A Armadura de Deus: O Senhor É Homem de Guerra

Autor: Jeremy James, Irlanda, 6/2/2020.

Se há uma única característica que tipifica a igreja hoje, um atributo que poderia ser resumido em uma palavra, eu diria que é timidez.

Independente de para onde olhamos, parece que encontramos isto. Não uma mera timidez superficial, mas algo como uma grande nevada, que cobre tudo.

É a mais completa raridade ouvir um cristão, em algum lugar, dizer com convicção: "Isto está errado." Em uma igreja que elevou a timidez até uma marca de distinção, poucos sonhariam em usar essas palavras, ou algo similar a elas.

Em um tempo em que a linguagem está sendo virada de cabeça para baixo, para significar qualquer coisa que a mídia decida que ela deva significar, a palavra timidez é agora, de algum modo, sinônimo de amante da paz, não-ameaçador, tolerante e inclusivo. Estas são palavras suaves, não é mesmo? Nossos pastores e líderes as usam com frequência e com evidente satisfação, como se elas significassem algo transparentemente bíblico — mas não significam.

Escrevendo em 1977, D. M. Lloyod-Jones, o teólogo galês presbiteriano, perguntou: "Existe algo pelo que você está preparado para se levantar e defender? Eu não peço desculpas por fazer esse tipo de pergunta. Parece para mim que as pessoas estão prontas hoje em dia para contemporizar em tudo." [The Christian Soldier (O Soldado Cristão), pág. 276].

Ele estava se referindo a Efésios 6:14, que exorta cada fiel cristão a se revestir de sua armadura e permanecer firme. Mas, se não sabemos o que significa "permanecer firme", então não é muito provável que vistamos nossa armadura!

Parece haver um paradoxo aqui: Como cristãos, detestamos a guerra, mas somos obrigados a lutar em uma guerra. Não há contradição real aqui, desde que compreendamos que a guerra é lutada somente contra a oposição demoníaca e a luta é, em grande parte, uma recusa em ceder terreno. Se podemos ver isto, então sabemos o que significa permanecer firme!

Êxodo 15:3 diz que "O SENHOR é homem de guerra; o SENHOR é o seu nome." Como tal, Ele é aquele que vence a guerra a nosso favor. Somos aqueles que permanecem firmes; somos aqueles que se recusam a ceder terreno; e Ele é quem derrota o Maligno. Mas, se não permanecermos firmes e não defendermos nosso território, então é improvável que Ele aja.

Como pastor, Lloyd-Jones sabia tudo muito bem: temos hoje uma igreja que não consegue e não irá permanecer firme. Como resultado, ela não tem modo de se defender. Em vez de admitir isto, os líderes fingem, ao revés, que o Maligno não existe! Isto é patético, é claro, mas para líderes cujo atributo mais distintivo é sua timidez compartilhada, não é surpreendente de forma alguma.

Atravessando o Jordão

Somos ensinados sobre a armadura de Deus no livro de Efésios, uma epístola que corresponde, de muitos modos, ao livro de Josué, no Antigo Testamento.

O último é frequentemente mal compreendido. Quando os israelitas cruzaram o rio Jordão e entraram na Terra Prometida, os trabalhos deles não cessaram. Havia ainda muito a ser feito. Na verdade, o verdadeiro trabalho estava apenas começando.

Há várias gerações que os cristãos usam a expressão "atravessar o Jordão" como uma metáfora para a entrada no céu, mas isso é de certa forma enganoso. O termo deveria realmente se referir à salvação que encontramos em Cristo. quando nascemos de novo e atravessamos da morte para a vida. Espiritualmente falando, isto é quando entramos no nosso descanso, embora nosso verdadeiro trabalho, nosso serviço para Deus, está apenas iniciando e nosso descanso final virá somente quando deixarmos este mundo.

Os governantes das trevas deste mundo implantaram um sistema que mantém a humanidade em servidão. Este sistema — o sistema mundial satânico — foi testado e refinado ao longo dos milênios, de modo que hoje ele opera como um grande conjunto de engrenagens interconectadas, triturando silenciosamente qualquer resistência residual ao Maligno e à sua vontade incorrigível.

Cristo liberta o fiel cristão do poder deste moinho triturador. Satanás não tem mais controle sobre ele. Mas, erramos grandemente se imaginarmos que não estamos mais na linha de fogo! Embora Satanás saiba que nunca recuperará aquele fiel cristão, ele o rastreará com mais determinação do que nunca antes. Os milhões que estão presos e enlaçados no sistema mundial satânico são incapazes de se opor aos planos do Maligno, mas alguns poucos fiéis cristãos, que são obedientes a Cristo, podem apelar ao Pai Celestial e Ele ouvirá as petições deles.

Depravação Demoníaca

Depois que os israelitas cruzaram o Jordão, tiveram de conquistar e destruir as nações pagãs que residiam naquelas terras. Aqueles povos eram satanistas, servos jurados da perversão e corrupção, praticantes de depravações vis demais para descrever. Existem muitos hoje que argumentam que os israelitas perpetraram um genocídio quando destruíram aquelas nações, mas eles estão ignorando a realidade.

Aquelas nações tinham sido colocadas ali por Satanás para frustrar a promessa que Deus fez a Abraão. A iniquidade delas aumentou ao longo de várias gerações, até o ponto em que a destruição tornou-se inevitável. A Palavra de Deus nos diz que, embora nosso Pai Celestial tenha usado os israelitas como Seus intrumentos para este propósito, foi Ele quem destruiu aquelas nações. Por exemplo, na grande batalha de Gibeão, Ele fez o sol parar no céu, para que Josué e seu exército pudessem realizar seu trabalho e, depois, fez cair enormes pedras sobre os milhares que fugiram do campo de batalha, de modo que "foram muitos mais os que morreram das pedras da saraiva do que os que os filhos de Israel mataram à espada." [Josué 10:11].

A batalha pertence a Deus! Isto foi verdadeiro quando Josué atravessou o Jordão e ainda é verdadeiro hoje. Todo fiel cristão nascido de novo atravessou o Jordão e precisa fazer como os israelitas fizeram — circuncidar seu coração, vestir a armadura e permanecer firme!

Os israelitas circuncidaram sua carne em Gilgal, logo depois de terem atravessado o Jordão, mas o cristão circuncida seu coração. Por quê? Por que "não lutamos contra a carne o sangue", mas contra os poderes demoníacos que governam este mundo.

A Armadura Completa

O capítulo 6 de Efésios nos diz o que precisamos fazer para nos proteger desses poderes. A armadura de Deus prescrita para este propósito é formada pelos seguintes itens:

(1) O cinturão da verdade; (2) a couraça da justiça; (3) as sandálias do Evangelho da paz; (4) o capacete da salvação; (5) o escudo da fé; e (6) a espada da Palavra de Deus.

É verdadeiramente uma grande tragédia na igreja moderna que a armadura de Deus seja em grande parte esquecida e, naquelas raras ocasiões em que seu valor é reconhecido, seu verdadeiro propósito — quando enumerado item por item — é frequentemente mal compreendido. Por razões de brevidade, iremos nos concentrar principalmente nos erros feitos em relação a cada parte da armadura.

O Cinturão da Verdade

O primeiro é o cinturão da verdade: "Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade." [Efésios 6:14].

O apóstolo está se referindo ao cinturão que um soldado romano usava. Todos os seis itens, na verdade, estão conectados com os utensílios/instrumentos militares usados por um legionário romano, uma imagem com a qual qualquer um naquele tempo estaria familiarizado.

Jesus disse: "E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas." [Mateus 5:41]. Ele estava aludindo ao requisito que existia naquele tempo de um civil carregar o saco de bagagem de um soldado romano até a próxima milha, se solicitado a fazer isso. A bagagem continha grãos suficientes para 15 dias, uma picareta ou um machado, utensilhos de cozinha e estacas para fazer um acampamento. Nosso Senhor pôde usar uma ilustração como esta sem explicação adicional, pois todos sabiam que Ele estava falando sobre o soldado romano. Da mesma forma, Paulo faz uso de imagens militares para ilustrar certos princípios espirituais.

A expressão "cingir os lombos" indica colocar o cinturão, um objeto mais substancial do que o item que conhecemos hoje como um cinto. Paulo estava se referindo ao balteus usado por um soldado romano. A foto abaixo mostra um típico balteus, um cinturão de couro grosso, com tiras protetoras descendo pela frente, cada uma das quais revestida por rebites metálicos robustos.

O balteus tinha o objetivo de proteger os órgãos genitais. Um golpe nos testículos durante a luta corporal poderia paralisar momentanamente um homem. Naquele momento de distração, o soldado poderia receber um golpe fatal na cabeça ou no torso.

Como um artefato protetor, o balteus era mais do que apenas um cinturão, como os leitores nos tempos apostólicos saberiam. Espiritualmente falando, ele representava as disciplinas necessárias para proteger a dimensão sexual do nosso ser. Muitos comentaristas deixaram de observar isto, embora Matthews Henry tenha chegado perto, quando disse: "Isto restringirá da libertinagem e da licenciosidade, como um cinturão restringe e reprime o corpo."

Os poderes das trevas irão invariavelmente focar no nosso apetite sexual em uma busca incansável para nos controlar. Dos muitos pensamentos e imagens que afetam nosso comportamento, nenhum se compara com aqueles que envolvem a satisfação sexual. O Maligno sempre procurou explorar nossa sensualidade, inflamar nossas paixões e usar a perspectiva iminente de gratificação sexual para nos manter em servidão.

À medida que lutamos contra principados e potestades, enfrentaremos tentações deste tipo repetidamente. Em nosso estado caído, somos especialmente vulneráveis aos ataques direcionados contra nossa sexualidade e nossa propensão em buscar conforto e alívio nas fantasias românticas. Se cedermos algum terreno ao Maligno, ele imediatamente procurará um modo de obter mais. Dada a ampla variedade de ferramentas disponíveis para ele hoje para este propósito — mídia social, televisão, cinema, revistas, websites de namoro, pornografia, aplicativos para os telefones inteligentes, etc. — as oportunidases dele são infindáveis.

Por Que a Verdade — a Verdade Bíblica — É Nossa Única Defesa?

Dado o modo como o Maligno moldou a sociedade ao longo dos últimos 40 anos, aproximadamente, a maioria dos adultos hoje é como uma criança de cinco anos de idade em uma loja de doces. As mentes deles são dominadas por desejos que eles não conseguem controlar e, quanto mais tempo eles permanecem na loja, mais determinados estão para obterem aquilo que desejam.

A Palavra de Deus nos diz em Efésios 6:14 que a verdade é nossa única defesa!

Precisamos olhar atentamente para isto para entender o que significa. O que, exatamente, a Bíblia está pedindo para nós fazermos?

Para responder a esta pergunta, precisamos retornar ao início, para o balteus que o Cristo pré-encarnado deu a Adão e Eva no jardim do Éden.

Quando nossos primeiros pais pecaram, eles viram que estavam nus. Até então, eles usufruíam da perfeita inocência. Portanto, o que aconteceu para fazer a nudez deles parecer vergonhosa aos seus próprios olhos? O senso de vergonha foi tão grande que ambos tentaram cobrir sua região genital: "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais." [Gênesis 3:7].

Tendo rejeitado a perfeita proteção de Deus, que era deles perpetuamente pela obediência, eles sabiam que estavam agora expostos ao poder de Satanás. Eles sentiram essa exposição, essa vulnerabilidade, de forma mais aguda em suas regiões genitais.

Eles sentiram confiança e conforto, não nos aventais, ou cobertura, para os genitais que eles fizeram para si mesmos, mas no balteus que Cristo mais tarde fez para eles com pele de animais ("túnica de peles"). A palavra hebraica para túnica neste contexto pode também significar uma roupa de baixo.

Observe o que está acontecendo aqui. Eles tinham destruído a si mesmos e eles sabiam disso. Mas, Cristo apiedou-se deles e forneceu uma cobertura para cada um deles. Essas túnicas de peles de animais, ou cintos de couro, eram um símbolo visível da proteção que eles teriam dali para frente em Cristo. Dificilmente eles teriam imaginado como esses preciosos cintos também falavam de uma solução permanente para o problema deles, uma solução que somente se tornaria manifesta na plenitude dos tempos.

Eles encontraram misericórdia em seu relacionamento pessoal com o Cristo pré-encarnado. Esta é a verdade sobre a qual Paulo fala, a verdade do balteus.

Compreendendo a Verdade Básica

Quando um cristão caminha diariamente em um relacionamento pessoal com Cristo, seus lombos estão cingidos com a verdade. O Maligno não será capaz de atacar sua mente e coração com imagens lascivas e dardos da carnalidade. O fiel cristão experimentado é capaz de empurrar isso para o lado e continuar a avançar, de forma muito parecida como alguém dá um peteleco em um inseto que pousar na manga de sua camisa.

Não tenha dúvida — as fantasias sexuais são uma arma poderosa no arsenal de Satanás! Os príncipes das trevas deste mundo as usam há milênios para enlaçar suas vítimas e mantê-las em servidão.

Considere o poder corruptor da pornografia. O Maligno conseguiu ser bem-sucedido em tornar disponível por meio dos telefones celulares inteligentes cenas de profunda depravação, que até as crianças pequenas podem acessar. O mesmo sistema perverso está sendo usado por aparentemente respeitáveis adultos para comprar vídeos e imagens on-line que são tão angustiantes e tão extremas que somente satanistas amantes do pecado poderiam produzir.

A normalização da pornografia é um importante sinal do fim dos tempos. Quando adultos, aparentemente sensatos, permitem que suas mentes sejam invadidas deste modo, eles perdem a capacidade de controlar seus pensamentos mais íntimos. Uma pesquisa de opinião recente na Grã-Bretanha revelou que dois de cada três adultos assistem pornografia, pelo menos uma vez por semana. Muitos desses adquiriram este hábito antes dos 12 anos. Cerca de um terço de todos aqueles que assistem pornografia, a maioria dos quais tem menos de trinta anos, está viciada em uma variedade que inclui violência, sadismo e atividades sexuais perversas. [The Sunday Times, 11/8/2019].

A corrupção da sexualidade normal é central para a estratégia que o Maligno está usando para escravizar a humanidade. Ela está sendo usada como uma arma sobrenatural para atacar o indivíduo e derrubar suas defesas. É por isto que, como cristãos, precisamos compreender que nós, também, somos vulneráveis a esses ataques, a não ser que tomemos medidas para repeli-las. Somente o cinturão, ou balteus, da verdade pode nos dar a proteção que necessitamos. Ele é nada menos que nossa proximidade diária com Cristo, um relacionamento pessoal e um local especial onde o poder de Satanás não tem efeito algum.

No ano de 2018, uma pesquisa revelou que 70% dos pastores da mocidade cristã nos EUA teve pelo menos um adolecente que veio até eles, nos 12 meses anteriores, para buscar ajuda para se livrar do vício da pornografia. Dado que aqueles que procuram ajuda são geralmente uma fração daqueles que necessitam dela, essa estatística é profundamente perturbadora. Mas, ainda há mais. Cerca de dois terços dos homens que frequentam as igrejas admitem assistir pornografia regularmente. O número correspondente para os pastores é 50%. Sim, metade dos pastores nos EUA assiste pornografia regularmente.

Não temos razão para acreditar que essas estatísticas sejam inexatas. Embora possa interessar aos inimigos do Cristianismo exagerar a extensão do problema, não há como negar que o problema existe e que está se tornando pior. Os próprios pastores — metade dos quais assiste pornografia — também já expressaram suas preocupações. Aproximadamente três de cada cinco dizem que um vício em pornografia é o problema mais danoso que afeta suas congregações.

Poderíamos falar muito mais sobre o balteus e o papel que ele exerce em nos manter firmes no caminho reto e estreito. Para aqueles que são nascidos de novo, a verdade não é uma abstração elevada, ou até um corpo de conhecimentos, mas um relacionamento vivo com o Filho de Deus. É por meio do balteus que somos capazes de utilizar as outras partes da armadura que Deus nos fornece.

A Couraça da Justiça

O segundo item mencionado por Paulo em sua carta aos Efésios é a couraça da justiça. Isto corresponde ao cuirass, usada por um soldado romano, uma capa protetora de metal, ou chapas metálicas conectadas, que cobria o peito, as costas e os ombros. Como ela é chamada de couraça, alguns erroneamente assumiram que ela cobre somente a parte frontal do torso, mas isto não é correto. Paulo está falando de um cuirass, que é formado tanto por uma proteção frontal quanto por uma proteção para as costas também.

A justiça da qual ele fala não é a justiça imputada que recebemos de Cristo, como muitos alegam. Sabemos que esse não pode ser o caso, pois nossa justiça imputada não é algo que podemos colocar e remover. Ao revés, Paulo está se referindo à justiça dos santos, a determinação deles de caminhar em completa obediência à Palavra do Senhor.

Como Jesus disse: "Se me amais, guardai os meus mandamentos." [João 14:15]. Deveria ser óbvio, a partir disso, que nos esforçaremos continuamente em guardar os mandamentos de Cristo somente por que nós o amamos. E isso nos traz novamente para o balteus, nosso relacionamento diário com Jesus.

A conexão entre obediência e a justiça "prática" que acumulamos por meio da obediência é evidenciada em Salmos 18, em que Davi diz:

"Recompensou-me o SENHOR conforme a minha justiça, retribuiu-me conforme a pureza das minhas mãos. Porque guardei os caminhos do SENHOR, e não me apartei impiamente do meu Deus. Porque todos os seus juízos estavam diante de mim, e não rejeitei os seus estatutos." [Salmos 18:20-22].

Este Salmo nos dá maior compreensão da armadura de Deus que Davi, que foi um grande guerreiro, foi obrigado a testar até o limite durante sua jornada nas regiões áridas. Além da couraça da justiça, ele também se refere ao escudo da salvação e às sandálias — que não escorregavam:

"Ensina as minhas mãos para a guerra, de sorte que os meus braços quebraram um arco de cobre. Também me deste o escudo da tua salvação; a tua mão direita me susteve, e a tua mansidão me engrandeceu. Alargaste os meus passos debaixo de mim, de maneira que os meus artelhos não vacilaram." [Salmos 18:34-36].

É muito provável que Paulo tivesse esse salmo em mente quando escreveu sobre a armadura de Deus. Ele também pode ter se lembrado da seguinte passagem em Isaías, que se refere a Cristo em Sua segunda vinda:

"Pois vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na sua cabeça, e por vestidura pôs sobre si vestes de vingança, e cobriu-se de zelo, como de um manto. Conforme forem as obras deles, assim será a sua retribuição, furor aos seus adversários, e recompensa aos seus inimigos; às ilhas dará ele a sua recompensa." [Isaías 59:17-18].

Paulo se apropria dessas imagens de Isaías — a couraça da justiça e o capacete da salvação — para ilustrar a armadura usada pelo fiel cristão.

Contra o Quê a Couraça nos Protege?

Contra o quê a cuirass, ou couraça, nos protege? Sabemos que isto não está especificamente voltado a enfrentar os "dardos inflamados do Maligno", por que estes são neutralizados pelo escudo da fé (que discutiremos em breve). Se consultarmos os comentaristas, em busca de orientação nesta matéria, encontraremos diversas opiniões, mas poucos tratam o assunto tão claramente quanto MacLaren: "Um hábito de conduta justa é ele mesmo uma defesa contra a tentação. Campos não cultivados produzem mato em abundância. A ferramenta que não é usada enferruja... O manto da justiça guardará o coração de forma tão eficaz quanto uma túnica com botões metálicos."

Não estamos falando aqui de salvação por meio de obras, ou qualquer coisa assim. Ao contrário, estamos falando de um desejo firme de fazer o que é agradável a Cristo. Nossa obediência nos protege da tentação e torna extremamente difícil para o Maligno explorar a fraqueza na nossa natureza caída.

Este não é um assunto sobre o qual as pessoas gostam de ouvir. Quando foi a última vez que você ouviu um pastor pregar sobre tentação? Esta se tornou uma palavra-tabu no igreja moderna, tanto quanto pecado, inferno, a ira de Deus e os ardis de Satanás.

Em um mundo perverso e rebelde, precisamos da armadura de Deus para nossa proteção. Além disso, precisamos dela cada vez mais, pois números crescentes daqueles que estão ao nosso redor, no local de trabalho e em toda a parte, estão sendo capturados pelas distrações de Satanás.

Sandálias Espirituais

O Maligno tem muitos modos de testar nossa determinação. Alguns de seus ataques têm o objetivo de pegar os incautos e nos tirar do ponto de equilíbrio. É aqui onde nossa terceira peça de armadura entra em jogo: "E calçados os pés na preparação do evangelho da paz." [Efésios 6:15].

A palavra "preparação" indica um processo que já ocorreu, enquanto o "evangelho da paz" é nada menos que a alegria que temos em nossa salvação. Um fiel cristão que tem essa alegria — e que aprendeu por meio da experiência (sua "preparação") a permancer estável dentro disso — não é facilmente tirado do ponto de equilíbrio. Grandes tempestades poderão vir sobre ele; todavia, com os pés seguros como um mocó (um roedor que vive no meio dos rochedos) ele sempre parece encontrar um local seguro para ficar. Estes são os cristãos maravilhosos que vivem firmes na Rocha!

Ah, o quanto precisamos de pessoas assim hoje!

Eles fielmente usam o caligae, as sandálias com proteção para os dedos dos pés, a que Paulo se refere. O mérito delas está na parte que não podemos ver, a sola rígida, reforçada, antiderrapante, que permite que o usuário mantenha seu equilíbrio e mobilidade em qualquer terreno escorregadio.

A princípio, este item pode parecer ser de valor protetor desprezível, mas era altamente valorizado pelos romanos. Quando o general romano Germânico estava em campanha militar na Alemanha, seu filho pequeno, de apenas três anos, tornou-se muito querido no meio da tropa. Os soldados o vestiram com um traje miniatura de um soldado e o chamavam de "Calígula", o que significa "botinha". Isto mostra que os soldados valorizavam grandemente suas botas, como qualquer outro item em sua armadura. É interessante que Calígula tornou-se imperador no ano 37, e ficou conhecido pelo seu apelido durante a maior parte de sua vida.

O Mocó

"Os coelhos são um povo débil; e contudo, põem a sua casa na rocha." [Provérbios 30:26].

"O mocó (Kerodon rupestris) é um roedor da família Caviidae, encontrado em áreas descampadas e pedregosas da Caatinga. Tal roedor possui o tamanho pouco maior do que o de um preá (Cavia sp.), cauda ausente ou vestigial e pelagem cinzenta, passando a maior parte do tempo em tocas... Para aproximar-se desse roedor, é preciso se locomover em sentido contrário ao do vento, a fim de não ser denunciado por seu olfato privilegiado. Nos dias nublados, o mocó sai para se alimentar de manhã e à tarde. Nos dias claros, abandona sua toca apenas à noite. Alimenta-se de cascas de árvores, brotos, folhas e frutos. Tal roedor é também domesticável." [Fonte: Wikipedia].

O Escudo da Fé

Em seguida, temos o escudo da fé:

"Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno." [Efésios 6:16].

Isto corresponde ao escudo, ou scutum, carregado por todo soldado romano. Ao contrário do escudo que aparece em muitas ilustrações, o scutum era longo e retangular. Quando os soldados marchavam ombro-a-ombro para a batalha, seus escudos podiam ser usados para formar uma barreira para protegê-los dos projéteis lançados pelo inimigo.

A barreira era ainda mais eficaz se aqueles que estavam nas linhas de trás posicionassem seus escudos acima de suas cabeças. Conhecido como testudo, ou jabuti, essa cobertura rígida lhes permitia chegar perto o suficiente de seus adversários para depois iniciar um combate decisivo homem-a-homem.

Os soldados praticavam essa formação muitas e muitas vezes, até que soubessem exatamente como manter o testudo, ao mesmo tempo que avançavam rapidamente sob uma chuva de projéteis. Feito de camadas de madeira, o testudo poderia resistir à força de uma lança, até mesmo uma lança com a ponta em chamas.

Apagamos os "dardos inflamados" lançados por Satanás e suas hordas de demônios confiando completamente na proteção que Deus nos oferece. Quando Davi escreveu sobre seu livramento das "mãos de Saul" no Salmos 18, estava falando espiritualmente sobre sua libertação das mãos de Satanás. Ele sabia que seus recursos defensivos pessoais eram risivelmente inadequados e que, sem a proteção infalível de Deus, ele teria sido feito em pedaços, não uma, mas muitas vezes.

Ele inicia dizendo:

"Eu te amarei, ó SENHOR, fortaleza minha. O SENHOR é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio." [Salmos 18:1-2].

Ele está usando estas palavras carregadas de emoção não somente para enaltecer e exaltar o Senhor, mas também para expressar — em alta voz — sua alegria incondicional por tudo que Deus fez para protegê-lo e sustentá-lo.

Quando o Senhor apareceu a Abraão, não muito tempo depois da vitória deste sobre os quatro reis, Ele se revelou ao patriarca com a seguinte surpreendente declaração: "Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, o teu grandíssimo galardão." [Gênesis 15:1].

Podemos encontrar em nossa língua palavras que sejam mais bonitas? Enquanto estamos aqui na Terra, Ele é nosso escudo. E, quando chegarmos no céu, Ele será nossa grandíssima recompensa. Não teremos dificuldade em portar o escudo da fé, se caminharmos com essa verdade pulsando em nossas veias.

Em algumas ocasiões, Jesus repreendeu Seus discípulos por não terem fé suficiente. Eles não estavam completamente sem fé, é claro, mas o pouco que eles tinham era inadequado. Podemos ver a partir disso como os fiéis cristãos podem variar grandemente em suas medidas de fé.

É uma alegria e um privilégio estar na companhia de um homem ou uma mulher de fé abundante! Os jovens cristãos se beneficiaram enormemente se tivessem contato com essas almas raras e preciosas. Uma mulher idosa e frágil, que caminhou com o Senhor durante toda sua vida, é uma vista desconcertante para o Maligno. Ele sabe que a fé dela a torna uma verdadeira guerreira de Cristo. Embora ela possa parecer fraca em termos humanos, suas orações representam uma ameaça real aos planos e ardis sagazes do Maligno.

O Capacete da Salvação

Paulo referencia o capacete da salvação. A palavra para capacete em grego é perikephalaia, que significa "dar volta na cabeça", uma descrição apropriada de seu propósito protetor. Os soldados romanos chamavam isto de galea.

A armadura de Deus oferece duas camadas de proteção, não uma. O galea, ou capacete, está blindando nossa cabeça, mesmo enquanto nosso escudo está protegendo outra parte do corpo.

Espiritualmente falando, o galea aponta para a coroa de glória que é inteiramente o resultado da salvação. Esse dom foi obtido a nosso favor pelo Cordeiro. Usando o galea, nós nos colocamos sob Sua proteção e — mais importante de tudo — declaramos a todos que estamos marchando na legião do Cordeiro.

Quando fazemos isso, mostramos que estamos firmes na Sua força, não na nossa. Se pudéssemos colocar uma divisa no galea, ela seria "Sem mim nada podeis fazer." [João 15:5].

A Espada do Espírito

Isto nos traz até "a espada do Espírito, que é a palavra de Deus." [Efésios 6:17]. A palavra grega para "espada" que Paulo usou foi machaira, que corresponde ao gladius curto carregado por um soldado romano. Ela era voltada para o combate homem-a-homem em um espaço confinado, onde somente um movimento de fincar era possível.

O autor do livro de Hebreus, muito provavelmente o próprio Paulo, também compara a Palavra de Deus a uma espada:

"Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração." [Hebreus 4:12].

Este verso significa a separação do impuro do santo, o não-regenerado do regenerado, e o terreal do celestial. A Palavra de Deus também pode produzir uma separação limpa entre nossa alma (ou mente) e um espírito das trevas enviado pelo Maligno. Esta é a interpretação principal que Paulo tinha em mente em Efésios 6:17.

Alguns professores falam da própria Bíblia como nossa espada, porém isso é enganoso. Ao revés, é nosso conhecimento e compreensão da Palavra de Deus que constitui uma espada.

Muitos fiéis cristãos hoje, alimentados principalmente por leite, têm pouca ou nenhuma ideia sobre como usar sua espada. Alguns nem conseguem erguê-la. Por outro lado, eles amam (literalmente) o escudo deles, por que isto lhes dá um lugar para se esconder. Não é necessário ficar em pé para usar o escudo; é possível ficar agachado abaixo dele e esperar que o inimigo se afaste. A espada, porém, somente pode ser usada por aqueles que se mantêm em pé!

Ficamos Firmes na Força Dele, Não na Nossa

A maioria dos cristãos no Ocidente vive há tempo demais em sua própria força. Poucos estão preparados para colocar suas armaduras e permanecer firmes. Eles preferem se agachar e contemporizar do que permanecer firmes e enfrentar o Maligno.

Um cristão como este nunca pode colocar a armadura — ou vesti-la corretamente. Ele não compreende que nós NUNCA ficamos firmes em nossa própria força. Ele preferiria permanecer no lado tranquilo do Jordão, do que atravessar para o outro lado e enfrentar os cananeus gigantes.

A palavra "coragem" é encontrada vinte vezes na Bíblia. Cinco delas estão no livro de Josué. Enquanto isso, a palavra "fortalecer" é encontrada quatro vezes; duas delas, no livro de Deuteronômio, relacionam-se com Josué. Este foi o homem aprovado por Deus para liderar os israelitas a atravessar o Jordão, entrar na Terra Prometida e conquistar sete nações poderosas e bem-armadas:

"Josué, filho de Num, que está diante de ti, ele ali entrará; fortalece-o, porque ele a fará herdar a Israel." [Deuteronômio 1:38].

"Manda, pois, a Josué, e anima-o, e fortalece-o; porque ele passará adiante deste povo, e o fará possuir a terra que verás." [Deuteronômio 3:28].

Todo cristão nascido de novo é um guerreiro e um servo de Cristo, exatamente como Josué. A única diferença é que não somos instruídos a destruir os incrédulos que estão ao nosso redor, mas a viver em paz com eles e defender nosso terreno.

Os cristãos hoje enfocam muito a primeira parte — viver em paz com seus vizinhos e virtualmente ignoram a segunda parte. Pior ainda, eles fazem uma concessão após a outra, de modo a apaziguar o Maligno, como se a paz a qualquer preço fosse uma marca de retidão!

Como dizemos em nosso parágrafo de abertura, a grande marca da igreja visível hoje não é retidão, mas sua timidez.

Poucos pastores e pregadores estão vestidos com a armadura de Deus! Eles fogem das controvérsias e confrontações o mais rápido que seus pezinhos conseguem correr.

Alguém poderia perguntar se qualquer um deles já atravessou verdadeiramente o rio Jordão.

A Armadura de Deus:

"No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes. Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça; e calçados os pés na preparação do evangelho da paz; tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos, e por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para fazer notório o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias; para que possa falar dele livremente, como me convém falar." [Efésios 6:10-20].

  1. Balteus — cinto — verdade: Ter um relacionamento pessoal com Cristo
  2. Cuirass — couraça — justiça: Ser completamente obediente à Palavra de Deus
  3. Caligae — botas — o Evangelho da paz: Viver na alegria da nossa salvação
  4. Scutum — escudo — fé: Confiar no Senhor de todo nosso coração
  5. Galea — capacete — salvação: Permanecer no triunfo do Calvário
  6. Gladius — espada — Palavra de Deus: Ter uma profunda familiaridade com a Escritura.

Conclusão

Um estudo completo da armadura de Deus está fora da abrangência deste ensaio. Nós o escrevemos principalmente para destacar a importância de Efésios 6 e mostrar exatamente o quanto ele está ausente na igreja hoje, por que os fiéis cristãos deixaram de estudá-lo.

Uma boa compreensão da armadura completa de Deus será até mais importante nestes próximos anos, à medida que os cristãos na Europa e Américas forem oprimidos e perseguidos como preconceituosos, intolerantes e de mentalidade estreita. Já podemos ver agora como os principados e potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, estão preenchendo as mentes de pessoas comuns — todas incrédulas — com um zelo pela Nova Era, ideias místicas e uma aversão correspondente à Palavra de Deus.

Provavelmente, testemunharemos uma raiva e animosidade que abalarão aqueles fiéis cristãos que sabem pouco sobre a armadura de Deus, e até menos sobre a aversão que Satanás tem pelos cristãos cheios do Espírito Santo. Os ataques virão não somente de extremistas e fanáticos, mas de lugares inesperados, de membros respeitáveis da sociedade e até daqueles que pensávamos que estariam do nosso lado nos tempos de dificuldades.

É de se esperar também que os demônios ataquem os cristãos diretamente, visando aqueles que tolamente se abriram para os fenômenos carismáticos, os sinais e maravilhas sobrenaturais e a adoração interfé, ou que adotaram técnicas de oração contemplativa, Lectio Divina e práticas místicas similares.

O Maligno usará o medo e estratagemas sedutores para atrair os fiéis cristãos para longe da Rocha! Algumas dessas incursões podem vir em nossos sonhos, de modo que precisamos orar para que nosso Pai Celestial nos proteja enquanto dormimos.

Precisamos também orar uns pelos outros, pedir que o Senhor fortaleça os santos, especialmente aqueles a quem conhecemos pessoalmente. Isto é muitíssimo importante e nunca deveria ser esquecido. Considere os versos 18-19 de Efésios 6, onde o próprio Paulo pede as orações dos santos, para que ele possa continuar a pregar com confiança "o mistério do Evangelho". Se um homem como Paulo, com seu extraordinário histórico de serviços, achou necessário fazer essa solicitação, então podemos estar CERTOS que nós também necessitamos de orações. Nunca devemos ser lentos em pedir que um fiel cristão ore por nós.

Finalmente, incentivamos nossos leitores a fazerem um estudo cuidadoso de Efésios 6:10-20. Existe muito mais nesses versos maravilhosos do que temos tempo de considerar aqui — como se fortalecer no Senhor, as astutas ciladas do diabo, o que significar lutar, a natureza dos principados e potestades, o dia mau, os dardos inflamados do Maligno, e o papel vital das orações e súplicas.

Se você estiver hesitante sobre qualquer uma destas coisas, então lembre-se das palavras de Hebreus 13:5: "Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei." Se estivermos vivendo sinceramente a verdade dessas palavras, então QUEREREMOS colocar a armadura de Deus todas as manhãs e enfrentar corajosamente aquele novo dia.

Solicitação Especial

Incentivamos os leitores frequentes a baixarem os ensaios disponíveis neste website para cópia de segurança e consulta futura. Eles poderão não estar disponíveis para sempre. Estamos entrando rapidamente em um tempo em que materiais deste tipo somente poderão ser obtidos via correio eletrônico. Os leitores que desejarem ser incluídos em uma lista para correspondência futura são bem-vindos a me contactar em jeremypauljames@gmail.com. Não é necessário fornecer o nome, apenas um endereço eletrônico.



Autor: Jeremy James, artigo em http://www.zephaniah.eu
Data da publicação: 25/2/2020
Transferido para a área pública em 7/3/2021
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/armadura.asp