Os Perigos de Lectio Divina e da Oração Contemplativa

Autor: Jeremy James, 15/10/2015.

É triste constatar que muitos cristãos professos hoje — que deveriam saber melhor — estão caindo na arapuca conhecida como lectio divina, uma antiga técnica monástica para "explorar" as Escrituras e que recentemente foi restaurada. Os praticantes afirmam que a técnica expandiu a compreensão deles da Bíblia e lhes deu uma nova e emocionante perspectiva sobre a Palavra de Deus, especialmente naquilo em que esta se aplica a eles pessoalmente. Eles dizem que a prática da lectio divina permitiu que eles se sentissem mais próximos de Deus e que tivessem um senso maior do que significa experimentar Deus.

Neste ensaio examinaremos esta antiga prática e a agenda real que está por trás de sua restauração.

O Que é Lectio Divina?

A maioria dos cristãos bem-intencionados que estão promovendo esta prática não parece conhecer sua origem e nem sempre usa a mesma terminologia quando a descrevem. Eles podem saber que ela é simplesmente um modo silencioso e reflexivo de estudar a Bíblia, normalmente em um ambiente de grupo. Em geral, eles não estão cientes que a prática tem sua origem na Igreja Católica e que sua ressurgência moderna está vinculada diretamente com o programa ecumênico mundial controlado por Roma.

Thomas Keating, um sacerdote católico romano, é uma autoridade mundial em oração contemplativa e um palestrante bem-conhecido sobre o assunto da lectio divina — ou meditatio Scripturarum, como ela é algumas vezes chamada. Por esta razão, usaremos seu trabalho de outubro de 2008 , para propósitos de referência: The Classical Monastic Practice of Lectio Divina (A Prática Monástica Clássica de Lectio Divina).

"... lectio divina não é o mesmo que ler as Escrituras para o propósito de edificação, encorajamento privado, ou para se tornar familiarizado com os muitos aspectos laterais da revelação..."

Isto deve imediatamente ser fonte de preocupação. Ele declara explicitamente que seu método, ou técnica, — que tem sido usado pelos monges na Igreja Católica Romana desde o século 4 — não é idêntico ao estudo das Escrituras para o propósito da edificação pessoal. Se esse é o caso, então ele precisa incluir um elemento que complementa ou que é um substituto para a edificação pessoal.

"... uma estrutura particular, como a que é necessária em todas as formas de oração comum, tende a limitar a espontaneidade do mover do Espírito Santo, que está no centro da prática..."

Aqui, ele identifica o elemento distinguidor no "centro da prática". Isto alegadamente fornece a "espontaneidade" que a leva para além de "todas as formas de oração comum" e permite que o praticante experimente o "mover do Espírito Santo".

Assim, de acordo com um dos principais expoentes, lectio divina é uma categoria de oração que está além de "todas as formas de oração comum", como se fosse um tipo de super-oração.

Em seguida, ele passa a descrever a técnica:

"Com algumas variações, ela geralmente ocorre do seguinte modo: Uma passagem é lida em voz alta três ou quatro vezes, seguida por dois ou três minutos de silêncio. Após cada leitura, os participantes aplicam-se interiormente ao texto em modos especificados. Após a primeira leitura, eles se tornam cientes de uma palavra ou frase. Após a segunda, eles refletem sobre a interpretação ou significado do texto. Após a terceira leitura, respondem em oração espontânea. Após a quarta leitura, eles simplesmente descansam na presença de Deus e, após um período de silêncio, aqueles que desejarem são convidados a fazerem um breve compartilhamento da fé com base no texto. Em alguns casos, há um breve compartilhamento após a terceira ou quarta leituras e período de silêncio..."

A partir dessa descrição, podemos ver que lectio divina (que traduzido do latim significa "leitura divina") é uma antiga forma de oração ou meditação em forma de oração, em que o objeto da meditação é uma "palavra ou frase" extraída das Escrituras.

De acordo com Keating, a ênfase está no silêncio, em olhar para dentro, oração espontânea, descansar na presença de Deus, mais silêncio, compartilhamento, e ainda mais silêncio.

Primeiro, precisamos observar que nunca, em parte alguma nas Escrituras, o silêncio é equiparado com a oração. Em segundo lugar, como inúmeros eruditos bíblicos já mostraram, nenhuma passagem das Escrituras pode ser divorciada de seu contexto. Keating confirma que, durante lectio divina, a exploração da "interpretação ou significado" do texto é feita sem qualquer consideração ao contexto da "palavra ou frase" selecionada. Portanto, por si mesma, ela não pode revelar o significado objetivo de qualquer passagem selecionada.

Existem diversos outros aspectos problemáticos daquilo que Keating está descrevendo. Por exemplo, o que está realmente sendo compartilhado, conhecimento ou opinião? Que papel é exercido pela imaginação da pessoa quando ela se aplica ao interior? Por que ele implica que algo que é "espontâneo" é mais espiritual do que algo que não é? E o que pode ele querer dizer pela injunção de "simplesmente descansar na presença de Deus"? Ele parece estar implicando que lectio divina é uma técnica que pode levar o praticante até a presença real de Deus.

Estas questões dão maiores razões para preocupação.

Os Quatro Estágios, ou "Momentos"

Em seguida, Keating apresenta uma descrição mais detalhada das etapas usadas na assim-chamada versão "escolástica" de lectio divina, uma estrutura que ele diz que está em menor evidência na versão "monástica". Aparentemente, a versão "escolástica" foi formulada no século 12 por um monge católico, o "angélico Guido", em sua obra The Ladder of Monks (A Escada dos Monges), enquanto a popularização (embora não a invenção) da versão monástica é atribuída ao místico e asceta João Cassiano, no fim do século 4. Cassiano foi um grande favorito do moderno monge trapista Thomas Merton, que, por sua vez, foi grandemente elogiado pelo papa Francisco quando ele discursou diante das duas casas do Congresso dos EUA, em Washington, em setembro de 2015.

Keating: "A forma escolástica divide o processo em estágios, ou etapas, em um padrão hierárquico. Após a leitura de uma passagem das Escrituras, a primera etapa era permitir que uma frase ou palavra se destacasse no texto e enfocar nela. Isto era chamado lectio. A segunda era a parte reflexiva, considerando as palavras do texto sagrado e era chamado de meditatio (meditação). O mover espontâneio da vontade em resposta a essas reflexões era chamado de oratio (oração afetiva). À medida que essas reflexões e atos de vontade se simplificavam, o indivíduo movia-se de tempos em tempos para um estado de descansar na presença de Deus, e isso era chamado de contemplatio (contemplação)..."

A partir disso, podemos ver que lectio divina é mais do que apenas uma técnica para compreender a Bíblia — uma tarefa para a qual ela está totalmente mal-equipada — mas um ponto de entrada, ou a porta de um alçapão, que leva ao terreno da prática monástica católica e ao silêncio místico.

Lectio divina existe há vários séculos por que tem servido bem a Roma. Como um dos pilares do monasticismo católico, ela tem exercido um papel vital em promover e cristalizar as atitudes mentais que moldaram a Igreja Católica e fizeram dela uma inimiga mortal da verdade bíblica. Ela permitiu que seus teólogos iminentes encontrassem a "interpretação ou significado" na Palavra de Deus que serve aos objetivos de Roma e a minimizar, alegorizar, ou simplesmente colocar de lado as inúmeras passagens que desafiam ou que estão em conflito com suas doutrinas.

Embora a técnica tenha alcançado popularidade por meio dos escritos de João Cassiano e, mais tarde, por meio de sua incorporação na Regra de São Bento — que tornou sua prática um aspecto fundamental da tradição monástica europeia — a técnica propriamente foi inventada por um egípcio chamado Orígenes, que ensinou diversas doutrinas heréticas, incluindo um método alegórico de interpretação da Bíblia. Isto estava fundamentado em sua convicção que a Palavra de Deus precisa conter camadas adicionais de significados por baixo do texto literal e que essas camadas — expressas figurativamente em metáforas, símbolos e tipologia mística — poderiam ser acessadas por meio do método alegórico. Isso permitiu que ele — e seus sucessores dentro da Igreja Católica Romana — expandissem o significado das Escrituras além do que Deus tinha claramente objetivado e até mesmo encontrar justificativa bíblica para conceitos e doutrinas tirados das filosofias grega e gnóstica.

Portanto, não é surpresa que Orígenes deva ter inventado lectio divina para alcançar essa finalidade. Embora isto não contribuiu diretamente para a formulação da teologia católica, ela induziu as comunidades monástica e eclesiástica em toda a Igreja Católica a aceitarem que as Escrituras tinham camadas de significado além do significado básico e literal e que essas camadas poderiam ser acessadas por meio da oração meditativa, do silêncio contemplativo e do uso correto da imaginação por parte do indivíduo.

Isto também teve uma consequência não-intencional, no que se refere a Orígenes, em que levava seus praticantes a acreditarem que as Escrituras tinham tanto um significado objetivo e um subjetivo, e que este último poderia ser usado para guiar e dirigir a vida pessoal de um indivíduo.

Aqui está como Keating descreve este processo místico:

"No modo monástico de fazer lectio divina, ouvimos como Deus está se dirigindo a nós em um determinado texto das Escrituras. A partir dessa perspectiva, não existem estágios, escadas ou passos em lectio divina, mas, ao contrário, existem quatro momentos ao longo da circunferência de um círculo. Todos os momentos do círculo estão unidos um ao outro em um padrão horizontal e interrelacionado, bem como ao centro, que é o Espírito de Deus falando a nós por meio do texto e em nossos corações..."

Infelizmente, esse tipo de tolice tem grande apelo em uma época em que os cristãos têm muito pouco conhecimento da Palavra de Deus. Em vez de se envolverem na leitura e estudo diário das Escrituras, acompanhados de oração, eles preferem fazer uma rápida imersão no texto e ver o que o Espírito Santo está lhes dizendo. Eles são dispensados da necessidade de estudar a Bíblia em uma forma sistemática e se tornarem familiarizados com sua verdade imutável — com conhecimento, discernimento e compreensão. Em vez disso, usando lectio divina, eles têm somente de enfocar um verso específico (ou até mesmo uma única palavra) conforme o "espírito" lhes dirigir e, voilá, toda a sabedoria do alto e toda a compreensão que eles necessitam é derramada sobre suas almas. Como Keating diz, quando isto acontece, "o Espírito de Deus está falando conosco por meio do texto e em nossos corações."

Por razões que são difícieis de compreender, muitos cristãos professos hoje passaram a acreditar que, se seguirem a "circunferência de um círculo" em sua imaginação e entrarem nos "quatro momentos" no centro em um "padrão interrelacionado", eles ouvirão a voz de Deus falando aos seus corações. É difícil aceitar que qualquer pessoa que faça isso tenha encontrado Cristo e tnha nascido de novo — ou que tenha lido a Bíblia pelo menos uma vez de capa a capa.

Lectio Divina Supostamente "Expande" a Consciência da Pessoa

Keating então diz:

"Eles se sentavam com aquela sentença ou frase em suas mentes, sem pensar nos estágios, ou sem seguir um esquema pré-determinado, mas apenas ouvindo, repetindo lentamente o mesmo texto curto, repetindo e repetindo. Essa disposição receptiva habilitava o Espírito Santo a expandir a capacidade deles de ouvir. À medida que ouviam, eles podiam perceber uma nova profundidade no texto, ou um significado ampliado..."

Aqui, somos levados a um domínio que deveria alarmar qualquer um que acredita sinceramente na verdade e suficiência da Palavra de Deus. O praticante deve repetir uma palavra ou frase incontáveis vezes em sua mente (ou, talvez, em voz suavemente audível) até que o significado da palavra ou frase se expanda. Ele não deve analisá-la, ou seguir "um esquema pré-determinado", mas deve entrar em um estado receptivo e apenas ouvir.

Qualquer um que esteja familiarizado com yôga, meditação oriental, ou com o processo de sugestão hipnótica reconhecerá o que está acontecendo aqui. O praticante está sendo convidado a esvaziar sua mente, colocar de lado suas faculdades críticas e aceitar como espiritualmente legítimas quaisquer imagens ou ideias que apareçam espontaneamente em sua mente.

Quanto mais uma pessoa praticar lectio divina, mais ela será capaz de entrar nesse estado "receptivo" e receber essas impressões espontâneas. Assim, muitos praticantes de lectio divina tornam-se viciados nessa prática mística, acreditando que encontraram um novo modo de descobrir e explorar a verdade bíblica. Alguns até acreditam que ela lhes permite entrar na presença de Deus, ou experimentar a presença de Deus.

Aqui está como Keating descreve a última:

"À medida que essa atitude de ouvinte se estabiliza, eles podem experimentar momentos de oração contemplativa no senso mais estrito, em que eles estão apenas presentes para Deus, ou silenciosamente engolfados na presença divina. Nesta situação, a capacidade de atenção da pessoa a Deus se expande na pura consciência da presença divina. Neste momento, rompemos o véu dos nossos próprios modos de pensar. A palavra externa de Deus nas Escrituras nos desperta para a Palavra de Deus interior, no íntimo de nosso ser..."

O orgulho implícito nesta passagem é desconcertante. Um cristão nascido de novo pode aqui sentir o fedor de uma heresia, porém muitos que professam serem cristãos estão iludidos pela possibilidade de serem "engolfados na presença divina", seja por meio de lectio divina, ou por algum outro modo.

Este não é um objetivo cristão e não tem absolutamente nada que ver com a Palavra de Deus!

Como posso ter certeza? Por que estudei a Palavra de Deus e posso reconhecer a diferença entre a verdade bíblica e o engodo místico. A Palavra de Deus equipa o fiel com a capacidade de discernir a diferença. Todo fiel cristão! Assim, se um cristão professo está incapacitado de distinguir a diferença, então ele não mais considera a Bíblia como a única, suficiente e inerrante Palavra de Deus.

Esta pode parecer uma avaliação severa, mas, infelizmente, é neste ponto que estamos hoje. Um grande número de cristãos professos tem uma compreensão vaga e inconsistente da Palavra de Deus. Eles pensam que é bíblico querer ser "engolfado na presença divina". Não passa pela cabeça deles que estão cobiçando uma experiência mística e peregrinando cegamente por um território em que Satanás está e que isto é perigosíssimo.

Um cristão verdadeiro aplica em sua vida as palavras do salmista: "Aguardo ao SENHOR; a minha alma o aguarda, e espero na sua palavra." [Salmos 130:5]. Por outro lado, um cristão falso, quer um encontro pessoal com Deus e quer isto agora. Ele ouviu dizer que os místicos contemplativos, um movimento monástico, ou algum outro grupo eleito, encontrou um atalho para Deus e que está tendo "experiências" e "obtendo resultados" — e passa a desejar aquilo que tolamente acredita que eles têm.

Qualquer um que queira viver na "pura consciência da presença divina" (como Keating descreve) está abrindo uma porta para o auto-engano. O Maligno pegará esse desejo e construirá com base nele, utilizando todo tipo de estratagema que estiver à sua disposição — sonhos lúcidos, visões proféticas, coincidências impressionantes, clarões de luz, compreensões desarmadoras, períodos de exultação — para convencer o praticante que Deus está agora trabalhando em sua vida de um modo novo e especial. Ele pode fazer iso porque o praticante lhe deu permissão.

Somente de Deus?

Keating tenta definir essas mudanças como algo que pode se originar somente com Deus — mas ele está enganado!

"Nossa conscientização se expande sem que tenhamos feito coisa alguma, exceto permitir que o Espírito atue. É uma permuta de coração a coração, com Cristo..."

No momento que uma pessoa desliga sua mente e convida uma força sobrenatural para trabalhar em sua vida, ela não tem meios de saber que tipo de "espírito" responderá ao seu convite. Os praticantes ingenuamente assumem que, como eles são cristãos, o único "espírito" que pode entrar em suas vidas é o Espírito Santo. Todavia, eles se esquecem que existem duas outras possibilidades:

A primeira é o espírito de seu próprio ser. O homem é um ser tripartite — corpo, alma e espírito. Podemos ser facilmente enganados pelos nossos próprios desejos e vãs expectativas. Nossa natureza caída deseja ansiosamente experiências e precisa ser restringida. No momento em que confiamos em nosso coração para nos guiar, entramos em uma espiral descendente de autodestruição. Como Deus adverte: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" [Jeremias 17:9].

A segunda possibilidade e, facilmente, a mais perigosa, é o espírito dos anjos caídos. Satanás tem o poder de apresentar uma ampla variedade de experiências "espirituais". Muitos já caíram vítimas de suas atrações, aqueles estados emocionais suaves e momentos de êxtase — frequentemente de curta duração — que fazem o praticante retornar, desejando receber mais. Em pouco tempo, sua vida desvia-se para longe da Palavra de Deus e entra em um mundo em que seus alicerces espirituais estão firmados principalmente sobre a imaginação, intuição, sentimentos, sinais e maravilhas — para não mencionar sua consciência expandida!

O misticismo de lectio divina é revelado de forma descarada por Keating em diversas afirmações flagrantemente pagãs perto do fim de seu texto:

"É um movimento de conversação para a comunhão. Ela também nos permite expressar nossa profunda experiência espiritual de união com Deus em palavras ou símbolos que são apropriados... Na oração contemplativa, estamos em toque com a fonte de toda a criação; daí, transcendemos a nós mesmos e nossas cosmovisões limitadas. Como resultado, nos sentimos como um só com as outras pessoas e desfrutamos de um senso de pertencer ao universo... A Divindade começa a habitar em nós corporalmente em proporção à nossa capacidade de recebê-la, à medida que crescemos em união com a Palavra Eterna. Este processo precisa ser alimentado tanto pelo silêncio interior da oração contemplativa e cultivado por lectio divina. (no sentido de ouvir)."

Estas palavras poderiam facilmente ter sido escritas por um yogi hindu! Livretos gnósticos e de Nova Era estão repletos de expressões como "nossa profunda experiência espiritual de união com Deus", "em toque com a fonte de toda a criação", "transcendemos a nós mesmos e nossas cosmovisões limitadas", "nós nos sentimos em união com outras pessoas e desfrutamos de uma sensação de pertencer ao universo", "a divindade começa a habitar em nós corporalmente", e "alimentados ... pelo silêncio interior".

Esta não é apenas uma forma alternativa ou falsa de Cristianismo, mas um ataque profundamente subversivo ao verdadeiro Cristianismo. É uma perversão sagaz da Santa Palavra de Deus. É misticismo oriental mascarado como verdade bíblica. É também catolicismo romano de uma forma muito tortuosa e enganosa.

Fique advertido — não existe uma forma "segura" de lectio divina. Ela não pode ser divorciada de suas raízes místicas ou de seu contexto experimental. Lectio divina solapa e distorce a Palavra de Deus; ela abre os praticantes para a falsa premissa da verdade subjetiva; ela explora o desejo humano e carnal por "experiências"; retrata a imaginação como uma possível fonte de inspiração divina; reforça a falsa crença humana que Deus pode ser contactado por meio do uso de técnicas; encoraja os praticantes a entrarem em um estado alterado de consciência, em que o discernimento e a sobriedade são suspensos e as impressões mentais espontâneas são aceitas como mensagens do Espírito Santo.

Seria difícil desenvolver um método ou técnica de igual simplicidade que pudesse fornecer o mesmo tipo de veneno. "Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia." [Tiago 3:5b].

O Endosso Oficial Papal de Lectio Divina

Alguns poderão ver lectio divina como uma atividade puramente monástica com pouca relevância até mesmo para os católicos, mas, significativamente, este não é o caso. O Concílio Vaticano II (de 1965) tirou essa técnica da relativa obscuridade e a colocou no centro da prática católica contemporânea. Roma continua a promovê-la, não somente entre os católicos, mas também entre os assim-chamados "irmãos separados" (outro termo do Vaticano para "protestantes").

Os arquitetos da vindoura religião do mundo unificado reconheceram que as diferenças doutrinárias continuariam a colocar barreiras substanciais entre as várias denominações e grupos religiosos. Além disso, eles reconheceram que seria mais fácil reduzir a importância reconhecida da doutrina do que coagir todos a aceitarem o mesmo corpo de doutrinas. Para fazer isso, eles teriam de convencer as massas que a mesma verdade era comum para toda a humanidade, que ela se situa além da doutrina, e que ela tinha de ser experimentada. É por isto que o misticismo exerce um papel tão importante na estratégia global deles. Eles sabem que se conseguirem que uma proporção significativa de cristãos professos substituam a oração pela meditação — principalmente confundindo as duas — os cristãos aceitarão que a verdade bíblica é de certa forma pessoal e subjetiva. Isto diminuirá grandemente a importância da doutrina e estimulará um desejo por experiências interiores e comunicação direta e pessoal com Deus. Os místicos serão retratados como santos exemplares, a quem o restante da humanidade deveria emular.

Lectio divina é central nesta estratégia.

Aqui está como o papa Bento 16 descreveu a importância de lectio divina em um congresso internacional de cardeais e bispos católicos em 2005:

"Se for eficazmente promovida, essa prática trará para a Igreja — estou convencido disto — uma nova primavera espiritual. Como um ponto forte de ministério bíblico, lectio divina deveria, portanto, ser cada vez mais encorajada, também pelo uso de novos métodos, cuidadosamente planejados e em sincronia com os tempos." — papa Bento 16, Sobre a Constituição Dogmática Dei Verbum, 16 de setembro de 2005.

Observe a intenção deles de encontrar novos modos de propagar lectio divina! Esses modos serão "cuidadosamente planejados e em sintonia com os tempos".

O clero católico também exercerá um papel importante em propagar a prática de lectio divina:

"Aqueles que aspiram o sacerdócio ministerial são chamados para um relacionamento pessoal profundo com a palavra de Deus, particularmente em lectio divina, de modo que esse relacionamento, por sua vez, alimentará a vocação deles." — papa Bento 16, Exortação Apostólica Verbum Domini, 30 de setembro de 2010.

O papa também reconheceu a natureza fundamentalmente idólatra de lectio divina quando a vinculou com a "Mãe de Deus":

"Faremos bem também em nos lembrar que o processo de lectio divina não está concluído até que ele chegue à ação (actio), o que move o fiel a tornar sua vida um dom para os outros na caridade. Encontramos a síntese suprema e a realização desse processo na Mãe de Deus." — papa Bento 16, Exortação Apostólica Verbum Domini, 30 de setembro de 2010.

As Duas Armas Poderosas de um Cristão Nascido de Novo

Como já escrevi muitas vezes em outros ensaios, os cristãos nascidos de novo têm somente duas armas, mas elas são poderosas. São elas a oração de arrependimento e o estudo bíblico diligente. Satanás teme ambos e está fazendo tudo o que pode para reduzir o uso deles. Ele pode não ser capaz de fazer os cristãos deixarem de orar, mas pode fazê-los orar de uma forma errada. Igualmente, ele talvez não consiga impedir os cristãos de lerem a Bíblia, mas pode fazer com que a leiam de um modo errado. E lectio divina permite que ele consiga as duas coisas!

A Igreja Católica Romana está na vanguarda de seu plano de desarmar os cristãos verdadeiros. Ela está trabalhando silenciosamente, mas com grande determinação para propagar lectio divina e fazer com que o maior número possível de cristãos pratiquem a meditação diária, para esvaziar suas mentes, para ouvir seus corações e para repetir uma palavra ou frase das Escrituras indefinidamente, na crença insana que eles estão estudando a Palavra de Deus.

A estratégia do Vaticano é vista claramente no trabalho de Renovaré, um dos muitos grupos e movimentos que promovem a oração contemplativa. Todos esses grupos são ecumênicos em sua natureza, cada um trabalhando de seu próprio modo para trazer todas as ramificações do "Cristianismo" para baixo do guarda-chuva da Igreja Católica. Renovaré, que significa "renovar espiritualmente", foi fundado pelo teólogo quacre Richard Foster. Ele é intensamente ecumênico e profundamente comprometido com aquilo que chama de "formação espiritual". Embora professe ser não-denominacional, ele é pouco mais do que um porta-voz para a Igreja Católica Romana. Por exemplo, a versão Renovaré da Bíblia inclui os livros apócrifos, trata os capítulos iniciais da Bíblia como mitologia, nega o conteúdo profético do livro de Daniel e endossa a Teologia da Substituição (que rejeita qualquer papel futuro para Israel no plano de Deus para a humanidade).

O ímpeto para fundar Renovaré veio do sucesso de livro de Foster, intitulado Celebração da Disciplina: O Caminho para o Crescimento Espiritual, que foi publicado em 1978 e que já vendeu mais de 2 milhões de exemplares. Como esse livro tem sido grandemente elogiado por muitas figuras importantes na Igreja Católica Romana, ele pode ser considerado um procurador para aquilo que o próprio Vaticano quer que todos os cristãos professos incorporem em suas vidas. Por esta razão, precisamos examinar agora o conteúdo desse livro.

A Celebração da Disciplina, de Richard Foster

A primeira coisa que precisamos compreender sobre o livro de Foster é que ele se encaixa perfeitamente dentro da agenda do Vaticano. O fato de seu autor ser um quacre é irrelevante. O que importa é aquilo que ele diz, e ele diz virtualmente tudo o que um jesuíta diria. O livro propriamente está repleto de referências adulatórias aos místicos católicos romanos e contém materiais encontrados exclusivamente em fontes católicas. Ele se refere favoravelmente aos seguintes, frequentemente em termos elogiosos ("mestres") e, em muitos casos, com citações diretas de seus escritos:

Autor
Posição na Igreja Católica Romana
Cristão Bíblico?
Bernardo de Clairvaux
Doutor
Não
Agostinho de Hipona
Doutor
Não
Afonso de Liguori
Doutor
Não
Teresa de Ávila
Doutora
Não
João da Cruz
Doutor
Não
Catarina de Gênova
Doutora
Não
Tomás de Aquino
Doutor
Não
Francisco de Sales
Doutor
Não
Hildegarda de Bingen
Doutora
Não
Alberto Magno
Doutor
Não
Pedro de Celles
Monge
Não
Wilfrid Stinissen
Monge
Não
Thomas Merton
Monge
Não
Irmão Lourenço
Monge
Não
Bento de Núrsia
Monge
Não
Francisco de Assis
Monge
Nâo
Inácio de Loyola
Padre Jesuíta
Não
Jean-Pierre de Caussade
Padre Jesuíta
Nâo
George Maloney
Padre Jesuíta
Não
Teilhard de Chardin
Padre Jesuíta
Não
Thomas à Kempis
Monge
Não
Meister Eckhart
Monge
Não
Dominic de Guzman
Monge
Não
Augustine Baker
Monge
Não
Juliana de Norwich
Freira
Não
Catarina de Sena
Freira
Não
Evelyn Underhill
Anglo-Católica
Não
Kenneth Leech
Padre Anglo-Católico
Não
Peter Toon
Padre Anglo-Católico
Não
John S Dunne
Padre
Não
François Fénelon
Padre
Não
John Henry Newman
Padre
Não
Henri Nouwen
Padre
Não
Brennan Manning
Padre
Nâo
Richard Rolle
Místico Católico
Não
Jeanne Guyon
Mística Católica
Não
Catherine Doherty
Missionária
Não

Dado que existem 36 "doutores" da Igreja Católica Romana, Richard Foster conseguiu incluir referências ou materiais relacionados com não menos do que dez deles! A isto podem ser acrescentados diversos outros místicos e "santos" católicos romanos, incluindo os fundadores da Ordem dos Jesuítas, da Ordem dos Franciscanos e da Ordem dos Dominicanos, respectivamente. O monge trapista Thomas Merton — a quem o papa elogiou grandemente diante do Congresso dos EUA — é citado não menos do que 14 vezes.

Além disso, Foster cita diversos indivíduos, incluindo os seguintes, cujos ensinos são claramente gnósticos, místicos ou de Nova Era:

Nome
Orientação
Cristão Bíblico?
Agnes Sanford
Novo Pensamento
Não
Emmet Fox
Novo Pensamento
Não
Morton Kelsey
Professor em Notre Dame
Não
Carl Jung
Gnóstico
Não
George Fox
Quacre
Não
Isaac Pennington
Quacre
Não
Thomas Kelly
Quacre
Não
John Woolman
Quacre
Não
Elton Trueblood
Quacre
Não

A segunda coisa que precisamos ter em mente ao examinarmos Celebração da Disciplina é que o livro assume que os católicos romanos são cristãos bíblicos. O autor Foster nem sequer tenta justificar essa falsa suposição, porém toda sua tese está fundamentada na crença que as tradições e ensinos da Igreja Católica Romana são bíblicos. Pretendendo ter redescoberto uma arte espiritual que estava perdida — isto é, a arte de conversar com Deus em um nível pessoal por meio da prática adequada daquilo que Roma chama de "oração contemplativa" — Foster sugere que não existe diferença essencial entre os cristãos do primeiro século e os católicos de hoje que praticam a "oração contemplativa". Infelizmente, parece que muitos leitores evangélicos desse livro aceitaram essa afirmação gravemente enganosa.

Os "Mestres da Meditação"

No segundo capítulo da primeira edição de seu livro (1978), Foster fez uma declaração que foi removida das edições subsequentes:

"Se esperamos ultrapassar as superficialidades de nossa cultura — incluindo a cultura religiosa — devemos estar dispostos a descer aos silêncios recriadores, ao mundo interior da contemplação. Em seus escritos, todos os mestres da meditação esforçam-se por despertar-nos para o fato de que o universo é muito maior do que imaginamos, que há vastas e inexploradas regiões interiores tão reais quanto o mundo físico que tão bem conhecemos. Falam das palpitantes possibilidades de nova vida e liberdade. Chamam-nos para a aventura, para sermos pioneiros nesta fronteira do Espírito." [pág. 13].

Ele declara audaciosamente que todo o propósito da meditação, conforme ensinado pelos "mestres da meditação" é explorar os mundos mais interiores e se tornar "pioneiros" nessa nova fronteira, as "vastas e inexploradas regiões interiores". Isto não tem base bíblica alguma. O capítulo 18 do livro de Deuteronômio diz categoricamente que qualquer tentativa do homem de explorar o sobrenatural é proibida, é adivinhação pura e simples, um pecado tão sério e tão ofensivo para Deus que merece a mais severa das punições.

Foster não somente está se envolvendo com o sobrenatural, mas está ensinando uma técnica que os místicos de todas as épocas usaram para abrir a porta para o "mundo interior". Isto é Gnosticismo, não Cristianismo.

Os "mestres da meditação" que ele cita foram indivíduos perigosamente iludidos. Ele apresenta pessoas como Thomas Merton, Teresa de Ávila, João da Cruz e Inácio de Loyola como figuras nobres e de grande integridade, a quem todos os cristãos deveriam se esforçar para imitar. Mas, a realidade é que esses indivíduos abandonaram a Bíblia e, de forma vã, inventaram seus próprios sistemas de religião. Eles foram rebeldes que acharam que eram inteligentes o suficiente para contornar as restrições que o Senhor Deus impôs em Deuteronômio e em outras partes de sua Santa Palavra.

Como o apóstolo Paulo escreveu: "Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus." [Romanos 10:3].

Isto significa que eles não tiveram experiências espirituais? Absolutamente não. Ele provavelmente tiveram muitas experiências extáticas e místicas, mas nenhuma delas veio da parte de Deus. Por meio de suas personalidades fortes e seus escritos redigidos de forma engenhosa, eles conseguiram convencer muitos de seus seguidores que tinham encontrado outro caminho, um "caminho mais excelente", com Foster diz (pág. 14).

Em todo o livro, Foster repete a ideia que um cristão real é alguém que corajosamente pisa no território do sobrenatural e experimenta Deus por si mesmo. A fé não tem papel algum nisso. O caminho, ou "modo" dele é apenas uma questão de experiência:

"Como, pois, chegamos a crer em um mundo do espírito? Mediante fé cega? De maneira nenhuma. A realidade interior do mundo espiritual está ao alcance de todos quantos estão dispostos a buscá-la." [pág. 18].

Ele está ensinando salvação pelas obras, sem fé e sem Cristo. Um dos aspectos mais chocantes do livro é a extensão em que Foster ignora Cristo! Além disso, nas poucas ocasiões em que Cristo é mencionado, ele é retratado, não como a Segunda Pessoa da Santa Trindade, mas como um mestre interior, ou um guia espiritual, de forma parecida como a forma astral de um guru hindu. Em um de seus exercícios, Foster até mesmo incentiva o leitor a relaxar em um estado meditativo e visualizar a cena em que Cristo alimentou cinco mil pessoas.

"Em seguida na sua imaginação, observe a multidão partir e Jesus indo até o monte. Você fica sozinho. Você se senta sobre um rocha que está diante da água, reexperimentando os eventos daquele dia. Você fica em silêncio e após um breve período de tempo, Jesus retorna e se senta sobre uma rocha que está ali por perto. Por um tempo vocês dois estão em silêncio, olhando talvez para a superfície da água e usufruindo a presença um do outro. Após um pouco de tempo, o Senhor se volta para você e faz a seguinte pergunta: 'Que posso fazer por você?' Você então lhe diz aquilo que está em seu coração — suas necessidades, seus temores, suas esperanças. Se o choro ou outras emoções aflorarem, não as reprima." [pág. 38; tradução nossa].

Ele está sendo sério? Sim! Por mais difícil que seja para um cristão bíblico compreender, esse homem está pedindo aos seus leitores para contactarem Cristo por meio do poder da imaginação! Se você duvida disso, então considere outra passagem da edição original (1978), mas que foi omitida nas edições posteriores:

"Ao entrar na história, não como um observador passivo, mas como um participante ativo, lembre-se de que uma vez que Jesus vive no Agora Eterno e não é limitado pelo tempo, o acontecimento do passado é uma experiência viva no tempo presente para ele. Daí, você pode realmente encontrar o Cristo vivo no acontecimento, ser alcançado por sua voz e ser tocado por seu poder curador. Isto pode ser mais do que um exercício da imaginação; pode ser um autêntico confronto. Jesus Cristo realmente virá a você." [pág. 26].

Isto é muitíssimo preocupante.

E como esse "contato" é alcançado? De acordo com Foster, isto é alcançado deixando o corpo físico e viajando no seu "corpo espiritual". Novamente, a passagem relevante somente pode ser encontrada na edição de 1978:

"Pouco tempo depois há um anelo de entrar nas regiões superiores além das nuvens. Na imaginação, deixe que seu corpo espiritual, brilhante de luz, saia do corpo físico. Olhe para trás a fim de ver-se deitado na grama; acalme o corpo dizendo-lhe que você retornará em breve. Imagine o seu eu espiritual, vivo e vibrante, subindo pelas nuvens e entrando na atmosfera. Observe o seu corpo físico, a colina, e a floresta distante à medida que você deixa a terra. Entre mais e mais no espaço exterior até que nada haja, exceto a cálida presença do Criador eterno. Descanse em sua presença. Ouça silenciosamente, prevendo o imprevisto. Observe cuidadosamente qualquer instrução dada."

"Com tempo e experiência você poderá distinguir prontamente entre o mero pensamento humano que pode aflorar à mente consciente e o Verdadeiro Espírito que interiormente se move sobre o coração. Não se surpreenda se a instrução for terrivelmente prática e não conter nada do que você pensava ser espiritual". [pág. 27-28].

Os leitores que estiverem familiarizados com o fenômeno chamado "experiência fora do corpo", também conhecido como projeção astral, ou viagem da alma, reconhecerão imediatamente sobre o que Foster está falando.

O mesmo fenômeno é reverenciado tanto no Hinduísmo quanto no Budismo e é citado frequentemente na literatura ocultista. Os expoentes induzem esse estado de diversas formas, muitos deles similares aos métodos usados pelos místicos ocidenais: Entrar submissivamente em um estado de total relaxamento, tornar-se desapegado de toda a atividade sensorial, esvaziar a mente, repetir uma palavra "espiritualmente carregada" centenas de vezes, permitir que a faculdade imaginativa assuma o controle e se tornar incondicionalmente receptivo ao "espírito".

Com prática regular, o praticante deve alcançar a total dissociação do corpo físico e a entrada consciente no outro mundo.

Foster segue os métodos usados pelos místicos católicos romanos, que diferem pouco daqueles usados pelos monges hindus e budistas. Os princípios básicos são os mesmos: "A meditação cristã é uma tentativa de esvaziar a mente a fim de enchê-la." [pág. 15; edição de 1978).

O indivíduo precisa corajosamente "lançar-se no profundo" [pág. 3] e realizar esta grande aventura por si mesmo:

"... não é lógico concluir que precisamos esperar para Deus vir e nos transformar? Por mais estranho que possa parecer, a resposta é não." [pág. 7].

O objetivo é transcender a mente e abrir o coração da pessoa para a presença divina. Para esse fim, os místicos usam sua imaginação:

"Podemos descer com a mente até o coração, muito mais facilmente por meio da imaginação." [pág. 29].

Neste estágio, ele prevê uma dificuldade que sabe que todo cristão verdadeiro apresentará. E a impiedade do coração humano? ("Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" — Jeremias 17:9). Ah, mas os místicos católicos têm uma resposta para isto, uma resposta que Foster acredita que demolirá toda a oposição à sua teologia mística:

"Mas, exatamente como podemos acreditar que Deus pode tirar nossa razão (caída como ela é) e santificá-la e usá-la para seus bons propósitos, assim também acreditamos que ele possa santificar a imaginação e usá-la para seus bons propósitos." [pág. 30; ênfase no original].

Aí está como isto é feito! Deus cancela a verdade de Jeremias 17:9 — uma verdade e advertência que nos faz tremer — e santifica o coração do praticante para Seus bons propósitos.

É este tipo de hipocrisia e "duplipensar" que me faz perguntar como um cristão bíblico pode confiar em algo que esteja contido nesse livro. Com o mover de uma varinha mágica — pois isto é exatamente o que é — Foster convenientemente elimina a desgraça, pecaminosidade e sujeira da nossa condição humana caída. O praticante agora tem uma imaginação santificada e pode visualizar aquilo que agrada ao seu coração. Ele agora obteve uma licença para praticar a adivinhação, contornar as restrições bíblicas e entrar no "mundo interior".

E agora, o ponto crítico: O "fundamento normal para a vida interior" pode ser encontrado em lectio divina, ou como Foster a chama, meditatio Scripturarum:

"A meditatio Scripturarum é considerada por todos os mestres como o fundamento normal da vida interior. Ao passo que o estudo das Escrituras se concentra na exegese, a meditação das Escrituras concentra-se em internar e personalizar a passagem. A Palavra escrita torna-se uma palavra viva endereçada a você." [pág. 26; veja também a pág. 33 na edição de 2008).

Considere atentamente o que ele acabou de dizer. De acordo com os "mestres" — Thomas Merton, Teresa de Ávila, Inácio de Loyola, etc. – lectio divina fornece o fundamento necessário para a oração contemplativa. Se você quiser ser um cristão real, precisa praticar lectio divina. Isto ecoa perfeitamente aquilo que o papa Bento 16 disse: "Se promovida eficazmente, essa prática trará para a Igreja — e estou convencido disto — uma nova primavera espiritual."

Outros Elementos Bizarros no Livro de Foster

Seriam necessárias muitas páginas adicionais, além das que já dedicamos aqui, para abordar todas as outras ideias ocultistas e estranhas espalhadas em todo esse livro. O autor afirma, por exemplo, que a oração pode ser um "negócio perigoso" [1], que os cristãos devem compreender a importância de "pensar e experimentar em imagens" [2], que os sonhos podem ser "uma chave para destravar a porta para o mundo interior", [3], que "centrante" pode ser alcançada "concentrando-se na respiração" [4], que os cristãos devem praticar a cura pela imaginação "de que a luz de Cristo flui por meio de suas mãos", [5] que "o propósito das Disciplinas Espirituais é a transformação total da pessoa" [6] que na meditação "criamos o espaço emocional e espiritual que permite que Cristo construa um santuário interior no coração" [7, que a imaginação "é um instrumento poderoso na obra da oração" e "frequentemente abre a porta para a fé", [8] e que se nós "nos cercarmos com a forte luz de Cristo", ela nos "protegerá de qualquer influência que não seja de Deus" [9].

Todas essas afirmações são gnósticas em sua origem e são ensinadas extensivamente na literatura de Nova Era.

Na edição atual, ele até deixa sua máscara escorregar por um momento quando diz:

"Uma segunda vantagem do Confessionário é que a palavra de perdão é esperada e dada na absolvição. Há uma terceira vantagem no Confessionário institucionalizado, isto é, a penitência." [pág. 184-5].

Confessionário, penitência, absolvição? O que está acontecendo aqui? Claramente, além de ser um compêndio de práticas encontradas principalmente na tradição monástica ocidental, o livro dele faz uma apologia maldisfarçada das práticas do catolicismo romano.

[1] pág. 16–1978; [2] pág. 22–1978; [3] pág. 23–1978; [4] pág. 25 (ed. 1978); [5] pág. 38-39 (ed. 1978); [6] pág. 78; [7] pág. 24; [8] pág. 50; [9] pág. 37.

A Bíblia Condena Lectio Divina e Todas as Formas de Adivinhação

A prática católica conhecida como lectio divina é (1) uma forma corrompida de oração e (2) uma forma corrompida de estudo bíblico, ambas combinadas em um único exercício. Por usar a técnica da visualização para levar o praticante até a presença de Deus, ela é uma forma de adivinhação. Lembre-se que a adivinhação é qualquer atividade humana que presuma ser capaz de influenciar o sobrenatural de alguma forma. Esta pode parecer uma definição excessivamente ampla, mas é a definição bíblica.

O assim chamado mundo interior, como Foster o chama, está proibido para o homem! Esse mundo não é uma fronteira inexplorada, como Foster afirma, aguardando para o homem entrar, mas um território totalmente proibido para nós.

O homem pode fazer objeção a isto, mas ele está errado! Em nosso estado caído, somos atraídos para o sobrenatural, para o poder oculto e o conhecimento secreto do assim chamado mundo interior.

O Senhor Deus tornou perfeitamente claro que não PODEMOS ir ali, ou contactar esse mundo de forma alguma. Os três primeiros mandamentos em Êxodo 20 definem isto de forma bem clara:

Primeiro: "Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim."

Segundo: "Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam."

Terceiro: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão."

A Igreja de Roma tem tanta dificuldade com esses mandamentos, que apagou o segundo completamente e interpretou o primeiro para incluir o deus pagão Alá. Ela também reduziu o terceiro a uma mera injunção contra a profanação.

A corrupção desses mandamentos foi deliberadamente criada para deixar espaço para a idolatria e adivinhação. Os cristãos precisam se lembrar que Roma defende as orações para e em favor dos mortos, que os fiéis se ajoelhem diante dos ícones, venerem ossos e outras relíquias religiosas, adorem um pão na forma de disco solar que os fiéis devem imaginar é o corpo de Jesus, rezem para uma mulher morta que supostamente tem grande influência sobrenatural... e a lista continua.

— O Primeiro Mandamento:

Vamos considerar o primeiro mandamento. Ele é formado por duas partes criticamente importantes. A primeira identifica Deus com o Senhor Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus que tirou Israel da servidão. A segunda parte rejeita totalmente QUALQUER outra fonte de poder sobrenatural ("outros deuses"). Portanto, o mandamento proíbe contato de qualquer tipo, de qualquer forma, como o reino sobrenatural. Isto inclui qualquer tentativa de nossa parte de entrar nesse reino para nos aproximarmos de Deus.

Peço que você pense cuidadosamente sobre isto, porque é central no Cristianismo. Esse mandamento sozinho proíbe tudo o que A Celebração da Disciplina tem a audácia de ensinar. Richard Foster e seus "mestres", os místicos católicos romanos estão em total violação a esse mandamento.

— O Segundo Mandamento:

Vamos agora examinar o Segundo Mandamento. A interpretação popular — e errônea — confina esse mandamento às imagens físicas e visíveis somente, mas isto fica muito aquém do que a própria Bíblia ensina. O Senhor destruiu toda a população humana no Dilúvio (exceto oito almas) porque viu "que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente." [Gênesis 6:5]. Essas imagens eram internas, concebidas e alimentadas dentro do coração e mente do indivíduo. Como tal, elas não tinham realidade física, porém eram tão intensamente repugnantes ao Senhor que Ele quase destruiu toda a humanidade no julgamento.

Quando os homens usam imagens mentais e o poder de sua imaginação para ter comunhão de alguma forma com o sobrenatural, eles estão praticando idolatria e violoando o segundo mandamento.

— O Terceiro Mandamento:

O terceiro mandamento tem sido há muito tempo mal compreendido. Ele se refere a mais do que a simples repetição do santo nome de Deus, mas estende-se a tudo o que é santo, a tudo com que a santidade de Seu santo nome está conectada. Isto inclui em particular Sua Santa Palavra, a Bíblia. O salmista estava apontando para essa verdade quando escreveu: "Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome." [Salmos 138:2].

Portanto, quando os praticantes de lectio divina repetem um verso da Bíblia centenas de vezes, sem qualquer consideração racional para seu significado ou propósito, eles estão violando o terceiro mandamento. Eles estão depreciando a palavra de Deus e Seu santo nome. Isto é mais do que simples tolice, é uma rejeição da suficiência, eficácia e objetividade de Sua Palavra. Esses indivíduos iludidos embarcaram em uma viagem "interior" para encontrar sua própria verdade pessoal e, no processo, abriram-se — de um modo muito ingênuo e crédulo — aos truques e ardis do Maligno.

Por Que Não Fazer Simplesmente Aquilo Que Jesus Pediu?

Jesus disse que quando orarmos devemos falar humildemente com nosso Pai Celestial. Ele até ensinou uma oração fundamental para ilustrar o que quis dizer. Além disso, quando falava sobre as Escrituras, Ele queria que simplesmente lêssemos o texto e compreendêssemos aquilo que ele diz: "Ora, quando vós virdes a abominação do assolamento, que foi predita por Daniel o profeta, estar onde não deve estar (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes." [Marcos 13:14].

Ele condenou a vã repetição e o sofisma mental: "Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna." [Mateus 5:37].

Ele condenou a dependência de qualquer tipo nos pensamentos do coração: "Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias." [Mateus 15:19].

Se um cristão sente que tem falta de sabedoria, peça-a a Deus: "E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa. O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos." [Tiago 1:5-8].

Lectio divina é prova manifesta que um homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos. Qualquer um que tente esvaziar sua mente de modo a preenchê-la é, de fato, uma pessoa de coração dobre!

Uma pessoa que usa essa técnica tem efetivamente decidido que a Palavra de Deus é incompleta ou ineficaz, até que eles façam alguma coisa para trazê-la à vida. Eles decidiram que uma passagem das Escrituras é simplesmente uma compilação de palavras em uma página até que a "luz interior" brilhe sobre ela e revele seu significado em particular, seu significado aqui e agora, subjetivo, aplicável em um nível pessoal para cada indivíduo. Quando fazem isso, eles estão tratando a Bíblia como um livro de adivinhação, em que a verdade "real" é revelada para os poucos iniciados que são audaciosos o suficiente para explorarem seu mundo interior.

Como as grandes figuras da Reforam proclamaram incansavelmente, a verdade da Bíblia é acessível a todos que a estudam com oração e com paciência. Ela é a Palavra de Deus, viva e poderosa, contendo em suas páginas tudo o que é necessário para nossa santificação e aperfeiçoamento:

"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra." [2 Timóteo 3:16-17].

Exorto os leitores a refletirem em oração sobre o Salmo 119. Quando Davi fala sobre "meditar" na Palavra de Deus, ele quer dizer simplesmente isto, pensar e refletir em oração sobre aquilo que a Bíblia realmente diz. Esse salmo faz um relato verdadeiramente maravilhoso sobre o papel da Escritura na vida de Davi, de seu profundo amor pela Palavra de Deus, da sua dedicação em estudá-la, em pensar e confiar nela em todas as situações:

"Pelos teus mandamentos alcancei entendimento; por isso odeio todo falso caminho." [Salmos 119:104].

É assim que o entendimento vem, por meio do estudo cuidadoso da Bíblia, por meio da consideração racional e informada daquilo que ela realmente diz. Qualquer outro modo é falso. Todo cristão que crê na Bíblia deve seguir o exemplo de Davi e detestar qualquer caminho falso, incluindo lectio divina e a falsa espiritualidade do monasticismo católico.

Uma Palavra Final Sobre a Hipocrisia Papal

Roma está promovendo lectio divina como um dos modos mais eficazes de aprofundar a espiritualidade das pessoas. A cruz, por outro lado, está sendo retratada como um fracasso. Durante seu sermão na Catedral de São Patrício, em Nova York, em 24 de setembro de 2015, o papa Francisco fez a seguinte declaração surpreendente: "Precisamos nos lembrar que somos seguidores de Jesus Cristo e sua vida, humanamente falando, terminou em fracasso, o fracasso da cruz."

Ele não tentou qualificar ou mitigar sua declaração de forma alguma, mas passou para outro assunto. De acordo com o papa, a cruz foi um fracasso e a missão terreal de Cristo, "humanamente falando", terminou em fracasso.

Este é um exemplo chocante do ceticismo, apostasia e paganismo que está no coração da Igreja Católica Romana. O papa zomba da cruz, deprecia Cristo, adora Alá, reza com os hindus e recusa-se a julgar a homossexualidade. Infelizmente, os católicos que olham para esse homem como o "vigário de Cristo" não conhecem a Cristo. Eles podem não pensar de si mesmos como desobedientes ou rebeldes, mas isto é exatamente aquilo que são aos olhos de um Deus tremendamente santo.

Nosso Sumo Sacerdote não necessita de um vigário. Ele obteve o direito — na cruz! — de interceder por nós diante do Pai Celestial. Não precisamos de outro intercessor! A cruz foi uma vitória sem igual na história. Além disso, quando Jesus ressuscitou e saiu da tumba, Ele fez isso "humanamente falando", no mesmo corpo físico que morreu no Calvário. Portanto, descrever isso como um "fracasso", em qualquer sentido, é simplesmente obsceno.

"Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios." [1 Timóteo 4:1].

"Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas." [2 Timóteo 4:3-4].

"Espera no SENHOR, anima-te, e ele fortalecerá o teu coração; espera, pois, no SENHOR." [Salmos 27:14].



Autor: Jeremy James, artigo em http://www.zephaniah.eu
Data da publicação: 20/10/2015
Transferido para a área pública em 23/11/2017
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