Celebrações para a Transformação: Os Festivais Alternativos de Arte, Cultura e Espiritualidade — Parte 2

Forcing Change, Volume 7, Edição 9.

Se você leu a edição de agosto/2013 de Forcing Change, sabe que que ela reportou o aparecimento dos "festivais transformacionais" como um acontecimento social / espiritual emergente. Você também deve saber que eu já estava atento a certos elementos deste movimento há algum tempo, especialmente o Homem Queimado, mas que somente escrevi sobre isto em meados deste ano. Por que todo este comedimento?

A primeira razão foi para poder apresentar uma visão panorâmica. Inicialmente, eu queria participar de pelo menos um encontro transformacional antes de escrever sobre o assunto, para então apresentar minha perspectiva particular. Infelizmente, os recursos para isto nunca apareceram nos momentos certos. Portanto, com a compreensão que participar no futuro seria algo improvável, decidi finalmente escrever sobre o assunto agora. Estou contente com esta decisão que tomei.

Ao longo dos anos, outros pesquisadores cristãos publicaram artigos sobre o Homem Queimado, um evento transformacional pós-moderno que já chamou a atenção do público. Ao mesmo tempo, ninguém dentro da comunidade de pesquisadores cristãos — tanto quanto eu saiba — colocou o Homem Queimado no contexto do Movimento Transformacional Global, um círculo internacional de festivais, encontros e celebrações destinados especificamente a promover a evolução social e espiritual.

Embora seja verdade que o Homem Queimado tenha inspirado outros eventos em todo o mundo, também é verdade que um grande e crescente número de festivais existem fora do fenômeno do Homem Queimado. Em outras palavras, há muito mais acontecendo do que um evento singular. De fato, quando tomados em conjunto, algo maior entra em foco: uma tendência internacional e crescente.

Aqui está a ironia: se eu tivesse ido ao festival do Homem Queimado, ou a algum outro encontro similar, como considerei fazer desde 2007, provavelmente eu teria focado minha atenção naquele evento somente e teria deixado de ter uma visão mais abrangente. Portanto, meu comedimento para escrever a partir do ponto de vista pessoal, inadvertidamente me compeliu a explorar outros eventos e encontros — e foi então que comecei a ver um quadro muito maior se formar.

Embora o ponto acima tenha sido razão acidental e mais surpreendente, meu comedimento principal foi baseado — preciso confessar — em algo mais banal: eu também não achava que um ensaio sobre este movimento seria de interesse para muitas pessoas. Eu pensava que, provavelmente, a maioria dos meus leitores não teria um vínculo tangível ou algum interesse nos festivais transformacionais.

Embora a publicação Forcing Change lide com assuntos importantes, mas que ainda não são grandemente discutidos na corrente dominante, acreditei que a natureza eclética deste tópico o relegaria a um item de interesse mais marginal. Sim, compreender este movimento é vital para a compreensão da nossa atual paisagem social e espiritual pós-modernas, mas ao elaborar o ensaio "Celebrações para a Transformação", duvidei que a importância das informações conseguiria superar a entranheza e complexidade do assunto. Eu não esperava que o ensaio tivesse muita repercussão entre os leitores.

Mas, eu estava enganado.

Nas últimas semanas, pessoas de todo o mundo me escreveram para compartilhar suas impressões, experiências e preocupações. Indivíduos envolvidos no ministério com os jovens nas igrejas me abordaram a respeito desta tendência; fui contactado por um ex-participante de festas Raves, que substanciou minhas conclusões e ofereceu encorajamento; um amigo que participou do festival do Homem Queimado e testemunhou para as pessoas ali presentes acrescentou algumas informações e opiniões; e um número surpreendente de pessoas respondeu com informações sobre os eventos transformacionais que acontecem em seus respectívos países e regiões. Tive também muitas conversas casuais que inevitavelmente se moveram para este assunto, de modo que rapidamente descobri que muitas pessoas estavam interessadas, incluindo aquelas que nunca tinham ouvido falar sobre esses eventos, ou sobre a ideia dos festivais transformacionais e a cultura evolucionária.

Além da resposta dos leitores, houve outra surpresa. Em meados de setembro, minha mulher e eu acompanhamos alguns amigos em uma rápida viagem de carro pela região oeste do Canadá e, no caminho, pudemos encontrar as influências transformacionais. Por exemplo, em Swift Current, uma pequena cidade da planície na região sudoeste da província de Saskatchewan, encontramos um cartaz em um quadro de avisos que divulgava "Danças Extáticas" (danças que levam ao êxtase).

Intitulado "Música, Movimento, Comunidade", este evento, que ocorre a cada duas semanas, não é exatamente um festival transformacional, mas também utiliza o tema da música de transe, dança extática, e interação comunitária criativa — não em um local ao ar livre, como tantos festivais emergentes, mas em um salão em um centro de compras na cidade. Como o cartaz explicava, "Uma dança consciente e de formato livre, onde os movimentos se expandem, o espírito é ativado, as fronteiras são desfeitas, a criatividade sai para fora... Expresse totalmente seu corpo e sua alma e deixe-os livres!"

Depois, ao passarmos a noite na cidade de Valemount, na Colúmbia Britânica, tomamos conhecimento do Festival de Trombones da Costa, um evento transformacional que acontece em Merritt, uma cidadezinha cerca de 400 km ao sul de Valemount (ou, alternativamente, duas horas e meia de carro a nordeste de Vancouver). Aqui, cercado pela beleza natural, o encontro de quatro dias incorpora dança extática e de transe, ioga, oficinas e arte visionária dentro de um ambiente de comunidade.

Finalmente, ao retornarmos para casa, passando pela região centro-norte de Saskatchewan, paramos na cidade de Prince Albert, onde fiquei sabendo que oficinas transformacionais seriam realizadas naquela comunidade.

Embora este fosse um seminário do tipo Nova Era sobre cura pelo toque e não um festival, ele me fez olhar para outras atividades espirituais alternativas que estavam sendo realizadas naquela província, incluindo possíveis encontros emergentes / transe (há pelo menos um evento de pequeno porte — o Festival Elevado). Diversos encontros de Nova Era estão ocorrendo em Saskatchwan, incluindo oficinas na cidadezinha de Shaunavon sobre "espiritualidade como uma arte", incorporando Ioga guiada, imagens e simbolismo das mandalas, harmonia por meio do "reconhecimento a humanidade comum', fluxos de energia espiritual e exploração de ritmos e movimentos transformadores.

A propósito, Shaunavon é uma cidadezinha de cerca de 2.000 habitantes localizada em uma região praticamente desabitada, uma paisagem formada por fazendas, sítios e poços de petróleo. O que quero dizer é o seguinte: A espiritualidade transformadora, em seus muitos disfarces, há muito tempo atravessou as fronteiras dos distritos artísticos das metrópoles e a indústria de apaziguar a classe média alta durante a crise da meia-idade. Ela está em toda a parte, desde as ruas congestionadas das grandes cidades até à vastidão praticamente desabitada das planícies canadenses — a "Nova Era" está na corrente dominante.

Em tudo isto, é importante observar que o Movimento de Nova Era das décadas passadas agora tem um veículo relativamente novo para o nosso tempo: a cultura transformacional. Logicamente, este era o sonho da Nova Era nos anos 1970s, 1980s e 1990s. Mas, hoje temos uma nova geração que está muito distanciada dos valores bíblicos, que anseia por revolução espiritual e social. Os festivais transformacionais, representando o espírito da mudança, reempacotam a Nova Era para este contexto: espiritualidade evolucionária, comunidade orgânica, arte visionária, encontros extáticos, inclusividade radical, dinâmicas de grupo experimentais — todos falam da mudança desejada da realidade. Em resumo, o fenômeno emergente dos "festivais transformacionais" representa aquilo que há de mais avançado na "moderna" Nova Era. Além disso, como a "antiga" Nova Era, ela é uma confluência de paganismo, Wicca, misticismo, práticas das religiões orientais e outras formas de expressão espiritual.

Assim, o fundamento dos festivais transformacionais e cultura evolucionária não é nada novo. Na edição de agosto, em que tratei dos Festivais Transformacionais, citei um dos ativistas mais articulados do movimento, Jeet-Kei Leung, quando ele chamou o movimento de "uma antiga cultura futura". É "futura", pois apela à "geração da Internet 2.0" e adota a tecnologia como um agente de transformação social e espiritual. Ela também é futura no sentido que procura recriar a sociedade ocidental, que ainda adere — hesitante e parcialmente — aos valores judaico-cristãos "tradicionais". Como Jeet-Kei explicou em sua palestra no Tedx, em Vancouver, em 2010:

"Somos criadores da realidade... Somos criadores do mundo. Nestas zonas autônomas temporárias (os festivais transformacionais), para aonde fugimos, por um momento, das hierarquias e agendas incorporadas na própria essência da nossa realidade consensual dominante, somos livres para co-criarmos e compartilharmos a realização momentânea do mundo liberado em que gostaríamos de viver. Aprendemos que essas festas são práticas para a co-criação deste mundo. Nós o vivenciamos juntos. Experimentamos... Não menos profundo é o surgimento de um novo tipo de cultura espiritual nestes festivais, uma cultura espiritual que está totalmente desinteressada por líderes carismáticos, dogmas ou doutrinas — onde o ritual não requer que entreguemos nossa autonomia como indivíduos de pensamento crítico, mas, em vez disso, surge como o reconhecimento compartilhado de honrar nossa experiência sagrada juntos."

E ela é "antiga" no sentido que se utiliza de religiões e aspectos pagãos, como Jeet-Kei lembrou sua audiência na palestra Tedx. Na verdade, pode-se argumentar corretamente que este movimento esteve conosco durante toda a história, de uma forma ou de outra. Como um participante publicou em um fórum on-line recentemente: "Os festivais transformacionais são um modo proposital de se reunir em um mesmo espírito, um modo que lembra a Antiga Grécia... Na adoração a Apolo e Dionísio, razão e êxtase, e em se remover das cidades e ir em multidão para as áreas rurais, de modo a participar em orgias, festivais e danças, os 'festivais transformacionais' gregos eram socialmente aceitos, ainda que fisicamente removidos..."

À medida que o Cristianismo se desvaneceu em todo o mundo ocidental, uma infinidade de buscas espirituais e influências pagãs entraram em cena para preencher o vácuo. Assim, para aqueles que estão firmados na estrutura bíblica tradicional, precisamos estar cientes que nossa cultura está cada vez mais escolhendo seguir um caminho diferente. Todavia, o chamado para os cristãos continua o mesmo hoje como no passado: precisamos ser o sal da terra e a luz do mundo — embaixadores de Jesus Cristo. Com este truísmo, não deve haver surpresa, independente de como nosso mundo mude.

A Queima do Homem de Palha

Um evento transformacional é o Festival do Homem de Palha, que ocorre em julho, próximo à vila de Dundrennan, na Escócia. Iniciado em 2001, este encontro de contra-cultura, de dois dias de duração e orientado para a música, é chamado de festividade para toda a família. Similar aos outros eventos transformacionais, este recebe mais do que apenas palcos para apresentações musicais; oficinas são realizadas, artistas circenses demonstram a arte de cuspir fogo, sessões de Ioga são oferecidas, há uma área para as crianças brincarem e, no fim do evento, o Homem de Palha, de 12 metros de altura, formado por vime, madeira e palha, é queimado (figura ao lado.

Entretanto, é preciso observar que muitos outros eventos Homem de Palha ocorrem na Grã-Bretanha. Alguns são encontros íntimos e outros são eventos mais elaborados, que atraem grandes multidões (o Calton Hill já foi chamado de "Rave dos Druidas"). Ao contrário do Festival de Dundrennan, a maioria dos eventos ocorre no sabá pagão de Beltane, em 1 de maio, marcando a chegada do verão no hemisfério norte.

Historicamente, a celebração celta e pagã de Beltane incluia fogueiras, a realização de rituais para a proteção dos rebanhos e a celebração da fertilidade. Na verdade, para os celtas pagãos, maio era "o mês da liberdade sexual, em honra à Grande Mãe e ao Deus Chifrudo das matas." (D. J. Conway, Celtic Magic, pág. 83). Além disso, nos tempos antigos, "imensas figuras feitas de vime, na forma de um homem, eram preenchidas com vítimas sacrificiais humanas e animais, e incendiadas" (M. J. Green, Dictionary of Celtic Myth and Legend, pág.100).

Hoje, o Homem de Palha / Beltane é frequentemente visto como uma questão cultural, como algumas celebrações que incorporam sacerdotes e dançarinos do fogo, que movimentam os chifres colocados em suas cabeças aos deuses da fertilidade, e cerimônias complexas. Naturalmente, todos os encontros do Homem de Palha terminam com a queima da efígie feita de vime e madeira.

Nota: A comunidade pagã na Grã-Bretanha, EUA e outras nações ocidentais realiza celebrações de Beltane e a queima do Homem de Palha. Por exemplo, o Mountain Mysteries Beltane Festival é um encontro pagão de porte médio que ocorre em Stanardsville, no estado americano da Virgínia.

Religião Universal: A Dança de Transe no Nepal

Religião Universal, também chamada Loucura da Montanha, é um festival transformacional que une cerca de 4.000 pessoas em torno da pista de dança mais alta no planeta — nas montanhas do Nepal. Voltados para as expressões de transe psicológico sob seu palco visionário único, uma "vibração de poder total em uma localização divina", este evento é renomado por ser uma das festas mais distantes a qual se pode ir. Os participantes, provenientes de todos os pontos do planeta, são almas dedicadas e aventureiras.

O excerto seguinte de um folheto promocional de 2012 apresenta algumas perspectivas:

Nós, na Religião Universal, objetivamos reunir músicos, artistas e dançarinos para compartilharem uma jornada emocionante na localização mais espiritual e divina do mundo — as montanhas do Himalaia. Com o suporte de nossos gênios sonoros internacionais, uma decoração visualmente espetacular, um palco panorâmico relaxante, Ioga e arte, mais outras atividades e atrações, queremos que esta seja uma experiência única em toda sua vida. Juntos, criaremos um encontro tribal no coração desta maravilha da natureza."

Obviamente, o título "Religião Universal" está carregado de significado. Como os organizadores expressaram na descrição do evento de 2011: "Venha participar na busca que promove o amor e a compreensão para cada indivíduo, venha e pregue conosco a Religião Universal."

Digital Om Productions, o grupo organizador que promove a Religião Universal, diz que o evento é um "encontro excepcional para seres espiritualmente iluminados, dirigidos pelo cosmos, na busca de uma experiência comum de pista de dança."

Até mesmo o nome "Om" tem impacto. Como a Digital Om nos diz, "O som OM, ou AUM, é considerado o som criativo primordial original a partir do qual o universo se manifestou." Isto é cosmologia hindu: AUM é o som sagrado que une o universo. Como o Harper’s Dictionary of Hinduism explica: "A meditação na sílaba sagrada satisfaz a toda necessidade e leva finalmente à liberação. Portanto, seu som é mais importante do que todos os ritos védicos, oblações e sacrifícios, pois ele somente é indestrutível." Destarte, não é surpresa encontrar símbolos e conceitos do Hinduísmo misturados em toda a Religião Universal. Afinal, este festival está voltado para o desenvolvimento espiritual e a harmonia universal — a unicidade cósmica.



Fonte: Forcing Change, Edição 9, Volume 7.
Data da publicação: 12/10/2013
Transferido para a área pública em 16/9/2015
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/fc-9-2013.asp