O Anticristo

Autor: Arthur W. Pink



CAPÍTULO 2

O Papado Não É o Anticristo


"Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis." [João 5:43]. Estas palavras foram pronunciadas pelo Senhor Jesus Cristo e a ocasião em que elas foram proferidas e a conexão em que são encontradas, as investem de uma peculiar solenidade. O capítulo inicia com a cura do paralítico que estava deitado junto ao tanque de Betesda. Isto ocorreu no sábado e os inimigos de Cristo aproveitaram a oportunidade para atacá-lo fortemente: "E por esta causa os judeus perseguiram a Jesus, e procuravam matá-lo, porque fazia estas coisas no sábado." [verso 16]. Ao justificar a realização daquele milagre no sábado, o Senhor Jesus começou dizendo: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também." [v. 17]. Mas isto somente serviu para intensificar a inimizade contra Ele, porque lemos: "Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus." [v. 18]. Em resposta, Cristo fez então uma declaração detalhada de Suas glórias divinas. Em conclusão, Ele apelou para as diversas testemunhas que confirmavam Sua divindade — o próprio Pai (v. 32), João Batista (v. 33), Suas próprias obras (v. 36), e as Escrituras (v. 32). Em seguida, Ele se voltou para os opositores e disse: "Não quereis vir a mim para terdes vida. Eu não recebo glória dos homens; mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis." [versos 40-43]. E isto foi seguido imediatamente pela seguinte pergunta: "Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?" [v. 44].

Aqui está a chave para a afirmação solene que inicia este artigo. Aqueles judeus recebiam glória uns dos outros; eles não a buscavam de Deus, pois não tinham o amor de Deus em seus corações. Portanto, era Aquele que tinha vindo até eles em nome do Pai, e que não "recebia glória dos homens" [v. 41] que estava sendo rejeitado. Exatamente como a rejeição de Eva à palavra de Deus a tornou susceptível para aceitar a mentira da serpente, assim também a rejeição de Israel ao verdadeiro Messias o preparou, moralmente, para receber o falso Messias, pois ele virá em seu próprio nome, fazendo o que quiser e recebendo a "glória dos homens". Assim, ele agradará grandemente ao coração corrompido do homem natural.

Portanto, o aparecimento futuro desse que "virá em seu próprio nome" foi anunciado pelo próprio Senhor. O Anticristo será "recebido", não somente pelos judeus, mas por todo o mundo; recebido como seu reconhecido líder e governante; e todos os apelos modernos e as ações para a criação de uma Federação de Igrejas e a união da cristandade, junto com os esforços atuais para a criação da Liga das Nações — um grande Estados Unidos do Mundo — estão simplesmente preparando o caminho para esse personagem que é retratado tanto no Velho quanto no Novo Testamento.

Existirão muitas correspondências impressionantes entre o verdadeiro e o falso Cristo, mas ainda mais numerosos e chocantes serão os contrastes entre o Filho de Deus e o filho da perdição. O Senhor Jesus desceu dos céus, enquanto que o Anticristo emergirá do abismo (Ap. 11:7). O Senhor Jesus veio em nome de Seu Pai, esvaziou-se de Sua glória, viveu em absoluta dependência de Deus, e se recusou a receber honra dos homens; mas o Homem do Pecado virá em seu próprio nome, incorporando todo o orgulho do Diabo, opondo-se e exaltando-se não somente contra o verdadeiro Deus, mas contra tudo que traga o nome de Deus, e seus desejos mais profundos serão receber honra e homenagem dos homens.

Agora, como este paralelo, com seus contrastes indicados, foram apresentados pelo próprio Senhor em João 5:43, quão conclusiva é a prova que ele fornece que o Anticristo será um indivíduo, do mesmo modo como Cristo foi! Como uma prova adicional, 1 João 2:18 pode ser citado: "Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora." Aqui, o Anticristo é claramente distinguido dos muitos que preparam o caminho para ele. O verbo "vem" aqui chama a atenção, pois é exatamente o mesmo que foi usado pelo Senhor Jesus Cristo em referência à Sua primeira e segunda vindas. Portanto, o Anticristo, também é aquele que "vem", ou o que "virá". Isto define sua relação com o mundo — que há muito tempo espera algum herói conquistador — como o que "vem" define a relação do Cristo de Deus com suas igrejas, cuja esperança, divinamente inspirada, é o retorno do Senhor dos céus.

Não que isto esgote a prova que o vindouro Anticristo será um único indivíduo. As expressões usadas pelo apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 2 — "o homem do pecado", "o filho da perdição", "que se opõe e se levanta", "o iníquo, a quem o Senhor desfará" — todos eles apontam distintamente para um único indivíduo, do mesmo modo como as predições messiânicas do Velho Testamento apontaram para a pessoa de Jesus Cristo.

Agora, de acordo com esses textos, e muitos outros que poderiam ser citados, descobrimos que todos os autores cristãos dos seis primeiros séculos (isto é, todos aqueles que fizeram referência ao assunto) consideravam o Anticristo como uma pessoa real, um indivíduo específico. Poderíamos preencher muitas páginas com excertos dessas obras, mas três devem ser suficientes. O primeiro é tirado de um documento muito antigo, intitulado Ensinos dos Apóstolos, que provavelmente data do início do segundo século:

"Porque nos últimos dias os falsos profetas e os destruidores se multiplicarão, as ovelhas se transformarão em lobos, e o amor se transformará em ódio. Porque quando a impiedade aumentar, eles odiarão, perseguirão e se entregarão uns aos outros; e então aparecerá o enganador do mundo como o Filho de Deus, que operará grandes sinais e maravilhas, e a terra será entregue em suas mãos, e ele praticará obras ímpias, como nunca foram feitas desde o começo do mundo. A humanidade ficará então sob o fogo do julgamento, e muitos se escandalizarão e perecerão, mas aquele que perseverar na fé será salvo, mesmo debaixo da maldição."

Uma segunda citação é tirada dos escritos de Cirilo, que foi bispo em Jerusalém no quarto século:

"O Anticristo, mencionado anteriormente, virá quando os tempos da soberania dos romanos estiverem cumpridos e os eventos finais do mundo estiverem próximos. Dez reis dos romanos se levantarão ao mesmo tempo, talvez em locais diferentes, porém reinando ao mesmo tempo. Depois deles, o anticristo será o décimo primeiro, tomando violentamente, por suas magias e habilidades no mal, o poder romano. Três daqueles que reinavam antes dele serão subjugados, os outros sete se submeterão a ele. Inicialmente, ele assumirá um caráter gentil, como uma pessoa sábia e compreensiva, fingindo moderação e filantropia, enganando, pelos milagres e prodígios da mentira que vêm de suas enganações mágicas, os judeus, como se ele fosse o Messias esperado. Depois disso, ele se viciará em todo o tipo de mal, crueldade e excessos, e superará a todos os que foram injustos e ímpios antes dele; tendo uma mente sanguinária, implacável e sem misericórdia, cheia de esquemas vis contra todos, mas especialmente contra os crentes. Mas, de praticar atrevidamente essas coisas durante três anos e meio, ele será destruído pela segunda vinda gloriosa do céus do verdadeiro Filho unigênito de Deus, que é nosso Senhor e Salvador, Jesus, o verdadeiro Messias; que, tendo destruído o Anticristo pelo sopro de Sua boca, o lançará no fogo do Geena."

Nossa última citação é dos escritos de Gregório de Tours, que escreveu no fim do sexto século:

"Com relação ao fim do mundo, acredito que aprendi o seguinte com aqueles que partiram antes de mim. O Anticristo assumirá a circuncisão, afirmando ser o Cristo. Ele então colocará uma estátua para ser adorada no Templo de Jerusalém, como lemos nas palavras proferidas pelo Senhor: 'Vereis a abominação da desolação colocada no santo lugar'".

Nosso propósito em fazer essas citações não é porque consideramos que a voz da antiguidade tenha qualquer nível de autoridade; longe disto; a única autoridade para nós é "o que dizem as Escrituras?". Também não apresentamos essas opiniões como relíquias curiosas da mente dos líderes do passado. Não. Nosso propósito foi simplesmente mostrar que os autores cristãos primitivos mantinham uniformemente a opinião que o Anticristo será uma pessoa real, um judeu, que simulará e se oporá ao verdadeiro Cristo. Essa opinião continuou a ser a doutrina geralmente aceita até que aquilo que hoje é conhecido como Idade das Trevas ter avançado bastante.

Somente ao chegamos ao século 14 (tanto quanto o autor saiba) que encontramos a primeiro desvio da crença uniforme dos cristãos primitivos. Foram os valdenses — tão admiravelmente sólidos na fé em quase todos os pontos de doutrina — que, totalmente exaustos pelos séculos das mais implacáveis e terríveis perseguições, publicaram por volta do ano 1350 um tratado que tinha o propósito de provar que o sistema papal era o Anticristo. Entretanto, deve-se dizer em honra a esse povo, cuja memória é abençoada, que em um de seus primeiros livros, intitulado A Nobre Lição, publicado por volta do ano 1100, eles ensinaram que o Anticristo era um indivíduo, não um sistema.

Seguindo a nova visão defendida pelos valdenses, não demorou muito para que os hussitas, os wycliffitas e os lollardos — outros grupos cristãos que foram ferozmente perseguidos por Roma — pegassem avidamente a ideia e proclamassem que o papa era o Homem do Pecado e que o papado era a besta. Os líderes da Reforma receberam desses grupos essa interpretação e logo se esforçaram para sistematizar esse novo esquema de escatologia. Raramente houve exemplos mais forçados da tendência da crença dos homens ser moldada pelos eventos e sinais de seu próprio tempo. De modo a adaptar as profecias sobre o Anticristo à hierarquia papal, ou à linhagem dos papas, elas tiveram de ser tão distorcidas que praticamente nada restou de seu significado original.

"O vindouro Homem do Pecado teve de ser mudado para uma longa sucessão de homens. O tempo de sua atuação, que Deus declarou com precisão e clareza como sendo de 42 meses (Ap. 13:5), ou três anos e meio, sendo curto demais para a linha sucessória dos papas, teve de ser alargado por um processo engenhoso, porém improvável, de primeiro transformá-lo em dias e depois transformar esses dias em anos."

"O fato que, em Apocalipse 13, a primeira besta, ou o poder secular, seja supremo, enquanto que a segunda besta, o poder eclesiástico seja subordinado, teve de ser ignorado, pois esse arranjo é oposto a todas as tradições do sistema romano. Além disso, a circunstância que a segunda besta é um profeta, e não um sacerdote, teve de ser mantida no segundo plano; pois a igreja romana exalta o sacerdote, e tem pouca preocupação com o profeta. Então, novamente, as palavras terríveis que pronunciam sentença de morte contra todo aquele que adorar a besta e a sua imagem, e receber seu sinal em sua fronte ou na sua mão (Ap. 13), pareciam — e sem maravilha — terríveis demais para serem aplicadas a todo católico romano e, portanto, tiveram de ser desconsideradas, ou suprimidas." (G. H. Pember).

Entretanto, por consenso comum, os reformadores aplicaram as profecias que tratam do caráter, carreira e condenação do Anticristo, ao papa, e consideraram aqueles títulos que o referenciam como "o homem do pecado", "o filho da perdição", "o rei de Babilônia', e "a besta", como somente muitos nomes para o chefe da hierarquia romana. Mas essa visão, que também foi mantida pela maioria dos puritanos, precisa ser colocada sob o teste do padrão infalível da Verdade, que nosso Deus graciosamente colocou em nossas mãos. Precisamos examinar as Escrituras para ver se essas coisas são assim ou não.

Não apoiamos o papa, nem temos nada de bom a dizer a respeito do sistema pernicioso que ele lidera. Pelo contrário, não temos hesitação alguma em denunciar como pura blasfêmia o fato de ele ser considerado o vigário infalível de Cristo. Também não hesitamos em dizer que o papado se caracterizou, ao longo de toda sua história, por ímpia arrogância, detestável idolatria e indizível crueldade. Mas, apesar de tudo isto, existem muitas escrituras que nos impedem de acreditar que o papado e o Anticristo sejam idênticos. O Filho da Perdição ofuscará as monstruosidades praticadas pelos papas. A Bíblia nos ensina claramente a procurar um personagem mais terrível do que qualquer Hildebrando ou Leão.

Sem dúvidas, existem muitos pontos de analogia entre o Anticristo e os papas e, sem dúvida, o sistema papal prenuncia em um nível admirável o caráter e a carreira do vindouro Homem do Pecado. Alguns dos paralelismos entre eles foram mostrados no capítulo anterior e muitos outros poderiam ser acrescentados. Não somente é evidente que o catolicismo romano é o tipo mais chocante e precursor daquele que ainda há de vir, mas a causa da verdade requer que afirmemos que o papado é, sem dúvida, um anticristo e o mais maligno de todos eles. Todavia, repetimos, o romanismo não é o Anticristo. Como é provável que muitos de nossos leitores tenham sido educados na crença que o papa e o Anticristo são idênticos, passaremos a apresentar algumas das muitas provas que mostram que este não é o caso. Que o papado não pode ser o Anticristo é evidenciado pelas seguintes considerações:

1. O termo "Anticristo", quer empregado no singular ou no plural, indica uma pessoa, ou pessoas, e nunca um sistema. Podemos falar corretamente de um sistema anticristão, exatamente como podemos referenciar uma organização cristã; mas é tão inadmissível e errôneo se referir a qualquer sistema ou organização como "o Anticristo" ou "um anticristo", como seria denominar qualquer sistema ou organização cristã "o Cristo", ou "um Cristo". Exatamente como "Cristo" é o título de uma única pessoa, o Filho de Deus, assim também o Anticristo será uma única pessoa, o filho de Satanás.

2. O Anticristo será um descendente de Abraão, um judeu. Não pararemos aqui para apresentar provas, pois isso será mostrado no próximo capítulo. Por enquanto, é suficiente dizer que somente um judeu legítimo poderia apresentar-se ao povo judeu como seu longamente aguardado Messias. Aqui está um argumento que nunca foi respondido por aqueles que acreditam que o papa é o Homem do Pecado. Até aqui, tanto quanto é do nosso conhecimento, nenhum israelita ocupou a Sé Papal — pelo menos certamente nenhum desde o século sétimo.

3. Em harmonia com o último argumento, lemos em Zacarias 11:16-17: "Porque, eis que suscitarei um pastor na terra, que não cuidará das que estão perecendo, não buscará a pequena, e não curará a ferida, nem apascentará a sã; mas comerá a carne da gorda, e lhe despedaçará as unhas. Ai do pastor inútil, que abandona o rebanho! A espada cairá sobre o seu braço e sobre o seu olho direito; e o seu braço completamente se secará, e o seu olho direito completamente se escurecerá." A espada aqui indica o julgamento divino, o braço indica seu poder e seu olho direito, sua inteligência. A "terra" aqui, é claro, é a Palestina, como sempre é o caso nas Escrituras com esta expressão.

4. Em 2Ts. 2:4, aprendemos que o Homem do Pecado se assentará no templo de Deus, e a Basílica de São Pedro, em Roma, não pode ser chamada assim. O "templo" em que o Anticristo se assentará será o templo reconstruído pelos judeus, e esse templo não estará localizado na Itália, mas em Jerusalém. Em capítulos posteriores mostraremos que a Mesquita de Omar será substituída por um Templo Judaico antes de nosso Senhor retornar a este mundo.

5. O Anticristo será recebido pelos judeus. Isto é claro na passagem que inicia o primeiro parágrafo deste capítulo. "Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis"; mas os judeus nunca antes aceitaram nenhum papa.

6. O Anticristo fará um pacto com os judeus. Em Dn. 9:27, lemos: "E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador." Quem está sendo referenciado aqui, que fará um pacto de sete anos é o "príncipe que há de vir" do verso anterior, isto é, o Anticristo, que será o chefe do império formado por dez reinos. A nação com a qual o príncipe fará esse pacto é o povo de Daniel, conforme é claro pelo contexto — veja o verso 24. Entretanto, não sabemos de nenhum registro histórico de que algum papa tenha feito um pacto de sete anos com os judeus!

7. Em Daniel 11:45, lemos: "E armará as tendas do seu palácio entre o mar grande e o monte santo e glorioso; mas chegará ao seu fim, e não haverá quem o socorra." A pessoa referida aqui é novamente o Anticristo, como será visto retornando-se ao verso 36, onde esta seção do capítulo inicia. Ali, somos informados: "E este rei fará conforme a sua vontade, e levantar-se-á, e engrandecer-se-á sobre todo deus; e contra o Deus dos deuses falará coisas espantosas, e será próspero, até que a ira se complete; porque aquilo que está determinado será feito." Isto é mais do que suficiente para identificar com certeza aquele de quem fala o último verso de Daniel 11. Portanto, o Anticristo instalará as tendas de seu palácio "entre os mares", isto é, entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. Não há engenhosidade que possa ser feita para aplicar isto ao papa, que tem seu palácio no Vaticano, localizado na capital da Itália. [NT: Há aqui uma pequena divergência entre a tradução da KJV, que diz "between the seas" (entre os mares) e a ACF, que diz "entre o mar grande".]

8. O Anticristo não pode ser revelado até que o corpo místico de Cristo e o Espírito Santo tenham sido removidos deste mundo. Isto fica claro pelo que lemos em 2Ts. 2. No verso 3 do capítulo, o apóstolo referencia a revelação do Homem do Pecado. No verso 4, ele descreve sua terrível impiedade. No verso 5, ele lembra aos tessalonicenses que tinha ensinado verbalmente essas coisas durante o tempo em que estivera com eles. Em seguida, no verso 6, ele declara: "E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado." Novamente, ele diz: "E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado." Existem, então, dois agentes que estão impedindo, ou detendo, a manifestação do Anticristo, até que chegue o tempo dele. O primeiro, estamos satisfeitos em saber, é o corpo místico de Cristo; o segundo é o Espírito Santo de Deus. No arrebatamento, ambos serão "retirados do caminho" e então o Homem do Pecado se manifestará. Portanto, se o Anticristo não pode aparecer antes do arrebatamento dos santos e da retirada do Espírito Santo, então aqui está a prova concreta que o Anticristo ainda não apareceu.

9. De forma muito parecida com o último argumento é o fato que muitas escrituras colocam o aparecimento do Anticristo no período conhecido como fim dos tempos. Daniel 7 e 8 deixam bem claro que a carreira do Anticristo terá lugar no fim dos tempos (não dizemos "desta dispensação", pois esta terminará com o arrebatamento), isto é, durante a grande Tribulação, o tempo "da angústia de Jacó". Dn. 7:21-23 diz: "Eu olhava, e eis que este chifre fazia guerra contra os santos, e prevaleceu contra eles. Até que veio o ancião de dias, e fez justiça aos santos do Altíssimo; e chegou o tempo em que os santos possuíram o reino. Disse assim: O quarto animal será o quarto reino na terra, o qual será diferente de todos os reinos; e devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços." Dn. 8:19 coloca a carreira do Anticristo (veja 8:23-24) no "último tempo da ira", isto é, a ira de Deus contra Israel e os gentios. Daniel 9 mostra que ele fará seu pacto de sete anos com os judeus no início da última das setenta "semanas", o que trará ao "fim" os pecados e transgressões de Israel (9:24). Se o tempo da manifestação do Anticristo ainda está no futuro, então segue-se necessariamente que Roma não pode ser o Anticristo.

10. O Anticristo negará tanto o Pai quanto o Filho: "Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho." [1Jo. 2:22] Esta escritura não fala da negação virtual, mas da real e formal. Entretanto, Roma sempre manteve em seus concílios e credos, em seus símbolos de fé e de adoração, que existem três pessoas na divindade. Grandes e graves têm sido seus afastamentos dos ensinos das Escrituras Sagradas, porém desde o tempo do Concílio de Trento (ano 1563), todo católico romano tem de confessar: "Creio em Deus Pai... e no Senhor Jesus Cristo... e no Espírito Santo, o Senhor e Doador da vida, que procede do Filho e do Pai."

Como um sistema, o romanismo é um intermediário. O "sacerdote" coloca-se entre o pecador e Deus; o "confessionário" entre ele e o trono da graça; "a penitência" entre ele a aflição piedosa; a "missa" entre ele e Cristo; e o "purgatório" entre ele e o céu. O papa reconhece tanto o Pai quanto o Filho: ele se confessa como um servo e adorador de Deus; ele abençoa o povo, não em seu próprio nome, mas no nome da Santa Trindade.

11. O Anticristo é descrito como aquele que "se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora" (2Ts. 2:4). Isto é algo que os papas nunca fizeram. Nem mesmo Leão se atreveu a se divinizar ou suplantar Deus. Ao longo da história, os papas fizeram muitas falsas e ímpias afirmações sobre si mesmos; entretanto, seus decretos são anunciados como sendo do "vice-gerente" de Deus, o "vigário" de Cristo — reconhecendo assim que o poder divino está sobre o seu próprio poder.

12. Em Apocalipse 13:2,4, lemos: "E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande poderio. E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder..." Comparando esses versos com Ap. 12:9, ficamos sabendo que o dragão não é ninguém menos do que o próprio Satanás. Agora, quase por consenso comum, essa primeira besta de Ap. 13 é o Anticristo. Se, então, o romanismo é o Anticristo, onde, podemos perguntar, devemos nos voltar para encontrar a resposta para aquilo que lemos aqui em Ap. 13:4: "E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder."?

13. O mesmo capítulo 13 do Apocalipse nos diz que o Anticristo (a primeria besta) será ajudada por uma segunda besta, que é denominada "Falso Profeta" (Ap. 19:20). A respeito do Falso Profeta, sabemos que "exerce todo o poder da primeira besta na sua presença, e faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada." (Ap. 13:12). Se a primeira besta é o papado, então quem é o Falso Profeta que "faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta"?

14. Novamente, sabemos que o Falso Profeta dirá "aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia." (Ap. 13:14). Além disso, Apocalipse 13:15 diz: "E foi-lhe concedido que desse espírito à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a imagem da besta." (Ap. 13:15) Onde encontramos no papado algo que se assemelhe a isso?

15. Em Daniel 9:27, aprendemos que o Anticristo "fará cessar o sacrifício e a oblação". Novamente, em 8:11, lemos: "E se engrandeceu até contra o príncipe do exército; e por ele foi tirado o sacrifício contínuo, e o lugar do seu santuário foi lançado por terra." Se o romanismo é o Anticristo, como se pode fazer essas escrituras concordarem com "sacrifício da missa" que é repetido continuamente?

16. O domínio do Anticristo será em escala global. O vindouro homem do pecado imporá sua supremacia, que será universal e incontestada. "e toda a terra se maravilhou após a besta." (Ap. 13:3). "E deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação." (13:7). Praticamente não é necessário dizer que metade da cristandade, para não falar do mundo pagão, está fora do aprisco de Roma, e se coloca em antagonismo às afirmações do papa. Novamente, em 13:17, lemos: "Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome" e então perguntamos: quando foi que algum papa exerceu essa supremacia comercial de tal modo que ninguém podia comprar ou vender sem sua permissão?

17. A duração da carreira do Anticristo, após ele revelar seu verdadeiro caráter, estará limitada a 42 meses. Existem não menos que seis passagens bíblicas que, com diversas expressões, afirmam essa restrição de tempo. Em Dn. 7:25 aprendemos que ele "cuidará em mudar os tempos e a lei" e que os santos "serão entregues em sua mão por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo", isto é, por três anos e meio — confira Ap. 12:14 com 12:6. Novamente, em Ap. 13:5, aprendemos: "E foi-lhe dada uma boca, para proferir grandes coisas e blasfêmias; e deu-se-lhe poder para agir por quarenta e dois meses." Agora, é totalmente impossível fazer isto se harmonizar com a longa história do romanismo por qualquer método honesto de cálculo.

18. Em Ap. 13:7-8, lemos: "E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação. E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." Aqui, é dito expressamente que os únicos que não "adorarão a besta", isto é, o Anticristo, são aqueles cujos nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro. Então, se o papa é o Anticristo, todos os que não o adoram precisam ter seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro — um absurdo, pois seria o mesmo que dizer que todos os inféis, ateus e incrédulos dos últimos mil anos, que estiveram fora do aprisco do catolicismo romano, são salvos.

19. Em 2Ts. 2:11-12, lemos: "E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade." O contexto aqui mostra que crer na mentira significa aceitar as reivindicações do Anticristo. Aqueles que creem nas afirmações dele o receberão (João 5:43), e não somente isto, mas também o adorarão (Ap. 13:8); 2Ts. 2:12 diz que todos os que adorarem a besta estarão condenados. Portanto, se o papa é o Anticristo, segue-se necessariamente que todos os que creram em suas afirmações mentirosas, que todos os que o receberam como o vigário de Cristo, que todos os que o adoraram, estarão eternamente perdidos. Mas o autor nem por um momento faria uma afirmação dessas. Ele, junto com milhares de outros, acredita que durante os séculos, houve e existem muitos católicos romanos que, apesar da muita ignorância e superstição, estão entre o número daqueles que exerceram fé no sangue de Cristo, e que viveram e morreram descansando na obra consumada de Cristo como o único fundamento para serem aceitos diante de Deus e que, por causa disto, estarão para sempre com o Senhor.

20. Que o Anticristo e o papado são totalmente distintos é inequivocamente estabelecido pelo ensino de Apocalipse 17. Aqui, aprendemos que haverá dez reis que "reinarão com a besta" (v. 12), e agirão em harmonia com ela (versos 13, 16). Em seguida, aprendemos que "os dez chifres que viste na besta são os que odiarão a prostituta, e a colocarão desolada e nua, e comerão a sua carne, e a queimarão no fogo." (v. 16). Em vez de o Anticristo e o papado serem idênticos, o primeiro destruirá o segundo; enquanto que o Anticristo será destruído pelo próprio Cristo — veja 2Ts. 2:8.

Talvez uma palavra de explicação seja apropriada para o fato de termos entrado em tantos detalhes na apresentação das muitas provas que o papado não é o Anticristo. Nossa razão principal para isto foi porque esperamos que muitos dos que lerão este trabalho serão indivíduos que cresceram na crença que foi ensinada comumente pelos reformadores e que é prevalecente desde aquele tempo. Pedimos a compreensão e paciência dos leitores que já tinham esta questão bem resolvida, porque tentamos ajudar os menos afortunados. Nosso próximo capítulo será de interesse mais geral, pois discutiremos a pessoa do Anticristo — quem ele será, de onde virá e que marcas servirão para identificá-lo.


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Data da publicação: 15/8/2010
Transferido para a área pública em 21/4/2020
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