.org/fed/federa51.htm (citado em fevereiro de 2012).

47. C. S. Lewis, "Willing Slaves of the Welfare State", disponível on-line em http://cslewisjrrtolkien.classicalautographs.com/cslewis/bookexcerpts/willingslaveswelfarestate.html (citado em agosto de 2012).

48. David Noebel, Understanding The Times (Manitou Springs, CO: Summit Press, 2006), pág. 336.



Parte 2

Em Suas Próprias Palavras

Os textos a seguir são os pontos principais dos Manifestos Humanistas I, II e III, conforme apresentados pela Associação Humanista Americana.

Manifesto Humanista I (Ano de 1933)

Primeiro: Os humanistas religiosos consideram o universo como auto-existente e não criado.

Segundo: O Humanismo acredita que o homem é uma parte da natureza e que surgiu como resultado de um processo contínuo.

Terceiro: Adotando uma visão orgânica da vida, os humanistas acham que o tradicional dualismo entre mente e corpo deve ser rejeitado.

Quarto: O Humanismo reconhece que a cultura religiosa do homem e da civilização, como descrita claramente pela antropologia e história, é o produto de um desenvolvimento gradual devido à sua interação com o ambiente natural e com o seu patrimônio social. O indivíduo nascido em uma determinada cultura é em grande parte moldado por essa cultura.

Quinto: O Humanismo afirma que a natureza do universo descrito pela ciência moderna torna inaceitável qualquer garantia sobrenatural ou cósmica dos valores humanos. Obviamente, o Humanismo não nega a possibilidade da realidade ainda desconhecida, mas insiste que a maneira de determinar a existência e o valor de todas e quaisquer realidades é por meio da investigação inteligente e pela avaliação das suas relações com as necessidades humanas. A religião deve formular suas esperanças e planos à luz do espírito e método científico.

Sexto: Estamos convencidos que passou o tempo para o Teísmo, Deismo, Modernismo e as diversas variedades de "novo pensamento.

Sétimo: A religião consiste daquelas ações, propósitos e experiências que são humanamente significativos. Nada humano é estranho para os religiosos. Isto inclui trabalho, arte, ciência, filosofia, amor, amizade, recreação — tudo o que é em seu grau expressivo de inteligentemente satisfazer a vida humana. A distinção entre o sagrado e o secular não pode mais ser mantida.

Oitavo: O Humanismo religioso considera que a plena realização da personalidade humana seja o fim da vida do homem, por isso busca o seu desenvolvimento e realização no aqui e agora. Esta é a explicação da paixão social do humanista.

Nono: No lugar de antigas atitudes envolvidas na adoração e oração, o humanista encontra suas emoções religiosas expressas em um elevado sentido de vida pessoal e em um esforço cooperativo de promover o bem-estar social.

Décimo: Segue-se que não haverá exclusivas emoções e atitudes religiosas da espécie até então associadas com a crença no sobrenatural.

Décimo Primeiro: O homem aprenderá a enfrentar as crises da vida em termos de seu conhecimento, da naturalidade e probabilidade delas. Atitudes razoáveis e corajosas serão patrocinadas pelo sistema educacional e suportadas pelos costumes. Assumimos que o humanismo seguirá o caminho da higiene social e mental e que desestimulará as esperanças sentimentais e irrealistas e os desejos ilusórios.

Décimo Segundo: Acreditando que a religião precisa trabalhar cada vez mais para a alegria na vida, os humanistas religiosos visam patrocinar o criativo no homem e incentivar as realizações que aumentem as satisfações na vida.

Décimo Terceiro: O Humanismo religioso acredita que todas as associações e instituições existam para a realização da vida humana. A avaliação, transformação, controle e direção inteligentes dessas associações e instituições com uma visão voltada para a expansão da vida humana é o propósito e programa do Humanismo. Certamente, as instituições religiosas, suas formas ritualísticas, métodos eclesiásticos e atividades comunitárias precisam ser reconstituídos tão rapidamente quanto a experiência permitir, de modo a funcionarem efetivamente no mundo moderno.

Décimo Quarto: Os humanistas estão firmemente convencidos que a existente sociedade motivada pelo lucro e pela acumulação tem se mostrado inadequada e que uma mudança radical nos métodos, controles e motivos precisa ser instituída. Uma ordem econômica cooperativa e socializada precisa ser estabelecida para que o fim da distribuição equitativa dos meios de vida seja possível. O objetivo do Humanismo é uma socieade livre e universal em que as pessoas voluntária e inteligentemente cooperem para o bem comum. Os humanistas exigem uma vida compartilhada em um mundo compartilhado.

Décimo Quinto e Último: Declaramos que o Humanismo irá: a) afirmar a vida, em vez de negá-la; b) procurar explorar as possibilidades de vida, não fugir delas; e c) procurar estabelecer as condições de uma vida satisfatória para todos, não apenas para alguns poucos. O Humanismo será guiado por esta moral e intenções positivas e, a partir dessa perspectiva e alinhamento, as técnicas e esforços do Humanismo irão fluir.



Manifesto Humanista II (Ano de 1973)

Primeiro: No melhor sentido, a religião pode inspirar dedicação aos ideais éticos mais elevados. O cultivo da devoção moral e da imaginação criativa é a expressão genuína da experiência e aspiração "espiritual"

Acreditamos, porém, que as religiões tradicionais dogmáticas ou autoritárias que colocam a revelação, Deus, rituais ou credos acima das necessidades e experiências humanas fazem um desserviço à espécie humana. Qualquer relato da natureza deve passar pelos testes da evidência científica; em nosso julgamento, os dogmas e mitos das religiões tradicionais não passam. Até mesmo nesta época avançada na história humana, certos fatos elementares baseados no uso crítico da razão científica precisam ser reafirmados.

Encontramos evidências insuficientes para a crença na existência do sobrenatural; o sobrenatural é sem sentido ou irrelevante para a questão da sobrevivência e realização da espécie humana. Como não-teístas, começamos com os seres humanos, não com Deus; com a natureza, não com uma divindade. A natureza pode de fato ser mais ampla e mais profunda do que sabemos agora, entretanto, quaisquer novas descobertas apenas ampliarão nosso conhecimento do mundo natural.

Alguns humanistas acreditam que devemos reinterpretar as religiões tradicionais, dando-lhes significados apropriados para a situação atual. Entretanto, essas redefinições frequentemente perpetuam as antigas dependências e escapismos; elas facilmente se tornam obscurantistas, impedindo o uso livre do intelecto. Necessitamos, ao revés, de propósitos e objetivos humanos radicalmente novos.

Apreciamos a necessidade de preservar os melhores ensinos éticos nas tradições religiosas da humanidade, muitos dos quais compartilhamos em comum. Mas, rejeitamos aqueles aspectos da moralidade religiosa tradicional que nega ao ser humano uma total apreciação de suas próprias potencialidades e responsabilidades. Frequentemente, as religioões tradicionais oferecem consolação aos seres humanos, mas, em geral, inibem que eles ajudem a si mesmos, ou que experimentem suas plenas potencialidades. Essas instituições, credos, e rituais frequentemente impedem a disposição de servir aos outros. Frequentemente, as fés tradicionais encorajam a dependência, não a independência; a obediência, não a afirmação; o medo, não a coragem. Mais recentemente, elas geraram o interesse pela ação social, com muitos sinais de relevância aparecendo como resultado das teologias de "Deus Está Morto". Mas, não podemos descobrir propósito ou providência divina para a espécie humana. Ao mesmo tempo que existem muitas coisas que ainda não sabemos, os seres humanos são responsáveis por aquilo que são ou em que se tornarão. Nenhuma divindade nos salvará; precisamos salvar a nós mesmos.

Segundo: As promessas de salvação imortal ou o medo da condenação eterna são ilusórios e prejudiciais. Eles distraem os seres humanos das preocupações atuais, da auto-realização e da correção das injustiças sociais. A ciência moderna desacredita conceitos históricos como "o espírito na máquina" e "alma separável". Ao contrário, a ciência afirma que a espécie humana surgiu a partir de forças evolucionárias naturais. Tanto quanto sabemos, a personalidade total é uma função do organismo biológico que se relaciona em um contexto sociocultural. Não existe evidência crível de que a vida sobrevive à morte do corpo. Continuamos a existir em nossos descendentes e no modo como nossas vidas influenciam os outros em nossa cultura.

Certamente, as religiões tradicionais não são os únicos obstáculos para o progresso humano. Outras ideologias também impedem o avanço. Por exemplo, algumas formas de doutrina política funcionam como uma religião, refletindo os piores aspectos da ortodoxia e do autoritarismo, especialmente quando sacrificam os indivíduos no altar das promessas utópicas. Os pontos de vista econômicos e políticos, sejam capitalistas ou comunistas, frequentemente funcionam como dogma religioso e ideológico. Embora os seres humanos indubitavelmente necessitem de objetivos econômicos e políticos, eles também necessitam de valores criativos pelos quais possam viver.

Ética

Terceiro: Afirmamos que os valores morais derivam sua força da experiência humana. A ética é autônoma e situacional, não necessitando de sanção teológica ou ideológica. A ética é derivada das necessidades e interesses humanos. Negar isto distorce toda a base da vida. A vida humana tem significado porque criamos e desenvolvemos nosso futuro. A felicidade e a realização criativa das necessidades e desejos humanos, individualmente e em alegria compartilhada, são temas contínuos do Humanismo. Queremos a boa vida, aqui e agora. O objetivo é buscar o enriquecimento da vida, apesar das forças degradantes da vulgarização, da comercialização e da desumanização.

Quarto: A razão e a inteligência são os instrumentos mais eficazes que a humanidade possui. Não há substituto: nem a fé nem a paixão são suficientes em si mesmas. O uso controlado dos métodos científicos, que transformaram as ciências naturais e sociais desde a Renascença, precisa ser estendido ainda mais na solução dos problemas humanos. Mas, a razão precisa ser temperada pela humildade, pois nenhum grupo tem o monopólio da sabedoria ou da virtude. Também não existem garantias que todos os problemas poderão ser solucionados ou que todas as perguntas serão respondidas. Todavia, a inteligência crítica, infundida por um senso de cuidado humano, é o melhor método que a humanidade tem para solucionar os problemas. A razão deve estar balanceada com a compaixão, empatia e a pessoa inteira realizada. Assim, não estamos advogando o uso da inteligência científica independente, ou em oposição à emoção, pois acreditamos no cultivo dos sentimentos e do amor. À medida que a ciência empurra de volta os limites do conhecido, o senso de maravilha da humanidade é continuamente renovado e a arte, a poesia e a música encontram seus lugares, junto com a religião e a ética.

O Indivíduo

Quinto: A preciosidade e dignidade da pessoa individual é um valor central do Humanismo. Os indivíduos devem ser encorajados a realizarem seus próprios talentos e desejos criativos. Rejeitamos todos os códigos religiosos, ideológicos ou morais que denigrem o indivíduo, suprimem a liberdade, anulam o intelecto e desumanizam a personalidade. Acreditamos na máxima autonomia individual condizente com a responsabilidade social.

Embora a ciência possa explicar as causas do comportamento, as possibilidades da liberdade individual da escolha existem na vida humana e devem ser aumentadas.

Sexto: Na área da sexualidade, acreditamos que as atitudes intolerantes, frequentemente cultivadas pelas religiões ortodoxas e culturas puritanas, reprimem indevidamente a conduta sexual. Os direitos ao controle da concepção, ao aborto e ao divórcio deveriam ser reconhecidos. Ao mesmo tempo que não aprovamos as formas degradantes e exploradoras da expressão sexual, também não desejamos proibir, por lei ou sanção social, o comportamento sexual entre adultos consensuais. As muitas variedades de experimentação da sexualidade não deveriam em si mesmas ser consideradas "más". Sem permitir a permissividade irracional ou a promiscuidade desenfreada, uma sociedade civilizada deveria ser uma sociedade tolerante. Se não prejudicam terceiros, nem os obrigam a fazerem o mesmo, os indivíduos devem poder livremente expressar suas inclinações sexuais e seguir o estilo de vida que quiserem. Desejamos cultivar o desenvolvimento de uma atitude responsável em relação à sexualidade, em que os seres humanos não são explorados como objetos sexuais e em que a intimidade, a sensibilidade, o respeito e a honestidade nas relações interpessoais são encorajados. A educação moral para as crianças e adultos é um modo importante de desenvolver a conscientização e a maturidade sexual.

Sociedade Democrática

Sétimo: Para expandir a liberdade e a dignidade, o indivíduo precisa experimentar amplas liberdades civis em todas as sociedades. Isto inclui liberdades de expressão e de imprensa, liberdade de associação e liberdades artística, científica e cultural. Também inclui um reconhecimento do direito de um indivíduo de morrer com dignidade, o direito à eutanásia e ao suicídio. Nós nos colocamos em oposição à crescente invasão da privacidade, seja por qual meio for, tanto em sociedades totalitárias quanto democráticas. Devemos salvaguardar, estender e implementar os princípios da liberdade humana, que se desenvolveram desde a Carta Magna até a Carta dos Direitos, os Direitos do Homem e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Oitavo: Estamos comprometidos com uma sociedade aberta e democrática. Precisamos estender a democracia participativa em seu verdadeiro sentido para a economia, escola, família, local de trabalho e associações voluntárias. A tomada de decisões precisa ser descentralizada para incluir amplo envolvimento das pessoas em todos os níveis — social, político e econômico. Todas as pessoas devem ter voz no desenvolvimento dos valores e objetivos que determinam suas vidas. As instituições devem ser responsivas aos desejos e necessidades que forem verbalizados.

As condições de trabalho, educação, devoção e recreação devem ser humanizados. As forças alienantes devem ser modificadas ou erradicadas e as estruturas burocráticas devem ser mantidas em um mínimo. As pessoas são mais importantes do que decálogos, regras, prescrições e regulamentações.

Nono: A separação de igreja e Estado e a separação da ideologia e Estado são imperativos. O Estado deve encorajar a máxima liberdade para os diferentes valores morais, políticos, religiosos e sociais na sociedade. O Estado não deve favorecer grupos religiosos particulares com o uso de verbas públicas, nem defender uma única ideologia e, desse modo, funcionar como um instrumento de propaganda ou de opressão, particularmente contra os dissidentes.

Décimo: As sociedades humanas devem avaliar os sistemas econômicos, não por retórica ou ideologia, mas com base no critério se eles aumentam ou não o bem-estar econômico para todos os indivíduos e grupos, minimizam a pobreza e as privações, aumentam a soma da satisfação humana e melhoram a qualidade de vida. Portanto, a porta está aberta para sistemas econômicos alternativos. Precisamos democratizar a economia e julgá-la por sua responsividade às necessidades humanas, testando os resultados em termos do bem comum.

Décimo Primeiro: O princípio da igualdade moral precisa ser levado adiante por meio da eliminação de toda a discriminação baseada em raça, religião, sexo, idade ou nacionalidade. Isto significa igualdade de oportunidade e o reconhecimento do talento e do mérito. Os indivíduos deveriam ser incentivados a contribuírem para seu próprio aprimoramento. Se eles forem incapazes, então a sociedade deve fornecer os meios de satisfazer às suas necessidades econômicas, de saúde e culturais básicas, incluindo, sempre que os recursos permitirem, uma renda anual mínima garantida. Estamos preocupados com o bem-estar dos idosos, doentes, deficientes, prisioneiros e viciados — todos aqueles que são negligenciados ou ignorados pela sociedade. Os humanistas praticantes devem fazer da humanização das relações pessoais sua vocação na vida.

Acreditamos no direito à educação universal. Todos têm direito à oportunidade cultural para cumprir suas capacidades e talentos singulares. As escolas deveriam patrocinar uma vida satisfatória e produtiva. Elas devem estar abertas em todos os níveis para todos; o alcance da excelência deve ser incentivado. Formas experimentais e inovadoras de educação devem receber as boas-vindas. A energia e idealismo dos jovens merecem ser apreciados e canalizados para propósitos construtivos.

Deploramos os antagonismos raciais, religiosos, étnicos ou por classe social. Ao mesmo tempo que acreditamos na diversidade cultural e incentivamos o orgulho étnico e racial, rejeitamos as separações que promovem alienação e colocam as pessoas e grupos uns contra os outros; desejamos uma comunidade integrada em que as pessoas tenham uma máxima oportunidade para a associação livre e voluntária.

Somos críticos do seximo e do chauvinismo sexual — masculino ou feminino. Acreditamos em direitos iguais tanto para homens quanto para mulheres, para cumprirem suas carreiras e potencialidades singulares conforme eles acharem adequado, livres de odiosas discriminações.

Comunidade Mundial

Décimo Segundo: Deploramos a divisão da humanidade em nacionalidades. Atingimos um ponto decisivo na história humana em que a melhor opção é transcender os limites de soberania nacional e avançar em direção à construção de uma comunidade mundial em que todos os setores da família humana possam participar. Assim, desejamos o desenvolvimento de um sistema de Lei Internacional e de uma ordem global baseados em um governo federal transnacional. Isto requer pluralismo e a diversidade culturais.

Isto não excluirá o orgulho pelas origens e pelas realizações nacionais, nem o tratamento das questões regionais de uma forma regional. Entretanto, o progresso humano não pode mais ser alcançado enfocando-se uma seção do mundo, Ocidente e Oriente, desenvolvido e subdesenvolvido. Pela primeira vez na história humana, nenhuma parte da humanidade pode estar isolada de alguma outra. O futuro de cada pessoa está de algum modo ligado ao futuro de todas as demais. Portanto, reafirmamos um comprometimento com a construção de uma comunidade mundial, ao mesmo tempo que reconhecemos que isto nos compromete a tomar algumas decisões difíceis.

Décimo Terceiro: A comunidade mundial precisa renunciar ao uso da violência e da força como método de solucionar as disputas internacionais. Acreditamos no julgamento pacífico das diferenças pelos tribunais internacionais e no desenvolvimento das artes da negociação e da contemporização. A guerra está obsoleta. Assim também o uso dos armamentos nucleares, biológicos e químicos. É um imperativo planetário reduzir o nível dos gastos militares e alocar esses recursos para usos pacíficos e voltados para o bem-estar da população.

Décimo Quarto: A comunidade mundial precisa se envolver no planejamento cooperativo referente ao uso dos recursos que estão se exaurindo rapidamente. O planeta Terra precisa ser consideriado um único ecossistema. Os crimes ecológicos, o esgotamento dos recursos naturais, o excessivo crescimento populacional precisam ser restringidos por acordos internacionais. O cultivo e conservação da natureza é um valor moral; devemos ver a nós mesmos como parte integral das origens do nosso ser na natureza. Precisamos livrar nosso mundo da poluição e do desperdício desnecessários, guardando e criando a riqueza de forma responsável, tanto natural quanto humana. A exploração desenfreada dos recursos naturais, sem preocupações e consciência social, precisa terminar.

Décimo Quinto: Os problemas do crescimento econômico e do desenvolvimento não podem mais ser solucionados por um país somente; esses problemas têm abrangência mundial. É obrigação moral dos países desenvolvidos fornecer — via uma autoridade internacional que salvaguarde os direitos humanos — maciça assistência técnica, agrícola, médica e econômica, incluindo técnicas de controle da concepção, para as porções subdesenvolvidas do globo. A pobreza mundial precisa acabar. Portanto, as desproporções extremas em riqueza, renda e crescimento econômico devem ser reduzidas em escala mundial.

Décimo Sexto: A tecnologia é uma chave vital para o progresso e desenvolvimento humanos. Deploramos quaisquer esforços neo-românticos de condenar indiscriminadamente toda a tecnologia e ciência, ou de propor a redução de seu avanço ou do seu uso para o bem da humanidade. Resistimos a qualquer tentativa de censurar a pesquisa científica básica com bases morais, políticas ou sociais. Entretanto, a tecnologia precisa ser cuidadosamente julgada pelas consequências de seu uso; mudanças prejudiciais ou destrutivas devem ser evitadas. Estamos particularmente perturbados quando a tecnologia e a burocracia controlam, manipulam ou modificam os seres humanos sem o consentimento deles. A viabilidade tecnológica não implica que aquilo seja social ou culturalmente desejável.

Décimo Sétimo: Precisamos expandir as comunicações e o transporte entre as fronteiras. As restrições às viagens precisam terminar. O mundo precisa estar aberto aos diversos pontos de vista políticos, ideológicos e morais e criar um sistema global de rádio e televisão para a transmissão de informações e da educação. Destarte, propomos a plena cooperação internacional na cultura, ciência, artes e tecnologia entre as fronteiras ideológicas. Precisamos aprender a conviver abertamente juntos, ou pereceremos conjuntamente.

A Humanidade como um Todo

Para Encerrar: O mundo não pode mais esperar a reconciliação dos sistemas políticos e econômicos concorrentes para solucionar seus problemas. Este é um tempo para os homens e mulheres de boa vontade levarem adiante a construção de um mundo próspero e pacífico. Exortamos que as lealdades paroquiais, a moral inflexível e as ideologias religiosas sejam colocadas de lado. Exortamos o reconhecimento da humanidade comum de todos os povos. Também exortamos o uso da razão e da compaixão para produzir o tipo de mundo que queremos — um mundo em que a paz, a prosperidade, a liberdade e a felicidade sejam amplamente compartilhadas. Não abandonemos essa visão em desespero ou por covardia. Aquilo que somos, ou que seremos, é responsabilidade nossa. Vamos trabalhar juntos para um mundo humano, por meios apropriados para os fins humanos.

As diferenças ideológicas destrutivas entre o comunismo, capitalismo, socialismo, conservadorismo, liberalismo e radicalismo devem ser superadas. Pedimos o fim do terror e do ódio. Sobreviveremos e prosperaremos somente em um mundo de valores humanos compartilhados. Podemos iniciar novas direções para a humanidade; as antigas rivalidades podem ser colocadas de lado por esforços cooperativos bem amplos. O comprometimento com a tolerância, com a compreensão e com a negociação pacífica não requer a aquiescência do status quo nem a acumulação de forças dinâmicas e revolucionárias. A verdadeira revolução está ocorrendo e pode continuar em incontáveis ajustes não violentos. Mas, isto requer a disposição de dar o passo à frente e entrar em novos planaltos em expansão.

No ponto atual da história, o comprometimento com toda a humanidade é o mais elevado compromisso que somos capazes de fazer; isto transcende as estreitas fidelidades à igreja, Estado, partido, classe social ou etnia, caminhando em direção a uma visão mais ampla da potencialidade humana. Que objetivo pode ser mais audacioso para a humanidade do que cada pessoa se tornar, em ideal e também na prática, um cidadão de uma comunidade mundial? Esta é uma visão clássica; podemos agora lhe dar uma nova vitalidade. O Humanismo, assim interpretado, é uma força moral que tem o tempo ao seu lado. Acreditamos que a humanidade tenha o potencial, a inteligência, a disposição e a capacidade cooperativa para implementar esse comprometimento nas décadas por vir.



O Humanismo e suas Aspirações

Manifesto Humanista III (Ano de 2003)

Fonte: http://www.humanismosecular.org/manifesto-humanista-III; Tradução: Romão Paulo Amorim Fernandes de Araújo; Revisão: Miguel Duarte.

O humanismo é uma filosofia de vida progressiva que, sem supernaturalismos, afirma a nossa capacidade e responsabilidade para ter vidas éticas e de realização pessoal que aspirem a um maior bem-estar da humanidade.

A postura de vida do Humanismo — guiada pela razão, inspirada pela compaixão, e informada pela experiência – encoraja-nos a viver bem e integralmente. Esta evoluiu através das eras e continua a desenvolver-se através de pessoas que refletem e reconhecem que valores e ideais, apesar de cuidadosamente forjados, estão sujeitos a mudanças à medida que os nossos conhecimentos e compreensão avançam.

Este documento é parte de um esforço contínuo de manifestar em termos claros e positivos as fronteiras conceptuais do Humanismo, não aquilo em que temos de acreditar mas um consenso daquilo que acreditamos. É neste sentido que afirmamos o seguinte:

O conhecimento do mundo deriva da observação, experimentação e análise racional. Os humanistas pensam que a ciência é o melhor método para determinar este conhecimento como também para solucionar problemas e desenvolver tecnologias benéficas. Também reconhecemos o valor das novas formas de pensamento, nas artes e experiência interior — cada uma objeto de análise pelo pensamento crítico.

Os humanos são parte integral da Natureza, o resultado de uma mudança evolutiva não guiada. Os humanistas reconhecem que a natureza existe por si mesma. Aceitamos a nossa vida como ela é, distinguindo as coisas como elas são das coisas como gostaríamos ou imaginaríamos que fossem. Damos as boas vindas aos desafios do futuro, os conhecidos e os que ainda virão a ser conhecidos.

Os valores éticos derivam das necessidades e interesse humano como é confirmado pela experiência. Os humanistas fundamentam os valores na necessidade de bem-estar humano constituído pelas circunstâncias, interesses e preocupações humanos e que se estendem ao ecossistema global e além. Estamos comprometidos a tratar cada pessoa como tendo valor e dignidade inerentes, e a fazer escolhas informadas num contexto de liberdade em consonância com um sentido de responsabilidade.

A realização da vida emerge da participação individual no serviço dos ideais humanos. Temos como objetivo para o nosso desenvolvimento mais completo possível e animamos a nossa vidas com um profundo sentido de propósito, encontrando admiração e reverência nas alegrias e beleza da existência humana, nos seus desafios e tragédias e, até mesmo, na inevitabilidade e finalidade da morte. Os humanistas contam com a rica herança da cultura humana, e a postura de vida do Humanismo fornece conforto em tempos de necessidade e encorajamento em tempos de fartura.

Os humanos são sociais por natureza e encontram sentido nos relacionamentos. Os humanistas almejam e esforçam-se por um mundo de cuidado e preocupação mútuos, livre da crueldade e suas consequências, onde as diferenças são resolvidas cooperativamente sem recorrer à violência. A junção entre a individualidade com a interdependência enriquece as nossas vidas, encoraja-nos a enriquecer as vidas dos outros, e inspira em nós a esperança de obter paz, justiça e oportunidades para todos.

O trabalho em benefício da sociedade maximiza a felicidade individual. Progressivamente as culturas têm trabalhado para libertar a humanidade das brutalidades da mera sobrevivência, reduzir o sofrimento, melhorar a sociedade e, desenvolver uma comunidade global. Procuramos diminuir as desigualdades de circunstâncias e competências. E, apoiamos uma justa distribuição dos recursos naturais e dos frutos do esforço humano para que tantos quanto possível possam gozar de uma boa vida.

Os humanistas estão preocupados com o bem-estar de todos, estão comprometidos com a diversidade, e com o respeito pelas diferentes, mas ainda assim humanas, opiniões dos outros. Trabalhamos para apoiar o igual gozo de todos os homens dos direitos humanos e liberdade civis numa sociedade aberta e secular e ainda, afirmamos que é um dever cívico participar no processo democrático e um dever planetário proteger a integridade, diversidade e beleza da Natureza de uma forma segura e sustentável.

Assim, envolvidos no fluxo da vida, aspiramos a esta visão com a convicção informada de que a humanidade tem a capacidade de progredir em direção aos seus mais altos ideais. A responsabilidade pelas nossas vidas e o tipo de mundo no qual vivemos é nossa e apenas nossa.



Fonte: Forcing Change, Volume 8, Edição 7.
Data da publicação: 14/8/2014
Transferido para a área pública em 3/5/2016
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/fc-7-2014.asp