Visões de Unicidade

Forcing Change, Volume 9, Edição 9.

Nota: O ensaio a seguir é o rascunho de um capítulo inicial de um livro futuro meu, de modo que talvez você reconheça nele alguns dos temas tratados em outras edições de Forcing Change.

Embora o título final para o livro ainda não tenha sido determinado, o manuscrito investiga a ideia da Unidade — incluindo suas implicações políticas, tecnológicas, expressões culturais e desafios religiosos. Quando concluído, este texto será uma combinação de experiências pessoais, considerações acadêmicas e teológicas. É minha esperança e oração que ele seja de valor para dissecar a época em que vivemos, ajudando o leitor a compreender as forças de mudança e considerar as respostas para tudo isto em sua própria vida.

Estamos entrando na Era da Unicidade.

"O conceito motivador supremo do futuro é a sinergia: homens e mulheres de todas as nações unindo-se sob a liderança de líderes de grande visão, que veem que a busca de um ideal comum, um mundo, uma Terra, um povo, é a razão de toda a existência." — Desmond E. Berghofer. [1].

"... vocês um dia se derreterão e se tornarão a Unicidade..." – Neale Donald Walsch. [2].

"Sejam bem-vindos... cidadãos globais!"

Estas palavras enérgicas de unidade e afirmação foram proferidas no limiar do milésimo dia antes da aurora do Novo Milênio. O entusiasmo estava no ar, pois essa saudação da unicidade ressoou com aqueles que tinham vindo para planejar um novo mundo. O evento era o Congresso da Juventude Cidadania Global no Ano 2000, realizado na cidade de Vancouver, na Colúmbia Britânica, no Canadá, em abril de 1997. Aquele foi um tempo para sonhar, para prever, para devanear. [3]. Foi um chamado para incorporar uma filosofia planetária, conforme tinha sido expressada por meio do Currículo Essencial Mundial, no sistema educacional do Canadá e, assim, moldar uma geração de "cidadãos globais".

Viemos aqui para afirmar a Unicidade.

Com certa trepidação, eu me vi participando desse encontro singular. Certo, eu já vinha estudando os conceitos da unidade global há vários anos, porém inserir-se em um evento de transformação de paradigmas é algo diferente. Pisar fisicamente no ambiente operacional do "mundo unificado" não é o mesmo que o estudo de livros acadêmicos, com a confortável distância entre o leitor e a ação das ideias impressas. Eu estava entrando em um novo território.

A cerimônia de abertura, realizada na espaçosa e moderna Biblioteca Pública de Vancouver, proclamou grandemente nossa unicidade por meio da música e de um desfile de estandartes temáticos. A mensagem era que estávamos todos interconectados; interconectados com a Terra, com a energia do universo, e uns com os outros.

Como uma expressão dessa unidade, cada um de nós recebeu um passaporte simbólico "Cidadania Global", inspirado pelo trabalho do afamado defensor do governo mundial, Garry Davies. [4]. As palavras na contracapa encapsulavam o propósito do nosso Congresso: "Um bom habitante do planeta Terra, um membro da grande família humana... Vocês são a Terra tornando-se consciente de si mesma... Cidadãos globais unidos, para curar e salvar o planeta Terra." [5].

O dia seguinte foi sobre colocar a unicidade em prática, enquanto considerávamos a cidadania global e o papel da educação. As equipes de crianças em idade escolar e seus professores, estudantes universitários, e facilitadores da comunidade discutiram um "mundo melhor".

Exortando-nos a "sempre pensar na Terra" estava a figura paternal de Robert Muller (fotografia à esquerda), que como assistente do secretário-geral da ONU, tinha sido um confidente dos líderes da organização. [6]. Sendo o autor do Currículo Essencial Mundial e alguém que tinha tido uma participação na criação de onze agências da ONU, Muller estava em uma posição singular para motivar a ação planetária. Nossa tarefa, inspirada pelo entusiasmo e história de vida de Muller, era desenvolver expressões tangíveis de unidade ao focarmos na essência do Currículo dele: "Uma nova moralidade mundial e ética mundial... gerenciamento global... uma vasta síntese... para tornar cada ser humano orgulhoso de ser membro de uma espécie transformada..." [7].

Unicidade Global

Tornar-se "um ser total e universal" — uma unidade da divindade coletiva — é a pulsação da Unicidade. A cosmologia hindu expressa isto como Advaita, literalmente "não-dualidade" e está contextualmente colocada como "Experiência Planetária" [8]. Assim, advaita atribui unidade cósmica para a diversidade:

"Com base em nossa experiência comum, podemos inferir que a diversidade do mundo como um todo é reduzível para uma unidade... ser dependente da consciência universal para sua revelação." [9].

Nesta cosmologia, a Unicidade vem quando a consciência mundial está ativada para este fim.

Ao considerar o tema amplo da Unicidade, é importante compreender que isto não se trata de uma igualdade cultural imposta, ou o esmagamento da expressão individual. A tolerância e a abertura para as identidades culturais, étnicas, sociais, pessoais e sexuais são celebradas. A diversidade é encorajada, desde que a exclusividade divisiva — a "separação" — não ameace o tecido da harmonia prevista. Na verdade, as sensibilidades culturais distintivas e os gostos pessoais são respeitados, desde que permaneçam dentro do mosaico aceito globalmente. A unidade na diversidade é celebrada, reconhecendo a singularidade estilística, mas, ao mesmo tempo, fazendo conscientemente a integração.

A afamada pensadora emergente Barbara Marx Hubbard chama isto de "sinergia", um todo maior do que suas partes. Isto, ela explica, é "evolução consciente". [10]. Em outras palavras, uma grande síntese está ocorrendo e, uma vez que uma massa crítica seja alcançada para esse fim, a experiência compartilhada trará à luz uma nova realidade planetária. Nós nos moveremos além da humanidade individual e, como um grupo unido em uma visão de ascensão, expandiremos a nós mesmos e despertaremos o cosmos. O afamado motivador de crescimento pessoal, Ken Keys Jr. descreveu isto como um ponto de virada que libera nossa "consciência coletiva". [11]. O guru do potencial humano Willis Harman descreve isto como uma "transformação da mente global" [12]. O Templo da Compreensão, uma organização interfé dedicada à inter-espiritualidade, divulgou isto como "interdependência e comunhão" — a humanidade procurando alcançar "uma realização sempre em expansão da Divindade" [13].

O Livro de Urântia, um texto que afirma ter sido escrito por seres celestiais, diz algo similar: Aceitar "cidadania cósmica" por meio de uma "conscientização da interdependência do homem evolucionário e a Deidade evolutiva... o nascimento da moralidade cósmica e a aurora do dever universal." [14].

O filósofo e praticante místico David Spangler, da Fundação Findhorn, disse simplesmente: "Somos um. A integralidade é nossa unicidade em ação." [15].

Neale Donald Walsch, um "profeta moderno" da Unicidade e autor sucesso de vendas na lista do jornal The New York Times, descreve isto como a Nova Espiritualidade e o despertar do "Deus de Amanhã". Esta é "a mensagem mais importante de todas" [16] — Tudo é Deus e Deus é Tudo. Tudo é divino. Nossa concepção do "Deus de Ontem" foi apresentada em separação destrutiva, uma divindade exclusivista que está fora da criação. O Deus orientado evolucionariamente do Amanhã emergirá por meio de uma revolução na interconexão espiritual e social. Como uma pessoa adormecida que é sacudida das sombras dos sonhos e ilusões, abriremos nossos olhos para a Realidade Final e nos levantaremos como Um Só. Esta é a pulsação do quase oficial Dia da Unicidade Global, celebrado simultaneamente com o Dia das Nações Unidas, em 24 de outubro. [17].

Esta é a mensagem da Unicidade — a criação é Deus, somos Deus. Esta é a raiz do Movimento de Nova Era e encontra expressão em uma multidão de termos, como Warren Smith, um ex-aderente de Nova Era e agora um autor cristão, me lembrou em uma conversa recente que tivemos. [18]. Frases como Novo Paradigma, Nova Visão de Mundo, Nova Consciência, Novo Evangelho e Nova Espiritualidade agora aparecem frequentemente em nossa cultura.

Uma Nova Iluminação está despertando o planeta.

O apologeta cristão e historiador social Dr. Peter Jones, expressou criticamente esta cosmovisão de um modo que conceitualizou uma ideologia de orientação espiritual: "Unicismo". [19]. O uso de "Unicismo" é uma escolha interessante, facilitando, mas não trivializando um conceito que historicamente está associado com o Dualismo, mas distanciando-se dos aparatos filosóficos deste último.

"No 'Unicismo', tudo compartilha a mesma essência", escreveu o Dr. Jones. "Em uma palavra, tudo é uma parte do divino." [20].

Embora os defensores da unidade mundial divulguem essa transição revolucionária como um "novo paradigma", ela é qualquer coisa menos isso. O Dr. Jones afirma corretamente que a cosmovisão unicissta "ressuscita fervorosamente os mundos antigos das filosofias e sacerdotes pagãos." [21] O uso da palavra pagão é provocativo e nos faz perguntar: O que é paganismo?

Cavando até o núcleo dos cultos míticos antigos com suas divindades antropológicas vinculadas com os processos da natureza, para os ensinos das muitas escolas esotéricas que surgiram durante as três décadas finais do século 19, até o contexto moderno do Humanismo Cósmico, a essência do que é o paganismo foi expressa de forma sucinta pelo professor de Velho Testamento John N. Oswalt, em sua consideração sobre o significado do mito: Continuidade.

"Esta é a ideia que todas as coisas que existem são partes umas das outras. Assim, não existem distinções fundamentais entre os três reinos: humanidade, natureza e o divino... todas as coisas que existem são física e espiritualmente partes umas das outras." [22].

A famosa autora de Nova Era Marilyn Ferguson, descreveu este conceito no relato de um menino que observava sua irmãzinha a beber leite. "Subitamente, vi que ela era Deus e que o leite era Deus. Isto é, tudo o que ela estava fazendo era derramar Deus em Deus." [29] (itálico no original). Isto é continuidade, também conhecido como Monismo; tudo está contido em uma coisa só. Este é um grande mito da unidade — o reforço da essencial interconexão de todas as coisas.

"Unicidade" é paganismo em crença prática e mito é sua representação comunicável. A Wicca, a tradição da feitiçaria, encaixa-se debaixo desse guarda-chuva pagão como uma religião da Criação divinizada. "Isto, talvez, está no centro da Wicca — sua alegre união com a natureza", explicou Scott Cunningham em seu livro imensamente popular, Wicca, a Guide for the Solitary Practitioner (Wicca: Um Guia para o Praticante Solitário). "A Terra é uma manifestação da energia divina... Quando perdemos o toque com nosso abençoado planeta, perdemos o toque com a Divindade." [24].

Descrevendo a oração em Living Wicca (Vivendo a Wicca), Cunningham interconecta o mito com a continuidade:

"Oh Deusa Interior, Oh Deus Interior.... A oração wiccana, então, não é dirigida a alguma divindade distante, que reside em um palácio nas nuvens ou nos céus. Não precisamos usar um berrante para chamar a Deusa e o Deus. Ao contrário, precisamos somente nos tornar cientes que eles estão dentro de nós. Este é o segredo." [25].

Um pagão que criou uma comunidade espiritual centrada na natureza no mundo virtual do Second Life, descreve isto da seguinte forma: "Vejo a natureza (incluindo todas as coisas dentro dela, nós também) como conectada, somos todos parte do espírito maior. Cada um de nós percebe em nossos próprios caminhos, e usamos Deuses e Deusas para focar nele, mas no fim somos todos um." [26]. Robert M. Geraci, autor de Virtually Sacred, nos lembra que "as religiões panteístas da natureza... tornaram-se lugares-comuns na vida dos séculos 20 e 21." [27].

Ao considerarmos o mito, seja antigo ou o modelado na "nova espiritualidade" dos dias atuais, o que estamos testemunhando não é simplesmente uma "história para dormir" cultural, folclores religiosos ou uma reimaginação moderna, mas uma cosmovisão observável. As nuanças podem ser complexas, envolvidas em experiências, costumes e técnicas diferentes, porém um paradigma comum aparece, enquanto uma variedade de rótulos são anexados a eles. A perfeição e a ascensão iminentes da humanidade são esperadas e serão alcançadas quando realizarmos a visão da unidade.

O mito como uma meta-narrativa de continuidade tem sido a vestimenta do paganismo antigo e é a essência das histórias de grupos experimentais que estão sendo tecidas hoje — costuradas nas ideias motivacionais de comunidade, segurança, progresso e ordem. O fato permanece que, à medida que os trajes do Cristianismo estão sendo descartados na nossa cultura, um "novo" guarda-roupa está sendo criado usando-se um tear antigo.

O professor John Oswalt nos informa que:

"... quando falamos sobre a visão de mundo comum do mito, não estamos falando de uma ideia ultrapassada e antiquada, sem relevância para o tempo presente. O mito não é o pensamento de primitivos que não conseguem pensar na realidade em termos abstratos. Ele é simplesmente um modo de pensar sobre a realidade diferente daquele que moldou o pensamento ocidental... essa compreensão da realidade é cada vez mais comum no mundo moderno e tecnológico. Nós vestimos isto de forma diferente, mas, por baixo das novas roupas, é o mesmo corpo que existe há milhares de anos." [28].

Capturando o Todo

Desde o obscuro passado até o reluzente presente, a continuidade — a Unicidade — é o paradigma que estrutura nosso mundo.

Se esta análise estiver correta, então nossa época será marcada pela ressurreição e aceitação cultural do paganismo e a adoção da Unicidade em aplicação prática e em celebração. Além disso, como essa "revolução da consciência" é sobre integração, esse fio precisa tecer cada faceta da vida. Lewin Mumford (fotografia ao lado), um famoso sociólogo e historiador estadunidente pregou exatamente isso em seu livro The Conduct of Life, publicado em 1951:

"... precisa haver uma mudança nos valores e, em um ponto mais adiante, uma mudança tão central, que todas as outras atividades que giram em torno desse eixo sejam afetadas por ela... A nova filosofia tratará cada parte da experiência humana, desde a estrutura duradora do mundo físico até a encarnação mais breve da divindade, como um aspecto de um todo interrelacionado e em progressiva integração." [29].

Não muito tempo depois de Mumford redigir estas reveladoras palavras, o Ocidente foi sacudido pelas onda da insurreição cultural.

A grande sensação dos anos 1960s não foi apenas o retorno da Apollo 11 à Terra, mas a propagação do pós-modernismo e o surgimento da espiritualidade oriental no Ocidente. Uma geração àvida para se livrar do "pensamento quadrado" de seus pais e adotar os atraentes sonhos da integração foi animada pelas possibilidades: O Marxismo elegante da Nova Esquerda levantou seu punho no espírito da solidariedade humana; "a paz mundial" tornou-se um hino de batalha para a integração social; o "sacramento do LSD" [30] sintonizou os indivíduos até então centrados em si mesmos para uma unidade maior; os gurus hindus conquistavam os corações e as mentes — Maharishi Mahesh Yogi voava nas asas dos Beatles; a Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, localizada em Los Angeles, apresentava os "ideais do comunismo espiritual... a unidade de toda a sociedade, não, de toda a energia dos seres vivos." [31].

Um marco na transformação das mentes ocorreu em 22 de abril de 1970, quando as escolas na América do Norte celebraram o primeiro "Dia da Terra", lendo um sutra do Urso Smokey:

"Com um halo de fumaça e chama por trás, os incêndios da floresta do Kali-yuga, incêndios causados pela burrice daqueles que pensam que podem ganhar e perder as coisas, quando, na verdade, tudo está contido no vasto e livre Céu Azu e na Terra Verde da Mente Única... O Urso Smokey iluminará aqueles que querem ajudá-lo; mas, aqueles que tentarem estorvá-lo ou difamá-lo, SERÃO COLOCADOS PARA FORA... ELE OS ESMAGARÁ... Além disso, o Urso Smokey certamente aparecerá para colocar para fora o inimigo com sua enxada vajra. Agora, aqueles que recitarem este sutra... entrarão na era da harmonia do homem e da natureza... E NO FIM RECEBERÃO A SUPREMA E PERFEITA ILUMINAÇÃO." [32; maiúsculas no original].

A sociedade ocidental estava sendo recriada via choque cultural e admiração pela cultura oriental. Isto criou uma dissonância na alma que agora, quase meio século mais tarde, está sendo aceita como uma finalidade evolucionária. "O verdadeiro resultado daquele terremoto não foi sentido naquele tempo"', explicou Roger B. Neill, em sua autobiografia. "Estamos experimentando agora."

Neill, um acadêmico marxista daquela época, que mais tarde na vida teve uma mudança de coração baseada em revelação, nos faz lembrar que nos anos 1960s, "uma revolução tinha de fato ocorrido — uma revolução na mente e na práxis — que mudou o rumo da história moderna." [33].

Por volta dos anos 1980s, a formação de um tsunami na cosmovisão podia ser discernido; a esperança de Mumford de um "todo progressivamente integrado" estava claramente visível. Um novo modo de pensar — uma nova mente e um novo espírito — estavam, como as ondas do mar, quebrando nas praias do pensamento ocidental. Em breve, todos os aspectos da vida, desde negócios, educação, saúde e a indústria do cinema em Hollywood estariam nadando na "nova consciência".

Douglas Groothuis, um filósofo cristão, descreveu isto como um meta-movimento: "o Um". As palavras de Groothuis, escritas em 1986, forçaram os cristãos a compreenderem a transformação que já está ocorrendo.

"Uma nova cosmovisão está para aparecer, uma revolução na consciência. Tudo é um — tanto o bom quanto o mau. Somos todos deuses — e nossas crianças no primeiro ano da escola primária vão aprender isto. A mente controla tudo — basta que a usemos. Estas são ideias — ideias potentes — que têm consequências para toda a vida." [34].

Groothuis escreveu: "Toda a sociedade precisa ser colocada em harmonia com o Um, pois a Nova Consciência produzirá a Nova Era." [35].

A unicidade precisa capturar todas as esferas da atividade humana: política, economia, sentimento religioso, expressões culturais e os desenvolvimentos tecnológicos para uma maior interconectividade. Tudo precisa trabalhar para envergar o arco da história e fazer avançar a "Era da Unidade". A unicidade precisa moldar nossa autoimagem e se alojar na estrutura do nosso pensamento coletivo; além disso, ela precisa energizar a vontade emocional das massas.

Nesse despertamento da vontade emocional, [36], realizado em experiências geradas em grupo, há um apelo inegável: nós mesmos sentimos que nos tornamos parte de algo muito maior. Buscamos uma nova realidade e, quando trabalhamos para alcançá-la, afirmamos nossa grandeza e celebramos nossa força e capacitação. A comunidade coletiva nos compele, molda nossa identidade e nossa ética, e apresenta um propósito mais elevado: "Sejam bem-vindos, cidadãos globais."

Esta "visão do ungido", nossa moderna mensagem de salvação dada pelo auto-indicado sacerdócio dos especialistas e acadêmicos, [37] precisa se tornar animada globalmente, ser avançada pelos magos da tecnologia, implementada nas câmaras políticas, incorporada na educação desde "o berço até a sepultura", proclamada pelos pregadores da indústria do entretenimento, promovida pelos teólogos da igreja emergente e aceita pelas massas, que — condicionadas pelo comportamentalismo democrático [38] — afirmam a Unicidade como algo delas próprias. Quando a aceitação se transforma em celebração, conforme evidenciado pelo tremendo crescimento dos festivais transformacionais, somos então testemunhas do triunfo social da integração: Capturar a mente, possuir o coração, dirigir o futuro.

Escrevendo no início dos anos 1960s, o futurista W. Warren Wagar apreciava aquilo que outros "profetas da ordem mundial" tinham imaginado muito tempo atrás: "uma cultura mundial unificada". Permitindo uma variedade de expressões, a sociedade global seria qualitativa e emocionalmente habilitada por meio desse "ponto inicial metafísico... a coerência orgânica do cosmos." [39]. Aqueles que estão envolvidos em facilitar essa maciça transição ideológica e espiritual, Wagar ressaltou, inevitavelmente constróem a partir dessa pressuposição. "Eles são todos monistas: para eles, o universo, toda a realidade, todos os seres, são no fim uma coisa só." [40].

Cidadãos orgânicos com consciência planetária se materializarão à medida que os ramos filosóficos, religiosos e intelectuais se unirem em torno do modelo da Unicidade. "A unidade de propósito e direção necessária para a saúde espiritual de uma sociedade é alcançada coordenando-se todos os elementos em sua cultura", explicou Wagar. [41]. Passamos a possuir uma "mente mundial".

Groothuis corretamente discerniu a abrangência da propagação:

"Mas, para a transformação ser completa, ela precisa permear e dominar a mentalidade ocidental. Isto significa que nada menos do que a infiltração e revisão das principais disciplinas intelectuais, bem como a cosmovisão comum do homem mediano nas ruas. A Unidade precisa se mover desde a franja avant-garde até o coração e mente da sociedade." [42].

O professor Philip C. Bom, da Regent University descreve o contágio cultural e institucional que a Unicidade produz como "uma religião política que cria e avalia padrões e objetivos alinhados com o princípio que o homem governa o universo." [43].

Isto atua como um ardil: segurança comum, valores globais comuns, e o gerencimento dos bens globais comuns por meio da governança global. O professor Bom corretamente compreendeu o estratagema e a doutrina como "uma nova era ideológica da política espiritual global" [44]. Isto é uma revolução estrutural que define o propósito humano individual e identidade dentro da cosmologia da Unicidade: "a criação de um homem todo novo para um mundo também todo novo." [45].

Integralidade expressa e ativada era o desejo motivador do Congresso da Juventude Cidadania Global 2000. Fomos instruídos que era nossa responsabilidade manifestar a Unicidade de formas práticas e de longo alcance. A evolução estava em nossas mãos. Nós seríamos a mudança.

Notas de Rodapé

1. Desmond E. Berghofer, The Visioneers: A Courage Story About Belief in the Future (Creating Learning International Press, 1992), pág. 289.

2. Neal Donald Walsch, Communion With God (Berkley Books, 2000), pág. 165.

3. "Devanear" foi o verbo usado por Desmond E. Berghofer, um dos organizadores do Congresso da Juventude Cidadania Global 2000. De acordo com o livro dele, The Visioneers: A Courage Story About Beliefs in the Future (Creative Learning International Press, 1992), aqueles que devaneiam — "os visionários" — são cidadãos ativistas que sonham com futuros possíveis, depois trabalham para obter o resultado desejado energizando coletivamente o espírito daquela visão.

4. Garry Davis foi uma personalidade reconhecida mundialmente que fez avançar a causa da cidadania mundial. Ele foi o fundador da World Service Authority (WSA), que emitia — e continua a emitir — passaportes "cidadão do mundo" e faz um registro notarial dos "cidadãos mundiais". Em diversas ocasiões, esses passaportes já foram usados com sucesso para cruzar as fronteiras. Para obter o passaporte, o solicitante tem de assinar uma Afirmação que diz, em parte: "Como um Cidadão Mundial, afirmo meu comprometimento cívico e planetário com o GOVERNO MUNDIAL, fundado sobre três princípios universais de Um Valor Absoluto, Um Mundo e Uma Humanidade..." (maiúsculas no original).

5. O autor possui em seus arquivos um exemplar do passaporte Cidadania Global 2000. As linhas citadas são do poema de Robert Muller, intitulado "Decida Ser um Cidadão Global", reimpresso no interior do passaporte.

6. Robert Muller teve uma história completa nas Nações Unidas: Diretor de Orçamento da ONU, Assistente do Secretário-Geral e, ao se aposentar, era Chanceler da Universidade da Paz, mantida pela ONU na Costa Rica. Em 1989, seu Currículo Essencial Mundial fez com que ele recebesse o Prêmio Educação pela Paz, da UNESCO e ele também foi agraciado com outros prêmios e honrarias. Muller foi trazido à ONU em 1948 como resultado de sua vitória em um concurso literário de ensaios sobre "como governar o mundo". Ao longo dos anos, ele escreveu diversos livros, incluindo What War Taught Me About Peace (Doubleday, 1985), Safe Passage into the Twenty-First Century (Continuum, 1995), First Lady of the World (World Happiness and Cooperation, 1991/1994), Dialogues of Hope (World Happiness and Cooperation, 1990), Most of All They Taught Me Happiness (Image Books, 1985), e New Genesis: Shaping a Global Spirituality (World Happiness and Cooperation, 1982). Ele foi um palestrante bastante requisitado por grupos futuristas, em conferências de Nova Era e sobre unidade mundial e em encontros para a paz global. Muller, que era um católico romano, foi espiritualmente influenciado pelo secretário-geral da ONU, o budista U Thant, pelos ensinos de místico católico Pierre Teilhard de Chardin, pelo transcendentalista Maharishi Mahesh Yogi, e pela teósofa e ocultista Alice A. Bailey. Muller faleceu em 20 de setembro de 2010.

7. O autor possui um exemplar de World Core Curriculum, escrito por Robert Muller. O texto completo também pode ser encontrado no livro dele, Essays on Education, editado por Joanne Dufour e preparado para o Centro Urbano de Seattle, da Universidade Western Washington (1990), veja as páginas 22-27.

8. Preceptors of Advaita (Sri Kanchi Kamakoti Sankara Mandir, 1968), pág. xi. Advaita Vedanta é uma hermenêutica dos upanixades (tratados védicos).

9. Idem, pág. 209.

10. Veja Barbara Marx Hubbard, Conscious Evolution: Awakening the Power of Our Social Potential (New World Library, 1998). Hubbard é a presidente da Fundação para a Evolução Consciente.

11. Ken Keys Jr. foi um instrutor de crescimento pessoal e professor de consciência da Nova Era. Os livros dele foram sucesso de vendas durante os anos 1970s e 1980s, com seu título Handbook to Higher Consciousness vendendo mais de um milhão de exemplares. O conceito dele de ponto de virada foi descrito como o efeito do "Centésimo Macaco". Veja o livro dele intitulado The Hundredth Monkey (Vision Books, 1982).

12. Veja Willis Harman, Global Mind Change: The Promise of the Last Years of the Twentieth Century (Knowledge Systems / Institute of Noetic Sciences, 1988).

13. Página na Internet do Templo da Compreensão, em http://www.templeofunderstanding.org/wwa_Faith_Ecology.html. Nota: O site passou por uma atualização e a página foi removida. O texto citado vem de uma imagem da tela, feita em 25 de julho de 2009.

14. The Urantia Book (Urantia Foundation, edição de 2010), Paper 110: Section 3 — pág. 1206.

15. David Spangler, Reflections on the Christ (Findhorn Foundation, 1977), págs. 127-128.

16. Neale Donald Walsch, Tomorrow's God: Our Greatest Spiritual Challenge (Atria Books, 2004), pág. 34.

17. O Dia da Unicidade Global é uma proposta de Neale Donald Walsch, criado depois que a organização que ele fundou — a Equipe da Humanidade — compareceu na sede da ONU, em 2008, com 50 mil assinaturas solicitando a instituição de um "Dia da Unicidade Global". Enquanto estava na ONU, a Equipe foi incentivada a levar adiante o projeto, antes mesmo que a ONU chegasse a um consenso sobre a adoção da ideia.

18. Warren Smith é o autor de The Light That Was Dark: From the New Age to Amazing Grace (Mountain Stream Press, 2006), Deceived on Purpose: The New Age Implications of the Purpose-­Driven Church (Mountain Stream Press, 2006), A Wonderful Deception (Mountain Stream Press, 2011), False Christs Coming: Does Anybody Care? (Mountain Stream Press, 2011), e Another Jesus Calling (Lighthouse Trails Publishing, 2013).

19. Peter Jones, One or Two: Seeing a World of Difference (Main Entry Editions, 2010). O Dr. Peter Jones é fundador de TruthXChange.

20. Idem, pág. 17.

21. Idem, pág. 13.

22. John N. Oswalt, The Bible Among the Myths (Zondervan, 2009), págs. 48-49.

23. O menino na história era J. D. Salinger. Veja Marilyn Ferguson, A Conspiração Aquariana: Transformação Pessoal e Social nos Anos 1980s (J. P. Tarcher, 1980), pág. 382.

24. Scott Cunningham, Wicca: A Guide for the Solitary Practitioner (Llewellyn/One Spirit, 1988/2003), pág. 6.

25. Scott Cunningham, Living Wicca: A Further Guide to the Solitary Practitioner (Llewellyn/One Spirit, 1993/2003), pág. 55.

26. Veja Robert M. Geraci, Virtually Sacred: Myth and Meaning in World of Warcraft and Second Life (Oxford University Press, 2014), pág. 122.

27. Idem, pág. 122.

28. Oswalt, The Bible Among the Myths, pág. 47.

29. Lewis Mumford, The Conduct of Life (Harcourt, Brace and Company, 1951), pág. 226.

30. LSD (Dietelamida do Ácido Lisérgico). Para um relato interessante em primeira mão da jornada à contra-cultura do LSD durante os anos 1960s, veja Charles W. Slack, Timothy Leary, the Madness of the Sixties and Me (Peter H. Wyden, 1974).

31. A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, Srimad Bhagavatam, First Canto – Creation (International Society for Krishna Consciousness/Bhaktivedanta Book Trust, 1972), pág. xv.

32. "Smokey the Bear Sutra", The Environmental Handbook: Prepared for the First National Environmental Teach-In, April 22, 1970 (Ballantine/Friends of the Earth, 1970, editado por Garrett de Bell), pág. 2-3. The Environmental Handbook foi distribuído para as escolas de nível médio, faculdades e universidades. Estima-se que 20 milhões de estudantes participaram do evento; a primeira edição do texto esgotou-se rapidamente.

33. Roger Brian Neill, Revolution in Mind: An Autobiography (Word Alive Press, 2014), pág. xi.

34. Douglas R. Groothuis, Unmasking the New Age (Inter-Varsity Press, 1986), págs.15-16.

35. Idem, pág. 111.

36. Um livro praticamente esquecido que propaga a ideia da "vontade emocional" para a integração coletiva é The Science of Power, de Benjamin Kidd (Methuen & Co., 1918). Nota: Kidd usou o conceito de "pagão" em sua forma reversa — o indivíduo e o Estado cujos padrões não se estendem além dos autos-interesses, e aconselha que isso deva ceder para o Universal.

37. O termo "visão do ungido" vem de Thomas Sowell, que descreve isto no contexto da engenharia política e cultural por meio de visionários sociais — os auto-proclamados salvadores da sociedade. Veja os livros dele The Vision of the Anointed: Self-Congratulation as a Basis for Social Policy (BasicBooks, 1995) e Intellectuals and Society (BasicBooks, 2011, edição revisada e ampliada).

38. Para ajudá-lo a compreender o papel da democracia como um processo de condicionamento, veja Alexis de Tocqueville, Democracia na América (este livro foi publicado em dois volumes, o primeiro em 1835 e o segundo em 1840). Outras obras que examinam criticamente aspectos da democracia são: José Ortega Y Gasset, A Revolução das Massas, J. L. Talmon, The Origins of Totalitarian Democracy (Frederick A. Praeger, 1960), Erik von Kuehnelt-Leddihn, Liberty or Equality: The Challenge of Our Time (Christendom Press, edição de 1993 — o autor considera a monarquia como mais favorável do que a democracia de orientação coletivista), Arthur Seldon, The Dilemma of Democracy: The Political Economics of Over-Government (Institute of Economic Affairs, 1998 – fornece uma crítica britânica dos problemas políticos e econômicos associados com a democracia) e, a partir de uma perspectiva mais libertária, veja Hans-Hermann Hoppe, Democracy: The God That Failed (Transaction Publishers, 2001/2007), e Frank Karsten and Karel Beckman, Beyond Democracy (BeyondDemocracy.net/ CreateSpace, 2012).

39. W. Warren Wagar, The City of Man (Houghton Mifflin Company, 1963), pág. 175.

40. Idem, pág.176.

41. Idem, pág. 132.

42. Groothuis, Unmasking the New Age, pág. 51.

43. Philip C. Bom, The Coming Century of Commonism: The Beauty and the Beast of Global Governance (Policy Books, 1992), pág. 4.

44. Idem, pág. 302.

45. Idem, pág. 352.



Fonte: Forcing Change, Volume 9, Edição 9.
Data da publicação: 27/10/2015
Transferido para a área pública em 28/11/2016
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/fc-9-2015.asp