A Extraordinária Santidade de Deus

Compreendendo Cristo e Sua Igreja Por Meio do Tabernáculo e das Ofertas

Autor: Jeremy James, 1/1/2016.

Sumário



Capítulo 1

Achegando-se ao Tabernáculo

A solução completa e perfeita para todas as dificuldades e desafios que a igreja enfrenta no mundo hoje pode ser encontrada simplesmente estudando e crendo na santa Palavra de Deus! Mas, os homens se esquecem dessa verdade indelével.

Vernon McGee, que foi um grande professor da Bíblia e teve um profícuo ministério pelo rádio, apontou para esta crise atual cerca de 40 anos atrás, ao dizer o seguinte, em seu comentário sobre Romanos:

"O quanto eu gostaria que mais homens que afirmam serem evangélicos realmente acreditassem na Palavra de Deus — que ela é a Palavra de Deus, que ela é Deus falando... Em minha opinião, o maior pecado na igreja de Jesus Cristo nesta geração é a ignorância da Palavra de Deus."

Hoje, um crente que conheça a Palavra de Deus e que se refira a ela frequentemente é muitas vezes marcado como um criador de problemas, um fariseu legalista ou, talvez, um fundamentalista fora de moda que não conhece o verdadeiro significado do amor. Poucos querem falar em profundidade sobre as gloriosas verdades que o Senhor revelou para nosso proveito em Sua Palavra.

Em um livro publicado mais de cem anos atrás, Dwight Moody disse que tinha deixado de ir às festas e reuniões sociais formadas por membros de igrejas, porque "se você falar de um Cristo pessoal, sua companhia se torna ofensiva; eles não gostam disso; eles querem que você converse sobre o mundo... Quando você fala sobre um Cristo ressurreto e um Salvador pessoal, eles não gostam de ouvir sobre isto." (Secret Power, Cap. 5).

Bem, o Tabernáculo da Congregação fala sobre o Cristo ressurreto! E faz isso em detalhes admiráveis. Mas, poucos querem ouvir o que o Pai nos disse sobre Seu Filho por meio da estrutura maravilhosa conhecida como Tabernáculo. Os fiéis cristãos hoje parecem ter pouco ou nenhum conhecimento a respeito do Tabernáculo, ou sobre seu significado. Todavia, este é um dos estudos mais recompensadores que podemos fazer em nossa caminhada com Cristo.

Este guia simples tem o objetivo de despertar nos leitores um interesse renovado pelo Tabernáculo e seus significados. A bibliografia lista diversos estudos excelentes e profundos que enriquecerão grandemente a compreensão desse assunto admirável. (O lançamento recente de David Cloud, A Portrait of Christ: The Tabernacle, the Priesthood, and the Offerings, é recomendado.)

Uma grande parte da Palavra de Deus está dedicada ao Templo e ao papel central que ele exercia, e continuará a exercer, no drama espiritual impressionante do povo judeu. O foco principal do livro do Apocalipse, tanto geográfica quanto espiritualmente, está em Jerusalém e em seu Templo, enquanto que uma parte considerável do livro do profeta Ezequiel dedica-se a descrever o Templo do Milênio, que o próprio Cristo construirá em Seu retorno triunfante. Todavia, historicamente, o Templo não incorporou elemento significativo algum que não existisse no Tabernáculo.

O Senhor deu o Tabernáculo aos israelitas de modo a ensiná-los sobre Si mesmo e sobre o glorioso programa de Redenção que tinha preparado desde a fundação do mundo. Tudo isto se centraliza em Seu Filho, Cristo Jesus. Para compreendermos e nos relacionarmos com nosso Pai Celestial, precisamos compreender e nos relacionar com Seu Filho. Enquanto não fizermos isto, deixamos de compreender a maior parte do que a Bíblia diz.

Alguns cristãos acreditam que um estudo das funções sacerdotais descritas no livro de Levítico é algo reservado somente para eruditos e estudantes "avançados" da Bíblia, mas este não é o caso. Qualquer um que ame a Palavra de Deus ficará admirado pela profundidade das verdades contidas nas páginas desse livro do Pentateuco. Por outro lado, muitos "eruditos" e "especialistas" já demonstraram desconhecer a elegância espiritual de Levítico e o modelo que o livro fornece para uma compreensão apropriada do Novo Testamento e da igreja.

M. R. DeHaan, outro mestre da Bíblia que teve um bem-sucedido ministério no rádio, resumiu a questão da seguinte forma:

"'Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.' [1 Coríntios 2:14]. Isto explica por que a Bíblia permanece em grande medida um livro fechado para o homem mais instruído, porém não convertido, ao mesmo tempo que é um livro aberto para os fiéis cristãos mais ignorantes. Isto explica por que um homem pode ser educado, treinado e possuir todos os diplomas teológicos que todos os seminários no mundo possam outorgar, porém mesmo assim ser profundamente cego para as grandes revelações espirituais da Palavra de Deus, enquanto que um fiel cristão pobre e sem instrução verá verdades e revelações de infinita profundidade e glória neste Livro dos livros." [M. R. DeHaan, The Tabernacle, 1955].

O Nome do Tabernáculo

Como um conceito espiritual, o termo tabernáculo é imensamente rico. Ele tem a conotação de algo que é verdadeiramente belo para o homem — lar, abrigo, segurança, habitação, proteção e um local tranquilo de descanso, separado do caos do mundo.

A palavra hebraica para "tabernáculo" é mishkan, que significa habitação, ou lugar de habitação, especialmente uma tenda. O mishkan que o Senhor disse para os israelitas construírem para a Arca da Aliança é referida de diversos modos na Palavra de Deus. Entre eles estão:

Algumas vezes, a palavra "tabernáculo" refere-se tanto à tenda e ao pátio que está ao redor dela e, algumas vezes, somente à tenda. Mantenha esta distinção em mente enquanto prosseguimos.

A tradução literal das palavras hebraicas que a KJV traduz como "tabernáculo da congregação" é "tenda do encontro". Embora fosse o local onde Deus habitava entre Seu povo — o "Tabernáculo do Senhor" e o "Tabernáculo da casa do Senhor" — na vasta maioria das vezes, a Bíblia refere-se a ele como o local onde Deus encontrava o homem.

Tendo dito isto, somente membros designados da tribo de Levi podiam entrar no pátio e, um número muito menor, os filhos de Arão, podiam entrar na tenda do Tabernáculo. Os membros das outras tribos, se pudessem entrar no pátio, podiam chegar no máximo até o Altar de Bronze, que estava situado na entrada do pátio. Assim, de uma população total, ou "congregação", de cerca de 2 milhões de indivíduos no tempo do Êxodo, somente uma pequena proporção tinha permissão de entrar no pátio e se aproximar da tenda do Tabernáculo, enquanto que somente alguns poucos indivíduos podiam realmente entrar na tenda.

O israelita "mediano" somente conhecia o Tabernáculo pelo lado de fora. Eles podiam ver a metade superior da tenda do Tabernáculo, adornada por uma sóbria cobertura de pele de animais. A tenda — que cobria uma área de apenas 4,5 X 13,5 metros — tinha uma altura de 4,5 metros, enquanto que a "cerca" de linho torcido ao redor tinha uma altura de apenas 2,25 metros. O único elemento colorido era a entrada de linho, de 9 metros de largura, que estava adornada com bordados em cores azul, púrpura (roxo) e vermelho. Ela também tinha 2,25 metros de altura.

A cerca de linho — que delimitava uma área retangular de terreno do deserto de 45 X 22,5 metros — continha 20 tábuas em cada um dos dois lados maiores, e 10 em cada um dos dois lados menores. A única parte visível de cada tábua era um capitel logo acima da cerca de linho e, possivelmente, uma pequena porção da tábua revestida de bronze. Cada uma das tábuas estava encaixada em uma pesada base de bronze firmada no chão, presa por cordas fixas, tanto do lado de dentro quanto de fora do pátio.

Pilares de Nuvem e de Fogo

Se havia pouco para ver a partir do lado de fora, então em que sentido ele era o Ttabernáculo da Congregação, ou Tenda do Encontro? Por quais meios tangíveis podiam as tribos de Israel reunidas se relacionar com ele? A resposta está em um detalhe que muitos hoje parecem ter se esquecido. O Deus vivo manifestava Sua presença para todos por meio do pilar de nuvem, que se elevava por cima do Tabernáculo durante o dia, e por meio da coluna de fogo que subia por cima dele à noite. Independente de onde alguém estivesse no acampamento — uma área que necessariamente deveria se estender por pelo menos 5 km de um lado a outro, para acomodar uma população de cerca de 2 milhões de indivíduos — a nuvem e o fogo, respectivamente, sempre estavam visíveis. Eles eram uma consolação tangível e sempre presente para todo israelita, desde a criança mais nova até o adulto mais idoso, pois a nuvem, que se espalhava por cima de todo o acampamento, oferecia proteção durante o dia contra o calor do sol, enquanto que o fogo oferecia iluminação à noite. "Estendeu uma nuvem por coberta, e um fogo para iluminar de noite." [Salmos 105:39].

O dia inteiro, todos os dias, a noite inteira, todas as noites, o Senhor se deu a conhecer ao Seu povo a partir de Sua habitação no Tabernáculo. Além disso, Ele fez isso continuamente, durante 40 anos:

"E o SENHOR ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, para que caminhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite." [Êxodo 13:21-22].

É importante também reconhecer que, mesmo neste estágio inicial na revelação de Seu programa de Redenção, o Senhor abriu a possibilidade para a edificação dos gentios. A congregação incluía uma "mistura de gente" (Êxodo 12:38), isto é, não-israelitas — presumivelmente egípcios e etíopes em sua maioria — que viviam no Egito no tempo do Êxodo e que decidiram partir junto com a migração judaica. Além disso, durante os quarenta anos de peregrinação no deserto, indivíduos empreeendedores das nações gentias provavelmente saíram para ver o imenso acampamento israelita e testemunhar por si mesmos o dossel de nuvens durante o dia e o pilar de fogo à noite.

Isaías nos diz que exatamente os mesmos sinais da proteção divina serão visíveis no Milênio, quando Cristo Jesus, o Messias, reinar triunfantemente e em perfeita justiça em Jerusalém:

"Quando o SENHOR lavar a imundícia das filhas de Sião, e limpar o sangue de Jerusalém, do meio dela, com o espírito de justiça, e com o espírito de ardor. E criará o SENHOR sobre todo o lugar do monte de Sião, e sobre as suas assembléias, uma nuvem de dia e uma fumaça, e um resplendor de fogo flamejante de noite; porque sobre toda a glória haverá proteção. E haverá um tabernáculo para sombra contra o calor do dia; e para refúgio e esconderijo contra a tempestade e a chuva." [Isaías 4:4-6].

O Significado Numérico no Tabernáculo

Ao considerarmos os elementos constituintes do Tabernáculo, precisamos ter em mente a linguagem numérica que o Senhor usou em toda Sua santa Palavra. Os números são usados, não em um sentido simbólico ou numerológico, mas como um modo de marcar uma característica ou uma propriedade. Muitos eruditos bíblicos já chamaram a atenção para este aspecto das Escrituras, incluindo F. W. Grant e A. J. Pollock. Isto não tem nada que ver com códigos ou com significados ocultos, mas, ao revés, com o modo como as Escrituras utilizam números em uma maneira consistente de modo a enfatizar certas verdades. Por exemplo, o número 7, que ocorre tão frequentemente no livro do Apocalipse, significa perfeição divina, enquanto que o número 6 significa o homem agindo em sua própria força. Assim, o número "666" indica a convicção do homem ímpio que ele pode viver sem Deus e depender unicamente de seus próprios recursos.

A tabela abaixo apresenta uma breve descrição do significado desses números, conforme Deus os utilizou em Sua Palavra. A relevância deles se tornará mais aparente ao examinarmos a estrutura do Tabernáculo e o impressionante programa de Redenção que ele incorpora.

Número
Significado Típico nas Escrituras
1
Supremacia, unidade, autossuficiência.
2
Intensificação, testemunhar, testemunho.
3
Plenitude, totalidade, manifestação.
4
Universal, inclusivo, mundial.
5
Responsabilidade humana, ação responsável.
6
Limitação humana, mundo sob julgamento.
7
Perfeição, realização divina, descanso.
8
Novo início, nova era.
9
[Nenhum significado geralmente aceito].
10
Universalidade aperfeiçoada.
11
[Nenhum significado geralmente aceito].
12
Soberania manifesta, administração.
40
Teste, provação completa.

Fontes: Bible Encyclopedia and Dictionary, de A. R. Fausset; The Numerical Structure of Scripture, de F. W. Grant; The Tabernacle's Typical Teaching, de A. J. Pollock.

Tenha também em mente, ao estudarmos o Tabernáculo, o poder vivo e a relevância ainda atual de todo verso na Bíblia. Cada um deles está tão repleto de vitalidade hoje quanto no tempo em foi escrito originalmente pelos profetas. Lamentavelmente, o homem em sua tolice introduziu muitas convenções que o cegam para esta verdade. Até mesmo os termos Velho Testamento e Novo Testamento são uma barreira para compreendermos a Palavra de Deus em sua totalidade. Como Adolph Saphir comentou:

"Acredito que os próprios nomes, Velho Testamento e Novo Testamento, sejam errôneos e prejudiciais. Qual é o sentido de chamar os escritos de Moisés e dos profetas de 'Velho Testamento'? Eles não apresentam a aliança da graça? A doutrina da justificação pela fé: Paulo na epístola aos Romanos não prova a partir do Gênesis (caso de Abraão) e a partir dos Salmos (caso de Davi, Salmo 32)? Onde a doutrina da substituição e os sofrimentos vicários do Messias são apresentados mais claramente do que em Levítico e no capítulo 53 de Isaías? O termo 'Velho Testamento' leva as pessoas a imaginarem que ele é um livro antiquado; enquanto que, em muitos aspectos, ele é mais atual do que o Novo Testamento, referindo mais plenamente à era de glória e bênçãos na Terra que ainda estão diante de nós." [Christ and Israel, Adolph Saphir, cap. 8].



Capítulo 2

O Pátio

A área do Tabernáculo, ou pátio, era definida por uma cerca retangular e uma entrada, como segue:

Nechosheth

A palavra hebraica nechosheth, que na tradução de João Ferreira de Almeida (ACF) aparece como bronze, pode ter sido o cobre. O bronze é uma liga de zinco e estanho, mas sabemos hoje que o zinco era muito raro nos tempos antigos. O cupralumínio é outra possibilidade. Uma liga de cobre e alumínio, ele era muito menos maleável do que o estanho e difícil de trabalhar sem ser recriado. Todas as famílias israelitas certamente possuíam diversos talheres de mesa feitos de cobre quando deixaram o Egito. Evidências arqueológicas mostram que esse metal era comumente usado naquele tempo. Ele também era de maior valor prático do que o bronze, pois podia ser moldado e transformado em novos objetos. Ele também podia ser polido e servir como espelho para propósitos cosméticos (veja Êxodo 38:8).

Temos também outra indicação em Deuteronômio 8:9, que diz: "... terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre." Como o bronze é uma liga e não é encontrado em minas, o metal em questão mais provavelmente era o cobre.

Por esta e outras razões, muitos eruditos hoje acreditam que, na maioria das ocorrências (embora não necessariamente em todas) em que a palavra nechosheth é usada na Bíblia, ela na verdade significa cobre. Todavia, para evitar confusão, continuaremos a nos referir a esse metal como "bronze".

Metais

Três metais foram usados na construção do Tabernáculo — ouro, prata e bronze (cobre). Como já vimos, o número três indica plenitude, de modo que sabemos que esses metais transmitiam uma mensagem espiritual completa para os hebreus. Os eruditos bíblicos em geral concordam que:

Cores

O Tabernáculo consistia de dois grupos principais de cores, isto é, as três cores metálicas — ouro, prata e bronze — e quatro cores nos tecidos — azul, púrpura, vermelho e branco. Como um conjunto, esses quatro últimos denotavam universalidade e, portanto, uma verdade espiritual que era aplicável ao total da humanidade.

Outra cor notável era a da cobertura exterior do próprio Tabernáculo. Como esta é uma questão de conjetura, deixarei para discuti-la separadamente (veja o Cap. 5).

Embora a palavra "branco" não seja encontrada no Êxodo, ela é implícita pela palavra hebraica byssus, que significa linho fino. Assim, o termo "linho fino torcido (ou trançado)" significa um linho branco desbotado muito puro, do tipo mais caro, que normalmente estava disponível somente para a aristocracia egípcia. O livro do Apocalipse confirma a importância do linho fino como um símbolo da perfeita pureza quando declara:

"Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos." [Apocalipse 19:7-8].

A cerca que existia ao redor do pátio e que consistia de linho fino branco, declarava que somente uma pessoa vestida em justiça poderia entrar. As tábuas de acácia denotavam nossa humanidade, enquanto que o revestimento de bronze em cada uma delas declarava que toda a humanidade está sob julgamento diante de um Deus extraordinariamente santo.

A cerca poderia ter formado uma barreira permanente para as almas perdidas, se não existisse a mensagem de esperança retratada pelos capitéis no alto de cada tábua. A prata denota expiação e, portanto, aponta para o sangue derramado de Cristo.

A entrada única ficava no lado oriental do pátio. Ela consistia de uma passagem de quatro pilares, mostrando que ela estava acessível a toda a humanidade (quatro é o número da universalidade). A cortina que enfeitava a entrada também era feita de "linho fino torcido", mas era toda bordada com fios de cores azul, púrpura e carmesim. Essas cores eram um convite para todos fazerem uso da obra perfeita de Cristo, para virem até Ele em Sua divindade, a se submeterem à Sua soberania, a buscarem salvação em Seu sangue derramado, e aceitarem o dom da justiça perfeita que Ele somente pode outorgar.

O Tabernáculo constituía um retrato impressionante de Cristo. Cada detalhe de sua construção e suas várias atividades cerimoniais proclamavam algum aspecto da santidade, do propósito e da obra perfeita de Cristo. Por meio do Tabernáculo e de seus ritos cerimonias prescritos, o Pai Celestial estava apresentando a humanidade ao Seu Filho. Em particular, Ele estava retratando Seu plano de redenção, por meio do qual os homens caídos poderiam vir até Ele e se reconciliar com Ele.

Retratando Seu plano deste modo, Deus estava dizendo ao mundo que não há outro caminho para a salvação. Se nos recusarmos a vir até Ele de acordo com Sua santa vontade, seguindo o caminho que Ele especificou, nunca O encontraremos.

Isto significa que todas as outras religiões são falsas e nunca levarão a Deus? Sim, é exatamente o que significa. Isto não é algo que as pessoas gostem de ouvir, mas é a mensagem do Tabernáculo.

A Lei definiu um padrão que homem algum — exceto Cristo — conseguiu cumprir ("E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé." [Gálatas 3:11]). A grande esperança no Pentateuco está, não na obediência à Lei, mas na promessa do Tabernáculo, representada pelo Propiciatório no Santíssimo Lugar.

A Lei, que era representada pelas duas tábuas de pedra, confirmava com força terrível que o homem estava sob uma sentença de morte e que não havia absolutamente nada que ele poderia fazer para salvar-se. A Lei permitiu que o homem visse que sua condição era até pior do que ele tinha anteriormente imaginado. Mas, as tábuas da Lei estavam guardadas dentro da Arca, de forma que a ira de Deus, que elas continuamente autorizavam e convidavam, era mantida permanentemente sob controle pelo Propiciatório (uma tampa) que ficava sobre elas.

Os Dois Mantos

O Tabernáculo fala sobre Cristo de formas inesperadas. Considere, por exemplo, os dois mantos que foram colocados sobre Cristo imediatamente antes da crucificação:

"E os soldados o levaram dentro à sala, que é a da audiência, e convocaram toda a coorte. E vestiram-no de púrpura, e tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça. E começaram a saudá-lo, dizendo: Salve, Rei dos Judeus!" [Marcos 15:16-18].

"E logo os soldados do presidente, conduzindo Jesus à audiência, reuniram junto dele toda a coorte. E, despindo-o, o cobriram com uma capa de escarlate; e, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e em sua mão direita uma cana; e, ajoelhando diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, Rei dos judeus. E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana, e batiam-lhe com ela na cabeça. E, depois de o haverem escarnecido, tiraram-lhe a capa, vestiram-lhe as suas vestes e o levaram para ser crucificado." [Mateus 27:27-31].

A palavra grega para "púrpura" em Marcos é porphyra, enquanto que a palavra para escarlate em Mateus é kokkinos. Apesar do fato de duas cores distintas serem mencionadas, alguns comentaristas, incluindo Gill e Barnes, acreditam que, como a mesma sequência de eventos está sendo descrita em ambos os Evangelhos, o mesmo manto está sendo referido a cada vez. Mas, a tipologia do Tabernáculo diz algo diferente. As quatro cores nos tecidos do Tabernáculo são as mesmas cores que Cristo "vestiu" no dia de Sua crucificação. Além de sua túnica de linho branco, sobre o qual os soldados lançaram sortes, Cristo foi despido e vestido sucessivamente pelos soldados da guarda pretoriana com dois mantos diferentes, um de cor púrpura e outro vermelho. A quarta cor — azul — é a cor do céu, um céu sem nuvens.

O Tabernáculo e a Igreja

Se o Tabernáculo lida com a santidade de Deus, o estado caído do homem, os efeitos perniciosos do pecado, a necessidade de expiação, a morte e ressurreição de Cristo e a redenção da humanidade, então ele tem muito a dizer sobre a igreja!

Comparando a atitude e práticas da igreja professa com os princípios santos incorporados no Tabernáculo, devemos ser capazes de dizer se, e em que extensão, a igreja se mantém fiel ao seu rumo prescrito.



Capítulo 3

O Altar de Bronze

Todos os sacrifícios no programa de Redenção do Senhor ocorriam no Altar de Bronze, que estava localizado perto da entrada do Pátio do Tabernáculo. Não havia um altar perpétuo em qualquer outro lugar na Terra onde o homem podia vir diante de Deus e receber a expiação pelos seus pecados.

O altar era uma caixa retangular oca, feita de madeira de acácia e revestida por bronze. Ele tinha 3 côvados (1,35 m) de altura, com uma superfície superior de 5x5 côvados (2,25 m X 2,25 m). Uma grelha de bronze estava fixada dentro da caixa, 67,5 centímetros abaixo da superfície sobre a qual as ofertas sacrificiais eram colocadas. Em cada um dos quatro cantos havia uma argola de bronze e o altar era transportado de um lugar para outro por dois varais de madeira de acácia revestidos por bronze, que passavam pelas argolas. No topo de cada canto havia um chifre de madeira de acácia, revestido por bronze. Um conjunto de utensílios de bronze foram fabricados para uso nas várias funções cerimoniais. Esses utensílios incluíam tenazes (para retirar as brasas do fogo), pás (para recolher as cinzas), bacias (para recolher o sangue) e garfos (para colocar a carne no altar).

O fogo abaixo da grelha foi aceso inicialmente pelos céus e queimava perpetuamente. As brasas incandescentes eram transportadas com todo o cuidado sempre que o Tabernáculo era transferido para outro lugar durante a jornada do povo de Israel pelo deserto.

As Ofertas Sacrificiais

A pessoa que trazia um animal em oferta sacrificial — seja bode, carneiro ou boi — colocava suas mãos sobre a cabeça do animal sacrificial, um ato que expressava sua submissão a Deus. A própria pessoa então matava o animal, enquanto o sacerdote recolhia o sangue derramado em uma bacia e depois o espargia sobre o altar:

"E porá a sua mão sobre a cabeça do holocausto, para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação. Depois degolará o bezerro perante o SENHOR; e os filhos de Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue, e espargirão o sangue em redor sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação. Então esfolará o holocausto, e o partirá nos seus pedaços. E os filhos de Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar, pondo em ordem a lenha sobre o fogo." [Levítico 1:4-7].

Esta cerimônia era um lembrete chocante a cada participante que o pecado sempre resultava em morte e que a expiação somente ocorreria quando um substituto vivo morresse em seu lugar.

"E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão." [Hebreus 9:22].

"Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma." [Levítico 17:11].

Sabemos que o sangue de animais não pode remover pecados — "Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire os pecados." [Hebreus 10:4]. Portanto, como o sangue dos animais sacrificados sob a Lei Mosaica tinha um efeito de expiação? Cada um desses sacrifícios apontava para o único sacrifício que poderia remover o pecado, isto é, o sacrifício de Cristo no Calvário. Ao aceitar o sacrifício do animal, o Senhor estava mostrando Sua disposição de perdoar os pecados antes do sacrifício que Seu Filho um dia faria no Calvário. O "cheiro suave" que o Senhor recebia com as ofertas queimadas não era o do animal sacrificado, mas aquilo que estava indicado, isto é, o perfeito amor e a perfeita obediência expressos por Seu Filho no Calvário:

"Depois o tomarás das suas mãos e o queimarás no altar sobre o holocausto por cheiro suave perante o Senhor; é oferta queimada ao SENHOR." [Êxodo 29:25].

"E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave." [Efésios 5:2].

Cristo era o único "cheiro suave" no Altar de Bronze. O Pai Celestial, cuja visão dos eventos terreais não está limitada pelo tempo, podia ver o perfeito amor de Seu Filho no sacrifício cheio de fé de toda oferta queimada. É por este motivo que os sacrifícios de animais serão reinstituídos em Jerusalém durante o Milênio (segundo os capítulos 40-48 de Ezequiel). De si mesmos, eles não expiavam os pecados nos tempos da Lei Mosaica e também não farão isso no futuro. Somente o Calvário realizou isto. As ofertas feitas durante o Milênio refletirão o Calvário, que está no passado, exatamente como as ofertas durante o tempo da Lei Mosaica refletiam o futuro, apontando para o único sacrifício perfeito que faria o acerto definitivo da questão do pecado. Exatamente como as ofertas no tempo da Lei Mosaica apontavam para o Calvário, que estava no futuro, as ofertas durante o Milênio celebrarão o mesmo Calvário.

Se é assim, então por que os sacrifícios foram introduzidos na Lei Mosaica? A resposta está na fé. Por meio da fé, que eles expressavam por meio de sua obediência aos preceitos das ofertas sacrificiais, os israelitas — tanto como indivíduos e como nação — estavam se comprometendo com o programa redentor instituído por Deus. Exatamente como somos salvos hoje por nossa fé naquilo que Cristo realizou por nós no Calvário, os israelitas dos tempos antigos eram salvos por sua fé nos sacrifícios que apontavam para o Calvário e que eram eficazes unicamente por causa do sacrifício expiatório de Cristo.

Discutiremos os detalhes das várias ofertas e seus respectivos significados no Cap. 15.

A Grelha no Altar de Bronze

A grelha (ou crivo) dentro do Altar de Bronze (que pode, na verdade, ser feito de bronze, e não cobre) estendia-se de um lado a outro, era quadrada. Isto significa que nada que fosse colocado sobre ela escapava do fogo que estava embaixo.

A grelha era fixada na metade, na parte oca do altar: "E as porás dentro da borda do altar para baixo, de maneira que a rede chegue até ao meio do altar." [Êxodo 27:5]. Como o altar tinha uma altura de 3 côvados (1,35 m), a grelha estava a um côvado e meio (67,5 cm) acima do solo, o que significa que estava exatamente na mesma altura que o Propiciatório. É significativo que tanto o lugar onde a questão do pecado era acertada e o lugar onde os benefícios misericordiosos desse acerto eram concedidos estavam no mesmo nível.

Como a Bíblia diz que Cristo foi "levantado" em Sua crucificação, podemos conjeturar que Sua elevação no Calvário foi a mesma, isto é, 67,5 centímetros acima do solo: "E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim."

Esta surpreendente concordância torna-se ainda mais incomum pelo fato que a Mesa dos Pães de Proposição (que discutiremos adiante) também tinha uma altura de 67,5 centímetros.

O quadro a seguir mostra o relacionamento:

Altar de Bronze Altura: 3 côvados (1,35 m). A grelha estava no meio do altar, ou a 67,5 centímetros. "Farás também o altar de madeira de acácia; cinco côvados será o comprimento, e cinco côvados a largura (será quadrado o altar), e três côvados a sua altura." [Êxodo 27:1].
Propiciatório Colocado sobre a Arca, que tem um côvado e meio de altura (67,5 cm). "Também farão uma arca de madeira de acácia; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura." [Êxodo 25:10].
Mesa dos Pães da Proposição Os pães da proposição das 12 tribos eram colocados sobre a mesa, que tem uma altura de um côvado e meio (67,5 cm). "Também farás uma mesa de madeira de acácia; o seu comprimento será de dois côvados, e a sua largura de um côvado, e a sua altura de um côvado e meio." [Êxodo 25:23].

Podemos ver nesse quadro uma conexão surpreendente entre a misericórdia de Cristo (o Propiciatório), o sofrimento de Cristo (a grelha no Altar de Bronze) e os beneficiários do sacrifício feito por Cristo — as doze tribos de Israel e, por extensão, a igreja.

A Madeira de Acácia

Quer seja medido por peso ou por volume, o material mais utilizado na construção do Tabernáculo foi a madeira de acácia. Na tipologia espiritual do Tabernáculo, a madeira representava nossa humanidade, mas nossa humanidade precisa ser coberta ou protegida de algum modo, caso contrário será consumida pelo fogo.

A única madeira exposta dentro do pátio era a lenha queimada no Altar de Bronze. Este é o destino de todos os que rejeitam a expiação que Cristo oferece para cada um de nós.

Alguns argumentam que o inferno não é um lugar real, mas o Tabernáculo diz de forma contrária.

Se olharmos novamente para o significado dos três metais usados em todo o Tabernáculo, podemos ver mais claramente o profundo significado espiritual que eles possuem. O bronze mostra o homem como ele está diante de Deus, protegido unicamente pelo fato glorioso que alguém — Cristo nosso Salvador — tomou sobre Si mesmo o fogo do julgamento que, de outra forma, iria nos consumir. Quando vamos diante do Senhor e nos arrependemos de nossos pecados, nascemos de novo e ficamos daí para frente cobertos pelo sangue protetor de Cristo. O processo da purificação espiritual continua a partir desse momento por toda a duração de nossa vida. Somos santificados pela oração, pela adoração, pelo estudo bíblico, pelo serviço, pelas boas obras e, acima de tudo, pela perfeita obediência à vontade de Deus. Essa santificação é representada pela prata usada no Tabernáculo. Finalmente, após esta vida terminar, os santos receberão no tempo devido, na primeira ressurreição, seus corpos físicos imortais, representados pelo revestimento de ouro.

Não existem modos alternativos de salvação. Não permita que ninguém o engane com palavras vãs: o inferno é real, o destino final para os filhos da desobediência:

"Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência." [Efésios 5:6].

Foi exatamente isto que aconteceu com os 250 seguidores de Coré, Datã e Abirão. Quando eles se rebelaram contra o sistema sacerdotal da expiação que o Senhor tinha instituído, foram consumidos pelo fogo que caiu dos céus:

"Então saiu fogo do SENHOR, e consumiu os duzentos e cinquenta homens que ofereciam o incenso." [Números 16:35].

Que não haja dúvidas sobre a severidade deste julgamento! Deus punirá todos aqueles que rejeitarem o caminho da salvação que Ele graciosamente forneceu por meio do sacrifício de Seu Filho. O apóstolo Paulo referiu-se a essa solene realidade quando disse:

"Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado." [Romanos 11:22].

De modo a garantir que os israelitas compreendessem essa verdade fundamental, Deus mandou Moisés tomar os incensários de bronze que cada um dos rebeldes carregava no momento em que foram consumidos e fabricar com eles "folhas estendidas". Essas folhas foram então colocadas como revestimento sobre o Altar de Bronze, como um memorial aos filhos de Israel (veja Números 16:35-40).

Este foi um ato extraordinário. O mesmo lugar na Terra onde o pecado era expiado foi agora enfeitado com um lembrete chocante que o pecado será julgado! A não ser que os homens aceitem o único meio de expiação que o Senhor forneceu, eles enfrentarão o fogo da ira do Seu justo juízo! Os incensários que foram transformados em folhas para revestirem o altar serviram como um dramático lembrete disto!

Os Chifres do Altar de Bronze

A força de um animal, como um carneiro, bode ou touro, estava concentrada em seus chifres. Assim, em um contexto bíblico, a palavra "chifre" designava um líder forte, ou um ponto focal de poder e de autoridade. Os quatro chifres de acácia que existiam no Altar de Bronze, cada um dos quais estava revestido por bronze, falavam do julgamento universal, ou mundial. O número 4 designava a universalidade, enquanto que o bronze representava o julgamento de um Deus justo sobre os pecados de toda a humanidade.

No fim, todas as nações, e não apenas Israel, precisarão vir diante do Altar de Bronze. Como todos estão sob condenação, todos precisam buscar a expiação por seus pecados e se reconciliar com Deus. Assim, o Altar de Bronze é, ao mesmo tempo, o mais terrível lugar no universo, pois consome profundamente todos os que o rejeitam, mas, paradoxalmente, é também o mais maravilhoso, pois liberta cada um de nós da servidão espiritual.

Com a totalidade da ira de Deus concentrada sobre este local, é difícil pensar nele como um lugar de misericórdia. Talvez seja por esta razão que o Senhor acrescentou uma bênção totalmente inesperada aos chifres do Altar de Bronze:

"Quem ferir alguém, de modo que este morra, certamente será morto. Porém se lhe não armou cilada, mas Deus lho entregou nas mãos, ordenar-te-ei um lugar para onde fugirá. Mas se alguém agir premeditadamente contra o seu próximo, matando-o à traição, tirá-lo-ás do meu altar, para que morra." [Êxodo 21:12-14].

Antes de as cidades de refúgio serem instituídas, uma pessoa culpada de causar uma morte acidental podia fugir até o Altar de Bronze e se agarrar a um de seus chifres. Este ato oferecia proteção imediata contra um perseguidor furioso, até que uma audiência justa pudesse ser conseguida. O Altar de Bronze continuou a servir como um local de clemência mais tarde, até mesmo depois que as seis cidades de refúgio foram estabelecidas. Por exemplo, quando Adonias apelou por misericórdia, agarrando-se aos chifres do altar, ele foi perdoado por Salomão (1 Reis 1:50), porém quando Joabe, que era culpado de homicídio, tentou garantir clemência da mesma forma, ele foi executado.

O pecado precisa ser punido. Não existem exceções. Os fiéis cristãos são redimidos, não porque Deus decidiu arbitrariamente perdoá-los, mas porque Cristo tomou sobre Si mesmo a punição total em nosso lugar.

O Altar de Bronze é o lugar mais inclemente na Bíblia — juntamente com o Calvário, sem antítipo — pois não poupava ninguém, nem mesmo o Filho de Deus. Todavia, ao requer esse lugar, o Senhor Deus o marcou com um sinal especial de Sua infinita misericórdia — os quatro chifres de refúgio.



Capítulo 4

A Pia de Cobre

O Altar de Bronze lidava com o pecado. Como uma figura da cruz, em que os sacrifícios contínuos de animais tipificavam o único sacrifício perfeito, ele garantia a completa reconciliação do homem com Deus. Os sacrifícios de animais, em si mesmos, não faziam nada pelo pecado, exceto postergar a punição que a justiça divina exigia. Cada um dos sacrifícios de animais apontava para Cristo. O "cheiro suave" que o Pai Celestial recebia com essas ofertas queimadas era, na realidade, o suave perfume da perfeita obediência de Seu Filho à Sua santa vontade. Humanamente, vemos esses eventos em um contexto histórico, mas nosso Pai Celestial os vê e conhece todas as coisas de uma maneira atemporal: "Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras." [Atos 15:18].

A questão do pecado é acertada para sempre quando nascemos de novo. Quando isso acontece, nosso pecado é "coberto" pelo sangue de Cristo, que fez expiação em nosso lugar. Ele pagou, ou cobriu, a dívida do nosso pecado por nós. Esse conceito de "cobrir" é encontrado em todo o Tabernáculo, em que toda a madeira de acácia era revestida por ouro — representando nossa humanidade coberta por Cristo em um dos três aspectos de sua obra como Remidor — aquele que assumiu nossa humanidade para habitar entre nós e nos salvar do julgamento divino (o bronze), aquele que derramou seu sangue e deu sua vida por nós, morrendo em nosso lugar (prata) e aquele em que habita "toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9) (o ouro).

Dai para frente, após a justificação pela fé em Cristo, enquanto ainda estamos vivendo aqui em nosso corpo e mente caídos e afetados pelo pecado, o Senhor requer que façamos uma limpeza contínua da contaminação deste mundo terreal. Esse processo contínuo é representado pela Pia de Cobre.

Toda vez que os sacerdotes se aproximavam do Altar de Bronze para apresentar uma oferta queimada, ou que entravam no santuário do Tabernáculo, eles tinham de lavar suas mãos e seus pés "para que não morressem":

"E Arão e seus filhos nela lavarão as suas mãos e os seus pés. Quando entrarem na tenda da congregação, lavar-se-ão com água, para que não morram, ou quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta queimada ao SENHOR. Lavarão, pois, as suas mãos e os seus pés, para que não morram; e isto lhes será por estatuto perpétuo a ele e à sua descendência nas suas gerações." [Êxodo 30:19-21].

Cristo estava fazendo referência a esse ato essencial quando lavou os pés dos apóstolos na Última Ceia. Como os pés deles estavam em contato constante com o mundo, eles estavam continuamente acumulando as manchas do mundo. Essas manchas, ou contaminações, tinham de ser removidas — "Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu te não lavar, não tens parte comigo." [João 13:8]. Os sacerdotes do Tabernáculo também tinham de lavar suas mãos porque estavam em contato constante com a morte ao manusearem os sacrifícios no Altar de Bronze.

A igreja moderna virtualmente abandonou a Pia de Cobre. A maioria dos cristãos professos não vê mais a necessidade de uma contínua limpeza diária na Palavra de Deus, com oração de arrependimento sincero e separação do mundo.

A Pia de Cobre foi feita inteiramente de cobre, porém a quantidade de metal não foi especificada. As dimensões também não são indicadas. A ausência da madeira de acácia é um lembrete que, mesmo após a questão do pecado ter sido solucionada, o próprio homem, em sua humanidade, nada pode fazer para remover sua própria contaminação diária. Esta também é uma obra que somente Cristo pode realizar — mas que o homem precisa solicitar. Exatamente como Pedro teve de permitir a limpeza de seus pés por Cristo, e os sacerdotes tinham de ir até Pia de Cobre muitas vezes por dia, o fiel cristão também precisa humildemente se submeter a Cristo todos os dias e solicitar essa purificação.

Pelo fato de Deus não especificar a quantidade de cobre necessária e nem o tamanho e formato da pia, o fiel cristão está sendo convidado a se achegar a Cristo todos os dias, tantas vezes quanto quiser, sem limites. A limpeza da contaminação — que é contraída continuamente por meio de nosso contato diário com um mundo danificado pelo pecado — é uma tarefa que nunca termina.

A Pia de Cobre continha somente água. Em toda a Escritura, quando a água é usada simbolicamente, ela designa a Palavra, seja a Palavra escrita, ou a Palavra viva. Cristo declarou que todo aquele que vier até Ele encontrará um poço de águas vivas e que nunca secam: "Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna." [João 4:14]. Portanto, exatamente como o Altar de Bronze — uma representação de Cristo — usava o sangue para nos purificar de nossos pecados, a Pia de Cobre — outra representação de Cristo — usava a água para nos limpar de nossa contaminação — "... como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra." [Efésios 5:25-26].

Um detalhe admirável que a Palavra de Deus acrescenta é que a Pia de Cobre foi feita com os "espelhos" doados pelas mulheres:

"Fez também a pia de cobre com a sua base de cobre, dos espelhos das mulheres que se reuniam, para servir à porta da tenda da congregação." [Êxodo 38:8].

[Esta é outra evidência que a palavra hebraica nechosheth é cobre, pois o cobre é mais reflexivo do que o bronze quando submetido ao polimento.]

Os "espelhos" de cobre refletiam o orgulho do mundo e a vaidade humana. Usando-os para fabricar a Pia de Cobre, o Senhor estava mostrando que, de modo a nos achegarmos a Ele, precisamos renunciar completamente ao nosso orgulho e virar nossas costas para o mundo. Nossos corações precisam refletir o Senhor e Sua glória, não o mundo ou nós mesmos. Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, de modo que precisamos ser refletores perfeitos do Deus maravilhoso de quem temos a imagem — "Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus." [Mateus 5:48].

É possível que Paulo tenha se referido a isto em sua segunda carta aos Coríntios:

"Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor." [2 Coríntios 3:18].

Em caso afirmativo, então a Pia de Cobre muito provavelmente era uma simples bacia assentada sobre uma base ou pedestal (a palavra hebraica sugere exatamente isto). Os sacerdotes pegavam um pouco de água com uma concha ou uma caneca e a derramavam sobre suas mãos e pés. Desse modo, a pureza da água na pia não era prejudicada. A "glória" à qual Paulo se refere não era diferente do céu azul acima, que era refletido continuamente na água contida na pia. Toda vez que os sacerdotes se aproximavam da pia para lavar suas mãos e pés, eles viam o céu de cor azul safira refletido na água e podiam se lembrar da gloriosa perfeição do Deus maravilhoso que o criou.

O livro de Jó até compara o céu a um "espelho fundido" — "Ou estendeste com ele os céus, que estão firmes como espelho fundido?" [Jó 37:18].

A mesma figura aparece também em Êxodo 24, uma passagem de tirar o fôlego das Escrituras, em que Moisés, os sacerdotes e setenta anciãos foram convidados pelo "Deus de Israel" a subirem ao monte e se encontrarem pessoalmente com Ele:

"E subiram Moisés e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, e debaixo de seus pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade." [Êxodo 24:9-10]. O piso debaixo dos pés de Deus era como a safira, tão azul em sua pureza quanto o céu mais lindo.

A igreja moderna se esqueceu da necessidade da limpeza pessoal contínua. Ela subestima grandemente os efeitos perniciosos da contaminação e a necessidade de separação do mundo. Os cristãos não estão sendo ensinados em suas igrejas a se levantarem toda manhã com um desejo inabalável de agradar a Deus e de refletir o tanto quanto possível a perfeição de Sua imagem em um mundo caído e prejudicado pelo pecado.



Capítulo 5

A Tenda do Tabernáculo

A tenda do Tabernáculo representa a comunhão com o Senhor. Ademais, ela também representa a separação do mundo. Quando voltava suas costas para o mundo e entrava no Pátio, o pecador se submetia ao programa de Redenção que o Senhor tinha estabelecido.

Hoje, todos os crentes em Cristo são sacerdotes. Não há uma casta separada de levitas entre os cristãos nascidos de novo. Isto significa que nós também precisamos fazer uso diário da Pia de Cobre.

Muitos crentes hoje cometem o erro de buscarem sinais e maravilhas, ao mesmo tempo que negligenciam a Pia de Cobre. Muitos também acreditam em um segundo batismo. Eles se esquecem que o problema do pecado foi tratado de uma vez por todas no Altar de Bronze e que nossa purificação dai para frente ocorre na Pia de Cobre.

Como a Palavra de Deus torna perfeitamente claro, "há um só Senhor, uma só fé, um só batismo." [Efésios 4:5]. Qualquer um que busque um segundo batismo tem pouca compreensão da suficiência e perfeição do primeiro e único batismo, e talvez nem ainda seja um salvo.

Este é um assunto muito sério, mas também é um assunto que os cristãos professos frequentemente preferem ignorar. Quando o apóstolo Paulo encontrou este problema em Corinto, onde muitos membros da igreja tinham um grande desejo de ver sinais e maravilhas, ele pediu que eles examinassem a si mesmos e determinassem se realmente eram salvos:

"Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados." [2 Coríntios 13:5].

Estas são palavras fortes!

Existe um Altar de Bronze e um batismo! As doutrinas que se afastam dessa verdade básica estão em conflito com as Escrituras. Essas doutrinas quase que invariavelmente despertam um forte desejo em ver sinais e experiências, demonstrações milagrosas do poder de Deus e um senso de "presença manifesta". Embora possa ser satisfatório para a carne, isto é realmente prejudicial ao relacionamento do indivíduo com Deus.

O justo viverá pela fé. Tendo sido justificado no Altar de Bronze, o fiel cristão agora busca viver dai para frente em humilde serviço e obediência a Deus. Ele procurar agradar ao Senhor de todas as formas que puder, não com o desejo de ver sinais, mas aguardando no Senhor e buscando fazer Sua santa vontade. Este é o verdadeiro significado da Pia de Cobre. Ela é o lugar para o qual precisamos ir a cada dia — de fato várias vezes ao dia — para nos purificarmos das contaminações, para nos submetermos ao Deus vivo e pedir que Ele nos santifique para Seu santo propósito.

Santificar significa separar do mundo. Por meio da misericórdia de Cristo e de Seu sacrifício no Calvário, fomos uma vez ao Altar de Bronze, mas vamos à Pia de Cobre tão frequentemente quanto pudermos.

O propósito da Ceia do Senhor é nos fazer lembrar regularmente (a cada quinzena, a cada mês, ou algo assim), da obra gloriosa que Cristo realizou por nós no Calvário. Neste sentido — e em nesse sentido apenas — revisitamos o Altar de Bronze. Mas, não há um segundo batismo.

A Pia de Cobre nos prepara para entrar na tenda do Tabernáculo. Ela nos veste momentaneamente da perfeição de Cristo. Ao fazer isso, ela nos dá algo que ainda não temos em nosso estado não-glorificado e permite que cheguemos mais perto de Deus. Com o passar do tempo, à medida que crescemos em Cristo, aprendemos a apreciar mais e mais a importância da Pia de Cobre em nossa caminhada cristã. Ela nos faz lembrar diariamente que não temos força em nós mesmos, que não possuímos absolutamente nada que não tenhamos recebido e que, sem a presença constante do Espírito Santo habitando em nós, seríamos atraídos por Satanás e desviados do nosso rumo indicado.

As Dimensões da Tenda do Tabernáculo

A tenda do Tabernáculo era uma estrutura retangular simples, de 4,5 metros de altura, com um teto horizontal. Ela era formada por três paredes de tábuas de madeira de acácia revestidas de ouro e quatro cobertas (ou coberturas) sobre o teto. Ela tinha 4,5 metros de largura e 13,5 metros de comprimento (10 x 30 côvados), com dois compartimentos em seu interior. O primeiro, o Santuário, ou Santo Lugar, tinha 4,5 metros por 9 metros (10 x 20 côvados), enquanto que o santuário mais interno, ou Santíssimo Lugar, tinha 4,5 metros por 4,5 metros (10 x 10 côvados). Como ele também tinha 4,5 metros de altura (10 côvados), o santuário mais interno era um cubo perfeito.

A Palavra de Deus contém passagens, além daquelas no Pentateuco, que ajudam em nossa compreensão do Tabernáculo:

"E outra vez levantei os meus olhos, e vi, e eis um rolo volante. E disse-me o anjo: Que vês? E eu disse: Vejo um rolo volante, que tem vinte côvados de comprido e dez côvados de largo. Então disse-me: Esta é a maldição que sairá pela face de toda a terra; porque qualquer que furtar será desarraigado, conforme está estabelecido de um lado do rolo; como também qualquer que jurar falsamente, será desarraigado, conforme está estabelecido do outro lado do rolo." [Zacarias 5:1-3].

O rolo que foi visto pelo profeta Zacarias em uma visão tinha inscritos dois mandamentos, que representavam os Dez Mandamentos como um todo. Como a passagem declara, o rolo era uma maldição para todos que não fossem capazes de viver perfeitamente de acordo com a santa lei de Deus. É significativo que as dimensões do rolo eram de 10 x 20 côvados, as mesmas dimensões que o Santo Lugar. O Tabernáculo é a única resposta à "maldição" da lei, mas é a resposta totalmente suficiente. O Santo Lugar leva até o Santíssimo Lugar, onde a perfeita misericórdia é encontrada.

A entrada do Santuário, ou Santo Lugar, era constituída por cinco tábuas de madeira de acácia, revestidas por ouro, e uma cortina de linho fino torcido enfeitada com fios em cor púrpura, escarlate e azul (exatamente como a cortina na entrada do Pátio). Cada uma das cinco tábuas era encaixada em uma base de bronze. Como observamos no Cap. 1, o número 5 fala sobre a necessidade de ação responsável por parte do homem. Antes de entrar no Santo Lugar, o sacerdote tinha de garantir que estava plenamente preparado de acordo com a lei de Deus.

A entrada do Santíssimo Lugar, por outro lado, era formada por quatro tábuas de madeira de acácia, revestidas de ouro, e uma espessa cortina, ou véu, de linho fino torcido, decorada com fios de cores púrpura, escarlate e azul, mas que mostrava, além disso, em trabalhos de bordado, diversos querubins com suas asas estendidas. Aparentemente, esses querubins também eram tecidos em fios similares.

As paredes rígidas da tenda eram formadas por 48 tábuas no total. Cada uma delas tinha 4,5 metros de comprimento e 67,5 cm de largura (10 côvados X 1,5 côvado). Cada tábua tinha dois encaixes em sua base que eram travados firmemente em um soquete de prata. Cada soquete de prata pesava um talento, ou cerca de 43 Kg. Se adicionarmos a esses soquetes as bases usadas para suportar os quatro pilares na entrada do santuário mais interno (o Santíssimo Lugar), a estrutura do Tabernáculo tinha exatamente 100 bases de prata ((48 x 2) + 4 = 100).

As tábuas do Tabernáculo eram fixadas em cada lado por cinco travessas revestidas de ouro, de 13,5 metros de comprimento, indo de uma extremidade a outra. Quatro dessas travessas eram fixadas firmemente à parte de fora da parede, duas para cima e duas para baixo, enquanto que a do meio passava por uma sequência de furos na lateral de cada tábua — "E fez que a travessa do meio passasse pelo meio das tábuas de uma extremidade até a outra." [Êxodo 36:33]. (veja o diagrama) Isto sugere que as tábuas poderiam ter até 5 centímetros de espessura, talvez até mais, e eram muito pesadas. As dez travessas, em conjunção com os ganchos fixadores e cordas da tenda, mais o peso excepcional de cada tábua, garantiam que a estrutura fosse robusta e estável.

As cinco tábuas em cada entrada exterior do Santuário eram suportadas por cinco bases de bronze. Isto é significativo, pois as outras bases na estrutura da tenda — 100 no total — eram feitas de prata. Como já vimos, o bronze indica o requisito divino absoluto que todo pecado seja julgado. A presença de bronze no limiar do Santuário era um lembrete final dessa verdade universal, talvez até uma advertência. O número 5, o número da responsabilidade, também é significativo. O homem precisa se preparar totalmente de modo a vir diante de Deus, pois a extraordinária santidade de Deus exige isto: "Adorai ao SENHOR na beleza da santidade; tremei diante dele toda a terra." [Salmos 96:9].

As Coberturas da Tenda do Tabernáculo

O Santuário, ou Santo Lugar (qodesh) continha três itens de mobília, a tipologia dos quais discutiremos em capítulos posteriores. São eles: o Candelabro de Ouro, no lado esquerdo, a Mesa de Ouro dos Pães da Preposição, no lado direito, e o Altar de Ouro de Incenso, que ficava ao lado do Veu do Santíssimo Lugar (qodesh qodesh).

O próprio Tabernáculo tinha quatro cobertas (ou coberturas) que envolviam completamente toda a estrutura e ficavam soltas pelo lado exterior das paredes, possivelmente em um pequeno ângulo. Elas também eram suficientemente compridas para cobrirem a entrada frontaL, se necessário.

A cobertura mais interna era feita de linho fino torcido decorado com fios de cores púrpura, escarlate e azul, com querubins bordados. Interessantemente, como as quatro coberturas ficavam penduradas do lado de fora das paredes, uma porção significativa da cobertura mais interior era permanentemente escondida da vista. Isso parece representar as profundezas mais íntimas de Deus, que, a despeito de tudo o que tenhamos o privilégio de aprender e ficar sabendo sobre Ele, permanecerá para sempre inalcançável à nossa compreensão.

Essa cobertura consistia de 10 cortinas de mesmo tamanho, com 50 laçadas ao longo de cada orla, de modo que as laçadas correspondentes podiam ser acopladas com colchetes de ouro. Cada cortina tinha 28 côvados (12,6 metros) de comprimento e 4 côvados (1,80 metro) de largura. Assim, no total, quando acopladas, elas formavam uma única peça, de 12,6 metros por 18 metros. Essas dimensões confirmam que a cobertura era apenas comprida o suficiente para cobrir a estrutura da tenda e quase não chegava ao solo em cada lado. Quando colocada no devido lugar, ela ficava ao longo do teto e descia pela parede de trás, pelo lado de fora (13,5 metros + 4,5 metros = 18 metros), enquanto que a dimensão mais curta (12,6 metros) subia por um lado, passava pelo teto e descia pelo outro lado (4,5 metros + 4,5 metros + 4,5 metros = 13,5 metros).

Tudo no Tabernáculo diz "só o suficiente". Não havia excessos, excedentes, nada de redundância. Ao dar Seu Filho, nosso Pai Celestial deu tudo o que poderia ser dado para nossa salvação. Ele não reteve nada. O "só o suficiente" do Tabernáculo não significa mera suficiência, mas exatamente o contrário — que nada foi retido. Tudo o que Deus poderia dar, Ele deu.

Em seu estado caído, os homens são incrivelemente egoístas. Eles esperam que Deus faça mais por eles, quando, na realidade, Ele já fez tudo o que poderia ser feito. Por meio de Seu Filho, Ele pagou toda nossa dívida do pecado por nós. Ele não deixou nada incompleto. Ele não poderia ter feito mais! A salvação é um dom gratuito, perfeito e eterno. Não há uma única coisa que um homem possa fazer, seja para ganhá-la ou para acrescentá-la. Ela é um dom tão grande que mal podemos compreender o quão maravilhosa ela é. Todavia, em seu estado caído, os homens ainda rejeitam e desprezam esse dom, tentando obter sua salvação por meio de boas obras e ritos sacramentais. Ao fazerem isso, eles se tornam enfatuados com suas próprias forças e rejeitam a suficiência daquilo que Cristo obteve para eles no Calvário. Com seus lábios eles afirmam aceitar a cruz, mas em seus corações a rejeitam:

"Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus." [1 Coríntios 1:18].

A cobertura seguinte é feita inteiramente de pele de cabra. Temos a tendência de a nos esquecer que o bode era um animal limpo aos olhos de Deus e exatamente tão adequado quanto um carneiro para as ofertas sacrificiais. Todos sabem que o sacrifício na Páscoa era um "cordeiro sem manchas", mas deixam de observar como o Êxodo definiu um "cordeiro":

"O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras." [Êxodo 12:5].

Cristo, em Sua primeira vinda, foi o Cordeiro, manso e submisso, mas em Sua segunda vinda, Ele será capaz de aplicar o mais poderoso golpe no campo de batalha que a humanidade já viu. Exatamente como um cabrito, Ele irá passar pelas linhas dos exércitos inimigos e destrui-los totalmente.

É por isto que Satanás tentou se apropriar do bode como um ícone demoníaco. Isto tanto zomba da Segunda Vinda de Cristo e coloca o "filho" de Satanás, o Anticristo, em seu lugar. Esse truque foi reforçado por uma séria falha por parte de muitos eruditos bíblicos de compreender corretamente a cerimônia sacrificial que envolve dois bodes no Dia da Expiação, ou Yom Kippur. Esta era a cerimônia mais importante no calendário anual do povo de Israel. As outras festas judaicas eram todas ocasiões de alegria, mas não o Dia da Expiação:

"É um sábado de descanso para vós, e afligireis as vossas almas; isto é estatuto perpétuo." [Levítico 16:31].

Este era o único dia no ano em que o Sumo sacerdote podia entrar no Santíssimo Lugar. Antes de fazer isso, ele tinha de fazer expiação por seus próprios pecados, apresentando a oferta sacrificial de um boi e de um carneiro. Depois de ter feito isso, um dos dois bodes jovens era escolhido por sorteio e oferecido pelo sumo sacerdote como um sacrifício pelos pecados dos filhos de Israel. Após completar essa tarefa, o sumo sacerdote voltava sua atenção para o segundo bode:

"Havendo, pois, acabado de fazer expiação pelo santuário, e pela tenda da congregação, e pelo altar, então fará chegar o bode vivo. E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso. Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra solitária; e deixará o bode no deserto." [Levítico 16:20-22].

O primeiro bode, que o sumo sacerdote sacrificava no Altar de Bronze, era representativo de Cristo e de Seu sacrifício no Calvário. O segundo bode, porém, sempre deixou muitos eruditos bíblicos confusos. Alguns chegaram até a especular, de forma blasfema, que esse bode representava Satanás.

Os cristãos precisam compreender que o segundo bode — o "bode expiatório" — também é representativo de Cristo, mas em um aspecto de Sua obra que não é suficientemente reconhecido dentro da igreja. O primeiro bode (o equivalente a um cordeiro) representava o primeiro dom do Calvário, onde nossa dívida do pecado foi paga em sua totalidade. O segundo, porém, representava outro dom admirável que Cristo também obteve para os crentes no Calvário. Colocando suas mãos na cabeça do bode, o sumo sacerdote figurativamente transferia toda a iniquidade do povo para o bode vivo. O bode era então levado para longe no deserto e solto, para nunca mais ser visto. Por meio de sua morte no Calvário, Cristo obteve o direito de remover a natureza pecaminosa dos santos no dia em que eles entram na eternidade.

O Dia da Ressurreição será um dia muito especial. Todos os que habitarem dali para frente com Cristo não terão mais a capacidade de pecar. Essa capacidade será tirada deles e eles nunca a terão novamente.

O bode sacrificado representa nossa libertação total e para sempre da dívida do nosso pecado, enquanto que o bode expiatório representa a libertação total e definitiva da nossa natureza pecaminosa.

Isto explica o significado de Provérbios 27:26, que de outro modo seria obscuro:

"Então os cordeiros serão para te vestires, e os bodes para o preço do campo."

Os cordeiros fornecem nossa capa de justiça diante de um Deus que é extraordinariamente santo, enquanto que os bodes nos permitem ir seguramente para o local (ou campos) de Deus, onde nossa antiga natureza pecaminosa nunca se manifestará novamente. O preço foi pago. O Pastor nos trouxe com segurança ao lar.

Esta grande bênção dobrada é também expressa nas segunda e terceira coberturas do Tabernáculo. A segunda cobertura, como vimos, consistia de fios de pele de cabra, que correspondia ao bode solto no Dia da Expiação, enquanto que a terceira cobertura, que consistia de pele de carneiro tingida de vermelho, correspondia ao bode sacrificado no Dia da Expiação.

As dimensões especificadas para ambas as coberturas de linho e a cobertura de pele de cabra eram suficientes para envolver a maior parte da estrutura do Tabernáculo. Entretanto, a Bíblia não especifica as dimensões para a cobertura de pele de carneiro ou para a cobertura mais externa, que era feita de pele de animais. Isso sugere que essas duas coberturas tinham a função de envolver totalmente a estrutura do Tabernáculo — frente, a parte de trás e as laterais — e fornecer isolamento total contra os elementos climáticos, quando necessário. É bem possível que uma ou duas dessas últimas coberturas fossem enroladas para trás de tempos em tempos, desse modo permitindo que os israelitas pudessem ver de longe as coberturas mais internas.

Alguns já sugeriram que as duas coberturas externas poderiam ter sido grandes o suficiente para ficarem acima do Tabernáculo, suportadas por vigas de madeira. Entretanto, essa hipótese especulativa está em conflito com a Escritura, por introduzir elementos — como as vigas adicionais — que em parte alguma são mencionadas e que, se presentes, alterariam a tipologia do Tabernáculo.

A cobertura mais externa era feita inteiramente de pele de um animal chamado tachash em hebraico. A Bíblia na versão Almeida Corrigida e Fiel traduziu como "texugo", mas isto é duvidoso, não pelo fato de o texugo não ser nativo da região — os egípcios poderiam ter importado a pele desse animal da Síria — mas porque o texugo não era considerado um animal ritualmente limpo. Devemos nos lembrar que um animal imundo não era apenas proibido para os israelitas para fins de consumo alimentar, mas também era repugnante para eles. "Nenhuma coisa abominável comereis." [Deuteronômio 14:3]. Devemos observar que era proibido até mesmo manipular a carcaça de um animal imundo, como o texugo. Portanto, o uso de uma cobertura feita com pele de texugo é muito improvável, especialmente se considerarmos que a cobertura deveria tipificar algum aspecto de Cristo e de Sua obra redentora.

Outros comentaristas sugeriram a pele do porco-marinho (um cetáceo parecido com o golfinho) ou da foca como alternativas adequadas, particularmente por que esses animais eram comuns no Nilo e na região do Mar Morto, porém esses dois também são animais imundos.

A única outra categoria de animal limpo — além do carneiro, bode ou boi — cuja pele teria sido adequada para este propósito, era o antílope: "O veado e a corça, e o búfalo, e a cabra montês, ... e o gamo." [Deuteronômio 14:5]. O equivalente egípcio mais comum teria sido a gazela. Esses animais são quadrúpedes ruminantes e que têm as unhas fendidas em duas partes. "Todo o animal que tem unhas fendidas, divididas em duas, que rumina, entre os animais, aquilo comereis." [Deuteronômio 14:6]. À luz dessas considerações bíblicas, a cobertura mais externa, tachash, muito provevelmene era feita de pele de antílope.

Sendo animais do deserto, as variedades de antílope na região teriam uma cor bem tosca, como o marrom ou um tom escuro de beje. Assim, a tenda do Tabernáculo combinava com o terreno do deserto e não chamava muito a atenção de um observador. A cobertura mais externa representava a humanidade despretenciosa de Cristo, descrita assim pelo profeta Isaías: "... não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos." [Isaías 53:2].

Essa cobertura tachash era virtualmente tudo o que o israelita comum poderia ver da tenda do Tabernáculo. Somente quando ia para apresentar uma oferta é que ele poderia ver uma cobertura mais interna, ou um dos pilares de ouro. Se fosse um homem de sorte, ele poderia sentir brevemente o aroma do incenso que era queimado continuamente sobre o Altar de Ouro.

A quarta cobertura externa completava a sequência. A primeira retratava Cristo em Sua divindade e realeza, enquanto que a segunda e terceira retratavam dois aspectos de Sua obra redentora. Finalmente, a mais externa, aquela que o mundo podia ver, retratava sua despretenciosa humanidade.

Aqueles que "não receberam o amor da verdade para se salvarem" [2 Tessalonicenses 2:10] veem apenas a capa exterior e rejeitam as boas novas do Evangelho.



Capítulo 6

O Candelabro de Ouro

O Candelabro de Ouro (Menorah) ficava no lado direito do Santuário, visto a partir do Santíssimo Lugar, exatamente como Cristo assenta-se à direita do Pai Celestial. Como o Santuário estava voltado para o oriente, o Candelabro de Ouro ficava no lado sul da tenda.

A Palavra de Deus especifica que o Candelabro de Ouro deveria ser feito com um talento de ouro (cerca de 43 Kg), ter sete hastes e ser feito de ouro batido (não moldado ou montado com partes componentes). Alguns eruditos estimaram que ele tinha pouco mais de 1,20 de altura. (Uma imagem insculpida do Candelabro de Ouro retirado do Segundo Tempo ainda pode ser vista hoje no Arco de Tito, em Roma, que data do ano 82, aproximadamente — veja a fotografia.)

A Pia de Cobre, o Candelabro de Ouro e o Propiciatório eram similares no sentido que cada um deles era feito totalmente de um único material (cobre e ouro, respectivamente). A limpeza diária do fiel cristão, representada pela Pia, é uma obra contínua de Cristo, exatamente como a luz que brilha dentro dele — representada pelo Candelabro — é uma obra contínua de Cristo. E ambos apontam para nosso maravilhoso Pastor e Intercessor, cujo sacrifício expiatório vicário — representado pelo Propiciatório — pagou o preço da nossa salvação.

Como não existiam janelas ou portais abertos no Santuário, o Candelabro de Ouro era a única fonte de iluminação, exatamente como Cristo é a única luz sobrenatural em nossas vidas hoje. Ele também será a única fonte de luz na Nova Jerusalém (Apocalipse 21:23), que descerá dos céus no fim do Milênio.

O significado espiritual do Candelabro é ainda mais enfatizado no capítulo 4 de Zacarias, onde o profeta prevê um abundante derramamento do Espírito Santo no fim dos tempos. Dali para frente, o azeite das setes lâmpadas queimará copiosamente até a eternidade.

A Amendoeira

A Palavra de Deus especifica que o Candelabro de Ouro deveria ter três copos no formato de amêndoa, um botão e uma flor em cada uma de suas três hastes laterais e quatro copos, com botões e flores na haste central. (Veja Êxodo 25:31-40.).

O uso da amendoeira para este propósito é significativo, conforme mostrado por um incidente registrado no livro de Números:

"Então falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, e toma deles uma vara para cada casa paterna de todos os seus príncipes, segundo as casas de seus pais, doze varas; e escreverás o nome de cada um sobre a sua vara. Porém o nome de Arão escreverás sobre a vara de Levi; porque cada cabeça da casa de seus pais terá uma vara. E as porás na tenda da congregação, perante o testemunho, onde eu virei a vós. E será que a vara do homem que eu tiver escolhido florescerá; assim farei cessar as murmurações dos filhos de Israel contra mim, com que murmuram contra vós... Sucedeu, pois, que no dia seguinte Moisés entrou na tenda do testemunho, e eis que a vara de Arão, pela casa de Levi, florescia; porque produzira flores e brotara renovos e dera amêndoas. Então Moisés tirou todas as varas de diante do SENHOR a todos os filhos de Israel; e eles o viram, e tomaram cada um a sua vara. Então o SENHOR disse a Moisés: Torna a pôr a vara de Arão perante o testemunho, para que se guarde por sinal para os filhos rebeldes; assim farás acabar as suas murmurações contra mim, e não morrerão." [Números 17:1-5,8-10].

Com essa dramática demonstração de Sua autoridade, o Senhor estava confirmando de forma muito pública que, dentre todas as tribos de Israel, somente a tribo de Levi tinha sido escolhida para servir no ofício sacerdotal. Além disso, as outras tribos não teriam qualquer papel ou palavra a dizer sobre essa decisão. Os rebeldes, que se atreveram a desafiar a vontade do Senhor nesta questão, receberam uma solene advertência.

A vara de Arão era de madeira da amendoeira. Miraculosamente, no curso de uma noite, ela retornou à vida. Como tal, era foi uma figura da Ressurreição, onde Cristo — a quem a Palavra se refere diversas vezes como o Ramo — retornou à vida após estar na escuridão da tumba por três dias e três noites.

Os botões e flores no Candelabro de Ouro falam triunfantemente da Ressurreição e da Luz eterna que em consequência iluminará nossas vidas. Ela também fala de Cristo e sua Ressurreição como o único meio para a salvação. Os homens em seu orgulho podem ter suas opiniões, suas convicções filosóficas e suas tradições religiosas, porém o Senhor forneceu somente um caminho. A palavra hebraica para amêndoa — shaqed — significa literalmente "a árvore alerta", poque ela é a primeira árvore frutífera a florescer, ou "despertar", após o período do inverno. Como tal, ela simbolizava a execução de forma rápida por parte de Deus de Seu propósito. Essa mesma ideia é fortemente expressa por Jeremias, quando foi chamado para o ofício de profeta, ainda em sua juventude:

"Ainda veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Que é que vês, Jeremias? E eu disse: Vejo uma vara de amendoeira. E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la." [Jeremias 1:11-12].

Arão e seus filhos — que eram os únicos autorizados por Deus a entrarem no Santuário — precisavam cuidar do Candelabro de Ouro toda manhã e todo fim de tarde sem falhas. Isto deveria ser feito continuamente, em todas as suas gerações. Toda vez que fazia isso, o sacerdote purificava-se na Pia de Cobre e levava consigo ao Santuário um novo suprimento de azeite de oliva para reabastecer as sete lâmpadas. Ao fazer isso, ele renovava os pavios com os espevitadores de ouro e juntava o material já utilizado em um apagador.

Exatamente como o Candelabro de Ouro era feito de ouro batido, o azeite nas sete lâmpadas era feito de azeitonas batidas, e não comprimidas — "Tu pois ordenarás aos filhos de Israel que te tragam azeite puro de oliveiras, batido, para o candeeiro, para fazer arder as lâmpadas continuamente." [Êxodo 27:20]. Como uma figura de Cristo, o Candelabro de Ouro fala do sofrimento suportado por nosso Remidor, a Luz do Mundo — "Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados." [Isaías 53:5].

Pavios de Linho

Interessantemente, o terceiro e final elemento no Candelabro de Ouro, o pavio de linho, também é feito batido. De acordo com o Dicionário Bíblico de Holman, os pavios nos tempos do Velho Testamento eram geralmente feitos de linho trançado. Isaías 42:3 dá confirmação disso e até faz referência a um pavio fumegante ao descrever o caráter do Messias: "A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega; com verdade trará justiça." Este verso nos diz que, apesar das múltiplas fraquezas espirituais dos homens, Cristo nunca rejeitará nem condenará os pecadores perdidos que vierem até Ele em fé.

Os pavios no Candelabro de Ouro representam a humanidade regenerada. Como Cristo disse aos Seus discípulos: "Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte." [Mateus 5:14]. O fiel cristão não tem luz própria, mas quando está cheio com o "azeite" do Espírito Santo, ele é uma lâmpada por meio de que a Luz de Cristo pode brilhar no mundo: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus." [Mateus 5:16].

Algumas vezes o Senhor precisa castigar o crente. de modo a equipá-lo para servir, exatamente como o Sumo Sacerdote, ajeitando o pavio, transformava-o de um "pavio fumegante" em uma fonte de luz radiante. O crente em Cristo também precisa fazer sua parte, enchendo-se a cada dia, não com o vinho deste mundo, mas com o azeite do Espírito Santo: "Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito." [Efésios 5:17-18].

O Candelabro de Ouro é uma figura gloriosa de Cristo em Sua divindade. Com suas sete hastes, o Menorah é também uma representação da igreja de Cristo, o corpo coletivo de fiéis cristãos em quem o Espírito Santo habita. As sete hastes também podem prenunciar as sete igrejas às quais Cristo se dirige no livro do Apocalipse (capítulos 2 e 3) e os "sete espíritos de Deus" (capítulo 4 e Isaías 11:1-2).

Como Cristo disse, "Eu sou a videira, e vós sois as varas." [João 15:5]. O formato do Candelabro é sugestivo de uma videira, um conjunto de ramos conectados e suportados por um tronco central. A tabela seguinte mostra como essa imagem permeia os quatro Evangelhos.

Evangelho
Cristo, o Renovo
Mateus: Cristo como Rei "Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra." [Jeremias 23:5].
Marcos: Cristo como Servo ".. Eis que eu farei vir o meu servo, o RENOVO." [Zacarias 3:8b].
Lucas: Cristo como Homem "Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o templo do SENHOR." [Zacarias 6:12].
João: Cristo como Deus "Naquele dia o renovo do Senhor será cheio de beleza e de glória; e o fruto da terra excelente e formoso para os que escaparem de Israel." [Isaías 4:2].

Em seu discurso às sete igrejas no livro do Apocalipse, Cristo confirmou que cada assembleia local de fiéis — cada igreja viva — era uma lâmpada ou castiçal que dava luz ao mundo por meio do poder do Espírito Santo:

"O mistério das sete estrelas, que viste na minha destra, e dos sete castiçais de ouro. As sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete castiçais, que viste, são as sete igrejas." [Apocalipse 1:20].

Ele também levantou a possibilidade que uma igreja possa perder sua lâmpada ou castiçal se deixar de cumprir as "primeiras obras" — alcançar os perdidos com a mensagem do Evangelho e começar a se preocupar com outras tarefas:

"Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres." [Apocalipse 2:5].

O Candelabro de Ouro nos diz que é tarefa de cada fiel cristão fazer tudo que Cristo nos mandou fazer, ter comunhão em uma igreja que esteja dedicada à salvação dos perdidos, e encher-se diariamente com o Espírito Santo. Mesmo com toda sua fragilidade humana, o fiel cristão é convidado a servir a Deus como um vaso inflamado para o Espírito Santo e levar ao mundo a Luz — a única Luz — que pode dar salvação aos perdidos.



Capítulo 7

A Mesa dos Pães da Proposição

A luz do Candelabro de Ouro brilhava diretamente sobre a Mesa dos Pães da Proposição, que ficava do lado esquerdo do Santuário, quando visto a partir da Arca.

A mesa tinha uma altura de apenas um côvado e meio (67,5 cm), com uma pequena área de superfície de dois côvados por um côvado (90 cm X 45 cm). Já observamos o fato surpreendente que a altura da mesa era a mesma que a do Propiciatório e a da grelha no Altar de Bronze.

A mesa era feita de madeira de acácia, com quatro pernas, toda revestida de ouro. A superfície tinha duas molduras elevadas ou "coroas" em torno das bordas, separadas por uma distância de quatro dedos. Como o Altar de Bronze, ela era transportada por dois varais inseridos em argolas, uma em cada canto. Os varais eram de madeira de acácia e revestidos de ouro, enquanto que as argolas eram de puro ouro.

Doze pães de mesmo tamanho — um para cada tribo — eram mantidos continuamente sobre a mesa, dispostos em dois grupos de seis. Aparentemente, os pães eram sem fermento, embora isto não seja declarado. Dado o tamanho da mesa, os pães eram provavelmente colocados um sobre o outro. A mesa também era reabastecida com novos pães assados todo sábado. Os sacerdotes foram convidados pelo Senhor a comerem os pães removidos. Esse convite nos diz que, apesar do ambiente árido do deserto, os pães eram tão frescos quanto no dia em que foram assados — o Senhor somente serve pães perfeitos. Os sacerdotes então comiam os pães como representantes de Israel como um todo:

"Também tomarás da flor de farinha, e dela cozerás doze pães; cada pão será de duas dízimas de um efa. E os porás em duas fileiras, seis em cada fileira, sobre a mesa pura, perante o SENHOR sobre cada fileira porás incenso puro, para que seja, para o pão, por oferta memorial; oferta queimada é ao SENHOR. Em cada dia de sábado, isto se porá em ordem perante o SENHOR continuamente, pelos filhos de Israel, por aliança perpétua." [Levítico 24:5-8].

O pão era chamado de lechem haPanyim, ou "Pão da Presença" — "E sobre a mesa porás o pão da proposição perante a minha face perpetuamente." [Êxodo 25:30]. Panyim significa literalmente "face", assim os pães sempre estavam perante a face (ou na presença) de Deus. A Bíblia ACF traduziu lechem haPanyim como "pão da proposição" porque ele estava em apresentação, ou "exibição" diante do Senhor.

Os sacerdotes tinham a permissão de levar os pães da semana anterior para casa, para ser consumido por sua família. Um escravo comprado que servia a família também poderia comer, mas não um diarista contratado. Todos os que comiam precisavam estar ritualmente limpos. (Veja Levítico 22:10-13.).

Cada pão era feito com um quinto de um efa de flor de farinha, sem qualquer pedrinha ou impurezas de qualquer tipo. Aparentemente, essa medida representava a porção que um homem comia por dia.

Um prato de ouro de incenso era colocado sobre cada amontoado de seis pães, o conteúdo do qual era queimado diante do Senhor "como um memorial" no sábado seguinte. Os pratos de incenso eram então reabastecidos.

Os vários utensílios associados com a mesa, como os pratos, colheres, jarros e tigelas, eram feitos de ouro puro. O pão — o Pão da Presença — era uma figura de Cristo como Pastor, alimentando e provendo para Suas ovelhas. O pão era preparado da forma tradicional — com azeite de oliva, sal e água — e cada ingrediente estava relacionado de algum modo ao ofício e obra de Cristo. O azeite designava a presença do Espírito Santo; o sal, o poder sustentador e preservador de Cristo; e a água, a Palavra, tanto a Palavra viva, que é o próprio Cristo, quanto a palavra escrita das Escrituras. A passagem da farinha pela peneira e o preparo da massa representavam o sofrimento de Cristo nas horas anteriores ao Calvário, enquanto que o fogo, que assava os pães, era o próprio Calvário.

O Pão da Presença foi erroneamente interpretado por alguns teólogos, como Lutero, com o significado que o pão da Ceia do Senhor está imbuído de algum modo com a "presença real" de Cristo. Eles negligenciaram o fato que a "presença" à qual o lechem haPanyim se refere é a do Senhor no Santo dos Santos. A presença não está no pão, seja mística ou espiritualmente. Quando Jesus partiu o pão na última ceia e disse: "Isto é meu corpo...", estava se referindo à Sua descrição anterior de Si mesmo como "o pão da vida". Para outros compartilharem desse pão, como os sacerdotes faziam no Santo Lugar, o corpo de Cristo teria de ser partido no Calvário: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo." [João 6:51].

A doutrina católica romana que diz que o pão da comunhão se torna o verdadeiro corpo de Cristo é blasfema e profundamente injuriosa a qualquer um que queira conhecer a Cristo pessoalmente, como Ele é, o maravilhoso Salvador que morreu uma vez, e uma vez apenas, por nossos pecados.



Capítulo 8

O Altar de Ouro

O Altar de Ouro de Incenso tem uma afinidade especial com o Altar de Bronze no sentido que ambos envolviam a consumação de uma oferta pelo fogo, a liberação de um cheiro, ou perfume, que era agradável a Deus, quatro chifres dispostos na forma de um quadrado e uma chama com origem na mesma fonte, isto é, fogo que desceu dos céus. Além disso, ambos foram feitos de madeira de acácia revestida por metal e eram transportados por duas varas que passavam por dentro de argolas.

A simetria entre eles é impressionante. Na verdade, isto servia para tornar a disparidade deles em tamanho ainda mais pronunciada. Em termos de volume, o Altar de Bronze era quase quarenta vezes maior do que o Altar de Ouro de Incenso! O Altar de Ouro foi feito de madeira de acácia revestida de ouro. Ele tinha dois côvados (90 cm) de altura, com um topo que media um côvado por um côvado (45 cm X 45 cm) com uma borda, ou coroa, de ouro. Ele tinha quatro chifres de madeira de acácia revestida de ouro, e duas — não quatro — argolas de ouro logo abaixo da coroa. Ele era transportado por dois varais de madeira de acácia revestidas de ouro. (Leia Êxodo 30:1-10.).

Somente um objeto — o incensário de ouro — ficava sobre o Altar de Ouro e somente um tipo de oferta era feita sobre ele — o incenso que era queimado.

O Sumo Sacerdote (ou um de seus filhos) renovava a oferta de incenso toda manhã e todo fim de tarde e, nesses momentos, ele também cuidava do Candelabro de Ouro. Aparentemente, um incensário de ouro era enchido com um novo suprimento de incenso e brasas tiradas do Altar de Bronze; isto tudo era então levado até o Santo Lugar e substituía o incensário que estava sobre o Altar de Ouro. O incensário propriamente parece ser constituído de um compartimento superior e um inferior, sendo que o incenso preenchia o compartimento superior e as brasas o inferior.

Na linguagem da Santa Palavra de Deus, o incenso designa uma oferta de oração que era aceitável ao Pai Celestial. Como Davi escreveu: "Suba a minha oração perante a tua face como incenso, e as minhas mãos levantadas sejam como o sacrifício da tarde." [Salmos 141:2].

O Altar de Ouro de Incenso no Tabernáculo é um reflexo do altar de ouro de incenso que está diante do trono de Deus:

"E veio outro anjo, e pôs-se junto ao altar, tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que está diante do trono. E a fumaça do incenso subiu com as orações dos santos desde a mão do anjo até diante de Deus." [Apocalipse 8:3-4].

A fragrância do incenso designa a obediência abnegada de Jesus Cristo. Nossas orações somente são aceitáveis ao Pai Celestial porque carregam consigo a fragrância daquilo que o Filho de Deus alcançou no Calvário. "E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave." [Efésios 5:2].

Precisamos considerar mais uma vez as ofertas queimadas sobre o Altar de Bronze e o que elas significavam para o Pai Celestial: "Assim queimarás todo o carneiro sobre o altar; é um holocausto para o SENHOR, cheiro suave; uma oferta queimada ao SENHOR." [Êxodo 29:18]. A satisfação que o Pai Celestial sentia com as ofertas queimadas estava baseada, não nas ofertas em si, mas no sacrifício perfeito que elas representavam, a oferta abnegada no Calvário. Mesmo no tempo em que os sacrifícios levíticos foram instituídos, o "cheiro suave" que eles levavam até o Pai Celestial era o do Calvário, um evento que, em Sua onisciência, sempre esteve diante Dele.

O Intercessor

O Altar de Ouro de Incenso representa o admirável papel que Cristo realiza como nosso intercessor diante de Deus. Nossas orações chegam diante do Pai Celestial somente porque Cristo intercede continuamente por nós e torna nossas orações aceitáveis: "Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles." [Hebreus 7:25].

Sem esse ato de intercessão, nossas orações nunca chegariam diante do Pai Celestial. Somente aqueles que são nascidos de novo podem alcançar o Pai Celestial com suas orações. As orações dos cristãos nominais e dos incrédulos, independente da devoção e sinceridade que eles possam demonstrar, não são ouvidas. Muito tem sido dito sobre as "grandes religiões" do mundo, mas essas assim chamadas grandes religiões são mortas em sua essência. Os seguidores delas não têm qualquer tipo de acesso ao Pai Celestial, e até que se arrependam e aceitem a salvação que Cristo obteve para nós no Calvário, eles estão completamente separados de Deus.

Cristo se referiu especificamente a essa verdade quando disse: "Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus." [João 17:9]. Somos dados a Cristo — e recebidos por Ele — quando nascemos de novo. Todos os que rejeitam a Cristo, incluindo aqueles que zombam ou "rejeitam tão grande salvação" (Hebreus 2:3) estão chamando sobre si mesmos a justa ira de Deus no Dia do Juízo.

A igreja hoje é muito lenta em proclamar esta verdade, que também é parte do Evangelho. As boas novas são boas para aqueles que ouvem e a aceitam, mas não para aqueles que ouvem e rejeitam.

O Incenso

O incenso propriamente era produzido com quatro especiarias combinadas, mais o tempero do sal (que representava a incorruptibilidade). Essas especiarias parecem ter vindo de terras distantes:

Estes quatro ingredientes aromáticos representavam a perfeição de Cristo e Sua obediência ao Pai Celestial. À medida que queimavam, o perfume deles se difundia lentamente na atmosfera e se propagava em seguida para os quatro cantos do mundo. A presença de quatro especiarias denotava a natureza universal da obra que Cristo iria realizar. É interessante que o incenso tinha de ser moído para formar um pó muito fino que servisse a esse propósito, refletindo mais uma vez a verdade expressa por Isaías: "Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões.".

De acordo com Êxodo 30:37, ninguém poderia produzir ou usar esse mesmo tipo de incenso. Quem fizesse isso seria extirpado da comunidade de Israel. Além disso, somente o incenso preparado exatamente de acordo com as especificações da Escritura seria aceitável diante do Senhor. Qualquer outro tipo ("incenso estranho"), por mais raro ou caro que fosse, era absolutamente proibido.

A Palavra de Deus diz que o incenso deveria ser considerado santíssimo. Ele é similar à oração que Cristo faz ao Pai em nosso favor, que é de fato santíssima e não por ser duplicada por ninguém. Em toda sua caminhada com o Senhor, o fiel cristão precisa reconhecer que suas orações não têm absolutamente eficácia alguma se não estiverem imbuídas com o perfume, o santo incenso da oração intercessória de nosso Salvador.

Nunca podemos orar em nossa própria força. A igreja moderna em grande parte se esqueceu disto. Precisamos do Espírito Santo, que habita dentro de nós, para nos guiar em nossas súplicas, e precisamos da intercessão do nosso Remidor, que se assenta à direita de Deus, para levar nossas palavras diante do trono do Altíssimo.

Os cristãos professos que oram ao Espírito Santo estão em grave erro. Eles deixam de compreender o ensino claro do Tabernáculo e adotaram, no lugar da verdadeira oração, uma invocação de sua própria invenção, um "incenso estranho" que não pode ser agradável a Deus. Eles se esquecem — ou preferem ignorar — que Jesus Cristo nunca orou ao Espírito Santo. Ninguém mais na Bíblia também orou.

É por isto que a Igreja Católica Romana incorporou a oração carismática em seu Catecismo (1992) — parágrafos 2670-2672. Este será um dos estratagemas venenosos que essa falsa igreja usará para criar uma religião universal.

Rígida Obediência

Existem muitas ocasiões na Bíblia em que a tentativa do homem de modificar ou aprimorar aquilo que Deus prescreveu foi imediatamente repreendida. Algumas vezes, a repreensão foi fatal. Por exemplo, quando a Arca da Aliança foi transportada sobre um carro de bois para um novo local, Uzá a tocou com sua mão para evitar que ela caísse. Por causa desse ato de presunção, ele caiu morto imediatamente. Uzá e sua equipe sabiam — ou deveriam saber — que Deus tinha dado instruções claras sobre como a Arca deveria ser transportada, usando somente as varas que passavam pelas argolas de ouro. A tentativa deles de "fazer aprimoramentos" e usar uma carroça deixou Deus irado.

Quantos hoje na igreja estão provocando o Senhor à ira ao usarem métodos de oração e de adoração que não foram ensinados na Santa Palavra de Deus e que, em muitos casos, estão em violação ao que Ele claramente ordenou?

Os dois filhos mais velhos de Arão cometeram um ato similar de adoração desrespeitosa, um ato que, na maioria das igrejas hoje, muito provavelmente passaria despercebido. Em vez de preencherem o incensário de ouro com brasas retiradas do Altar de Bronze, eles aparentemente as trouxeram de outro lugar. O "fogo estranho" deles foi um desvio daquilo que estava prescrito na Palavra de Deus — veja Levítico 16:12: "Tomará também o incensário cheio de brasas de fogo do altar, de diante do SENHOR, e os seus punhos cheios de incenso aromático moído, e o levará para dentro do véu." (Veja também Números 16:46). Como resultado de sua desobediência, ambos foram mortos por fogo do Senhor. Além disso, o pai deles, Arão, e os irmãos Eleazar e Itamar, não receberam permissão de prantearem a morte dramática e súbita deles:

"E Moisés disse a Arão, e a seus filhos Eleazar e Itamar: Não descobrireis as vossas cabeças, nem rasgareis vossas vestes, para que não morrais, nem venha grande indignação sobre toda a congregação; mas vossos irmãos, toda a casa de Israel, lamentem este incêndio que o SENHOR acendeu." [Leviticus 10:6].

Lembre-se também que Nadabe e Abiú estavam entre o grupo de 74 eleitos que subiram o monte Sinais e viram o Deus de Israel:

"E subiram Moisés e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, e debaixo de seus pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade." [Êxodo 24:9-10].

Eles tinham sido abençoados além da conta, porém mesmo assim caíram de cabeça no pecado da desobediência. Além disso, quando eles fizeram isso, seus privilégios especiais e experiências exaltadas não fizeram diferença alguma. A punição deles foi imediata e final.

Somente os Filhos de Arão Podiam Oferecer Incenso

Somente os descendentes da casa de Arão podiam oferecer incenso sobre o Altar de Ouro. À medida que o tempo passou e o número de indivíduos elegíveis aumentou, tornou-se necessário atribuir essa grande honra por sorteio. Ao tempo de Zacarias, o pai de João o Batista, um sacerdote da linhagem de Arão poderia cumprir esse ato especial de serviço (por um período de duas semanas) somente uma vez em toda a sua vida. A oportunidade de Zacarias só veio quando ele já estava avançado em idade.

Em seu orgulho, os homens imaginam que os mandamentos do Senhor não são verdadeiramente absolutos, mas são semelhantes às instruções cuja aplicação pode variar de pessoa para pessoa e de lugar para lugar. Mas, isto é falso. O Tabernáculo ensina que todos que amam ao Senhor precisam fazer exatamente como Ele manda, não apenas por obediência, mas por um desejo verdadeiro de agradá-Lo e de servi-Lo fielmente. Esta atitude está quase que totalmente ausente na igreja moderna, onde o próprio homem decide o que deve agradar a Deus. A Igreja Emergente, a Nova Reforma Apostólica, os pregadores da Palavra da Fé, aqueles que buscam sinais, os que operam maravilhas, o movimento ecumênico, a espiritualidade contemplativa, a Igreja com Propósitos, o Curso Alfa, aprovado por Roma — e muitos mais — estão em revolta aberta contra o Tabernáculo. Eles são liderados por homens que professam compreender a Palavra de Deus de uma nova forma mas que, na realidade, decidiram colocar de lado, ou simplesmente ignorar, aquilo que Deus disse de forma bem clara. Em sua presunção e orgulho, eles são similares ao rei Uzias, cuja história é contada no segundo livro das Crônicas dos reis de Israel:

"Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso. Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, e com ele oitenta sacerdotes do Senhor, homens valentes. E resistiram ao rei Uzias, e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o SENHOR, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar incenso; sai do santuário, porque transgrediste; e não será isto para honra tua da parte do SENHOR Deus. Então Uzias se indignou; e tinha o incensário na sua mão para queimar incenso. Indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu à testa perante os sacerdotes, na casa do SENHOR, junto ao altar do incenso. Então o sumo sacerdote Azarias olhou para ele, como também todos os sacerdotes, e eis que já estava leproso na sua testa, e apressuradamente o lançaram fora; e até ele mesmo se deu pressa a sair, visto que o SENHOR o ferira. Assim ficou leproso o rei Uzias até ao dia da sua morte; e morou, por ser leproso, numa casa separada, porque foi excluído da casa do SENHOR. E Jotão, seu filho, tinha o encargo da casa do rei, julgando o povo da terra." [2 Crônicas 26:16-21].

A obediência sem hesitações à santa Palavra de Deus está na essência do verdadeiro Cristianismo. Hoje, poucos parecem apreciar a diferença radical aos olhos de Deus entre um cristão fiel, que procura a todo tempo ser completamente obediente à Sua Palavra, e alguém que está satisfeito com uma interpretação moderna e amigável daquilo que Deus disse de forma bem clara.



Capítulo 9

O Véu

O Santo Lugar estava separado do Santíssimo Lugar por um véu, que em Hebreus 9:3 é chamado de "segundo véu", sendo o primeiro o do próprio Santuário. O véu marcava a linha divisória entre Deus e o homem. Como um aspecto geográfico, ele cobria apenas alguns metros de espaço, mas como uma realidade espiritual e histórica, era uma barreira insuperável que homem algum poderia atravessar.

Felizmente para a humanidade, após a trágica jornada seguida por todas as nações desde a Queda, o Senhor escolheu um homem para gerar uma nação especial e depois escolheu outro homem para liderar essa nação até o Tabernáculo.

Somente alguns poucos membros dessa nação podiam chegar até o segundo véu e somente um indivíduo podia passar por ele. Esse indivíduo singular era o Sumo Sacerdote, que fazia isso somente em um dia designado, uma vez por ano. Ele não tinha absolutamente qualificação alguma, ou direito algum, de passar pelo véu, exceto a autoridade que lhe foi dada por Deus. Como um indivíduo, ele era tão inelegível como qualquer outra pessoa. A autoridade para fazer isso derivava unicamente de seu ofício como Sumo Sacerdote, no exercício do qual ele representava a pessoa de Cristo.

A obra posterior de Cristo no Calvário faria o pagamento total por todos os pecados passados e futuros da humanidade. Se os seis dias da Criação trouxeram todas as coisas à existência, as seis horas do Calvário as restaurariam, na plenitude dos tempos, à perfeição original que elas possuíam.

Quando Cristo proferiu as palavras "Está consumado", instantes antes de morrer, o véu no Templo rasgou-se em dois, de alto a baixo e ao meio:

"E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo." [Marcos 15:38].

"E rasgou-se ao meio o véu do templo." [Lucas 23:45].

O véu era tão denso e pesado que o estrondo dessa ação sobrenatural deve ter assustado todos os que estavam nas proximidades do Templo. É interessante que, ao se referir aos meses que se seguiram, a Bíblia diz: "E crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé." [Atos 6:7].

Ao rasgar o véu, o Pai Celestial estava dizendo ao mundo que a separação entre Deus e o homem tinha sido removida por meio do pagamento feito por Seu Filho no Calvário. A palavra grega traduzida como "Está consumado" é tetelestai, que significa literalmente "Liquidado", ou "Quitado". O idioma grego era usado no comércio no Oriente Médio naquele tempo e quando um negociante recebia o pagamento total, ele carimbava a fatura de forma apropriada — com a palavra Tetelestai!

O próprio Pai Celestial removeu o véu, como um sinal de Sua completa satisfação com aquilo que Seu Filho obteve no Calvário. Além disso, Ele não esperou tempo algum para fazer isso. Somos lembrados de Suas preciosas palavras na ocasião do batismo de Jesus Cristo no rio Jordão:

"E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." [Mateus 3:17].

Se uma única imagem fosse escolhida para representar a salvação da humanidade, provavelmente essa imagem seria o véu rasgado decisivamente em dois. Essa imagem expressa o amor do Pai pelo Filho e o amor do Filho pelo Pai. Além disso, para cada fiel cristão individual, ela expressa "as riquezas incompreensíveis de Cristo" [Efésios 3:8], o glorioso privilégio que agora desfrutamos, como filhos adotivos de Deus, de podermos comparecer diante de nosso Pai Celestial a qualquer momento que quisermos, em oração, ação de graças e alegre expectativa.



Capítulo 10

O Santíssimo Lugar

A parte mais interna do Tabernáculo era o Santo dos Santos, ou Santíssimo Lugar (qodesh qodesh). A Arca da Aliança ficava dentro desse recinto fechado, que era separado do Santuário, ou Santo Lugar (qodesh), pelo segundo véu. Somente uma pessoa podia entrar no Santíssimo Lugar — o Sumo Sacerdote, mas somente podia fazer isso em um dia do ano — o Dia da Expiação, ou Yom Kippur.

As dimensões precisas do Santíssimo Lugar não são informadas explicitamente nas Escrituras, mas podem ser inferidas. Como a estrutura da tenda era simétrica, sabemos que o portal do Santíssimo Lugar tinha a mesma altura e largura que a entrada do Santuário, isto é 10 X 10 côvados (4,5 metros X 4,5 metros). Assim, somente precisamos determinar a distância desde o véu até a parede do lado oeste — a parte de trás da tenda do Tabernáculo — para saber o tamanho exato do Santíssimo Lugar.

Isto pode ser inferido de três modos. Primeiro, como as dimensões do Templo de Salomão (como as do Templo do Milênio, descrito em Ezequiel) eram o dobro das do Tabernáculo, e como o Santo dos Santos no Templo tinha 20 côvados X 20 côvados X 20 côvados (9 X 9 X 9 metros) — um cubo perfeito — pode ser inferido que a dimensão não declarada no Tabernáculo era de 10 côvados (4,5 metros), formando outro cubo perfeito.

A segunda linha de raciocínio está baseada no tamanho das coberturas do Tabernáculo. Em seu comentário sobre Êxodo 26:32, Rashi, um rabino francês do século 12, fez a seguinte lúcida análise (Nota: Mishkan é o termo hebraico para a tenda do Tabernáculo):

"A cortina divisória tinha dez côvados de comprimento, correspondendo à largura da Mishkan (de norte a sul), e dez côvados de largura, como a altura das tábuas. Ela estava estendida no ponto da terça parte da Mishkan [de leste para oeste) de modo que a partir dela [a cortina divisória] até o interior da Mishkan havia dez côvados, e dela [a cortina divisória] até o exterior havia vinte côvados. Portanto, o Santo dos Santos tinha dez côvados por dez côvados, como está dito: "Pendurarás o véu debaixo dos colchetes" [verso 33], que unem os dois conjuntos de cortinas da Mishkan, a largura do conjunto sendo de 20 côvados. Quando Moisés os colocou no teto da Mihkan, desde a entrada [todo o percurso] para o oeste, ele [o primeiro conjunto de cortinas] terminou após dois terços do percurso na Mishkan com o restante [das cortinas] solto na parte de trás para cobrir as tábuas.

O formato cúbico do Santo dos Santos foi repetido mais tarde no Templo de Salomão e também aparecerá no Templo do Milênio, predito por Ezequiel:

"Também mediu o seu comprimento, vinte côvados, e a largura, vinte côvados, diante do templo, e disse-me: Este é o Santo dos Santos." [Ezequiel 41:4].

Incrivelmente, o Santíssimo Lugar nos céu dos céus descerá no fim do Milênio e será conhecido na Terra como A Nova Jerusalém:

"E levou-me em espírito a um grande e alto monte, e mostrou-me a grande cidade, a santa Jerusalém, que de Deus descia do céu... E a cidade estava situada em quadrado; e o seu comprimento era tanto como a sua largura. E mediu a cidade com a cana até doze mil estádios; e o seu comprimento, largura e altura eram iguais." [Apocalipse 21:10 e 16].

Isto dá a terceira e conclusiva linha de raciocínio. Como o Senhor requereu que cada um dos elementos do Tabernáculo terreal fosse uma cópia exata de seu correspondente celestial — "Os quais servem de exemplo e sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou." [Hebreus 8:5] — podemos estar certos que o Santíssimo Lugar que Moisés construiu, junto com o Santíssimo Lugar construído por Salomão, e aquele predito por Ezequiel no Templo do Milênio, precisam todos ter a forma de um cubo. A Nova Jerusalém, que descerá dos céus — cujo comprimento, largura e altura são iguais — foi o original com base em que as versões terreais foram modeladas.

Com o derramamento de Seu sangue no Calvário, Cristo removeu o véu que tinha até então tornado impossível para o homem entrar no Santíssimo Lugar. Na plenitude dos tempos, quando todas as coisas forem renovadas, todos os que estão agora vivendo em Cristo por meio da fé viverão com Ele para sempre na Nova Jerusalém, o santíssimo lugar.

A cidade será conhecida daquele dia em diante como Yahweh Shammah, "o SENHOR está ali" [Ezequiel 48:35].



Capítulo 11

A Arca da Aliança

Existem quatro arcas na Bíblia e todas estão relacionadas. A primeira foi a arca de Noé, que levou 120 anos para ser construída. Seguindo as instruções do Senhor, Noé revestiu a arca de betume, tanto por dentro quanto por fora, para torná-la à prova d'água. A segunda arca foi aquela que Joquebede, a mãe de Moisés, fez de juncos e revestiu de barro e betume, para transformá-la em um barco com boa vedação à água para seu bebê. A terceira arca, tão frequentemente negligenciada, é aquela que o próprio Moisés fez para transportar da montanha o segundo conjunto de tábuas de pedra, conforme ele foi instruído pelo Senhor:

"Naquele mesmo tempo me disse o SENHOR: Alisa duas tábuas de pedra, como as primeiras, e sobe a mim ao monte, e faze-te uma arca de madeira; e naquelas tábuas escreverei as palavras que estavam nas primeiras tábuas, que quebraste, e as porás na arca. Assim, fiz uma arca de madeira de acácia, e alisei duas tábuas de pedra, como as primeiras; e subi ao monte com as duas tábuas na minha mão. Então escreveu nas tábuas, conforme à primeira escritura, os dez mandamentos, que o SENHOR vos falara no dia da assembléia, no monte, do meio do fogo; e o SENHOR mas deu a mim; e virei-me, e desci do monte, e pus as tábuas na arca que fizera; e ali estão, como o SENHOR me ordenou." [Deuteronômio 10:1-5].

Não nos é informado o que aconteceu com essa arca, que Moisés fez de madeira de acácia, possivelmente com suas próprias mãos. Ela foi claramente usada para conter as duas tábuas de pedra até que a quarta arca, a Arca da Aliança, que era revestida de ouro, fosse construída por Bezalel, de acordo com as medidas determinadas a Moisés, quando a Lei foi dada a Israel.

Muitos respeitáveis comentaristas (como Gill, Jamieson-Fausset-Brown) compreedem que a arca de acácia foi a arca em sua forma antes de receber o revestimento de ouro. A Palavra de Deus não é específica neste ponto, mas é difícil ver como as habilidades excepcionais necessárias para construir a estrutura de acácia da arca final poderiam estar disponíveis antes que Bezalel e Aoliabe fossem capacitados de forma sobrenatural pelo Espírito Santo para construí-la. A Escritura não dá indicação que elas estavam.

Essa arca provisória, feita totalmente de madeira, era uma figura da humanidade. Por si mesma, ela nunca poderia proteger o homem caído da ira de Deus. Outra arca foi necessária para esse propósito, uma arca cuja humanidade estivesse revestida em divindade e blindada do fogo da ira de Deus por um revestimento de ouro puro. Não havia nada que o homem em seu estado caído podia fazer para proteger a si mesmo, de modo que o Senhor, em Sua misericórdia, enviou um homem perfeito para receber, em lugar de toda a humanidade, a força total da justa ira de Deus.

Danificada pelo pecado, a fragilidade e deficiências da terceira arca tornava-a inútil para qualquer propósito redentor. Entretanto, sua própria existência serviu para destacar a perfeição da misericórdia que a quarta arca incorporaria.

As Dimensões da Arca

A Arca tinha um côvado e meio (67,5 cm) de altura, um côvado e meio (67,5 cm) de largura e dois côvados e meio (112,5 cm) de comprimento. Ela foi feita de madeira de acácia e revestida de ouro, por dentro e por fora. As paredes e a base da Arca formavam um receptáculo distinto, ou baú. Por esta razão ela pode ser considerada um item separado de mobília da "tampa" que ficava sobre ela. Esse aspecto é sublinhado pelo fato que a tampa, conhecida como Propiciatório, ou kapporeth em hebraico, ou hilasterion, em grego — foi feita totalmente de ouro e não era fixada por prendedores ou dobradiças na Arca. Em vez disso, ela ficava assentada sobre uma "coroa", ou borda de ouro, nas laterais da Arca (veja Êxodo 25:11].

Dois grandes querubins foram feitos batidos da mesma porção de ouro que o Propiciatório e um ficava diante do outro em ambos os lados do Propiciatório, com suas asas estendidas envolvendo o espaço a partir do qual o Senhor falava com Moisés:

"Disse, pois, o SENHOR a Moisés: Dize a Arão, teu irmão, que não entre no santuário em todo o tempo, para dentro do véu, diante do propiciatório que está sobre a arca, para que não morra; porque eu aparecerei na nuvem sobre o propiciatório." [Levítico 16:2].

A Arca era transportada por duas varas de acácia revestidas de ouro. Essas varas passavam por argolas de ouro fixadas na Arca, duas em cada lado. Embora os israelitas tivessem a permissão de remover as varas que eram usadas para transportar o Altar de Bronze, a Mesa dos Pães da Proposição, e o Altar de Ouro, eles não podiam remover as varas da Arca (Êxodo 25:15). Isto sugere que a Arca deveria ser mantida em um estado contínuo de prontidão, até que chegasse ao seu lar final em Sião (1 Reis 8:8).

Os querubins acima da Arca transmitiam o mesmo significado que aqueles panos dentro do Véu interior e na cobertura mais interna, acima do Tabernáculo. Exatamente como Adão e Eva foram impedidos pelo querubim de entrarem no Jardim do Éden, para que não comessem da Árvore da Vida e vivessem para sempre — sem qualquer esperança de salvação — assim também os querubins no Tabernáculo retratavam tanto o julgamento e a proteção de Deus. O homem precisava ser impedido de se aproximar do Santíssimo Lugar, até que todo vestígio do pecado fosse removido pela obra redentora de Cristo.

O Tabernáculo contém muitas verdades profundas sobre Deus. Entre estas há uma que a igreja hoje em grande parte se esqueceu. Isto se relaciona com o caráter do pecado e sua alarmante destrutividade. Em nosso estado humano caído, mal começamos a compreender a infinita perfeição da santidade de Deus. Portanto, pensamos no pecado como um erro, ou mancha, ou falha, ou um lapso de algum tipo. Mas, nada disso descreve a absoluta destrutividade do pecado. Em nosso orgulho, nós nos esquecemos que até a mente que usamos para avaliar a natureza do pecado está ela mesma tão corrompida pelo pecado que não consegue tratar a tarefa. A não ser que o Espírito Santo nos convença do nosso pecado, nunca veremos o pecado como ele realmente é.

O Pecado e a Lepra

É por isto que a Bíblia frequentemente compara o pecado com a lepra. Em seus estágios iniciais, os sintomas da lepra quase não são perceptíveis e a doença pode passar sem ser detectada por muitos anos. Somente à medida que a doença avança é que os sintomas mais óbvios começam a aparecer. Como ela causa uma neutralização dos receptores nervosos e uma lenta deterioração do sistema imunológico, o paciente pode incorrer em maiores ferimentos por negligência ou por infecções secundárias. Em seus estágios finais, se for deixada sem tratamento, a lepra provoca horrendas deformidades físicas e uma morte lenta e dolorosa.

Se o Senhor compara o pecado com a lepra, devemos tomar nota disto! Nos tempos antigos, ninguém se recuperava da lepra. Como o pecado, ela era uma sentença de morte e, como o pecado, seus sintomas eram quase imperceptíveis em seus estágios iniciais. A Palavra de Deus enfatiza a natureza mortal dessa doença descrevendo frequentemente sua cura milagrosa como uma purificação, em vez de como uma recuperação.

Aos olhos de Deus, nascemos neste mundo na condição de leprosos, totalmente contaminados pelo pecado. Somente a purificação que vem por meio do sangue de Cristo é que pode remover essa condição.

Muitos incrédulos estão perplexos pelo pecado e seus efeitos mortais. Eles não conseguem compreender como um indivíduo gentil e generoso, que passou sua vida inteira servindo aos outros e sem nunca prejudicar alguém, possa ser condenado "simplesmente" por ter rejeitado o dom gratuito da salvação. O que eles não compreendem — ou deliberadamente preferem ignorar — é que o pecado já está presente em cada um de nós desde o nascimento e que, como a lepra, ele continuará indefinidamente a corroer qualquer coisa de valor que possamos aparentemente ter. Qualquer um que rejeite a Cristo terminará eventualmente com o mesmo desejo pela impiedade que hoje atormenta o Inimigo e seu exército de anjos caídos. "Mas os ímpios não têm paz, diz o SENHOR." [Isaías 48:22]. O próprio Jesus Cristo parece ter se referido a essa solene verdade quando disse:

"Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei... Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado. E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim." [Lucas 19:22-27].

Em seu comentário, Adam Clarke sugere que as palavras "ganhou" e "recebeu" sejam adicionadas onde apropriado (como mostrado acima entre os colchetes). ##

O Propiciatório

A palavra hebraica para Propiciatório é kapporeth e deriva da raiz da palavra "cobrir", "perdoar", "reconciliar" e "expiar". Ele é a cobertura definitiva, pois protege perfeitamente todos aqueles que creem em Cristo da punição que seus pecados com justiça merecem.

O conceito de cobrir ocorre repetidamente no Tabernáculo. A própria tenda tem quatro coberturas, e em todos os casos onde a madeira é usada, ela também tem um revestimento, seja de bronze, prata ou ouro. O revestimento de bronze aponta para a promessa que o julgamento pode ser mantido em suspensão se o homem for obediente e aderir ao plano de Deus; o revestimento de prata — nos capitéis das tábuas do Pátio — apontam para a promessa que o sangue de Cristo pode nos purificar de todo o pecado; enquanto que o revestimento de ouro — que é encontrado somente dentro da tenda do Tabernáculo — aponta para a perfeição divina em tudo que Cristo realizou em nosso favor.

É notável que o único ouro encontrado no Pátio era nos trajes cerimoniais e na placa de ouro usada pelo Sumo Sacerdote. Como um representante de Cristo, ele carregava em sua pessoa os emblemas da divindade.

Como já observamos, a única madeira sem revestimento no Pátio era a lenha para o fogo do Altar de Bronze. Esse fogo queimava continuamente, até mesmo quando o Tabernáculo estava sendo transportado na mudança do acampamento para outra localidade. Além disso, o próprio fogo veio do céu:

"Porque o fogo saiu de diante do SENHOR, e consumiu o holocausto e a gordura, sobre o altar; o que vendo todo o povo, jubilaram e caíram sobre as suas faces." [Levítico 9:24].

Isto aconteceu na primeira vez que o Altar de Bronze foi usado para propósitos cerimoniais. O próprio Senhor Deus acendeu o fogo. Isto significa que todos os sacrifícios que foram apresentados sobre o Altar de Bronze durante os 40 anos de peregrinação no deserto — e presumivelmente também depois — foram queimados no fogo que o próprio Deus forneceu:

"O fogo que está sobre o altar arderá nele, não se apagará; mas o sacerdote acenderá lenha nele cada manhã, e sobre ele porá em ordem o holocausto e sobre ele queimará a gordura das ofertas pacíficas." [Levítico 6:12].

Esse fogo, o fogo do justo juízo de Deus, nunca é extinto, nem mesmo na eternidade.

Em nossa humanidade — representada pela madeira — estamos destinados a sermos consumidos pelo fogo de Deus, a não ser que nossos pecados sejam "cobertos". Nossa cobertura é o sangue que Cristo derramou voluntariamente no Calvário. É por meio disso, e disso somente, que nossos pecados são cobertos.

Como disse o salmista: "Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto." [Salmos 32:1].

A Realidade do Inferno

Muitos hoje, até mesmo cristãos professos, se esqueceram que TODO pecado precisa ser — e será — punido. Os cristãos são poupados da ira do fogo eterno porque Cristo tomou sobre Si mesmo o sofrimento que os pecados deles exigia. Ele levou sobre Si todas as nossas transgressões, de modo a fazer uma perfeita restituição a Deus em nosso favor. Esse dom admirável é recebido somente pela graça, por meio da fé em Cristo. Assim, temos aqui a grande doutrina essencial do Cristianismo, a expiação vicária, em que Cristo, nosso substituto, sofreu em nosso lugar e pagou, ou expiou, a dívida do nosso pecado pelo Seu sangue. Ao fazer isso, Ele também adquiriu o direito de remover e lançar para longe nossa natureza pecaminosa no Dia da Ressurreição, desse modo nos livrando para sempre de qualquer propensão remanescente para o pecado.

Como já vimos, a primeira parte do dom é representado pelo bode sacrificado no Dia da Expiação Anual, enquanto que a segunda parte é representada pelo bode que é enviado para longe no deserto no mesmo dia, para nunca mais ser visto.

Se o Altar de Bronze é a imagem mais aterrorizante na Bíblia, o Propiciatório é a mais maravilhosa.

A única coisa que blinda o homem das consequências de seus pecados é a pessoa que o Propiciatório representa. Uma vez que essa blindagem é removida e Deus vé, não a expiação perfeita pelo pecado, representada pelo Propiciatório, mas as duas tábuas de pedra que estão depositadas abaixo, contendo Suas santas e imutáveis leis, Ele precisa liberar a ira total de Seu julgamento.

Temos uma demonstração admirável disso quando os filisteus capturaram a Arca da Aliança no campo de batalha. Como consequência, eles sofreram com uma severa doença e dores durante um período de sete meses, até que decidiram enviar a Arca de volta. Após buscarem o conselho de seus anciãos, eles colocaram a Arca em uma carroça puxada por duas vacas. Eles então permitiram que as vacas vagueassem sem um condutor. As vacas passaram para a terra de Israel e foram vistas por alguns moradores de Bete-Semes que estavam trabalhando na colheita. Eles se alegraram quando viram a Arca. Todavia, em sua ignorância, eles removeram o Propiciatório e olharam dentro do interior da Arca. Consequentemente, mais de 50.000 homens foram feridos e caíram mortos pelo Senhor (1 Samuel 6:19).

Todos os homens são pecadores e necessitam do Propiciatório, a única proteção que temos contra o justo julgamento de um Deus extraordinariamente santo. É triste dizer isto, mas a maioria das igrejas hoje se esquece de ensinar aos seus membros a natureza sem contemporização da santidade de Deus e suas profundas implicações para o homem. Deus não nos perdoa simplesmente por que nos ama e decidiu desconsiderar nossos pecados. Ao revés, Ele nos perdoa por que a dívida do nosso pecados já foi acertada plenamente por Seu Filho.

A doutrina do "amor incondicional" de Deus, da forma como é ensinada pelo Movimento de Nova Era, é errada. O amor de Deus não é incondicional. Por quê? Porque não há nada incondicional com relação ao pecado. A condição do homem é a de pecado e ele não pode modificar sua condição fingindo o contrário. A questão do pecado precisa ser tratada, mas somente pode ser tratada por meio de Cristo.

O amor de Deus por nós foi expresso na maior extensão possível por meio do sofrimento e morte de Seu Filho no Calvário. Nosso Pai Celestial não poderia ter feito mais do que fez. Ele permitiu que Seu Filho sofresse Sua ira total em nosso lugar. A não ser que compreendamos o significado disso, a expiação vicária (ou substitutiva), deixaremos de ver que Deus fez tudo o que era necessário para nossa salvação.

O ensino católico-romano que o homem precisa fazer adições àquilo que Cristo já fez, por meio de boas obras e ritos sacramentais, é uma tremenda mentira. Roma rejeita a suficiência da cruz e dá ao indivíduo um papel, conquanto pequeno, em sua própria salvação. Mas, isto é impossível! Não há nada que possamos fazer para nos purificar de nossos pecados. Cristo fez tudo por nós no Calvário.

Os teólogos da Reforma expressaram isto muito sucintamente em cinco frases em latim: Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christos, Sola Scriptura, Soli Deo Gloria — somente pela fé, somente pela graça, em Cristo somente, com a Bíblia somente e para a glória de Deus. Nenhuma organização na Terra já trabalhou com tanto afinco quanto a Igreja Católica Romana para suprimir, solapar e destruir essas verdades!

A Bíblia ensina que tudo o que Deus fez por nós Ele fez por meio de Seu Filho. O amor de Deus é encontrado por meio de Seu Filho, e de nenhuma outra maneira. Rejeitar a Cristo é rejeitar a Deus: "Tudo por meu Pai foi entregue; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar." [Lucas 10:22].

A igreja moderna exorta seus pastores a enfatizarem o amor de Deus e a minimizarem Sua ira. Mas, isto é uma tolice! Estamos onde estamos por causa do pecado e o pecado tem terríveis consequências. O inferno é um lugar real e todos aqueles que rejeitam o grande dom do amor que o Pai ofereceu à humanidade — perfeita salvação por meio do sofrimento e morte de Seu Filho — passarão a eternidade em um lugar de total separação de Deus.

Pode ser possível descrever o inferno de diversas formas, mas para alguém que veio a conhecer a Cristo — "Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." [Colossenses 2:9] — o inferno é o vazio da eternidade sem Ele — um estado que a Escritura descreve como "eternamente reservada a negrura das trevas" [Judas 1:13].

O fogo do inferno não é nada menos que o fogo do justo julgamento de Deus. A primeira coisa que os israelitas viam quando entravam no Pátio era o Altar de Bronze e, por implicação, as consequências devastadoras do pecado. O Tabernáculo proclama do modo mais vívido possível, para todos verem e saberem, que o inferno é o domicílio inevitável para todos os que rejeitam a Cristo.

Uma mensagem do evangelho que deixa de mencionar essa terrível verdade é um falso evangelho. Infelizmente, muitos hoje que se descrevem como "nascidos de novo" somente ouviram esse falso evangelho. E um falso evangelho não tem o poder de salvar ninguém.

O Interior da Arca

A necessidade universal e inevitável de julgar o pecado foi expressa de forma muito poderosa pela inclusão na Arca das tábuas de pedra em que estavam inscritas as santas leis de Deus. As tábuas permaneceriam ali perpetuamente como um testemunho do estado caído do homem. Há também uma referência à inclusão, dentro ou ao lado da Arca, de uma cópia da lei escrita por Moisés:

"E aconteceu que, acabando Moisés de escrever num livro, todas as palavras desta lei, deu ordem aos levitas, que levavam a arca da aliança do SENHOR, dizendo: Tomai este livro da lei, e ponde-o ao lado da arca da aliança do SENHOR vosso Deus, para que ali esteja por testemunha contra ti." [Deuteronômio 31:24-26].

Sabemos com certeza que a Arca continha três itens: as tábuas de pedra nas quais os Dez Mandamentos foram inscritos, um vaso de ouro que continha uma amostra do maná, armazenada para a posteridade, e a vara de amendoeira de Arão:

"Mas depois do segundo véu estava o tabernáculo que se chama o santo dos santos, que tinha o incensário de ouro, e a arca da aliança, coberta de ouro toda em redor; em que estava um vaso de ouro, que continha o maná, e a vara de Arão, que tinha florescido, e as tábuas da aliança." [Hebreus 9:3-4].

O Propiciatório ficava por cima das duas tábuas de pedra e protegia o homem continuamente do justo juízo de Deus. A Lei, depois que foi dada, nunca poderia ser repelida e ainda existe hoje. Como Cristo disse:

"Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido." [Mateus 5:18].

Um grande mal-entendido entrou na igreja com a falsa interpretação dessa verdade básica pelos assim chamados "Pais da Igreja". Os teólogos primitivos, que lançaram o fundamento para a Igreja Católica Romana, aboliram a Lei e a substituíram pela "graça" (sobre a qual eles afirmavam exercer total controle). Mas, a salvação sempre foi pela graça por meio da fé, e nunca pelas obras da lei. Com a exceção de Cristo, que guardou a lei sem culpa alguma, era impossível para qualquer homem viver plenamente de acordo com os padrões rígidos da lei.

O Aio

O Tabernáculo e suas ofertas eram um retrato detalhado de Cristo. A missão e sacrifício de Cristo estavam pré-figurados em um conjunto de atividades religiosas tangíveis em que o homem podia participar. Por meio da sua obediência e sua fé na Palavra de Deus, os israelitas podiam antever o poder santificador do Calvário. Eles eram salvos pela fé, exatamente como Enoque, Noé e Abraão — que viveram antes de a Lei ser dada — bem como Gideão, Baraque, Sansão e Davi, que viveram após a Lei ter sido dada (mas que nunca a observaram perfeitamente). Como a Epístola aos Hebreus confirma, a salvação sempre foi pela graça por meio da fé, desde os dias de Abel.

Como disse o apóstolo Paulo:

"De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio." [Gálatas 3:24-25].

A palavra no original grego para "aio" nesta tradução (Almeida Corrigida e Fiel) é paidagogos. Nos tempos dos gregos e romanos, um paedagogus (forma latina) era um escravo de confiança cuja tarefa era supervisionar a vida e a moral dos meninos que pertenciam à classe alta. Eles eram rígidos na disciplina e, frequentemente, mais severos nos castigos do que o pai. Eles levavam os meninos à escola de manhã e os buscavam depois, mantendo os olhos atentos nas crianças durante o dia e investigando todas as suas atividades sociais. O paedagogus exercia suas tarefas até que o menino atingisse a maturidade, desse modo garantindo que ele adquirisse durante os anos críticos de formação, os valores e características que seus pais mais estimavam.

A palavra paidagogos também é traduzida como "tutor', "guardião" ou "aquele que tem a custódia" em outras versões da Bíblia, mas o termo literal e correto é dado na Tradução Literal de Young, como "condutor de criança".

Paulo lutou para fazer os cristãos judeus primitivos entenderem que a Lei foi cumprida em Cristo e que, por si mesma, ela não podia salvar ninguém. Muitos deles erroneamente pensaram que Paulo tinha abolido a Lei — como se isso fosse possível. Entretanto, o que ele ensinou é que qualquer um que rejeitava a Cristo tinha também rejeitado a Lei, pois a Lei foi cumprida em Cristo. Jesus fez uma observação similar quando criticou os fariseus, que observavam a Lei nos mínimos detalhes em sua forma exterior ou visível, mas não faziam o mesmo em seus corações. Na realidade, eles não criam na Lei e, sem crer em Moisés, eles estavam incapacitados de crerem em Cristo:

"Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele." [João 5:46].

Ao estabelecer o padrão perfeito de Deus, a Lei deixou claro para o homem sua total incapacidade de salvar a si mesmo. Adam Clarke, em seu comentário sobre a Epístola aos Gálatas, diz o seguinte: "Assim, a Lei não nos ensinava o conhecimento vivo e salvador; mas, por seus ritos e cerimônias e, especialmente, por seus sacrifícios, ela nos dirigia a Cristo, para que pudéssemos ser justificados pela fé." Foi neste sentido que a Lei foi o paedagogus (guia de crianças), dirigindo-nos a Cristo para que pudéssemos ser justificados, isto é, tornados justos diante de Deus.

A Lei também foi necessária por uma razão que é raramente mencionada pelos eruditos bíblicos. Para que Cristo pudesse servir como "o cordeiro sem mácula" [Levítico 23:12 e 1 Pedro 1:19], o mundo necessitava de um padrão objetivo que demonstrasse que Jesus de Nazaré era, de fato, a oferta perfeita e sem pecado. Sem esse padrão, que foi definido em termos muito específicos pelo próprio Deus, o homem não teria meios de saber se Jesus cumpria essa condição vital. É por isto que o Messias somente pôde vir após a Lei ter sido dada. O Monte Sinai teve de preceder Belém e o Calvário.

O Jarro de Maná

O segundo objeto dentro da Arca era um jarro de ouro que continha uma amostra do maná. A própria palavra maná é imaginada por alguns com o significado de "o que é isto?", pois os israelitas fizeram essa pergunta repetidamente na primeira vez que viram o maná.

O maná foi o pão dado dos céus, virtualmente o único alimento que sustentou toda a nação de Israel durante quarenta anos. O maná falava da perfeita nutrição espiritual que encontramos em Cristo, o único Pão de Vida. O "maná escondido" mencionado no Apocalipse (2:17) parece ser uma alusão ao maná escondido na Arca e, assim, ao alimento que nutrirá os santos por toda a eternidade.

A Vara de Arão

Já discutimos anteriormente o objeto final na Arca, a vara de Arão. Como provavelmente usava a mesma vara em suas andanças diárias, Arão não deveria ser um homem muito alto. A Arca tinha 112 centímetros de comprimento, 67,5 de altura e 67,5 de largura, de modo que poderia ter acomodado uma vara de no máximo 1,20 metros, aproximadamente. Isto parece sugerir que Arão tinha cerca de 1,65 metros de altura.

O Desaparecimento da Arca

Tem havido muita especulação sobre o paradeiro da Arca atualmente. Alguns conjeturam que o profeta Jeremias a removeu antes da queda de Jerusalém, em 586 AC, e que mais tarde a escondeu em um poço secreto no subsolo do monte do Templo. Os inimigos do Evangelho de Cristo gostariam de colocar suas mãos na Arca, pois ela poderia ser utilizada para a prática de atos de sacrilégio e, possivelmente, como um modo de "autenticar" o Anticristo. Por exemplo, se o Anticristo pudesse revelar a localização da Arca por meios sobrenaturais, isto seria considerado por muitos um sinal de que ele é o Messias.

A Arca do Testemunho mencionada no Apocalipse ("a arca da sua aliança" — 11:19) pode possivelmente ser a mesma Arca que ficava no Templo em Jerusalém. Sendo ou não a mesma, a Palavra de Deus diz de forma perfeitamente clara que a Arca nunca mais será vista na Terra:

"E sucederá que, quando vos multiplicardes e frutificardes na terra, naqueles dias, diz o SENHOR, nunca mais se dirá: A arca da aliança do SENHOR, nem lhes virá ao coração; nem dela se lembrarão, nem a visitarão; nem se fará outra. Naquele tempo chamarão a Jerusalém o trono do SENHOR, e todas as nações se ajuntarão a ela, em nome do SENHOR, em Jerusalém; e nunca mais andarão segundo o propósito do seu coração maligno." [Jeremias 3:16-17].

A mesma cabala de ímpios enganadores também quer promover o assim chamado Sudário de Turim, presumivelmente como outro modo possível de autenticar o Anticristo. Por que alguns cristãos acreditam que esse sudário possa ser genuíno? Nunca passou pela cabeça deles que o Senhor nunca violaria um de seus próprios mandamentos e faria uma imagem de Si mesmo? Isto mostra o quanto os cristãos professos se afastaram da Palavra de Deus, que eles na verdade chegam a acreditar nessas mentiras audaciosas.

Coberturas Durante o Transporte

Ao serem transportados, os principais itens de mobília no Tabernáculo eram protegidos por diversas coberturas. A Arca era coberta primeiro por um Véu interior e depois por um pano azul. A última era uma "cobertura de pele de texugo" [hebraico: tachash]. Como discutido em um capítulo anterior, muito provavelmente essa cobertura era feita de pele de antílope, em vez de texugo. É difícil imaginar a Arca, ou até mesmo o Véu, ficarem em contato com a pele de um animal que era considerado imundo pelas leis levíticas.

Os outros itens de mobília — o Altar de Ouro, o Candelabro de Ouro e a Mesa dos Pães da Proposição — eram cobertos das seguintes formas durante o transporte (conforme Números 4):

Novamente, o ato de cobrir recebe atenção especial. Neste caso, ele é sugestivo da separação, onde os vasos sagrados eram protegidos dos olhos profanos. O tema da santificação, ou separação, continua mesmo enquanto a Arca está no trajeto para uma nova localidade.

Podemos comparar essas camadas de panos com os metais usados no Tabernáculo — bronze, prata e ouro. Os metais revestiam as tábuas e outras estruturas de madeira, exatamente como o pano cobria os vasos sagrados. O pano azul denota a origem celestial de Cristo, enquanto que o tachash denotava sua humanidade. Ambos os aspectos de Cristo — Sua divindade e Sua humanidade — são necessários para nossa salvação.

O pano de cor escarlate era usado somente para cobrir a Mesa dos Pães da Proposição. Ele representava o sangue de Cristo, que foi derramado para nossa salvação. Ele provavelmente estava associado com a Mesa dos Pães da Proposição do mesmo modo como o vinho, outro símbolo do sangue, foi incluído com o pão na Ceia do Senhor:

"Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos." [João 6:51-53].

É significativo que as cinzas eram removidas, mas o Altar de Bronze com o carvão incandescente também era coberto no transporte e o pano era de cor púrpura (roxo, ou violeta):

"E tirarão as cinzas do altar, e por cima dele estenderão um pano de púrpura." [Números 4:13].

A cor púrpura é uma referência à realeza, neste caso a absoluta soberania do Senhor Deus de Israel, que forneceu o fogo inicialmente, enviando-o direto do céu.

Há muito mais que gostaríamos de discutir — como a consagração dos sacerdotes, a unção do Tabernáculo, ou a sequência em que o Tabernáculo era montado — porém essas e outras questões relacionadas estão além da abrangência deste curto estudo.



Capítulo 12

Aspectos Ausentes Notáveis

Existem diversos aspectos que poderíamos esperar encontrar no Tabernáculo, mas que não estão presentes. Esses aspectos "ausentes" ajudam em nossa compreensão do Tabernáculo e de seu propósito geral.

Não Havia Cadeados

Em primeiro lugar, não existiam fechaduras e nem cadeados. Isto reflete o fato que as barreiras para a verdade não são físicas, mas podem ser encontradas, ao revés, na natureza caída do homem e em sua indiferença à santa vontade de Deus. Os verdadeiros "cadeados" estão nas ímpias profundidades do coração humano. O caminho para a verdade está aberto para todos os homens, independente de onde eles estejam na Terra. Alguns críticos afirmam que somente uma pequena porcentagem da população do mundo já teve a oportunidade de ouvir o evangelho, mas esse raciocínio é errôneo, pois negligencia a soberania de Deus. Todos os que genuinamente querem a verdade, que anseiam por ela em seus corações, serão conduzidos ao velho evangelho da redenção, por meio do sangue derramado do Cordeiro. A Palavra de Deus torna isto particularmente claro, não apenas na tipologia do Tabernáculo, mas em muitos outros lugares. Considere, por exemplo, a promessa do Senhor em Provérbios 2:3-5:

"Se clamares por conhecimento, e por inteligência alçares a tua voz, se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do SENHOR, e acharás o conhecimento de Deus."

Existem muitos modos para um indivíduo chegar ao Pátio do Tabernáculo, mas depois de ter chegado, ele precisa seguir dali para frente o plano estabelecido por Deus. Como Cristo disse: "Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus." [Lucas 9:62].

Não Havia Querubins nas Entradas do Pátio e do Santuário

Os querubins eram vistos somente pelos sacerdotes. Não havia nenhuma representação dos querubins na entrada do Pátio ou na porta do Santuário, as duas entradas que estavam visíveis para a congregação. Os querubins dentro da tenda do Tabernáculo denotavam a extraordinária profundidade da santidade de Deus e a necessidade de o homem se aproximar dele estritamente pelo caminho especificado. Querubins vivos (reais) ficaram posicionados na entrada do Jardim do Éden para impedirem o homem de entrar — e devem ter ficado ali durante vários séculos — mas o Tabernáculo foi dado para levar o homem de volta para Deus. Portanto, nenhum querubim ficava na entrada do Pátio e nenhum estava visível na porta do Santuário. O Senhor, em Sua misericórdia, estava dizendo: "Venham, não tenham medo, o caminho foi preparado.".

Não Havia Degraus

Os sacerdotes nunca ficavam em um nível acima do povo. Nem mesmo o Sumo Sacerdote recebia uma posição elevada. O homem que ocupava o cargo mais elevado no país e o servo mais humilde estavam ambos no mesmo nível. Não havia degraus ou níveis mais elevados no Pátio ou no Tabernáculo, desse modo indicando que todos, em sua natureza caída, eram iguais em sua condenação diante de um Deus extrordinariamente santo. Mas, isto também enfatizava a perfeita igualdade de aceitação diante de Deus que todos desfrutam depois que são purificados pelo sangue salvador de Cristo. Na realidade, todos os homens estão destinados a viverem na eternidade em um de dois estados — total condenação ou perfeita aceitação. Não há um terreno intermediário, a despeito do que os filósofos dizem. Eles gostam de acreditar que existem muitos caminhos e um destino, mas estão enganados. Existem dois destinos, somente um dos quais oferece vida eterna, e somente um caminho leva até ele.

Alguns acreditam que uma rampa era usada para facilitar o acesso até o Altar de Bronze, mas como isso não é especificado, ou sequer implicado na Escritura, não há base para incluir isso na tipologia do Tabernáculo. Cada aspecto do Tabernáculo foi definido claramente por Deus e Moisés foi instruído, ao supervisionar o projeto e construção dos vários componentes, a garantir que tudo estivesse perfeitamente de acordo com o modelo que lhe fora mostrado no monte. Em seu orgulho e estado caído, os homens têm uma incrível tendência de fazerem acréscimos à palavra de Deus, ou minimizarem o significado de certos "detalhes", como se tivessem o direito de decidir quais eram "mais relevantes" do que outros. O Senhor nem sequer permitiu que Moisés fizesse isso, mas lhe disse para estudar atentamente tudo o que os artesãos preparavam e garantir que estivessem em conformidade com aquilo que o Senhor lhe mostrara no monte:

"Conforme a tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo, e para modelo de todos os seus pertences, assim mesmo o fareis." [Êxodo 25:9].

"Atenta, pois, que o faças conforme ao seu modelo, que te foi mostrado no monte." [Êxodo 25:40].

"Então levantarás o tabernáculo conforme ao modelo que te foi mostrado no monte." [Êxodo 26:30].

"Oco e de tábuas o farás; como se te mostrou no monte, assim o farão." [Êxodo 27:8].

"Os quais servem de exemplo e sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou." [Hebreus 8:5].

Vinte e uma vezes nas Escrituras Moisés é referido como "Moisés, o servo do Senhor Deus". É uma marca de sua humildade e perfeita obediência que ele tenha sido descrito tantas vezes assim. Todavia, ele foi lembrado em diversas ocasiões a fazer exatamente conforme tinha sido instruído.

As Medidas da Pia de Cobre Não São Informadas

As dimensões ou a exata quantidade de materiais foram especificadas para todos os componentes no Tabernáculo, exceto um — a Pia de Cobre. A Palavra de Deus declarou simplesmente que ela deveria ser feita totalmente de cobre, porém não deu instruções com relação ao seu formato, peso ou dimensões. Os sacerdotes usavam a Pia diversas vezes durante o dia para lavar suas mãos e pés. A Pia significava a necessidade — e privilégio — do fiel cristão de se purificar tão frequentemente quanto possível ao longo de cada dia "com a lavagem da água, pela palavra" [Efésios 5:26]. Evidentemente, a palavra é a própria Bíblia.

Não Havia Janelas

A luz que brilhava no Santuário não era a luz do mundo, mas a luz do Candelabro de Ouro somente. O indivíduo tem uma escolha na vida — seguir a luz do mundo, ou seguir a luz de Cristo. Muitos cristãos professos tentam fazer ambas as coisas, mas o Tabernáculo declara que isto é impossível. Somente podemos conhecer a luz de Cristo depois que morremos para o mundo. Os cristãos que tentam equipar seus tabernáculos, suas vidas em Cristo, com uma janela para o mundo estão apenas enganando a si mesmos; isto é algo que não pode ser feito.

É também significativo que enquanto o Santuário, ou Santo Lugar, estivesse completamente iluminado o tempo todo, noite e dia, o Santíssimo Lugar estava em completa escuridão o tempo todo. Precisamos assumir que o Véu era suficientemente denso para bloquear toda a luz do ambiente do Santuário — "Então falou Salomão: O Senhor disse que ele habitaria nas trevas." [1 Reis 8:12]. Este contraste surpreendente entre a luz total e a escuridão total parece apontar para várias verdades espirituais:

O Santo Lugar:

  • Dia eterno na Nova Jerusalém
  • A perfeição repleta de luz de Cristo
  • A visibilidade desimpedida de Cristo por meio da fé.
O Santíssimo Lugar:

  • Incognicibilidade de Deus em Sua absoluta soberania
  • A obra não vista de Cristo na vida de cada fiel cristão
  • As riquezas inescrutáveis de Cristo.

Em uma época como a nossa, do assim chamado conhecimento científico, onde os homens de intelecto professam serem capazes de identificar a causa por trás de todos os fenômenos, há uma forte tendência entre os cristãos de imaginarem Deus e Suas obras em termos "científicos". Eles tolamente imaginam que sabem como Deus faz o que faz, mas estão seriamente enganados. A verdade é que não sabemos absolutamente nada sobre os caminhos e métodos que Deus usa para executar Sua santa vontade. Como o apóstolo Paulo disse: "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!" [Romanos 11:33].

Quando a ciência afirma "explicar" a criação, excluindo a ação de um Deus criador, isto é idolatria pura e simples. A ciência moderna está sendo usada amplamente pelo Maligno para atacar a verdade bíblica, para solapar a soberania de Deus e para fabricar uma realidade alternativa — incluindo uma falsa cosmologia — que enlaçará os incautos e preparará o caminho para o Anticristo.

Não Havia Cadeiras ou Assentos para os Sacerdotes

Não havia assentos ou locais de descanso no Pátio ou no Santuário. Os sacerdotes estavam continuamente em atividade e até comiam os pães da proposição em pé.

Nós, como fiéis cristãos, precisamos estar continuamente ativos no nosso serviço para Cristo, "operando a nossa salvação", ou servindo a nossa salvação aqui na Terra, "com temor e tremor" [Filipenses 2:12].

Existe uma tendência de imaginar o céu como um lugar de ociosidade, mas provavelmente ele não será nada desse tipo! Independente de onde olhamos na maravilhosa criação de Deus, encontramos contínua atividade e também uma imensa diversidade. Muito provavelmente, cada um de nós servirá a Deus na eternidade de um modo singular e adequado à nossa individualidade. De fato, nosso tempo aqui na Terra parece ter o objetivo de nos preparar, em parte, para a vida na eternidade, onde aqueles que serviram a Cristo mais plenamente durante sua peregrinação terreal receberão um papel na eternidade que reflete, tanto em glória e estatura, a profundidade e sinceridade de seu serviço aqui na Terra.

Não Havia Piso

Dado o status especial do Tabernáculo e seu lugar extraordinário no plano santo de Deus para nossa Redenção, pode parecer surpreendente que nenhum piso para o chão foi incluído na construção. Quando consideramos, por exemplo, a quantidade fabulosa de prata, ouro, cedro e pedras que foi usada na construção do Templo de Salomão — que superava a do Tabernáculo — o contraste é ainda mais chocante.

Poderíamos esperar encontrar tábuas no piso do Santuário, por onde os sacerdotes iam e vinham continuamente, mas não havia nada. Incrivelmente, até a Arca da Aliança ficava sobre o chão.

Os sacerdotes, incluindo o Sumo Sacerdote no Dia da Expiação, realizavam todas as atividades cerimoniais enquanto caminhavam ou ficavam parados, em pé, no terreno plano do deserto. Tal era a natureza sem adornos da intimidade entre Deus e Seu povo escolhido.

Devido à Sua presença na Arca, Deus repousava sobre o mesmo terreno pedregoso que a multidão de israelitas no acampamento ao redor. Ele tinha descido até o nível deles de modo a restaurá-los para Si mesmo, exatamente como Jesus desceria em forma humana e viveria humildemente entre os aldeões da Galileia e da Judeia. O nascimento de Cristo em um estábulo cumpriu a tipologia da Arca, enquanto que as muitas ocasiões durante Seu ministério em que Ele dormiu ao relento, ou em terreno inóspito, reflete o contínuo avanço da Arca de um lugar para outro, sob o sol quente do deserto.

Sem Calçados para os Pés

Nenhum dos sacerdotes calçava sapatos, nem mesmo o Sumo Sacerdote. Isto não é especificamente declarado, mas em geral compreende-se que era o caso, particularmente porque tanto Moisés quanto Josué foram instruídos a removerem suas sandálias enquanto estivessem na presença divina. A ausência de calçados nos pés também era, ao que parece, uma parte necessária da tipologia do Tabernáculo.

Exatamente como a Arca — onde Deus habitava — tinha contato direto com o solo, assim também cada um dos sacerdotes deveria ter. Como resultado, eles não conseguiam evitar a contaminação de seus pés no contato constante com o solo. Independente de quantas vezes lavassem seus pés diante da Pia de Cobre, eles imediatamente começavam a acumular mais poeira e sujeira. Até mesmo quando o Sumo Sacerdote entrava no Santíssimo Lugar, no Dia da Expiação, seus pés ficavam um pouco sujos, quando ele caminhava da Pia de Cobre até o Véu interior. A mensagem é clara. O mundo contamina cada um de nós continuamente. Como esses contaminantes espirituais estão por toda parte, precisamos nos preocupar continuamente com nossa santificação. Uma igreja que não se separa do mundo é uma igreja apenas nominal.

Não Havia Tábuas no Teto

O Tabernáculo era literalmente uma tenda, uma estrutura de suporte coberta por camadas de tecido. Embora geralmente pensemos em uma tenda como uma habitação provisória, ou temporária, não há nada no Pentateuco que indique que o Tabernáculo foi planejado para ter uma duração limitada. De fato, exatamente o oposto é sugerido. Mais tarde, quando Davi propôs ao Senhor a construção de um templo em Jerusalém, o Senhor respondeu:

"Porque em casa nenhuma habitei desde o dia em que fiz subir os filhos de Israel do Egito até ao dia de hoje; mas andei em tenda e em tabernáculo. E em todo o lugar em que andei com todos os filhos de Israel, falei porventura alguma palavra a alguma das tribos de Israel, a quem mandei apascentar o meu povo de Israel, dizendo: Por que não me edificais uma casa de cedro?" [2 Samuel 7:6-7].

Foi um momentno de grande significado na Bíblia quando o Senhor escolheu Jerusalém como Sua habitação permanente. O Pai Celestial tinha escolhido para Seu Filho a cidade a partir da quel Ele reinaria para sempre. Depois que essa decisão espetacular foi revelada para a humanidade, um dos aspectos mais impressionantes do Tabernáculo, isto é, sua mobilidade, não era mais necessário.

De maneira similar, cada um de nós vive temporariamente em um tabernáculo de carne, vagueando pela Terra como estrangeiros e peregrinos:

"Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra." [Hebreus 11:13].

A cobertura maleável, similar a de uma tenda, do Tabernáculo, consistia de quatro camadas, cada uma das quais retratava um aspecto de Cristo. Nascer de novo significa morrer para o mundo, entrar no Tabernáculo e habitar dali para frente em Cristo. Enquanto estamos aqui na Terra na carne, Cristo é nosso tabernáculo espiritual. As palavras "em Cristo" ocorrem não menos que dez vezes na epístola de Paulo aos Efésios. Somos migrantes aqui na Terra, vivendo em Cristo, servindo-o como sacerdotes, crescendo em santificação e em conhecimento de quem Ele realmente é.

Chamamos também a atenção para a correspondência entre o formato do Tabernáculo, conforme definido por suas paredes (sem teto e sem piso de madeira), e a porta das casas quando a Páscoa foi celebrada pela primeira vez: "E tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambas as ombreiras, e na verga da porta, nas casas em que o comerem." [Êxodo 12:7].

É difícil dizer com certeza se isto é ou não significativo, mas a similaridade é impressionante.

Não Havia Madeira Exposta

Apesar da grande quantidade de madeira de acácia usada na construção do Tabernáculo, nada dela ficava exposto. Ao contrário, a madeira era revestida, conforme apropriado, com bronze, prata ou ouro. É notável que qualquer coisa no Tabernáculo que não estivesse coberto ou protegido de alguma forma era consumido. A lenha usada para combustão no fogo do Altar de Bronze era totalmente consumida pelas chamas. As ofertas (que serão discutidas em maiores detalhes em outro capítulo) também eram consumidas, pelo fogo ou pelas pessoas que tinham o direito de comê-las. Tanto o pão na Mesa da Proposição e o incenso no Altar de Ouro eram consumidos. Até os pavios no Candelabro de Ouro eram consumidos.

Embora fosse de madeira e sem adornos, a vara de Arão sobreviveu porque estava protegida pelo Propiciatório.

A vara de Arão representa o Sumo Sacerdote e, em particular, nosso grande Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. O florescimento da vara da noite para o dia, quando flores da amendoeira brotaram miraculosamente na vara já muito gasta pelo uso, foi evidência que Deus tinha escolhido a tribo de Levi sobre todas as tribos para servi-lo no ofício sacerdotal. Esse florescimento milagroso foi um tipo da Ressurreição, tanto de Cristo, nossas primícias, que ressuscitou do sepulcro, e a ressurreição dos mortos em Cristo, que ressuscitarão miraculosamente do túmulo quando nossa Estrela da Manhã retornar (Apocalipse 22:16).

O Tabernáculo retrata o grande plano de Redenção para toda a humanidade, onde todos que não estiverem cobertos por Cristo serão consumidos. Para todos aqueles que creem em Seu Filho, o Senhor dará a vida eterna, mas para todos os que O rejeitam, dará o julgamento eterno.

O "Cristo" macio como um ursinho de pelúcia da igreja moderna é uma grande enganação. Quando Cristo retornar, Ele lidará com severidade com todos os que se rebelaram contra Seu Pai.

Não há nada "engraçadinho" com relação ao Tabernáculo. Sua mensagem é profundamente importante para todos os fiéis cristãos e para o mundo em geral. De fato, podemos até dizer que sua mensagem é a mensagem de Deus para toda a humanidade. Ou aceitamos a proteção do Propiciatório, a perfeita cobertura que Cristo oferece, ou ficaremos sozinhos diante do justo julgamento de um Deus extraordinariamente santo.



Capítulo 13

O Sacerdócio

O ofício sacerdotal consistia de três níveis: o Sumo Sacerdote, os sacerdotes aarônicos (descendentes de Arão) e um grupo grande de assistentes, conhecidos como levitas:

"No mesmo tempo o SENHOR separou a tribo de Levi, para levar a arca da aliança do SENHOR, para estar diante do SENHOR, para o servir, e para abençoar em seu nome até ao dia de hoje." [Deuteronômio 10:8].

Todos os três vinham da tribo de Levi, mas os dois primeiros vinham exclusivamente da família de Arão (cujo nome significa "muito alto"). Ao que parece, a tribo de Levi foi confirmada nesta honra por ter ficado ativamente ao lado de Moisés quando ele ordenou a destruição do bezerro de ouro e de seus principais promotores. Em seu zelo, os levitas mataram um grande número de israelitas idólatras:

"E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés; e caíram do povo aquele dia uns três mil homens." [Êxodo 32:28].

As Vestes dos Sacerdotes

Os sacerdotes aarônicos vestiam os quatro itens de trajes especificados na Palavra de Deus — uma túnica comprida de fino linho branco, um turbante de linho fino branco (algumas vezes referido como mitra), um cinto de fino linho branco, e ceroulas — uma roupa de baixo que cobria dos quadris até as coxas. O linho fala da terra, pois é produzido a partir de uma planta de mesmo nome, uma planta resistente a partir da qual as fibras têxteis são extraídas com batidas repetidas e depois transformadas em fio de linha. Novamente encontramos o tema "batido", desta vez em relação aos representantes imediatos de Cristo na Terra. O sacerdote, que era quem somente podia fazer mediação entre o homem e Deus, vestia-se totalmente de trajes que vinham do solo, exatamente como o próprio homem foi feito do pó da terra.

O Sumo Sacerdote

O Sumo Sacerdote usava itens adicionais de vestimenta, incluindo um cinto de obra esmerada e um detalhe distintivo em sua mitra. Esses itens eram constituídos por:

— Manto azul

Um manto azul sem mangas de linho fino torcido, que ele vestia sobre sua túnica de linho branco de tamanho comprido. Isto chegava até abaixo de seus joelhos e tinha uma franja ao longo na barra inferior que erra ornamentada com uma série alternada de campainhas (pequenos sinos) de ouro e romãs coloridas (feitas com fios de cor azul, púrpura, escarlate e dourado) O manto era tecido como uma única peça, sem costuras.

A cor azul representava a perfeição celestial de Cristo, as campainhas representavam a doçura e harmonia de sua pessoa, as romãs representavam os frutos abundantes de sua obra e o manto sem costura representava a integridade de seu ser — pois Cristo era tanto homem totalmente e Deus totalmente na mesma pessoa.

As campainhas também podem ser uma referência à admirável verdade que Cristo compartilhou com Seus discípulos quando disse: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem." [João 10:27].

— Éfode

Um éfode, ou manto sacerdotal sem mangas de fino linho torcido, todo enfeitado com fios de cor azul, púrpura, escarlate e dourado. Isto era colocado sobre o manto de linho azul e chegava até os joelhos, aproximadamente. As partes da frente e de trás do éfode não eram conectadas abaixo das axilas. O fio dourado usado nessas vestes sacerdotais era de ouro real batido, cortado e trançado em filigrana.

— Cinto

Um cinto de linho fino torcido com fios de cor azul, púrpura, escarlate e dourado. A familiar frase bíblica "Estejam cingidos os vossos lombos" significa liberar as pernas para o trabalho, erguendo o manto até a altura dos joelhos e mantendo-o nessa altura pelos cintos. Portanto, o cinto era indicativo da constante prontidão e disposição para o trabalho.

Uma placa ou lâmina de ouro estava fixada na frente da mitra, tendo as palavras "Santidade ao SENHOR" gravadas. Como ela era colocada na fronte do sacerdote, ficava visível para todos — veja a figura abaixo. O Sumo Sacerdote era representante da tribo de Levi, que por sua vez representava Israel como um todo. Era somente por meio de seu ofício consagrado, com sua justiça imputada, que os filhos de Israel eram recebedores da bênção divina. Isto é igualmente verdade com relação à igreja hoje, cujos membros são abençoados com a justiça imputada de Cristo, nosso Sumo Sacerdote.

Jeremias estava falando disso quando descreveu Cristo em Sua Segunda Vinda como "O Senhor Justiça Nossa" [23:6]. Como fiéis cristãos, qualquer justiça que possuímos está fundamentada unicamente em nosso Sumo Sacerdote e vindouro Rei. Colocando a lâmina de ouro em sua fronte — que era similar a uma coroa ou diadema real — o Sumo Sacerdote estava antevendo o dia quando os dois ofícios supremos — o de sacerdote e o de rei serão unidos na pessoa de Cristo.

Referindo-se à santidade, o comentarista MacLaren diz:

"É uma pena — que indica superficialidade de pensamento — que a noção popular moderna de 'santidade' identifica-a com pureza, justiça, perfeição moral. Agora, a ideia está nela, mas isto não é tudo... O significado-raiz é 'separado', 'reservado', e a palavra expressa primariamente, não caráter moral, mas relação com Deus. Isto faz toda a diferença... A primeira ideia é 'separado para Deus'. Isto é santidade, em sua raiz, seu germe."

Os santos na glória serão separados para Deus, total e completamente. Eles serão separados para sempre de suas naturezas pecaminosas e serão santos no sentido verdadeiro e perfeito dessa palavra. O último capítulo da Bíblia aponta para isto quando coloca o nome de Deus em suas frontes:

"E verão o seu rosto, e nas suas testas estará o seu nome." [Apocalipse 22:4].

Em cada uma de suas ombreiras era fixada uma pedra de ônix em que os nomes das doze tribos estavam inscritos, seis em cada pedra. Isto também era uma referência a Cristo, nosso vindouro Rei, que reinará na Terra em total concordância com a santa vontade de Deus:

"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz." [Isaías 9:6].

Esta também é uma referência à gloriosa promessa feita pelo Senhor de cuidar suavemente e de levar nos braços seu rebanho: "Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam guiará suavemente." [Isaías 40:11].

— O Peitoral do Juízo

Sobre seu peito o Sumo Sacerdote vestia uma espécie de bolsa de linho fino torcido com fios de cores azul, carmesim, púrpura e dourado. Esse peitoral formava uma bolsa quadrada dupla, de um palmo de largura, a porção interna do qual servia como um bolso. Doze pedras semipreciosas diferentes estavam fixadas na frente, dispostas em quatro linhas de três. Cada pedra individual representava uma das doze tribos de Israel e tinha seu nome inscrito nela; entretanto, qual tribo era representada por cada pedra é algo que não se sabe.

O peitoral era chamado "peitoral do juízo" (Êxodo 28). Isto provavelmente é uma referência ao Urim e Tumim, que significam "luzes e perfeições", que eram mantidos dentro do bolso. Não existem informações sobre o que eram esses objetos, exceto que eles permitiam que o Sumo Sacerdote recebesse conselho (juízo) da parte do Senhor. O Urim e Tumim permitiam que o Sumo Sacerdote exercesse, em sua posição de representante, mais um aspecto da obra de Cristo — o de profeta.

Tendo esse bolso perto de seu coração, o Sumo Sacerdote estava dando testemunho do amor imensurável que o Messias tinha por Seu povo escolhido. Os próprios israelitas foram grandemente abençoados ao verem essa verdade proclamada tão clara e proeminentemente nas vestes do Sumo Sacerdote.

Somos lembrados aqui da forma surpreendente como o Senhor Se referiu a Si mesmo em Êxodo 34:14: "Porque não te inclinarás diante de outro deus; pois o nome do SENHOR é Zeloso; é um Deus zeloso."

Onde o amor está envolvido, talvez nenhuma outra palavra além de ciumento (zeloso na tradução ACF) descreve a exclusiva e permanente consideração que aquele que ama tem por seu amado. O Peitoral do Juízo é verdadeiramente o símbolo de um Deus ciumento.

A mesma poderosa expressão do amor divino pode ser encontrada em Zacarias, quando o Senhor diz: "Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Zelei por Sião com grande zelo, e com grande indignação zelei por ela." [Zacarias 8:2].

O mundo inteiro experimentará a fúria formidável do Senhor quando, no fim dos tempos, Ele enviar Seu Filho para defender Jerusalém de seus inimigos. O amor Dele por Sião está inscrito sobre as palmas de suas mãos do mesmo modo como os nomes das doze tribos foram gravados nas doze pedras semipreciosas usadas pelo Sumo Sacerdote: "Eis que nas palmas das minhas mãos eu te gravei; os teus muros estão continuamente diante de mim." [Isaías 49:16]. Há claramente uma referência profética nesta passagem aos cravos que traspassaram as mãos de Cristo no Calvário.

O ofício do Sumo Sacerdote recebe uma distinção incomum no capítulo 35 do livro de Números. O texto diz que se alguém causar de forma acidental a morte de outra pessoa e então fugir até uma cidade de refúgio para escapar de uma tentativa de vingança, poderá morar ali indefinidamente "e ali ficará até à morte do sumo sacerdote, a quem ungiram com o santo óleo". Após receber a notícia que o Sumo Sacerdote morreu, ele poderá retornar à sua cidade natal e às suas possessões sem receber qualquer punição. A ameaça de um vingador de sangue não poderá mais ser executada. Em outras palavras, para um homem confinado a uma cidade de refúgio, que vivia diariamente na sombra da morte, o falecimento do Sumo Sacerdote era na verdade uma boa notícia! Isto restaurava sua liberdade, exatamente como a morte de nosso eterno Sumo Sacerdote restaurou a nossa.

O Dia da Expiação

A função mais importante do Sumo Sacerdote era realizar os sacrifícios da expiação no Yom Kippur, o Dia da Expiação, que caía no décimo dia do sétimo mês (Tishri) (conforme Levítico 16). Após fazer uma oferta de incenso no Santíssimo Lugar, ele sacrificava um novilho e um carneiro para expiar seus próprios pecados. Ele fazia isso enquanto vestia, não os trajes do Sumo Sacerdote, mas os trajes de linho apenas dos sacerdotes aarônicos.

Ele então sacrificava o bode escolhido por sorteio e liberava o bode expiatório. Antes de libertar este último, as instruções para o Sumo Sacerdote eram:

"E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso." [Levítico 16:21].

Após fazer isso, ele ia até o Santo Lugar, tirava as vestes de linho com as quais estava vestido e colocava as vestes do Sumo Sacerdote. Somente então ele retornava até o Altar de Bronze para oferecer as ofertas queimadas.

Em seu excelente estudo do Pentateuco, C. H. Mackintosh diz de Levítico 16 que "ele apresenta alguns dos mais relevantes princípios de verdade que podem preocupar uma mente renovada".

As ofertas feitas durante todo o ano eram em relação aos indivíduos que as apresentavam, mas as do Yom Kippur eram feitas pela nação como um todo. A eficácia delas vinha inteiramente a partir de um único sacrifício que poderia agradar a Deus, isto é, o do Cordeiro no Calvário. O Senhor aceitava as ofertas deles, que em si mesmas não podiam expiar pecados, antevendo o único sacrifício que um dia faria expiação completa de TODO pecado em todos os tempos, tanto do passado quanto do futuro.

Embora os israelitas não compreendessem que seu vindouro Messias morreria por seus pecados, a crença deles na eficácia de suas ofertas sacrificiais era suficiente para manter o relacionamento deles com Deus. Mas, depois que a desobediência deles atingiu o ponto em que, apesar de todas as advertências dos profetas, os corações deles estavam endurecidos contra o Senhor e suas ofertas sacrificiais se tornaram um ritual vazio, a presença do Senhor deixou a Arca da Aliança e de retirou de Jerusalém — aparentemente pouco antes da captura da cidade pelo exército babilônio, em 586 AC (veja Ezequiel 10:18).

A total decadência espiritual e a obstinada falta e fé que levaram a esse evento calamitoso já tinham sido afiadamente expressas na Palavra de Deus cerca de 400 anos antes:

"O sacrifício dos ímpios já é abominação; quanto mais oferecendo-o com má intenção!" [Provérbios 21:27].

"O sacrifício dos ímpios é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu contentamento." [Provérbios 15:8].



Capítulo 14

O Óleo Santo da Unção

Como já vimos, a palavra "santo" é muito malcompreendida entre os cristãos. É provavelmente seguro dizer que muitos pastores hoje fazem pouca referência a ela em seus sermões. Todavia, a santidade é exatamente aquilo que o Senhor pede de cada um de nós:

"Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o SENHOR vosso Deus." [Levítico 20:7].

"Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo." [1 Pedro 1:16].

O Senhor enfatizou a santidade do Tabernáculo e de tudo o que havia nele ao requerer que cada um dos sacerdotes, a tenda e cada item da mobília, incluindo os utensílios, fossem ungidos com o santo óleo da unção (Êxodo 40 e Levítico 8). A cerimônia decretou que tudo assim ungido ficasse separado dali para frente para Deus e para Seu santo propósito.

Hebreus 9 revela um detalhe adicional admirável que não está registrado no Pentateuco: "E semelhantemente aspergiu com sangue o tabernáculo e todos os vasos do ministério." [9:21].

De modo a ter qualquer significado, a separação ou santidade precisa sempre apontar para o sangue derramado de Cristo. Esta era a verdade essencial da mensagem gravada na lâmina de ouro usada pelo Sumo Sacerdote — "Santidade ao SENHOR", ou literalmente "separado para Deus".

Composição do Óleo da Unção

O óleo da unção era feito com azeite da oliveira misturado com quatro especiarias — mirra, canela, cálamo-aromático e cássia — na proporção de 2:1:1:2. (Veja Êxodo 30:22-3).

A mirra é uma resina aromática, ou uma goma natural, extraída de um arbusto espinhoso nativo do Oriente Médio. Como um óleo essencial, a mirra pode ser usada para fabricar incenso e perfume; entretanto, seus usos medicinais são melhor conhecidos, com seu nome bíblico alternativo — o Bálsamo de Gileade. Para coletar a resina, é necessário ferir repetidamente a árvore para que ela comece a soltar a goma. A mirra também era amplamente usada nos tempos antigos para preparar um cadáver para o sepultamento. Assim, podemos ver como a mirra, que é um ingrediente tanto do óleo da unção quanto do incenso cerimonial, era uma figura admirável de Cristo, tanto em Sua morte quanto em Sua ressurreição.

A mirra também tem o efeito de entorpecer os sentidos e, algumas vezes, era misturada com vinho para induzir a letargia. Quando ofereceram para Cristo essa mistura na crucificação, Ele a recusou, desse modo mostrando que estava disposto a beber todo o cálice que o Pai lhe tinha dado — "E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade." [Mateus 26:42].

A próxima especiaria, a canela, era extraída da casca interna de uma árvore aromática, que era depois moída ou amassada. Assim também era a cássia, outra variedade de canela. O cálamo-aromático, que era obtido secando e moendo as raízes fortemente perfumadas de um junco dos alagadiços, era usado na produção de perfumes, bem como para propósitos medicinais, além de servir como tempero para os alimentos.

Em cada uma dessas três especiarias temos a imagem de um belo perfume sendo liberado por meio da moagem de plantas selecionadas. Coletivamente, eles retratam a intensidade e fragrância daquilo que Cristo alcançou pela humanidade por meio de Sua morte e sofrimento, bem como o suave perfume de Sua perfeita obediência e amor diante do trono de Seu Pai.

Recebemos uma minúscula visão da magnitude de Seu sofrimento e a profundidade de Sua obediência quando, no livro do Apocalipse, Ele diz: "E com vara de ferro as regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai." [2:27].

Por meio de Sua obra no Calvário, Seu Pai é agora nosso Pai Celestial por adoção, exatamente como Jesus tornou-se o filho legal de José por adoção. Sob a lei judaica, a adoção de Jesus por José conferiu-Lhe todos os direitos e prerrogativas de um filho natural. Somente assim Ele pode reivindicar o trono de Davi, uma posição que Ele somente ocupará após Sua Segunda Vinda.

O intervalo durante o qual Ele detém o direito ao trono, mas ainda não o ocupa, reflete o intervalo entre a hora em que nascemos de novo — e desse modo somos legalmente adotados — e o tempo em que entramos na nossa herança. Além disso, exatamente como o cristão fiel deve vigiar diariamente e aguardar com sincera expectativa o retorno de Cristo, assim também Cristo está aguardando o momento quando Seu Pai dirá: Meu Filho, o dia do Arrebatamento chegou; vá e busque Sua noiva.

Que dia faustoso este dia será! Os cristãos de toda parte deveriam falar constantemente deste evento vindouro: a ressurreição dos justos que já morreram e a tomada nos ares dos cristãos nascidos de novo que estiverem vivos no momento do Arrebatamento. É verdadeiramente triste verificar que a menção desse dia glorioso esteja praticamente ausente na maioria das igrejas e ele até seja tratado com zombaria por alguns, como uma mera uma licença poética.



Capítulo 15

As Ofertas

Existiam cinco ofertas principais — a Ofertas pela Transgressão, a Oferta pelo Pecado, a Oferta Pacífica, a Oferta de Alimentos (também chamada de Oferta de Manjares) e a Oferta Queimada (também chamada de Holocausto). Somente a Oferta de Alimentos não envolvia derramamento de sangue. Uma libação de vinho, conhecida como Oferta de Bebida, estava incluída em cada uma delas.

Sem o derramamento de sangue, não há remissão de pecados (Hebreus 9:22). Isto significa que a Oferta de Alimentos não poderia fazer expiação pelo pecado, mas toda Oferta Queimada, que expiava pecados, incluía uma Oferta de Alimentos. Assim, cada uma das cinco ofertas aponta para o pecado, com uma ênfase diferente em cada caso, como mostra a tabela seguinte:

Oferta
Lição espiritual para o indivíduo
Oferta pela Transgressão Necessidade de reconhecer a ofensa do pecado.
Oferta pelo Pecado Necessidade de reconhecer a natureza pecaminosa.
Oferta Pacífica Necessidade de estar reconciliado com Deus.
Oferta de Alimentos Necessidade de um Salvador.
Oferta Queimada Necessidade de um sacrifício perfeito para fazer a expiação pelo pecado.

Oferta
Etapas para a Redenção
Oferta pelo Pecado O homem é concebido no pecado.
Oferta pela Transgressão O homem vive no pecado.
Oferta Queimada Cristo fez expiação pelo pecado no Calvário.
Oferta de Alimentos Cristo derrotou a morte em Sua ressurreição.
Oferta Pacífica O homem é totalmente restaurado para Deus no Pentecostes.

Um resumo tabular das Ofertas pode ser encontrado no Apêndice B.

Uma Oferta de Bebida era feita com cada uma das cinco ofertas principais e envolvia o derramamento de uma libação de vinho tinto aos pés do Altar de Bronze. A quantidade da libação era proporcional ao tamanho do animal que estava sendo sacrificado — um quarto de um him para um cordeiro, um terço para um carneiro e metade para um boi (um him correspondia a pouco mais de 5 litros). A quantidade derramada na Oferta de Grãos não era especificada. As Ofertas de Bebidas simbolizavam o derramamento do sangue de Cristo no Calvário, ao qual Jesus se referiu em Lucas 22:20: "Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós."

Todo sacrifício com derramamento de sangue tinha de ser acompanhado por uma Oferta de Grãos e uma Oferta de Bebida (Libação) (conforme definido em Números 15). Ao contrário da Oferta de Grãos, a Oferta de Bebida não era feita sozinha. O vinho também representava a satisfação que Deus sentiu com a obra consumada de Cristo — embora o Calvário ainda estivesse no futuro.

As duas ofertas que eram mais agradáveis ao Senhor, ao que parece, eram a Oferta Queimada e a Oferta Pacífica. Quando essas ofertas eram feitas, "... no dia da vossa alegria e nas vossas solenidades, e nos princípios de vossos meses..." [Números 10:10], as trombetas de prata eram tocadas. Isto dizia a todo o arraial — as doze tribos da nação de Israel — que uma oferta, em cheiro suave ao Senhor, estava sendo apresentada. Cada homem, mulher e criança sabia que um evento especial estava ocorrendo naquele momento.

Se a cobertura de nuvens durante o dia e a cobertura de fogo à noite eram um lembrete visual constante que a presença de Deus estava habitando entre eles, então o sonido das trombetas na ocasião da apresentação das Ofertas Queimadas e Ofertas Pacíficas era um lembrete audível correspondente da mesma realidade. As trombetas também eram um lembrete audível para a nação como um todo que um dia, uma oferta seria apresentada diante do Senhor que expiaria total e perfeitamente todo o pecado.

Examinaremos agora cada uma das cinco ofertas principais, uma de cada vez, iniciando com a mais importante de todas, a Oferta Queimada.

A Oferta Queimada (Holocausto)

A Oferta Queimada normalmente consistia de um macho sem defeito do rebanho, isto é, um novilho, carneiro ou bode. O novilho (um touro jovem) tinha de estar intacto e o carneiro ou bode tinham de estar no primeiro ano de vida. Se o ofertante não tivesse recursos suficientes, poderia oferecer um par de rolas ou de pombos (o sexo da ave não foi definido). Essas ofertas eram feitas em público "à porta da tenda da congregação", mostrando que o homem não podia ocultar sua necessidade de expiação.

O procedimento era como segue: Diante da entrada do Tabernáculo, o ofertante colocava suas duas mãos firmemente sobre a cabeça do animal, um ato que expressava sua identificação com ele. Isto era, em essência, um ato de fé. Na Escritura, a imposição das mãos é sempre uma expressão de fé na soberania e misericórdia de Deus, de completa submissão à Sua santa vontade. A única vez que o pecado era transferido era quando o Sumo Sacerdote colocava suas mãos sobre a cabeça do bode expiatório no Dia da Expiação. Neste caso, o animal não era sacrificado, mas libertado no deserto, "em uma terra não habitada".

O próprio ofertante então matava o animal, degolando-o. Os sacerdotes recolhiam o sangue em um recipiente especial e o derramavam em torno do Altar de Bronze.

Em seguida, o ofertante esfolava o animal para remover o couro, que era a única parte do animal que não era colocada sobre o altar (até os chifres eram consumidos). No caso de uma ave, o papo e as penas eram removidos. O couro era retido pelo sacerdote. Isto apontava para a cobertura que cada um de nós recebe, "o manto de justiça", por meio da expiação perfeita que Cristo fez em nosso lugar:

"Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça, como um noivo se adorna com turbante sacerdotal, e como a noiva que se enfeita com as suas jóias." [Isaías 61:10].

Em seguida, o ofertante cortava o animal em partes. O sacerdote então depositava as partes em uma ordem definida sobre o altar, junto com a cabeça e a gordura. As pernas e os órgãos internos eram lavados antes de serem depositados. Todo o animal era então deixado sobre o altar para queimar, um processo que, dependendo do tamanho dos cortes, poderia continuar durante a noite.

Após o sacrifício ter sido completamente consumido pelo fogo, o sacerdote coletava as cinzas debaixo da grelha do altar, removia suas vestes sacerdotais, vestia uma roupa comum e ia para fora do arraial para despejar as cinzas.

A palavra hebraica para oferta queimada, olah, na realidade significa "aquilo que sobe, ou vai para cima", enquanto que a palavra para "queimada" em conexão com uma oferta queimada (qatar), também significa "queimar incenso". A oferta queimada é descrita muitas vezes como "um cheiro suave ao Senhor", indicando que o Senhor recebia a fumaça da oferta como se ela fosse incenso.

A oferta queimada é singular no sentido que era totalmente consumida pelo fogo. Nenhuma parte era removida (exceto o o couro), nenhuma parte era retida para ser consumida pelo sacerdote, e nenhuma parte era levada para fora do arraial.

A Oferta Queimada era sempre acompanhada por uma Oferta de Alimentos e uma Oferta de Bebida (Libação).

A Oferta de Alimentos

A Oferta de Alimentos era uma oferta de flor de farinha, grãos, ou pão. Ela era realizada de diversas formas, como descrito no capítulo 2 de Levítico. Em uma variação, a farinha poderia ser crua. Em outras, poderia ser misturada com azeite e depois cozida. A oferta poderia até mesmo consistir dos grãos de espigas verdes ("primeiros frutos"), secos ou tostados no fogo doméstico. Todas as ofertas de grãos incluíam azeite de oliveira e sal, embora algumas variações incluíssem também incenso puro.

A quantidade de farinha crua a ser oferecida era um ômer (a décima parte de um efa, ou aproximadamente 1,8 Kg). Presumivelmente as ofertas cozidas deveriam ser de uma quantidade similar. Em todos os casos, o sacerdote queimava somente uma porção da oferta com um pouco de sal, e retinha o restante para si. Quando o incenso puro era usado, ele era totalmente consumido pelo fogo; nada ficava para o sacerdote.

Uma Oferta de Alimentos não poderia incluir fermento e nem mel. O fermento sempre significa pecado, enquanto que o mel denotava a satisfação do homem no mundo. É notável que logo após Sua ressurreição, Cristo comeu um pouco de mel (Lucas 24:42), mostrando que até então tinha se abstido, até que sua obra estivesse cumprida — "Importa, porém, que seja batizado com um certo batismo; e como me angustio até que venha a cumprir-se!" [Lucas 12:50]

A Oferta de Alimentos sempre era feita após uma Oferta Queimada, uma associação que aponta para a vida e morte de Cristo. Enquanto a Oferta Queimada olhava para Sua morte e para tudo o que Ele realizou no Calvário, a Oferta de Alimentos olhava tanto para Sua ressurreição e para uma vida de perfeito serviço e obediência ao Seu Pai. Sem a última, a primeira teria sido impossível.

A Oferta de Alimentos também podia ser feita de forma voluntária, como uma oferemda ou oblação (minchah) em seu próprio direito. Em caso afirmativo, a oferta era feita, não como uma expiação pelo pecado (pois sangue algum era derramado), mas como um ato de adoração.

A Oferta Pacífica

A Oferta Pacífica era similar à Oferta Queimada, exceto que:

Tanto o peito do animal ("oferta movida") e a espádua direita ("oferta alçada") ficavam para o sacerdote. O termo "oferta alçada" refere-se à parte da oferta que era erguida pelo sacerdote diante do Senhor, como a estivesse erguendo para o céu, enquanto que a "oferta movida" era movida, porém não erguida.

— Refeição sacrificial

A Oferta Pacífica era a única oferta na qual o ofertante participava. Era também a única oferta em que pão levedado era comido e vinho era bebido. Como tal, ela era uma refeição sacrificial, relacionada em sua tipologia com a Ceia do Senhor.

— A gordura dos órgãos internos

A gordura em questão era o redanho que cobre as vísceras, que é diferente da gordura encontrada em outras partes do corpo. A palavra hebraica era cheleb, que significa "gordura suave". Ela era indicativo de saúde e bem-estar.

A Lei Mosaica proibia comer sangue (incluindo carne que contivesse sangue) e comer a gordura dos órgãos internos. "Estatuto perpétuo é pelas vossas gerações, em todas as vossas habitações: nenhuma gordura nem sangue algum comereis." [Levítico 3:17]. O sangue era proibido "Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma." [Lv. 17:11], enquanto que o redanho pertencia totalmente ao Senhor: "E o sacerdote o queimará sobre o altar; alimento é da oferta queimada de cheiro suave. Toda a gordura será do SENHOR." [Lv. 3:16].

— O redanho sobre o fígado

Acredita-se que o redanho que cobre o fígado seja o diafragma que separa o peito da parte inferior do torso, uma membrana muscular que regula a respiração. A Palavra de Deus nos lembra que nosso próximo fôlego está em Sua mão e que existimos para Ele somente: "... mas a Deus, em cuja mão está a tua vida, e de quem são todos os teus caminhos, a ele não glorificaste." [Daniel 5:23b].

A partir disso, podemos ver que todos os três elementos na Oferta Pacífica — o diafragma, os rins e o redanho sobre o fígado — estavam associados com a vitalidade e bem-estar do animal e, assim, por extensão, da pessoa que apresentava a oferta.

Três Tipos de Ofertas Pacíficas

As Ofertas Pacíficas eram de três tipos:
  1. A primeira era uma oferta voluntária de ação de graças (neste respeito era similar à Oferta de Alimentos, mas com carne de um animal, em vez de farinha).
  2. A segunda também era uma oferta de ação de graças, mas seguindo um voto de apresentá-la se certas bênçãos fossem recebidas.
  3. A terceira era uma simples expressão de amor do indivíduo a Deus.

A oferta voluntária de ação de graças tinha de ser comida no mesmo dia, enquanto que as outras duas poderiam ser comidas parcialmente no mesmo dia e o restante no dia seguinte, mas não no terceiro dia. Qualquer porção que sobrasse para o terceiro dia tinha de ser queimada. Deixar de fazer isso era uma grave ofensa diante do Senhor.

A Oferta Pacífica era aceita por Deus e retornava em parte para o ofertante para ser apreciada por ele e por sua família. Portanto, eram três que recebiam a mesma oferta — Deus, o sacerdote e o ofertante. Vista sobre essa luz, a oferta era um sinal de reconciliação entre Deus e o homem, apontando diretamente para a obra consumada de Cristo no Calvário.

A Oferta Pelo Pecado

As três ofertas que discutimos — a Oferta Queimada, a Oferta de Alimentos e a Oferta Pacífica — são algumas vezes referidas como ofertas de "cheiro suave" por que a fumaça produzida por elas "era cheiro suave ao Senhor". Entretanto, essa descrição não é exata, pois a Oferta pelo Pecado também era queimada "por suave cheiro ao Senhor", como mostra a passagem a seguir:

"Ou se o pecado que cometeu lhe for notificado, então trará pela sua oferta uma cabra sem defeito, pelo seu pecado que cometeu, e porá a sua mão sobre a cabeça da oferta da expiação do pecado, e a degolará no lugar do holocausto. Depois o sacerdote com o seu dedo tomará do seu sangue, e o porá sobre as pontas do altar do holocausto; e todo o restante do seu sangue derramará à base do altar; e tirará toda a gordura, como se tira a gordura do sacrifício pacífico; e o sacerdote a queimará sobre o altar, por cheiro suave ao SENHOR; e o sacerdote fará expiação por ela, e ser-lhe-á perdoado o pecado." [Levítico 4:28-31].

O pecado ao qual a Oferta pelo Pecado estava relacionada era um pecado que o indivíduo cometera "por ignorância, contra alguns dos mandamentos do SENHOR, acerca do que não se deve fazer, e proceder contra algum deles" [Levítico 4:2], enquanto que a Oferta pela Transgressão relacionava-se com pecados de ignorância que, além disso, resultavam em uma perda de algum tipo para outra pessoa. Nesses casos, o indivíduo tinha de fazer total restituição para a pessoa envolvida, mais um quinto adicional.

O que realmente distinguia as três ofertas da Ofertas pelo Pecado e da Oferta pela Transgressão era a natureza voluntária delas. Não havia obrigação para alguém apresentar uma Oferta Queimada, uma Oferta de Alimentos, ou uma Oferta Pacífica, mas havia uma rígida obrigação para o indivíduo fazer uma Oferta pelo Pecado, ou uma Oferta por Transgressão, conforme apropriado, assim que ele se tornasse ciente de sua infração.

— Níveis de pecado

A gravidade de um pecado era em proporção ao nível de responsabilidade do indivíduo que cometia o pecado. Um sacerdote tinha de oferecer um novilho, enquanto que um lider tribal oferecia um bode. Entretanto, um israelita comum deveria oferecer uma cabra, enquanto que aqueles de menores recursos poderiam oferecer duas rolas (ou dois pombinhos). De fato, se o indivíduo não pudesse arcar com o preço das duas aves, poderia oferecer a décima parte de um efa de flor de farinha (aparentemente, essa medida era menos do que a quantidade diária de pão para um adulto).

É significativo que essa última oferta — a décima parte de um efa de flor de farinha — não poderia incluir azeite e nem incenso — "pois é uma oferta pelo pecado" [Levítico 5:11]. A Oferta pelo Pecado era uma profissão de arrependimento diante do Senhor, uma confirmação pessoal que em nosso estado caído e pecaminoso, necessitamos de um Redentor para fazer a expiação pelos nossos pecados. Como somente Cristo poderia fazer isso por nós, Ele é representado pela flor de farinha, o "pão" da vida. Mas, o Espírito Santo, a quem o azeite se refere, não podia ser incluído, pois não faz expiação pelos nossos pecados. Tampouco o Pai, cuja extraordinária santidade é representada pelo incenso puro. Somente a Segunda Pessoa da Santa Trindade tornou-se pecado por nós: "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus." [2 Coríntios 5:21]. Assim, a oferta feita pelo mais pobre dos pecadores consistia apenas do mais simples dos elementos que representava Cristo — a farinha branca finíssima.

Esta humilde prescrição na Lei mostra como é fácil para todos os homens virem até Cristo e se arrependerem de seus pecados. O Senhor, em Sua misericórdia, removeu todas as barreiras e impedimentos. Independente de quão baixa ou miserável seja nossa condição social, quer aos nossos próprios olhos, ou aos olhos dos homens, temos os meios, pela mediação de Cristo, de entrar em comunhão com Deus.

— O Altar de Ouro de Incenso

A Oferta pelo Pecado diferia dos outros sacrifícios de animais em que, quando a oferta era feita em relação ao pecado de um sacerdote, o sangue do novilho era levado para dentro do Santuário, ou Santo Lugar. Ali, ele era espargido sete vezes diante do Véu e aplicado aos chifres do Altar de Ouro, enquanto que o restante era levado até o Pátio e derramado na base do Altar de Bronze:

"Se o sacerdote ungido pecar para escândalo do povo, oferecerá ao SENHOR, pelo seu pecado, que cometeu, um novilho sem defeito, por expiação do pecado. E trará o novilho à porta da tenda da congregação, perante o SENHOR, e porá a sua mão sobre a cabeça do novilho, e degolará o novilho perante o SENHOR. Então o sacerdote ungido tomará do sangue do novilho, e o trará à tenda da congregação; e o sacerdote molhará o seu dedo no sangue, e daquele sangue espargirá sete vezes perante o SENHOR diante do véu do santuário. Também o sacerdote porá daquele sangue sobre as pontas do altar do incenso aromático, perante o SENHOR que está na tenda da congregação; e todo o restante do sangue do novilho derramará à base do altar do holocausto, que está à porta da tenda da congregação." [Levítico 4:3-7].

Entretanto, nos casos da Oferta Queimada e da Oferta Pacífica, o sangue era aplicado somente ao Altar de Bronze e nada dele era levado para dentro do Santuário.

Esta admirável exceção enfatizava a necessidade de os sacerdotes serem perfeitos diante do Senhor o tempo todo.

As ofertas falam repetidamente do sangue, sem o que a purificação e expiação eram impossíveis. Visto em sua totalidade, o Tabernáculo era o lugar que Deus planejou para exaltar o sangue glorioso de Seu Filho. É duvidoso que qualquer outra estrutura, com sua mobília e ritos cerimoniais, pudesse chegar perto de expressar apenas uma fração de tudo o que o Tabernáculo diz a respeito de Cristo.

— O fogo fora do arraial

As partes do novilho na Oferta pelo Pecado que não eram consumidas no altar (que incluíam a carne, o couro e os excrementos) eram levadas para fora do arraial e queimadas. A Bíblia usa uma palavra hebraica diferente para "queimada" neste caso daquela que foi usada para descrever a própria oferta queimada. Elas nunca são usadas intercambiavelmente. O fogo no Altar de Bronze produz um "cheiro suave" ao Senhor, indicando que aquilo é aceitável, enquanto que o fogo que consome fora do acampamento é indicativo de Seu julgamento e ira. Ambos se referem à obra de Cristo, o primeiro agradando o Pai por meio de Sua obra sacrificial no Calvário, o último tomando sobre si mesmo a ira justa, que de outra forma cairia sobre o homem pecador.

A Oferta Pela Transgressão

A Oferta pela Transgressão estava relacionada com a Oferta pelo Pecado no sentido que ambas se aplicavam às infrações não intencionais da santa lei de Deus. Entretanto, a Oferta pela Transgressão também tratava as infrações em que danos foram causados a outra pessoa, novamente de forma não-intencional. A Oferta pelo Pecado referia-se unicamente ao nosso relacionamento com Deus — "Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista..." [Salmos 51:4] — enquanto que a Oferta pela Transgressão (também conhecida como Oferta pela Culpa) levava em conta como tratamos nossos semelhantes.

Não podemos fazer restituição pessoal a Deus pelos nossos pecados — pois somente Cristo pode fazer isso por nós — mas podemos fazer restituição ao nosso semelhante por algum mal que lhe causamos de forma não-intencional. Portanto, a Oferta pela Transgressão requeria que o ofertante fizesse restituição total, mais uma quantia adicional. A oferta consistia de um carneiro sem defeito, junto com uma estimativa feita pelo sacerdote, em prata, do dano ou prejuízo causado pela transgressão, ao qual um quinto era adicionado.

Depois que o ofertante matava o cordeiro, o sacerdote espargia o sangue sobre o Altar de Bronze. Ele então tomava as porções gordas (redenho) do carneiro, junto com os rins e o redenho sobre o fígado e os queimava sobre o altar.

Os eruditos bíblicos comentaram sobre a similaridade entre a Oferta pelo Pecado e a Oferta pela Transgressão. Cada uma delas lidava diretamente com o pecado, mas a partir de uma perspectiva diferente. Enquanto a Oferta pelo Pecado enfatizava o efeito de contaminação do pecado e, por implicação, a destrutividade da nossa natureza pecaminosa, a Oferta pela Transgressão enfatizava nossa total incapacidade de pagar — para Deus — a dívida que o pecado acarreta e que o justo julgamento de Deus exige. No Calvário, Cristo teve de lidar com ambos os aspectos. Ele teve de pagar a dívida pelos nossos pecados em sua totalidade e teve de nos purificar para sempre da lepra da nossa natureza pecaminosa. Como já observamos em um capítulo anterior, a igreja tem a tendência de subestimar a importância deste último aspecto.

Para apreciar a profundidade disso, precisamos ir de volta ao Jardim do Éden. Antes da Queda, o mundo era absolutamente perfeito. Ele era tão incrivelmente bonito que, após declarar seis vezes que aquilo que tinha acabado de criar era "bom", o Senhor, em um pronunciamento geral a respeito de toda a criação, declarou que tudo era "muito bom".

Quando Deus diz que algo é muito bom, está descrevendo uma coisa que em nossa condição danificada pelo pecado dificilmente conseguimos imaginar. A excelência e a pura perfeição de tudo o que Deus tinha criado eram simplesmente impresssionantes.

Ao trazerem o pecado para o mundo, Adão e Eva trouxeram morte e decadência. Eles romperarm abruptamente o vínculo maravilhoso de intimidade espiritual que existia entre eles e Deus. Isto significa que o plano que Deus tinha em mente para a humanidade, antes da entrada do pecado no mundo, foi colocado em um estado de espera e um novo plano, um plano de Redenção, foi iniciado.

Se Deus não retornasse todas as coisas — tudo mesmo — à perfeição que existia antes da Queda, então Satanás teria vencido. O Maligno teria tirado alguma coisa da soberania e excelência de Deus. O plano da Redenção, que está se desdobrando desde então, foi criado por Deus para fazer exatamente isso.

O próprio Jesus se referiu a isto como "a regeneração" (paliggenesia no original grego) em Mateus 19:28, enquanto que o livro de Atos descreve isto como "os tempos da restauração de tudo" (3:21). A palavra está no plural (tempos) porque é um processo que tem início com a Segunda Vinda de Cristo, continua durante todo o Milênio — a Época do Governo Justo — e culmina em um "novo céu e uma nova terra" e a descida do céu da "grande cidade, a santa Jerusalém... tinha a glória de Deus" [Apocalipse 21:1,10,11].

Deus enviaria um homem a este mundo, um segundo Adão, que O glorificaria plenamente em todas as coisas. Ele necessitava de alguém que, por meio de um único ato de obediência infinitamente perfeita, desfizesse todo o dano causado pelo único ato de desobediência de Adão. Da forma como os eventos ocorreram, mais glória foi dada a Deus pela obra de Cristo no Calvário do que foi perdida na Queda.

É provavelmente por isto que a restituição exigida com a Oferta pela Transgressão incluía a exigência que um quinto fosse adicionado à quantia devida. Cristo foi nossa Oferta pela Transgressão. Ele fez perfeita restituição pelos nossos pecados no Calvário. Ao fazer isso, de acordo com a tipologia das Ofertas Levíticas, Ele enriqueceu Sua obra de restituição com uma bonificação, que deu até maior glória a Deus. O mundo na plenitude dos tempos será um lugar até melhor do que era quando foi criado. Além disso, como ele era perfeitamente perfeito quando foi criado, mas não permaneceu nesse estado por muito tempo, a perfeição por vir será permanente e imutável, totalmente impérvida ao pecado.

O Amor do Pai por Seu Filho

Precisamos meditar nesta profunda verdade, pois ela reflete o admirável amor que o Pai tem pelo Filho e o Filho tem pelo Pai. É esse incrível amor que nos trouxe à existência, para início de conversa — pois o Pai deu os santos ao Seu Filho antes da fundação do mundo — mas é também o mesmo amor que nos redimiu completamente da corrupção e da morte.

É por este motivo que quando oramos ao nosso Pai Celestial, sempre precisamos fazer isso em nome de Seu Filho Jesus. Lembre-se que é com Seu Filho que Ele "se compraz". A tradução tradicional de Mateus 3:17 e 17:5 — "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" — não revela plenamente o fato que a palavra grega no original — eudokeo — tem a conotação não apenas de grande satisfação, mas de prazer real. O Pai ficou tanto grandemente safisfeito com a obra de Seu Filho quanto se deleitou grandemente com ela.

Não há coisa alguma que possamos fazer para dar prazer de algum tipo a Deus. Nós mesmos não podemos agradá-lo. Mas, quando nos achegamos a Ele em nome de Seu Filho, tudo se transforma. Como fomos criados à imagem e semelhança de Deus, podemos refletir a glória de Cristo em nossas orações e em nossa adoração. E isto é o que nosso Pai Celestial vê e ouve quando fazemos isso!

O autor cristão H. A. Ironside cristalizou tudo isto quando disse: "É de inestimável valor para a alma meditar a respeito da estima de Deus por Seu Filho" (The Levitical Offerings). Ele também observou que não há nada que um homem possa levar a Deus que lhe dê alegria, a não ser que aquilo fale de algum modo de Seu Filho bendito e de Sua obra no Calvário. Temos comunhão com Deus somente quando nossa alma entra em Seus pensamentos a respeito de Jesus, nosso Salvador.



Capítulo 16

A Novilha Ruiva

Referindo-se a Números 19, que define o papel da novilha ruiva, R. F. Kingscote disse: "... Acho que não existe outro capítulo na Bíblia, pelo menos no Velho Testamento, que nos dê o mesmo senso da santidade de Deus quanto este capítulo."

Infelizmente, muitos cristãos hoje não têm conhecimento algum sobre a novilha ruiva. Isto somente já diz muito sobre a condição da igreja no mundo tenebroso e atribulado de hoje. O único Deus Verdadeiro revelou muito sobre Si mesmo nos primeiros cinco livros da Bíblia, porém seções inteiras desses livros são negligenciadas ou tratadas de forma muito superficial. Quantos leitores já ouviram um pastor pregar sobre a novilha ruiva, mesmo sendo ela um dos mais maravilhosos tipos de Cristo que podemos encontrar na Bíblia?

Os filhos de Israel foram instruídos a selecionarem uma novilha ruiva e entregá-la a Eleazar, o filho de Arão, que deveria supervisionar a imolação da novilha fora do arraial. Na geração seguinte aquele sacerdote aparentemente seria o sucessor do Sumo Sacerdote. Outro sacerdote foi indicado para ajudar Eleazar e matar a novilha diante dele. A novilha teria de ser perfeita, sem nunca ter sido colocada sob o jugo. Eleazar então tomou o sangue e espargiu sete vezes "para a frente da tenda da congregação". Ele fez isso enquanto estava voltado para o Tabernáculo, que estava a uma certa distância (talvez 5 km, ou mais).

Ele então assistiu enquanto seu assistente queimou a novilha inteira. O animal inteiro, sem exceção, foi consumido pelo fogo. Isto incluiu o couro, os excrementos e o sangue restante. É notável que neste caso, o couro foi consumido pelo fogo. Ao fazer isso, o sacerdote lançou três itens às chamas — pau de cedro, hissopo (um arbusto) e lã de cor carmesim.

Após o animal sacrificado ter sido totalmente reduzido às cinzas, tanto o sacerdote quanto seu assistente — ainda fora do arraial — se banharam e lavaram suas roupas. Em seguida, eles retornaram ao arraial com vestes novas, mas somente foram considerados limpos após o anoitecer.

Enquanto isso, outro assistente (novamente um sacerdote) foi enviado para coletar as cinzas. Ele também precisaria estar ritualmente limpo. Depois de terem sido coletadas, as cinzas foram armazenadas permanentemente fora do arraial, "em um lugar limpo" (isto é, cerimonialmente limpo).

Esse segundo assistente também precisou lavar suas roupas, mas não houve a necessidade de se banhar. Ele também foi considerado imundo até o fim da tarde.

As cinzas foram subsequentemente colocadas em um grande recipiente contendo água corrente recolhida de uma fonte natural. Aparentemente, somente uma pequena quantidade da cinza foi necessária para este propósito. A água era então conhecida dali para frente como "água da separação" e seria usada como "purificação para o pecado". Como tal, ela ficava destinada para uso de todos os filhos de Israel, bem como dos "estrangeiros" na terra que se convertessem ao Judaísmo (prosélitos).

A Culpa pelo Sangue Derramado

O Capítulo 21 de Deuteronômio lida com uma circunstância que ajuda consideravelmente nossa compreensão da novilha ruiva. O texto especifica que, se uma pessoa fosse encontrada morta em um campo e não fosse possível determinar quem a matou, os anciãos das cidades vizinhas precisariam vir e determinar por medições exatas qual cidade era a mais próxima da cena do crime. Os anciãos daquela cidade deveriam então levar uma novilha a um vale que nunca foi semeado ("um vale áspero") e ali decapitá-la. A novilha nunca deveria ter sido usada para o trabalho ou ficado sob o jugo, mas não precisava ser ruiva. Os sacerdotes que estivessem presentes, exercendo o papel de juízes, abençoariam o ato. Os anciãos da cidade então lavavam suas mãos por cima da novilha degolada e diziam:

"As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos o não viram. Sê propício ao teu povo Israel, que tu, ó SENHOR, resgataste, e não ponhas o sangue inocente no meio do teu povo Israel. E aquele sangue lhes será expiado."

A cerimônia removia deles e de sua cidade toda a culpa pelo sangue por causa ao homícidio praticado contra uma pessoa inocente.

Existe uma paralelo admirável disto no Novo Testamento, quando Pilatos, antes de lavrar a sentença, lavou suas mãos, eximindo-se de qualquer culpa pelo sangue de Jesus.

A novilha decapitada fala poderosamente da necessidade de expiar todo pecado, mesmo naquelas situações em que o perpetrador era desconhecido. Para continuarem a viver na terra que tinha sido contaminada pelo sangue de uma pessoa assassinada, os israelitas tinham de ser absolvidos por Deus — em seus próprios olhos — de toda cumplicidade no crime. A justiça de Deus exigia que todo pecado fosse punido, independente de como ele tinha ocorrido. À luz de Sua extraordinária santidade, o sangue de uma pessoa assassinada era como uma voz que clamava a Deus desde o solo. Como o Senhor disse a Caim em Gênesis 4:10: "Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra."

Mais geralmente, de modo a garantir que sangue inocente não fosse derramado pelo vingador de sangue (um parente próximo da vítima), o Senhor estabeleceu seis cidades de refúgio em toda a terra de Israel para a qual o culpado poderia fugir. Onde as estradas principais se cruzavam, o caminho até a cidade de refúgio mais próxima tinha de ser marcado com um sinal com as palavras "Miklat Miklat" ("Refúgio, Refúgio"). De fato, para facilitar o acesso aos fugitivos, as estradas que levavam até essas seis cidades tinham o dobro da largura normal.

A novilha decapitada era uma vítima inocente do pecado, mas por meio de sua morte não merecida, ela apontava para a única morte sacrifical que expiaria todo o pecado. Além disso, ela não morria por degola, que era a prática normal, mas por decapitação. Isso significa que todo seu sangue era derramado no chão. A cerimônia era um admirável lembrete que, a não ser que o próprio Senhor enviasse um sacrifício perfeito, um sacrifício inteiramente aceitável a Ele, toda a terra manchada pelo sangue teria de ser destruída.

Levítico fala da necessidade de purificar uma moradia da lepra. Como a Terra no tempo devido se transformará na moradia de Cristo, ela também precisa ser inteiramente purificada da "lepra" do pecado. A primeira e segunda Ressurreições removerão da Terra o sangue de todas as pessoas que a qualquer tempo na história foram assassinadas (mortas ilicitamente) — pois a vida da carne está no sangue. Até o fim do Milênio, todos os clamores da terra terão cessado e a própria Terra terá sido purificada.

Limpo e Imundo

De modo a compreender o significado da novilha ruiva e da água da separação preparada com as cinzas dela, precisamos compreender o que a Bíblia quer dizer por "imundo".

A distinção entre limpo e imundo estava enraizada no princípio da separação. Isto é evidente a partir do nome que o Senhor deu à água misturada com as cinzas da novilha ruiva — a água da separação. A separação que o Senhor exigia encontrava expressão em vários modos nas vidas dos israelitas: (a) separação da idolatria; (b) separação dos povos pagãos; (c) separação de todas as práticas contrárias à lei de Deus; e (d) separação da doença, enfermidade e morte.

Uma das principais tarefas dos levitas era ensinar o povo a discernir a diferença entre o limpo e o imundo, o santo e o profano:

"E a meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano, e o farão discernir entre o impuro e o puro." [Ezequiel 44:23].

As regras de pureza ritual permeavam a vida de todo israelita e eram um lembrete constante, especialmente quando as refeições estavam sendo preparadas, que o povo escolhido era um povo separado das outras nações. Eles não podiam viver como os outros povos vivam, mas precisavam se manter constantemente em um relacionamento de aliança com Deus. As regras da pureza ritual permitia que eles apreciassem e reafirmassem esse relacionamento em sua vida cotidiana.

As leis da pureza levítica traçavam uma contundente distinção entre a vida e a morte. Elas inculcavam na mente e no coração de todo israelita a necessidade de sempre viver segundo os estatutos e preceitos de um Deus extraordinariamente santo — que dá a vida a todos — e evitar qualquer coisa que estivesse em conflito com Sua vontade revelada e que produziria a morte. As circunstâncias que davam origem à imundície se enquadravam nas seguintes categorias:

Alimentos:

Doença:

Procriação:

Morte:

Casamento:

Encontramos aqui um tema comum, isto é, a celebração da vida humana e a aversão à morte e à deterioração. Cristo veio para triunfar sobre a morte, para conceder vida eterna, e para restaurar aquilo que foi perdido por causa do pecado. Sofrendo totalmente as consequências do nosso pecado e morrendo em nosso lugar, Ele conquistou a morte por nós. Isso Lhe deu o direito, por meio de Sua ressurreição, de oferecer a cada um de nós, a todos nós, o dom da salvação, um dom que somente pode ser recebido por meio da fé no poder purificador de Seu sangue.

A santificação associada com esse dom maravilhoso estava refletida nas leis da pureza ritual.

É interessante que uma pessoa poderia se tornar imunda de forma acidental, por exemplo, ao caminhar sobre uma sepultura que não estivesse identificada. Embora tivesse sido incorrido de um modo que não podemos compreender plenamente, aquilo deixava a pessoa contaminada aos olhos de Deus. Os objetos também poderiam se tornar imundos. Isto aponta para a condição contaminante do próprio mundo e o ônus que é para o homem viver além de seus efeitos poluidores.

Já vimos esta ideia com a Pia de Cobre, onde o sacerdote deveria se purificar periodicamente, ao exercer suas tarefas diárias no Tabernáculo. Deus queria que Israel fosse "um reino sacerdotal e o povo santo" [Êxodo 19:6]. Como tal, eles tinham de tomar todas as medidas necessárias para se preservar da contaminação do mundo.

A pior contaminação ocorria por meio do contato com a morte, pois a morte veio pelo pecado. A morte é produto e consequência final do pecado e será o último inimigo a ser destruído. "Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte." [1 Coríntios 15:26].

A água da separação — isto é, água misturada com as cinzas da novilha ruiva — foi dada a Israel como "uma purificação pelo pecado", mas o pecado ou "imundície" em questão relacionava-se somente ao contato com um cadáver humano: "Aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, imundo será sete dias." [Números 19:11]. Isto não era aplicado nos casos de imundície que aconteciam por outras formas.

O único remédio para a morte, a consequência final do pecado, era a morte de Cristo, cujo sacrifício foi pré-figurado pela novilha ruiva. Por meio de Seu sofrimento e morte no Calvário, Ele conquistou e destruiu as terríveis consequências do pecado, incluindo a própria morte. A Ressurreição de Cristo foi uma gloriosa e amplamente testificada testemunha desse triunfo, mas a total bonificação de tudo que Ele alcançou no Calvário não se tornará manifesta até a ressurreição dos santos.

O Vaso de Barro

Todos os tipos de imundície poderiam ser purificados, exceto um. A exceção estava relacionada com o contato com "os répteis que se arrastam sobre a terra", que foram declarados imundos por Deus. Levítico 11:29-30 os relaciona como segue: o ouriço-cacheiro, o lagarto, a lagartixa, a lesma e a toupeira. (Esta lista é um tanto incerta, pois os eruditos não têm certeza sobre a quais animais as palavras no original hebraico se referem). Se o cadáver de algum desses animais fosse encontrado em um jarro de barro, este não poderia ser purificado pela lavagem, mas teria de ser destruído:

"E todo o vaso de barro, em que cair alguma coisa deles, tudo o que houver nele será imundo, e o vaso quebrareis." [Levítico 11:33].

Na Escritura, a imagem de um vaso de barro frequentemente se refere ao homem em sua frágil condição:

"E dir-lhes-ás: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Deste modo quebrarei eu a este povo, e a esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se, e os enterrarão em Tofete, porque não haverá mais lugar para os enterrar." [Jeremias 19:11].

Se o vaso tivesse sido coberto, a imundície não teria ocorrido e sua destruição não teria sido necessária. Cristo, em Sua humanidade, voluntariamente passou por essa destruição em nosso lugar.

"E com vara de ferro as regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai." [Apocalipse 2:27].

As cinzas que o assistente do sacerdote coletava após a novilha ter sido totalmente consumida consistiam não apenas das cinzas da novilha, mas também das cinzas da madeira consumida no fogo. Eles ficavam misturadas e indistinguíveis. Assim, as cinzas na água da separação eram as da novilha perfeita — Cristo em Sua divindade — e da humilde madeira - Cristo em Sua humanidade.

A principal penalidade para a imundície ou impureza era a perda do direito de entrar no Tabernáculo até que a imundície fosse removida. Isto significava que um israelita não poderia apresentar qualquer uma das ofertas sacrificiais, nem mesmo a Oferta pelo Pecado, até que isto estivesse resolvido. Essa restrição, que pode parecer paradoxal, nos diz que, de modo a nos aproximarmos de Deus — vindo até o Altar de Bronze — precisamos primeiro olhar para nós mesmo a partir dessa perspectiva. Isto requer que reconheçamos nossa própria condição miserável e nos aproximarmos Dele somente da forma como Ele deseja, não da nossa própria forma.

Também deve ser observado que uma pessoa imunda não poderia comer os alimentos consagrados e, se estivesse imunda no tempo da celebração da Páscoa, teria de celebrar a festa um mês mais tarde.

A imundície sempre dava origem a um período de espera antes que o indivíduo pudesse retornar a uma condição de pureza ritual. Na maioria dos casos, a imundície durava até a tarde, mas em outros ela poderia durar sete dias, ou mais. O máximo era 80 dias, no caso de uma mulher que desse à luz a uma filha. Esse período de espera pode ajudar a explicar por que toda pessoa que crê no Evangelho e nasce de novo — e, portanto, está plenamente justificada diante de Deus — precisa, apesar disso, "aguardar" na Terra um período de tempo não especificado antes de ser unida com Cristo.

Pecado e lepra

O símbolo mais importante para o pecado na Escritura é a lepra. Embora fosse uma doença em termos médicos, sua remoção milagrosa era normalmente descrita como uma purificação, em vez de uma cura:

"Então desceu, e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus; e a sua carne tornou-se como a carne de um menino, e ficou purificado." [2 Reis 5:14].

"Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai." [Mateus 10:8].

"Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho." [Lucas 7:22].

Quando Jesus purificou (ou curou) o leproso, em Mateus 8:4, Ele lhe disse para ir ao sacerdote e ser ritualmente purificado de acordo com a lei de Moisés. Admiravelmente, esse rito sacerdotal envolvia elementos — pau de cedro, lã de cor carmesim e hissopo — que eram encontrados somente na cerimônia da novilha ruiva. (O hissopo era um arbusto comum, que crescia abundantemente sobre as paredes rochosas.):

"Então o sacerdote ordenará que por aquele que se houver de purificar se tomem duas aves vivas e limpas, e pau de cedro, e carmesim, e hissopo. Mandará também o sacerdote que se degole uma ave num vaso de barro sobre águas vivas, e tomará a ave viva, e o pau de cedro, e o carmesim, e o hissopo, e os molhará, com a ave viva, no sangue da ave que foi degolada sobre as águas correntes." [Levítico 14:5-6; veja também Lv. 14:50-51].

É significativo que o vaso de barro também seja mencionado aqui, porém neste caso não é necessário que ele seja quebrado, pois não tinha se tornado imundo.

Como já vimos, esses mesmos elementos foram adicionados ao fogo em que a novilha ruiva era consumida. Embora o significado disso seja muito discutido, a maioria dos eruditos bíblicos concorda que:

Pau de cedro — representa a humanidade de Cristo, com possível referência tanto ao cedro do Líbano - a mais forte de todas as árvores, a partir da qual o Templo de Salomão foi construído — e a madeira da cruz, que poderia ser considerada como a árvore mais desprezada que já cresceu.

Lã carmesim — representa o sangue de Cristo, um fio tão fino e insignificante que pareceria fraco para suportar alguma coisa, porém liga com inquebrantável segurança todo o remanescente da humanidade salva ao Deus Vivo.

Ramo de hissopo — representa a origem humilde de Cristo. Em Sua humanidade e maravilhosa disponibilidade para todos que O invocam para a salvação. Não somente o hissopo era usado no próprio sacrifício, mas também era usado para espargir a água da separação. Isto, por sua vez, aponta para a primeira referência direta ao sangue de Cristo, quando o hissopo era usado para espargir as ombreiras e a verga das portas com o sangue do cordeiro da Páscoa (veja Êxodo 12).

Aspectos Distintivos no Sacrifício da Novilha Ruiva

Quando comparado com os sacrifícios levíticos, o sacrifício da novilha ruiva tem muitos aspectos distintivos e singulares:

1. A novilha ruiva é mencionada em Números, porém não em Levítico ou em Deuteronômio. De fato, além das duas rápidas referências em Hebreus, uma direta e outra implícita, ela não é mencionada em nenhum outro lugar na Bíblia:

"Porque, se o sangue dos touros e bodes, e a cinza de uma novilha esparzida sobre os imundos, os santifica, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?" [Hebreus 9:13-14].

"Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa." [Hebreus 10:22].

2. Todos os sacrifícios de expiação tinham de ser feitos no Altar de Bronze e em nenhum outro lugar, com uma exceção — a novilha ruiva. Além disso, ela tinha de ser sacrificada fora do arraial, em um campo aberto.

3. Quando o suprimento de cinzas estivesse perto de acabar, uma nova novilha tinha de ser selecionada e sacrificada. Aparentemente, as cinzas de um única novilha poderiam durar por até cem anos, ou mais. Algumas fontes rabínicas sugerem que somente nove novilhas ruivas foram sacrificadas ao longo da história de Israel, desde o tempo de Êxodo, em 1446 AC até 70 DC, aproximadamente.

4. Embora fosse similar à Oferta Queimada (Holocausto), em que um animal sacrificado era sempre macho (novilho, bode ou carneiro), o animal sacrificado neste caso era sempre uma fêmea — uma novilha (uma vaca jovem).

5. A purificação relacionava-se unicamente com a imundície resultante do contato com um cadáver humano, enquanto que uma Oferta pelo Pecado não estava restringida a pecados de determinados tipos.

6. A água da purificação poderia remover a imundície, mas não dos seres humanos, apenas dos objetos e das moradias.

7. A eficácia espiritual da Oferta pelo Pecado era imediata, enquanto que a purificação concedida por meio da água da separação requeria sete dias para entrar em efeito.

8. A Oferta pelo Pecado era um evento único, enquanto que a água da separação tinha de ser aplicada duas vezes — no terceiro e no sétimo dias. Aparentemente, os dias eram contados desde o tempo em que o indivíduo buscava a purificação, o que presumivelmente era o mesmo dia em que a imundície ocorreu.

9.A pessoa que realizava a cerimônia de purificação tinha de estar cerimonialmente limpa, mas não precisava ser um sacerdote ou levita.

10. Surpreendentemente, a pessoa que realizava a purificação tornava-se imunda por fazer isso. Jesus Cristo, por outro lado, sendo imaculado, podia tocar em uma pessoa imunda, como um leproso, sem se contaminar e, ao mesmo tempo, remover qualquer contaminação daquela pessoa. Ele também curava frequentemente, tocando nos suplicantes, mesmo que isso não fosse necessário, de modo a demonstrar que a lei da imundície seria superada por Sua obra no Calvário.

Há um requisito similar em relação à Oferta pelo Pecado. O sacerdote tem o direito de comer do sacrifício da carne, tendo cozinhado-a em um vaso de bronze ou de barro. No caso deste último, porém, o vaso precisaria ser destruído: "E o vaso de barro em que for cozida será quebrado; porém, se for cozida num vaso de cobre, esfregar-se-á e lavar-se-á na água." [Levítico 6:28]. Todavia, "Tudo o que tocar a carne da oferta será santo; se o seu sangue for espargido sobre as vestes de alguém, lavarás em lugar santo aquilo sobre o que caiu." [Levítico 6:27].

Vemos aqui uma conexão inegável com o indivíduo que espargia a água da separação. Embora fosse um instrumento para restaurar a pessoa ou objeto a um estado de limpeza, ele próprio tornava-se imundo ao fazer isso.

11. O sacrifício da novilha ruiva é o único em que a pessoa que sacrificava não colocava primeiro suas mãos sobre a cabeça do animal. Não havia identificação com o animal ou uma transferência simbólica do pecado em nome do povo.

12. O sangue da novilha ruiva era espargido sobre o solo fora do arraial. O sangue que era espargido em todos os outros sacrifícios era espargido dentro dos limites do Tabernáculo.



Capítulo 17

As Trombetas de Prata

Por alguma razão, os comentaristas normalmente omitem qualquer discussão sobre as duas trombetas de prata ao descreverem o Tabernáculo e suas funções:

"Faze-te duas trombetas de prata; de obra batida as farás, e elas te servirão para a convocação da congregação, e para a partida dos arraiais." [Números 10:2].

Como resultado dessa negligência, muitos cristãos hoje não estão cientes de que o Senhor instruiu os israelitas a fazerem duas trombetas sacerdotais, cada uma a partir de um único bloco de prata, e usá-las para um grupo específico de funções. Essas funções consistiam de:

(a) A convocação de uma assembleia geral de pessoas, seja de príncipes ou de tribos, à porta do Tabernáculo; (b) emitir convocações para cada agrupamento tribal para levantarem o acampamento e avançarem para um novo local; (c) o som de súplicas ao Senhor para Ele vir em auxílio quando eles fossem ameaçados pelas nações pagãs; e (d) adorno musical para certas ocasiões:

"Semelhantemente, no dia da vossa alegria e nas vossas solenidades, e nos princípios de vossos meses, também tocareis as trombetas sobre os vossos holocaustos, sobre os vossos sacrifícios pacíficos, e vos serão por memorial perante vosso Deus: Eu sou o SENHOR vosso Deus." [Números 10:10].

As trombetas de prata — chatsotserah — somente poderiam ser usadas pelos filhos de Arão. Embora os levitas pudessem ajudar na realização das muitas tarefas sagradas, havia algumas tarefas que somente poderiam ser realizadas pelos sacerdotes aarônicos. Tocar as trombetas de prata era uma dessas funções. Por outro lado, os levitas poderiam utilizar as trombetas comuns, o shopher conforme a ocasião requeresse. (Um shopher curto era feito do chifre de carneiro e uma versão mais comprida era feita do chifre de um bode montanhês.)

É significativo que cada trombeta era fabricada de uma única peça de prata, desse modo sugerindo uma associação espiritual com três itens importantes de mobília no próprio Tabernáculo — o Candelabro de Ouro, o Propiciatório e a Pia de Cobre.

À luz dessa tipologia, não pode haver dúvida que as trombetas de prata deveriam ser vistas como parte da mobília do Tabernáculo e como elementos intrínsecos para sua função. Elas não eram simplesmente instrumentos musicais, ou instrumentos de comunicação, embora também servissem para isso, mas eram elementos cujo verdadeiro significado espiritual somente poderia ser compreendido dentro no contexto do Tabernáculo como um todo.

As trombetas de prata estavam relacionadas tipologicamente com a prata usada em outras partes do Tabernáculo e no pátio ao redor, isto é, os capitéis no alto de cada um dos pilares da cerca e as bases de prata que suportavam as paredes do Tabernáculo. A primeira representava as partes mais altas e a última a fundação do Tabernáculo. Embora a primeira fosse visível para todos, a última não era visível para ninguém, nem mesmo para os sacerdotes. De forma similar, as trombetas de prata, quando tocadas na entrada do Tabernáculo, poderiam ser ouvidas por todo o arraial, mas de outro modo não eram vistas. (As tribos eram proibidas de vir a menos de 2.000 côvados (900 metros) da Arca da Aliança.).

O Beca

Como já vimos, a prata significava expiação, redenção ou santificação. A seguinte passagem da Escritura nos dá uma vívida ilustração disto:

"Falou mais o SENHOR a Moisés dizendo: Quando fizeres a contagem dos filhos de Israel, conforme a sua soma, cada um deles dará ao SENHOR o resgate da sua alma, quando os contares; para que não haja entre eles praga alguma, quando os contares. Todo aquele que passar pelo arrolamento dará isto: a metade de um siclo, segundo o siclo do santuário (este siclo é de vinte geras); a metade de um siclo é a oferta ao SENHOR. Qualquer que passar pelo arrolamento, de vinte anos para cima, dará a oferta alçada ao SENHOR. O rico não dará mais, e o pobre não dará menos da metade do siclo, quando derem a oferta alçada ao SENHOR, para fazer expiação por vossas almas. E tomarás o dinheiro das expiações dos filhos de Israel, e o darás ao serviço da tenda da congregação; e será para memória aos filhos de Israel diante do SENHOR, para fazer expiação por vossas almas." [Êxodo 30:11-16].

Todo homem com mais de 20 anos tinha de pagar anualmente para o serviço do Tabernáculo meio siclo de prata "para fazer expiação por suas almas". Este era literalmente dinheiro da expiação" e "uma oferta ao Senhor". Como tal, apontava para a única oferta que poderia expiar por nossos pecados, isto é, o sangue de Jesus Cristo.

Observe também que o peso de meio siclo era determinado por referência ao "siclo do santuário". Isto significa que ele era fixo o tempo todo e não poderia variar, como os pesos e medidas frequentemente variavam. O siclo de referência, que era retido no santuário, era o padrão perpétuo pelo qual as balanças eram calibradas. Ninguém poderia dar mais e ninguém poderia dar menos; a quantia nunca variava. O preço da nossa salvação foi fixado desde a fundação do mundo.

Esse meio siclo também era conhecido como um beca — "Um beca por cabeça, isto é, meio siclo, conforme o siclo do santuário; de todo aquele que passava aos arrolados, da idade de vinte anos para cima, que foram seiscentos e três mil e quinhentos e cinquenta." [Êxodo 38:26].

O Chamado das Trombetas de Prata

O chamado das trombetas de prata era predominantemente um chamado para a santificação, seja pelas ofertas sacrificiais feitas pelos filhos de Israel, ou por meio de seu avanço contínuo em direção à conquista da terra prometida. Que isto também tinha uma função protetora pode ver visto a partir da seguinte passagem:

"E, quando na vossa terra sairdes a pelejar contra o inimigo, que vos oprime, também tocareis as trombetas retinindo, e perante o SENHOR vosso Deus haverá lembrança de vós, e sereis salvos de vossos inimigos." [Números 10:9].

Pensar que um chamado feito por esses dois simples instrumentos chegava com certeza aos ouvidos do Senhor Deus Todo-poderoso e garantia Seu auxílio para a vitória era algo que abatia o orgulho de qualquer um!

Além do próprio Cristo, nenhuma outra pessoa ou objeto (com a possível exceção do Urim e Tumim) já teve esse privilégio — "Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?" [Mateus 26:53]. Portanto, as duas duas trombetas de prata são um tipo de Cristo, de Seu comprometimento inabalável com a preservação e posterior exaltação do remanescente justo de Israel.

Mas, por que ter duas trombetas de prata? Certamente, uma única trombeta seria suficiente para completar a tipologia. Talvez a explicação possa ser encontrada na vida terreal de Jesus, que constantemente buscava a vontade de Seu Pai e nunca agia unicamente por Sua própria autoridade: "E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada." [João 8:29]. Quando Ele falava, falava por ambos, como o sonido das duas trombetas.

O significado das trombetas de prata também pode ser visto em dois importantes eventos no calendário judaico, a Festa Anual das Trombetas e o Ano do Jubileu:

O Ano do Jubileu

O Ano do Jubileu era o ano que seguia o último ano em sete ciclos de sete ("o ano quinquagésimo"). Cada sétimo ano era um ano sabático, um tempo em que a terra recebia descanso e o Senhor sustentava a nação de forma milagrosa, fornecendo o suficiente na colheita do sexto ano para alimentar a nação:

  1. Durante o ano 7, quando a terra ficava em descanso, nenhuma colheita era feita, e nenhuma semeadura era feita para o ano seguinte;
  2. Durante o ano 8, pois nenhuma semeadura tinha sido lançada no ano anterior;
  3. Durante o ano 9, até o tempo da colheita daquele ano, quando aquilo que foi plantado no ano 8 estivesse maduro.

A palavra "jubileu" é uma tradução da palavra hebraica yôwbêl, que a Concordância de Strong define como "o sonido de um chifre (a partir de seu som contínuo); especificamente, o sinal das trombetas de prata; daí, o próprio instrumento e o festival assim introduzido: — jubileu, chifre de carneiro, trombeta."

As trombetas de prata também estavam vinculadas com outra certeza de livramento milagroso, desta vez da fome e da necessidade. Neste sentido elas novamente constituem outro tipo de Cristo: "E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede." [João 6:35].

Além disso, no Ano do Jubileu — quando as trombetas de prata eram tocadas jubilosamente, todas as dívidas eram perdoadas e todas as propriedades retornavam para seus possuidores originais.

Com que frequência perdoamos o pecador que se arrepende? Como Cristo disse, em resposta a esta questão: "Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete." [Mateus 18:22]. Isto aparentemente foi uma referência ao perdão incondicional que estava disponível para todos no Ano do Julibeu, que ocorria depois de sete conjuntos de sete anos terem sido cumpridos. Isto também identificava o próprio Cristo com o yôwbêl, o sonido jubilante das trombetas de prata, cuja gloriosa ressurreição proclamou o perdão universal e incondicional do pecado.

A Festa das Trombetas

As trombetas de prata também eram especialmente proeminentes durante a Festa das Trombetas:

"Fala aos filhos de Israel, dizendo: No mês sétimo, ao primeiro do mês, tereis descanso, memorial com sonido de trombetas, santa convocação." [Levítico 23:24].

A palavra para "trombetas" neste verso não é chatsôtserâh nem shôwphâr, mas trûw'âh. A Concordância de Strong define isto como segue:

trûw'âh, ter-oo-aw'; de H7321; clamor, isto é, aclamação de alegria, ou um brado de guerra; especialmente toque de trombetas, como em um alarme: alarme, sonido das trombetas, alegria, júbilo, ruído alto, regozijo, soando alto, com alegria.

A Festa das Trombetas, ou Yom Teruah — que é também chamada de Rosh Hashanah porque inaugura o novo ano civil no calendário judaico — é uma festa de alegre aclamação e de sonido das trombetas. Dada a natureza exuberante da ocasião, é claro que a trombeta de chifre de carneiro, ou shôwphâr era o instrumento principal, mas sem dúvidas as trombetas de prata também eram usadas. Deve-se lembrar que havia somente dois desses instrumentos em Israel, um número que Salomão depois aumentou para 120 — veja 2 Crônicas 5:12.

A Última Trombeta

Para todos os fiéis cristãos, o arrebatamento (harpazo) da igreja é verdadeiramente uma "bendita esperança", onde "esperança" denota um evento futuro que com certeza irá acontecer. Como a igreja, a noiva de Cristo, não precisará enfrentar a ira vindoura, não poderá estar na Terra durante a grande Tribulação do fim dos tempos. Somos informados que o Arrebatamento poderá ocorrer a qualquer momento, aparentemente bem perto do início da Tribulação de sete anos:

"Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor." [1 Tessalonicenses 4:15-18].

A "última trombeta", ou o toque da trombeta, é produzida por muitas trombetas que soam juntas. Isto será similar à última trombeta na Festa das Trombetas — e foi compreendido assim pelos tessalonicenses. Ela não está relacionada de forma alguma com as várias trombetas que são tocadas no livro do Apocalipse, pois esse livro ainda não tinha sido escrito quando Paulo escreveu a Epístola aos Tessalonicenses.

O toque prolongado das trombetas na Festa dos Tabernáculos era o júbilo final que soava naquela festa, o chamado final, ou culminante, ao povo de Deus. Conhecida como teruach gedolah, ela pré-figurava a maravilhosa "última trombeta" que soará dos céus quando o próprio Cristo descer até a atmosfera terreal e chamar sua noiva para se encontrar com Ele "nos ares".



Capítulo 18

Conclusão

A Bíblia é um registro admirável do amor de Deus pelo homem, mas de muitas formas, também é um registro ainda mais admirável do amor que o Filho tem pelo Pai e do amor que o Pai tem pelo Filho. Pensamos na Criação com um evento tremendo, que deixa nossa compreensão em um estado de total admiração, mas esse evento pode ter sido igualado, se esse for o termo correto a usar, por um evento subsequente — o momento em que toda a Criação foi completamente redimida.

Que grande amor o Filho precisou ter para voluntariamente realizar essa tarefa, em obediência ao Pai, e que amor o Pai precisou ter quando, no tempo de Criação, Ele soube que aquele mesmo ato iria requerer o sacrifício de Seu Filho.

Embora sejamos seres minúsculos e finitos, com uma pequeníssima capacidade para compreender uma verdade dessa magnitude, o Senhor graciosamente colocou em nós a capacidade de apreciá-la em algum nível e de nos beneficiarmos grandemente a partir da contemplação de sua realidade.

Educando uma Nação

A peregrinação no deserto foi uma tremenda educação espiritual para a nação de Israel. Por meios puramente milagrosos, o Senhor libertou cerca de dois milhões de indivíduos, que eram escravos na fornalha de ferro do Egito, e os preservou em boa saúde durante um período de 40 anos em um terreno totalmente inóspito. Durante esse longo período, eles puderam se dedicar quase que exclusivamente ao estudo da Santa Palavra de Deus — como Ele pediu que eles fizessem. Nunca antes, ou mesmo depois, uma nação inteira foi separada desse modo e teve a oportunidade de frequentar um curso "universitário" durante 40 anos, sob o inspirado conselho e direção de um dos melhores homens que já existiu.

A Igreja

As verdades expressas por meio do Tabernáculo constituem um quadro admirável de Cristo e, portanto, também da igreja, o corpo de Cristo. Como fiéis cristãos, somos a casa que Cristou edificou. Uma compreensão da igreja que esteja em conflito com o ensino do Tabernáculo é decifiente de alguma forma.

Ao contrário da opinião popular, a Reforma não "reformou" a igreja, mas a libertou, embora de forma imperfeita, do poder controlador pernicioso de Roma e de seus vis impostores. Igualmente, a "reforma" que alguns acreditam que está ocorrendo hoje não é reforma coisa alguma, mas uma cínica perversão daquilo que a Palavra de Deus ensina de forma bem clara. Os cérebros que estão por trás dessa campanha global estão determinados a colocar a igreja professa — e milhões de cristãos nominais — em servidão a Roma, o equivalente moderno do Egito. À medida que isto acontece, eles estão fazendo progresso significativo, principalmente por que a maioria dos cristãos hoje está terrivelmente ignorante da Palavra de Deus e, em particular, daquilo que ela diz a respeito do Tabernáculo.

Cristo Vindicou um Deus Extraordinariamente Santo

O sacrifício no Calvário fez mais do que expiar os pecados da humanidade. Ele foi além e glorificou o Pai. Ele destruiu completamente as obras de Satanás, que se opunha à soberania de Deus a cada vez, e propiciou a restauração do mundo — na plenitude dos tempos — à perfeição que ele possuía no sétimo dia da Criação. Por meio de Seu sangue derramado no Calvário, Cristo garantiu que a soberania de Deus nunca mais fosse contestada. Desse modo, Ele vindicou completamente a extraordinária santidade de Deus e desfez perfeitamente todo ato de desobediência praticado pelo homem.

A longanimidade e paciência do Pai estão enraizadas totalmente na obra expiatória de Cristo. Se o Cordeiro não tivesse sido morto antes da fundação do mundo, então a perfeita justiça do Pai teria requerido a imediata destruição de toda a criação no momento em que Adão pecou.

Paradoxalmente, os ateístas que hoje proferem palavras arrogantes e veementes, em indignação contra a soberania de Deus, usufrem das bênçãos da saúde, do contentamento e do bem-estar unicamente devido à obra expiatória de Cristo. De fato, todos os que odeiam a Cristo devem suas próprias existências àquilo que Ele alcançou no Calvário!

Se esses indivíduos persistirem em sua rebelião, eles morrerão em seus pecados. Escolhendo o exílio eterno longe de Cristo, ele perderão a doçura e a consolação que agora usufruem. Por quê? Por que a misericórdia e a bondade são um dom de Deus por meio da obra de Cristo no Calvário. Mas, se uma pessoa rejeita a Cristo, então nada mais resta, senão "eternamente a negrura das trevas" [Judas 1:13].

Os universalistas argumentam que todos serão salvos e que nenhuma alma se perderá, mas eles estão totalmente enganados! "E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem." [Mateus 7:14].

Rejeitar a Cristo é rejeitar a salvação, pois ambos são a mesma coisa. ""O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." [2 Pedro 3:9]. Deus fez infinitas provisões para nossa salvação. Por meio do sacrifício de Seu Filho, Ele ofereceu à humanidade — cada um de nós — o maior presente que qualquer um poderia imaginar. Infelizmente, se os homens caídos estão decididos a rejeitarem esse presente, apesar de todos os convites feitos por Deus, então eles ficam destinados a viverem eternamente, sem esperança, nas trevas.

Um Tempo de Grande Escuridão Espiritual

Se a igreja professa exaltasse a Cristo como deveria fazer, então odiaria o pecado, odiaria a desobediência, e odiaria este mundo maligno atual. Mas, infelizmente, a igreja moderna se orgulha de não odiar coisa alguma. Ela é morna, nem quente nem fria, e tolera aquilo que é intolerável. O pátio do Tabernáculo dessa igreja tem muitas entradas e sua Pia está em um canto. A pura canção de louvor sincero oferecida sem máculas, está profundamente manchada pelas associações mundanas. O incenso do verdadeiro arrependimento frequentemente foi substituído pelo odor forte da auto-estima e do valor-próprio. O brilho contínuo de um coração dedicado a Cristo e do serviço a Ele foi substituído por um apetite insaciável por sinais e maravilhas e um vago desejo ardente por "experiências interiores".

Quantos pastores nesta época de grandes trevas estão pregando uma mensagem remotamente similar a esta de Vance Havner, que fez as seguintes graves advertências em 1969?

"As profundidades da depravação humana nos dias atuais são vis demais para serem descritas em palavras na nossa linguagem. Estamos vendo não a corrupção moral comum, mas o mal duplamente destilado e misturado em combinações estranhas, misteriosas e demonícas, junto com formas de iniquidade totalmente desconhecidas uma geração atrás."

Outra geração se passou desde que Havner proferiu essas palavras, de modo que a situação se tornou consideravelmente pior, porém muitos pastores ainda estão calados!

Coexistência Pacífica com o Mal

Pouco a pouco, o pecado passou a ser retratado como menos pecaminoso. Como Havner descreveu, aqueles que deveriam viver na luz decidiram se acostumar com as trevas. E quanto mais eles se assentam nas trevas, mais se ajustam as elas, de modo que hoje temos a "mente aberta e tolerante", que não é nada menos que uma coexistência pacífica com o mal.

Esta falha em condenar o mal está na essência de todos os nossos problemas — a deliberada incapacidade de lamentar a extensão em que um mundo rebelde está persistente e ousadamente ofendendo um Deus que é extraordinariamente santo. Quantos hoje suspiram e gemem por causa de todas as abominações que são cometidas no meio das assim chamadas comunidades cristãs? Muitos pastores hoje preferem entristecer o Espírito Santo do que desagradar os iníquos!

O julgamento, quando vier, será devastador:

"E disse-lhe o SENHOR: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros disse ele, ouvindo eu: Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres, até exterminá-los; mas a todo o homem que tiver o sinal não vos chegueis; e começai pelo meu santuário. E começaram pelos homens mais velhos que estavam diante da casa." [Ezequiel 9:4-6].



Apêndice A

As Colunas do Pátio

Alguns eruditos questionam se as colunas do pátio consistiam de mastros de madeira de acácia com um revestimento de cobre. Soltau acreditava que elas eram feitas unicamente de acácia, enquanto que De Haan acreditava que elas eram feitas unicamente de cobre. A passagem relevante é Êxodo 27:9-10:

"Farás também o pátio do tabernáculo, ao lado meridional que dá para o sul; o pátio terá cortinas de linho fino torcido; o comprimento de cada lado será de cem côvados. Também as suas vinte colunas e as suas vinte bases serão de cobre; os colchetes das colunas e as suas faixas serão de prata."

Se a Escritura diz "as suas vinte colunas... serão de cobre", não há claramente possibilidade alguma que elas fossem feitas inteiramente de madeira de acácia. A única possibilidade que precisamos considerar então é se elas eram feitas exclusivamente de cobre.

A razão mais forte para acreditarmos que elas eram feitas de madeira de acácia revestida de cobre é que os elementos análogos — as nove colunas e 48 tábuas do Tabernáculo — eram feitos de madeira de acácia (revestida por ouro). Por exemplo, a entrada para o Santuário tinha colunas feitas de madeira de acácia revestida por ouro e fixadas em bases de bronze:

"E farás para esta cortina cinco colunas de madeira de acácia, e as cobrirás de ouro; seus colchetes serão de ouro, e far-lhe-ás de fundição cinco bases de cobre." [Êxodo 26:37].

Além disso, somente três itens de mobília foram feitos unicamente com um mesmo material — a Pia de Cobre, o Candelabro de Ouro e o Propiciatório (também de ouro). A tipologia deles seria grandemente diluída se as 60 colunas do pátio também fossem feitas de um único material (sem contar os capitéis de prata).

Temos também de considerar a quantidade total de cobre usada em toda a construção do Tabernáculo. Êxodo 38:29 diz: "E o cobre da oferta foi setenta talentos e dois mil e quatrocentos siclos."

Isto foi quase certamente utilizado em sua totalidade nos seguintes itens, cada um dos quais foi feito parcial ou totalmente de cobre:

As colunas do pátio tinham a metade da altura das colunas do Santuário e tinham menos peso para suportar. Se as bases para as colunas que suportavam o Véu pesavam um talento cada, então as bases de cobre que suportavam as colunas do pátio precisavam pesar menos do que um talento. Isto permitira que os mais de 70 talentos disponíveis fossem distribuídos eficientemente entre os itens especificados, mas somente se as colunas do pátio não fossem feitas totalmente de cobre. Portanto, elas podem ter sido feitas de madeira de acácia com um revestimento de cobre.

Havia cobre suficiente para construir colunas ocas para o pátio, mas é duvidoso se elas teriam sido fortes o suficiente para suportar os panos da cerca sob todas as condições. Além disso, um tubo de cobre oco por dentro, em um deserto árido, poderia produzir um choque eletrostático desagradável. (Lembre-se que a palavra nechosheth, que algumas vezes é chamada de "bronze", era na verdade o cobre, embora o cobre também seja altamente condutor de eletricidade.).

Em resumo, concluímos que as colunas do pátio devem ter sido feitas de madeira de acácia revestidas por "cobre", pelas seguintes razões:

  1. A menção expressa de que o cobre foi usado nas colunas do pátio (Êxodo 27:10);
  2. A quantidade de cobre usada no total (Êxodo 38:29);
  3. O significado da madeira de acácia na linguagem do Tabernáculo;
  4. O conceito de "cobrir" (ou "revestir"), que é central na mensagem espiritual do Tabernáculo;
  5. As tipologias da Pia de Cobre, do Candelabro e do Propiciatório;
  6. O uso conhecido da madeira de acácia nas colunas da tenda do Tabernáculo.


Apêndice B

Os Cinco Tipos de Ofertas

Papel do Ofertante
Papel do Sacerdote
Porção de Deus
Porção do Sacerdote
Porção do Ofertante
Queimada Fora do Arraial?
Oferta Queimada Trazia o animal até a entrada do Tabernáculo, colocava suas mãos firmemente sobre a cabeça do animal, degolava-o, depois esfolava-o, depois cortava-o em várias partes. (A oferta de uma ave não era cortada em partes,) Coletava o sangue em um vaso e o espargia sobre o Altar de Bronze. Colocava as partes do animal em uma ordem pré-definida sobre o Altar de Bronze. Tudo era queimado no Altar de Bronze. A pele (o couro) do animal. Não aplicável no caso de uma oferta de aves. Nada. Não.
Oferta de Alimentos Trazia a oferta até a entrada do Tabernáculo e a entregava ao sacerdote. O sacerdote lançava um punhado da oferta sobre o Altar de Bronze, junto com todo o incenso puro. Um punhado da oferta de grãos, mais o sal e todo o incenso puro. O restante da oferta. Nada. Não.
Oferta Pacífica Trazia o animal até a entrada do Tabernáculo, colocava suas mãos firmemente sobre a cabeça do animal e o degolava. Coletava o sangue em um vaso e o espargia sobre o Altar de Bronze. Movia o peito e "alçava" (erguia no ar) o ombro direito do animal diante do Senhor. O sangue espargido, mais o sal, a gordura sobre os órgãos internos, os rins e o redanho sobre o fígado O peito "movido" e o ombro "alçado" do animal. O restante poderia ser comido pelo ofertante, junto com sua família e amigos. Não.
Oferta pelo Pecado Igual à Oferta Pacífica. (Veja no texto os casos especiais e referência ao Altar de Ouro de Incenso.). Colocava um pouco do sangue sobre os chifres do Altar de Bronze e derramava o restante aos pés do Altar de Bronze. O sal, a gordura sobre as vísceras, os rins e o redanho sobre o fígado eram queimados no Altar de Bronze. O sacerdote escolhia as partes que quisesse e depois as cozia e comia. Nada. O restante da oferta era queimado fora do arraial.
Oferta pela Transgressão Um carneiro era oferecido, como na Oferta Pacífica. Uma total restituição monetária (mais 20% do valor) também tinha de ser dada à pessoa prejudicada. Coletava o sangue em um vaso e o espargia sobre o Altar de Bronze. Como na Oferta pelo Pecado. O restante ficava para o sacerdote. Nada Não.

Nota: Em todos os casos, o ofertante também trazia sal, um pouco do qual era colocado sobre o Altar de Bronze. O sal simbolizava a pureza e a longevidade, com referência particular às promessas da aliança de Deus.

Animais e Itens de Alimentos em Cada Oferta

Oferta
Propósito
Tipologia de Cristo
Oferta Queimada Um novilho, um carneiro ou um bode — em cada caso de um ano de idade e sem defeito, ou duas rolas ou dois pombinhos Total consagração do ofertante a Deus. Cristo entregou a Si mesmo como uma "oferta queimada" na cruz do Calvário.
Oferta de Alimentos

Flor de farinha, cozida ou não-cozida. Se cozida, poderia ser preparada no forno, na frigideira ou em uma panela. Incluía azeite de oliva, sal e incenso puro.

Também poderia ser uma oferta de "primícias", isto é, espigas de milho verde tostadas no fogo. As ofertas não podiam conter fermento nem mel.

A consagração a Deus dos esforços e bens do ofertante. Cristo foi o pão da vida, oferecido e ferido no Calvário.
Oferta Pacífica Um novilho (macho ou fêmea), bode (ou cabra) ou um carneiro (ou ovelha). Em cada caso, de um ano de idade e sem defeito. A reconciliação do ofertante com Deus. Oferecido em ações de graças. Cristo, por meio do Calvário, é o único modo pelo qual o homem pode se reconciliar com Deus.
Oferta pelo Pecado Igual à Oferta Pacífica. A expiação do pecado do ofertante. O sangue de Cristo nos purifica do pecado.
Oferta pela Transgressão Uma ovelha ou uma cabra, ou duas rolas ou dois pombinhos, ou um décimo de um efa de flor de farinha (sem azeite e sem incenso puro). Expiar o pecado e fazer restituição pela transgressão do ofertante. Cristo fez restituição total por nós no Calvário, entregando mais para Deus do que tinha sido perdido por causa do pecado.

Nota: Sempre que o incenso puro era oferecido em alguma ocasião, a quantidade total era colocada sobre o Altar de Bronze. Nada ficava para o sacerdote.



Bibliografia



Autor: Jeremy James, artigo em http://www.zephaniah.eu
Data da publicação: 15/1/2016
Transferido para a área pública em 25/7/2017
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/tabernaculo.asp