A GLÓRIA DO SEU NOME

The Honour of His Name

Sir Robert Anderson

PREFÁCIO e CAPÍTULO 1

Incidente na casa de campo — O contraste entre a prática primitiva e a moderna de nomear o Senhor — Os discípulos no caminho de Emaús (Lucas 24:13-52) — Significação do título Kyrios. [11 KB].

CAPÍTULO 2

Conversa em uma cabine de trem — Livro irreverente — Título do 'Jesus' dos críticos e o Cristo de Deus. [10 KB].

CAPÍTULO 3

Quem é "cristão"? — Citação de Harmack sobre quem são os filhos de Deus — Sermão de Paulo em Atenas — Significação de 'filho' na Escritura — A Filiação de Cristo — Significação de monogenes. [12 KB].

CAPÍTULO 4

A importância atual do assunto — Um sermão de Natal — O nascimento virginal — O racionalismo cristianizado e a 'Nova Teologia'. [9 KB].

CAPÍTULO 5

Os escritos patrísticos em contraste com a Escritura — Autoria divina dos relatos dos evangelhos, na maneira como nomearam o Senhor — Contraste entre Mateus e João — Os evangelhos e as epístolas em contraste. [11 KB].

CAPÍTULO 6

O uso do nome 'Jesus' em Atos — O local e o propósito de Atos no cânon — O testemunho do mártir Estevão — Como os apóstolos usavam o nome Dele. [7 KB].

CAPÍTULO 7

O uso do nome 'Jesus' nas epístolas — varias passagens citadas e explicadas — Filipenses 2:10 e 1 Tessalonicenses 4:13 expostos. [15 KB].

CAPÍTULO 8

O uso do nome 'Jesus em Apocalipse — Passagens em que ocorre — Caráter e propósito dispensacionalistas do livro. [10 KB].

CAPÍTULO 9

O nome 'Jesus Cristo na Escritura — O uso não escriturístico do mesmo pelos cristãos — Citação do professor Deissmann — A diferença entre 'Jesus Cristo' e 'Cristo Jesus'. Leituras nas versões revisadas — O que faria Jesus? — O ensino do Senhor em João 5:22, 23; 1 Coríntios 1:3-9 e 1 Pedro 3 — Palestra no Victoria Institute. [14 KB].

CAPÍTULO 10

Falsas visões sobre Cristo — Citação de Renan — Conduzindo gentilmente à luz — Certos hinos criticados — O treinamento das crianças — Nunca podemos chamá-Lo 'Jesus'? O propósito deste livro — Instintos espirituais — Citação de William Carey — Relapsos mentais — A visão da glória em Apocalipse 1:10-18. [17 KB].


PREFÁCIO

O título deste livro, que é uma citação do Salmo 66 ("Cantai a glória do seu nome"), indica não apenas o seu assunto, mas também o seu objetivo e propósito. Devo agradecer à minha amiga Miss A. R. Habershon por ter-me permitido o uso de sua Concordância dos nomes e títulos do Senhor. Enquanto estudiosos da Bíblia darão valor a esse apêndice [do livro "O Senhor do Céu"], temo que ele seja negligenciado pelo leitor comum. Aliás, estas páginas jamais precisariam ter sido escritas se o Novo Testamento não fosse tratado também com negligência, a ponto de o Apocalipse ser considerado um apêndice dispensável aos evangelhos e epístolas. Mesmo assim, as visões de Patmos são divinamente entregues, a fim de nos capacitarem pela fé a contemplar o que o discípulo amado viu, ao ser "arrebatado no Espírito no dia do Senhor". Que alguns deles não tivessem conhecimento algum de Deus foi a censura do apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto. (1 Coríntios 15:34) E se ele se encontrasse conosco hoje não iria também nos acusar de falta do conhecimento do Senhor da Glória? Pois os cristãos que aceitam a visão de abertura do Apocalipse como sendo a revelação divina do Senhor Jesus Cristo, conforme Ele se encontra hoje entronizado no céu, não precisam de admoestação nem de apelo para evitar toda a irreverente liberdade em nomeá-Lo, deixando, até mesmo, de dar a impressão de ter esquecido a maneira correta de honrar Seu Nome.

CAPÍTULO 1

Durante a visita a uma casa de campo, alguns anos atrás, fui indagado a respeito dos nomes de alguns homens a quem meus amigos não apenas pudessem dar boas vindas como hóspedes seus, mas ainda convidá-los para um culto dominical vespertino em sua capela particular. Foi grande minha surpresa com a maneira como eles receberam o primeiro nome que lhes apresentei. Era o de um clérigo que eu supunha que seria uma persona grata em ambos os aspectos. Contudo, meus amigos disseram que ele já havia sido seu hóspede. Embora eles o estimassem e gostassem dele, o clérigo havia escandalizado os seus moços, quando começou a tratá-los pelos nomes cristãos, já no primeiro dia de sua visita. Em seguida, tendo eu apanhado um livro seu, recentemente publicado, encontrei em todas as páginas o Senhor da Glória mencionado pelo nome de Sua humilhação. Conhecendo pessoalmente esse homem, fiquei muito surpreso com o seu lapso na esfera social e, mais surpreso ainda, nessa esfera mais elevada. Um cristão tão devoto e tão reverente em tudo, pôde ser traído por um hábito que teria escandalizado e ofendido os discípulos dos tempos antigos. Falo disso como admoestação, pois nos tempos do Novo Testamento os discípulos sempre se identificavam pela maneira como chamavam o seu Mestre. E, como todos sabem, o nome "Jesus" ocorre centenas de vezes nos evangelhos. Mas isso empresta grande ênfase ao fato adicional de que sempre que a narrativa introduz palavras ditas pelos discípulos, quer sejam dirigidas ao próprio Senhor ou a outras pessoas a Seu respeito, Ele é sempre, invariavelmente, chamado por um título de reverência.

Nos quatro evangelhos apenas uma exceção a essa regra pode ser encontrada e com uma importância peculiar. Refiro-me aos discípulos no caminho de Emaús, quando questionados pelo estranho que a eles se havia juntado na caminhada: "... as que dizem respeito a Jesus Nazareno, que foi homem profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo." (Lucas 24:19) "A Jesus Nazareno" foi a maneira como eles O designaram. Embora a frase não contivesse qualquer elemento de desprezo, sendo o seu propósito apenas distingui-Lo de outros homens que tinham o nome comum de Jesus, o seu uso por esses discípulos continha um toque de censura. Não fora apenas a negação de Pedro na corte de Caifás que havia dado uma prova evidente de que a árdua e terrível tragédia da Paixão havia anulado a fé em Seu messianismo. "Nós esperávamos que fosse ele que remisse Israel" (v. 21) foi o seu triste lamento. Eles O haviam exaltado como o Cristo e haviam aprendido a adorá-Lo como o Filho de Deus. Mas tudo aquilo havia agora se desvanecido, pois eles O viram ser crucificado como um criminoso comum e três dias haviam se passado "desde que essas coisas aconteceram." (v. 21).

Nestes nossos dias de mente liberal, os judeus cultos O consideram o maior dos seus rabinos e, do mesmo modo, aqueles discípulos ainda respeitavam Sua memória como "homem profeta, poderoso em obras." (v. 19) Contudo Ele era apenas um homem — Apenas "Jesus Nazareno". E não era dessa maneira que eles O tratavam, enquanto Ele era ainda vivo e presente.

A significação desta narrativa se torna vibrante, se verificarmos que o escritor se encontrava na companhia de Cléopas. E se questões desse tipo foram fixadas sobre bases de evidência, poderiam se admitidas. Vamos colocar as coisas dessa maneira. Suponhamos que os eventos registrados no capítulo tivessem envolvido alguma violação à lei romana, porventura o evangelista não teria o exato conhecimento dos incidentes e os teria considerado como prova de Sua culpa? Em verdade, o cristão poderia garantir que o Espírito Santo poderia inspirar esse registro, até mesmo se o escritor não tivesse um conhecimento pessoal dos fatos. Mas o cristão também reconhece que nesta, bem como em outras esferas, Deus tem-se habituado a "fazer uso dos meios". E na ausência de tudo que possa sugerir uma conclusão diferente, devemos admitir confiantemente que o escritor foi um dos que estiveram informados de tudo sobre o que ele escreveu, desde o princípio. (Lucas 1:3) Isso explica uma aparente dificuldade. Nós, alegremente, trocaríamos muitas páginas dos escritos sagrados pelo mais leve resumo desse maravilhoso ensino do caminho de Emaús, quando o Senhor, "começando por Moisés, e por todos os profetas explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras." (v. 24) Não teria sido isso um desperdício, conforme diriam os homens, com dois discípulos, dos quais um, como sabemos, nada tinha de importante e o outro, por hipótese, era tão insignificante que nem mesmo o seu nome foi registrado? Contudo, se o segundo discípulo foi o evangelista, a supressão do seu nome dispensa explicação. E o que é de maior importância é que podemos entender o profundo conteúdo da narrativa. Todos os maravilhosos incidentes permanecem como clara ajuda na parte do seu treinamento para a obra que ele estava destinado a executar. Pois se ele não fosse divinamente escolhido, como poderia ter compartilhado com o grande Apóstolo aos Gentios a autoridade de quase metade dos escritos do Novo Testamento e ter-se tornado ainda o seu principal auxiliar e companheiro no ministério de muitas facetas?

Essa digressão foi sugerida pelo modo como esses discípulos chamavam o seu Mestre. Os membros da família real não falam do soberano usando nomes cristãos, contudo falamos desse modo sobre os reis que já faleceram. E, se analisarmos nossos pensamentos, talvez possamos descobrir que quando falamos de "Jesus" não estamos pensando em nosso Senhor vivo, o qual escuta nossas palavras e diante de quem iremos comparecer em breve, mas do grande Mestre que viveu e morreu há dezenove séculos.

Quão longe isso está do extraordinário fato de que, mesmo nos dias de Sua humilhação, os cristãos jamais O nomearam sem algum título de reverência e, contudo, neste tempo de Sua exaltação e glória, eles costumam fazer isso tão habitualmente? Isso costuma acontecer com os cristãos meramente nominais e em todas as classes de cristãos racionalistas, os quais tanto contribuem com a nossa literatura "cristã". Contudo, alguma explicação adicional deve ser buscada para o fato de que entre os cristãos devotos prevalece essa prática, sem qualquer respaldo escriturístico, a qual, repito, teria chocado os discípulos no tempo do Novo Testamento. Os racionalistas podem, talvez, objetar que, como um rabino judeu, Ele nunca era chamado pelo Seu próprio nome e como a palavra grega para "Senhor" tem, algumas vezes, a mesma conotação de "Sir" em inglês, seria de esperar que Cristo fosse chamado "Mestre e Senhor". Mesmo assim, nenhum cristão deve cair na ilusão de que na boca dos Seus discípulos o uso desses títulos expressava simplesmente uma convencional cortesia, à qual Ele fazia jus, até mesmo dos judeus incrédulos. Este seria um fundamento trivial para o ensino sobre o qual Ele se embasou na solenidade da última ceia. Nem contaria com as calorosas palavras de aprovação, com as quais Ele elogiou os seus discípulos pelo uso das mesmas.

É verdade que, em razão da superstição judaica, que proibia o uso do nome "YAHWEH", a língua grega não possuía um vocábulo que equivalesse à palavra "Senhor", como um título de Divindade. Mas não se pode ter dúvida quanto à significação da palavra kyrios, entre os que O aclamavam como "o Cristo, o Filho do Deus vivo", confissão que separava o discípulo do incrédulo. E, à medida que estudamos os escritos dos apóstolos, devemos nos lembrar que ao longo da versão Septuaginta do Velho Testamento, sobre a qual a língua do Novo Testamento é formada, essa mesma palavra kyrios é usada em cada ocorrência no grego, como o equivalente a "YAHWEH" na Bíblia Hebraica.



CAPÍTULO 2

Uma conversa durante uma viagem de trem à Escócia há muitos anos, chamou minha atenção de um modo muito especial para o assunto destas páginas. Eu estava dividindo a cabine com um cavalheiro e sua mulher, ambos estranhos para mim. E, conforme nossos hábitos ingleses, nem uma palavra foi trocada entre nós durante várias horas. Mas quase chegando ao fim de nossa viagem, aconteceu um incidente que, não apenas nos levou a conversar, mas até levou o meu companheiro de viagem a declinar o seu nome. Foi interessante descobrir que ele era um editor muito conhecido. Quando terminamos o assunto que o fizera dirigir-se a mim, nossa conversa tomou um rumo diferente e ele fez algumas observações desagradáveis sobre os cristãos. Sua amargura contra estes era pelo fato de que eles costumavam usar nomes sagrados, a fim de tornarem mais atraentes os títulos de seus livros. Citou uma porção de exemplos nesse caso. E quando os desculpei, dizendo que um título era um meio de indicar o caráter e conteúdo de um livro, ele explicou que, do ponto de vista de um livreiro, essa era a marca registrada a ser usada em todo o país. Ele ilustrou suas palavras, dizendo que, ao visitar certa firma publicadora em Londres, ouviu um funcionário dirigir-se a outro colega na mesma seção, que estava arrumando livros em uma prateleira assim: "Jogue para mim um 'Sangue de Jesus!'

As palavras me cortaram como uma lâmina afiada. O autor do citado livro era conhecido como um ministro cristão devoto e reverente, e eu jamais havia observado a profanação desse título. A partir daquele dia, todos os títulos dessa espécie passaram a me aborrecer. Então, admitindo para nós o lamento divino por causa da apostasia de Israel, os cristãos que não pesquisam a Palavra de Deus "são gente falta de conselhos, e neles não há entendimento." (Deuteronômio 32:28).

Se pelo menos os cristãos considerassem este assunto, evitariam uma prática que teria chocado os discípulos, nos tempos antigos. Contudo, a verdade é que alguns, cujo uso do nome "Jesus" é habitual, estão completamente alheios a uma intenção irreverente; mas o mal é operado pelo desejo do coração. O Rev. A. T. Pierson foi um dos homens mais intensamente reverentes que conheci. Quando no fim de uma palestra, no antigo Exeter Hall, ele veio me cumprimentar, agradeci-lhe cordialmente a edificação que suas palavras me haviam trazido, mas acrescentei: "Houve um deslize. Por que o amigo nomeia o Senhor conforme a maneira dos judeus exorcistas de Atos 19?" Ele respondeu: "Isso é culpa do treinamento teológico que recebi... Por isso, continue chamando minha atenção".

De fato, o treinamento teológico tem sido censurável no que diz respeito a esse hábito deplorável. Pois não apenas toda a teologia da cristandade tem sido influenciada pelos escritos dos Pais, mas, sobretudo, porque nossas obras teológicas estão levedadas pelo ceticismo alemão. De fato, os modernos "dicionários" e "enciclopédias" bíblicos são essencialmente racionalistas e o tratamento correto ao Senhor Jesus Cristo raramente é encontrado em suas páginas, onde lemos sempre "Jesus" ou "Jesus Cristo". E isso acontece até mesmo com autores cuidadosos no sentido de prefixar o nome dos apóstolos com o título de "São".

Se os apóstolos voltassem à terra, não iriam apreciar uma honra a eles conferida pela Igreja dos papas carniceiros, que abençoaram as torturas da Inquisição e os massacres, como o da noite de São Bartolomeu. Uma honra, além do mais, que eles compartilhavam com esses criminosos, mas que é negada aos santos mártires da Reforma. Como o uso profanamente familiar do nome do Senhor é tão comum, nunca se torna agradável censurar qualquer ofensor em particular. Mas, para ilustrar o mal, atrevo-me a citar o seguinte excerto de uma "Circular do Editor". O livro ao qual ela se refere não é a obra de um incrédulo, mas de um clérigo, o capelão examinador de um bispo inglês e seu confrade na faculdade teológica. Diz a circular: "É forçoso responder à questão sobre qual tipo de pessoa S. Marcos ou o seu informante S. Pedro achavam ser Jesus?’ Sob os títulos de ‘A Família e os Amigos de Jesus’; ‘Modo de Vida de Jesus’; ‘Mente de Jesus’; ‘Visão Social de Jesus’; ‘Moralidade de Jesus’ e ‘Religião de Jesus’, ele chega ao assunto final do ‘Próprio Jesus’’".

Sempre se usam "S. Marcos" e "S. Pedro", mas simplesmente "Jesus". Não fica evidente que esse "Jesus" é o Buda racionalista? Ninguém deveria falar desse modo sobre o "nosso Deus e grande Salvador", o Senhor Jesus Cristo, diante de cujo Trono do Julgamento todos deveremos comparecer. Certamente, a prevalência da literatura racionalista, falsamente se autodenominando cristã, é a razão definitiva para que um escritor cristão declare sua fé pela maneira como nomeia o Senhor. Uma olhada nas páginas de um livro poderia possibilitar, pelo menos ao leitor instruído, julgar se o autor do mesmo é um crente no Senhor Jesus Cristo, ou apenas um seguidor do "Jesus" dos críticos.

Pois o "Jesus" dos críticos não é o Cristo de Deus. O Senhor se esvaziou de Si mesmo, a ponto de abrir mão de Sua liberdade, até mesmo como homem, e jamais falou, a não ser as palavras que recebeu do Pai, conforme declarou aos judeus: "Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar." (João 12:49) Então foi assim que Ele renunciou ao conhecimento que não provinha do Pai, isso porque Suas palavras eram eternas: "Passará o céu e a terra mas as minhas palavras não passarão" (Marcos 13:31) foi Sua solene declaração. E serão julgados, pela Palavra, todos os que rejeitam as Suas palavras (João 12:48), quer sejam pecadores comuns, os dos púlpitos, ou os assentados na "cadeira de Cristo".

Assim era o Cristo de Deus. Mas o que dizer do "Cristo" dos críticos? Aqui temos suas próprias palavras: "Tanto Cristo como os apóstolos e escritores do Novo Testamento mantinham as noções judaicas da época com respeito à autoridade e revelação divina do Velho Testamento". Numa palavra, o "Jesus" dessa gente era um ignorante entusiasta e vitima dos erros judaicos que Ele erroneamente aceitava como a verdade divina, que Ele impôs aos Seus seguidores, numa linguagem de tremenda solenidade. O que é verdade para os criminosos não é menos verdadeiro para os hereges. Eles conseguem, com um ou outro descuido se livrarem e a teoria da kenosis dos críticos nos faz lembrar dos artifícios pelos quais os marginais tentam ludibriar a polícia! Pois esses professores racionalistas e contraventores ignoram até mesmo o que uma criança da Escola Dominical deveria saber, que após a Ressurreição, quando o Senhor ficou liberto de todas as limitações de Sua humilhação, Ele adotou e repetiu o Seu ensino anterior sobre o Velho Testamento. E o relato acrescenta: "Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras." (Lucas 24:45) No Novo Testamento esse ensino é compreendido sob a égide do Espírito Santo, mas os críticos detectaram isso e começaram a dizer que ele é falso. Não é de admirar, portanto, que o Buda dessa gente seja apenas "Jesus", o Rabino, o qual, mesmo sendo admitido como superior a todos eles, moral e espiritualmente, não era tão inteligente nem tão bem informado.

(Nota: Este não é o único ponto em que os críticos mostram a sua ignorância. Até seria de esperar que uma criança pudesse observar isso em Marcos 13:32 (o texto no qual eles se apóiam no sentido de respaldar a sua teoria do kenosis) de que não foi como homem, que o Senhor demonstrou não saber o tempo do Seu grande Advento público, mas como o Filho de Deus. O problema aqui não é entre o homem e Deus, mas entre o Filho e o Pai.).



CAPÍTULO 3

Devemos manter, conforme nos sugerem os capítulos anteriores, que o cristão é aquele que crê no Senhor Jesus Cristo? Uma conclusão por demais surpreendente é esta, pois enfurece o "espírito da época". Num simples piscar de olhos põe de lado o limite, não apenas na massa daqueles que professam "ser e se autodenominam cristãos", mas ainda sobre uma grande minoria dos que ocupam diariamente os púlpitos cristãos. Marquem bem as palavras: "Quem crê em Jesus Cristo" e não no "Jesus histórico", o Buda de 19 séculos atrás, mas no Senhor vivo, que morreu pelos nossos pecados, reina agora no céu e voltará em glória.

O professor Harmack escreve: "É importante lembrar à humanidade que um homem chamado Jesus Cristo esteve um dia no meio dela". Contudo isso é um anacronismo. Pois a cega e estúpida incredulidade, que se recusou a crer no "Jesus histórico", era a que pertencia a uma época menos esclarecida que a nossa. Hoje o incrédulo apela, tão confiantemente quanto o cristão, ao exemplo daquela vida inigualável.

O Senhor Jesus declarou com grande solenidade que todo aquele que nEle crê tem a vida eterna. Quando pronunciou essas palavras, como homem no meio dos homens, não estava tentando convencer os ouvintes de que não era um fantasma ou um "espírito"! Seu propósito era ensinar que ali estava o Filho de Deus, o Messias, sobre quem Moisés e os profetas escreveram. Entre os que participaram no hediondo crime do Calvário havia alguns que, como Nicodemos, criam Nele como "um mestre vindo de Deus" e mesmo assim O crucificaram por blasfêmia, porque, "sendo homem, Ele se fazia como Cristo, o Filho de Deus". A aceitação dessa afirmação pelos Seus discípulos incluía uma fé outorgada por Deus. Tanto que a confissão de Pedro O levou a dizer: "Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus." (Mateus 16:17) Isso explica a declaração do apóstolo João: "Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé." (1 João 5:4).

Mas tudo isso, repito, ofende o "espírito da época". Afirmar que a graça divina é necessária para nos capacitar a crer é considerado um insulto à dignidade humana! Ora, não somos todos filhos de Deus? A tolice caracteriza a heresia. A licença poética nos leva a descrever-nos como filhos de Adão, visto como somos seus remotos descendentes. Contudo, exceto numa acepção puramente figurada da expressão, nem mesmo Adão era filho de Deus! Ele era Sua criatura. A humanidade foi gerada, não a partir do Adão inocente do Éden, mas do Adão decaído, que dali fora expulso. Então qual o sentido aqui de pretendermos ser filhos de Deus? Ora, mas o apóstolo não disse aos pagãos de Atenas que eles eram "geração de Deus?" (Atos 17:28) Não! Claro que não! Para resgatá-los de sua idolatria, Paulo citou as palavras do próprio poeta grego, de um hino composto em louvor a Júpiter: "Pois dele somos geração, o seu genos". A questão não é o que a mente predisposta possa ler aqui, mas o que o locutor quis dizer e o que os seus ouvintes entenderam. Será que alguns deles imaginaram que o apóstolo era um filho de Júpiter? Se o objetivo do apóstolo fosse ensinar-lhes que eles eram filhos do Deus que fez o céu e a terra, teria ele citado o ensino de uma divindade pagã? O apelo do apóstolo à sua literatura clássica teve o propósito de censurá-los, mostrando que Deus nada tinha a ver com os seus ídolos mortos, "dignificados na arte e na contravenção humana". O argumento teria sido igualmente válido se ele tivesse apontado à criação inferior. O Deus, cujas criaturas têm vida, tem de ser um Deus vivo. Cada um de nós é filho dos pais que nos geraram e de ninguém mais podemos ser filhos. O crente no Senhor Jesus Cristo torna-se filho de Deus por que foi gerado de Deus: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome." (João 1:12) E aos que foram gerados de Deus ele diz, no verso 13: "Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." O cristão nasce duas vezes; uma vez como filho de pai biológico e, no Espírito, como filho de Deus. A Escritura é enfática e explícita em que os dois nascimentos são totalmente distintos. Como disse o próprio Senhor Jesus Cristo: "O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito." (João 3:6) Ao mesmo tempo, Suas terríveis palavras dirigidas aos judeus que estavam tramando Sua morte foram estas: "Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai." (João 8:44) E, se alguém ainda acha que essas palavras não são definitivas, vamos repeti-las: "os que são da carne não são filhos de Deus". Poderia uma declaração vetar mais claramente a ilusão de que todos os homens são, por natureza, filhos de Deus?

A manutenção desta verdade sobre o assunto principal destas páginas deve ser bem clara para os inteligentes. Começamos, por assim dizer, a rebaixar a relação de "filho de Deus" como não tendo esta qualquer significação. Então, quando tomamos "filhos de Deus" como um sinônimo para "crianças de Deus", somos tentados a aceitar o culto da "irmandade de Jesus". E logo suprimos o incrédulo com o colorido pretexto de rebaixar o Senhor da Glória ao nível comum da humanidade — blasfêmia que chega ao ápice na declaração: "Ora, se Jesus era Deus, nós também somos deuses".

Em Sua infinita graça, o Filho de Deus não se envergonha de nos chamar irmãos, "Dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores no meio da congregação." (Hebreus 2:12). Contudo, esse "nós" não pertence à raça adâmica, mas aos que "são santificados" (v. 11) A resposta de cada coração conquistado por essa graça é chamá-Lo sempre de Senhor. Temos o mesmo Pai e o mesmo Deus, mas nas próprias palavras com que Ele nos ensina a proximidade dessa relação, também proíbe a inferência que o homem carnal poderia dela retirar. E disse a Maria Madalena: "... vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus." (João 20:17).

Em português, a palavra "filho" significa "filho homem". Claro que ela foi usada algumas vezes no Novo Testamento com esse sentido. Por exemplo, quando lemos que Tiago e João eram filhos de Zebedeu. Mas na Escritura, como geralmente entre os orientais, ela tem um sentido mais profundo, como quando o Senhor chama Tiago e João de "filhos de trovão". Do mesmo modo, José foi renomeado de "filho da consolação", assim como os não convertidos ao Senhor são chamados "filhos da desobediência". Nessa e em inúmeras outras passagens, a palavra tem a conotação do caráter e da natureza, sem qualquer idéia de "geração". Contudo, os tradutores da Bíblia inglesa ignoraram a distinção entre "son" e "child" e nas várias passagens em que essas palavras ocorrem, uma referência ao grego, ou até mesmo à Edição Revisada, provará ser tão interessante quanto instrutiva. Ela nos conduzirá, por exemplo, à descoberta muito curiosa de que na Escritura os cristãos, como tais, nunca são chamados de filhos de Deus, conforme a citação: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome." (João 1:12), porém "os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus." (Romanos 8:14) E, como todo cristão deve saber, a Filiação do Senhor Jesus Cristo é absolutamente exclusiva, por ser essencial e eterna. A tradução de João 3:16 e passagens semelhantes, em ambas as versões da Bíblia inglesa, sugere um duplo erro. Ela nega implicitamente a verdade que todo crente é gerado de Deus, afirmando, implicitamente, que a Filiação de Cristo depende de um ato de "geração". Se tal acontecesse, o Filho deveria ter um princípio, deixando de ser eterno e, então, não poderia reivindicar Sua Divindade. Foi esse o argumento de Ário e sua lógica é inexorável. Mas, conquanto a palavra grega aqui empregada — monogenes — tenha a significação de "unigênito" não é exatamente essa a sua significação. Em cinco das nove ocorrências no Novo Testamento, ela é usada para Cristo. Em três, significa "filho único" (Lucas 7:12; 8:42 e 9:38); na nona (Hebreus 11:17) ela se refere a Isaque. Ora, Isaque não era o filho "unigênito" de Abraão, mas o seu preferido. Merece uma observação que a palavra darling (predileto) no inglês é usada para Cristo, pelos nossos tradutores, nos Salmos 22:20 e 35:17, onde o vocábulo grego monogenes representa o termo hebraico para "predileção". Em seis das doze ocorrências dessa palavra na Bíblia hebraica, a versão grega diz "amado", a palavra exata pela qual o Senhor Jesus foi exaltado do céu, após Seu batismo, e outra vez no Monte Santo. Nestas passagens a palavra only (único) foi usada pelos tradutores ingleses da Bíblia.

É fato de vital importância que a palavra begotten (gerado) jamais seja usada referindo-se ao Senhor, exceto em Sua Ressurreição. Pois nem o Seu título de "Filho de Deus", nem também o de "Filho do Homem" dependem do Seu nascimento virginal. Exatamente como por "Filho do Homem", Ele declarou ser homem, no mais alto e absoluto sentido, do mesmo modo, ao declarar ser "Filho de Deus", reivindicou Sua Divindade. Foi essa a significação dada pelos que ouviram os Seus ensinos. Seus discípulos assim entenderam, tendo-O adorado como Deus. E os que se recusaram a nEle crer, também o entenderam e por isso O crucificaram como blasfemador.

(Nota: — Os parágrafos acima estão embasados no livro O Senhor do Céu, no qual este assunto é cabalmente discutido em seus vários aspectos, e as Escrituras relativas ao mesmo são citadas e consideradas, incluindo as passagens nas quais a palavra "primogênito" é usada para Cristo.).



CAPÍTULO 4

É a circunstância peculiar dos nossos próprios dias que mostra, tanto a necessidade como a urgência a um apelo e protesto neste presente volume. E essa consideração pode pesar a qualquer um que se ressinta contra o que possa parecer que estamos lançando calúnia sobre os escritos de homens devotos e espirituais, nestes dias em que a incredulidade se coloca tão afastada do pensamento cristão. Um jornal incrédulo gloriou-se, recentemente, de que tudo pelo que Thomas Paine foi perseguido é publicamente pregado nos púlpitos cristãos pelos descendentes dos homens que o perseguiram. É a pura verdade. E o curso de profanação da "Nova Teologia" não é tão perigoso como a promulgação de suas blasfêmias por homens de cultura e sentimentos cavalheirescos.

Para ilustrar essas palavras vou dar o resumo de um sermão pregado no dia de Natal, em uma das mais importantes igrejas de Londres. Estou fazendo isso, não para criticar um clérigo em particular, mas para indicar o que está sendo ensinado agora em alguns seminários teológicos e pregado em alguns púlpitos em nosso país.

"Os relatos do nascimento, inclusive no primeiro e terceiro Evangelhos Sinóticos, não parecem ter pertencido à mais antiga tradição sobre o Salvador... O evangelho que os apóstolos pregavam não incluía qualquer história sobre o nascimento de Jesus. Essas narrativas ficavam à parte, sem qualquer relação perceptível com o restante do Novo Testamento... Os cristãos do segundo século não foram capazes de aplicar às tradições mistas, que haviam recebido da era apostólica, aquelas leis da evidência, que hoje receberam a adesão dos estudiosos históricos, de que a Divindade de Jesus não recebeu e nem carece agora de um dogma quanto ao Seu nascimento miraculoso."

Isso é bastante para indicar o conteúdo do sermão, ou seja, a negação do "nascimento virginal". A objeção de que a pregação dos apóstolos não incluía essa verdade é extraordinária. A ressurreição foi o fato público ao qual os apóstolos puderam apelar e do qual eles foram testemunhas oculares. Mas achar que eles deveriam ter testemunhado pessoalmente, também, a virgindade de Maria é um grotesco absurdo! Se, como esse pregador implicitamente afirmou no sermão, esse fato básico, do qual a verdade da Encarnação é inseparável, não é um fato consumado, mas apenas ficção, o Nazareno ainda pode reivindicar nossa homenagem como o melhor e o mais nobre dos homens; mas adorá-Lo como Divino é rotular-nos de idólatras e tolos. Em apoio a essa heresia, o pregador apelou às "leis da evidência", as quais deveriam ser deixadas, de preferência, àqueles que têm experiência prática com elas. A não ser que as narrativas dos evangelhos sejam totalmente indignas de crédito, e até mesmo de registro humano, é tão certo, como o testemunho humano pode oferecer, que o primogênito de Maria não era filho do seu marido. E que isso era do conhecimento geral dos judeus, testemunha a injúria com que eles receberam a recusa do Senhor de reconhecê-los como filhos de Abraão. Se, portanto, o Nazareno não fosse o Filho de Deus, no sentido em que a fé cristã o mantém, ele seria um rejeitado da espúria classe à qual a lei de Deus negava o direito de cidadania na comunidade de Israel. Se essa história do "nascimento virginal" fosse ficção, o incrédulo poderia assumir facilmente que ela foi inventada para camuflar a vergonhosa circunstância da origem do Senhor. E se o Nazareno não fosse o Filho de Deus, o Senhor da Glória, que significado teria a expiação? Bem poderíamos exclamar:

A árvore do conhecimento agora
dá a sua última colheita frutífera!
Agora o cego conduz o cego
e o homem se torna Deus!

A cruz está fora de moda
e o grande sepulcro
é apenas uma tumba hebraica,
pois Cristo morreu em vão!

O Cristo das eras passadas
já não é mais o Cristo.
O altar e o fogo se evadiram
e a vítima é apenas um sonho!

"O Senhor da Glória" é um dos Seus títulos divinos. Como escreveu o inspirado apóstolo, os líderes ignorantes da sabedoria divina, "crucificaram ao Senhor da Glória". (1 Coríntios 2:8) Contudo, se o cético cristianizado está certo, o homem que eles crucificaram era apenas um filho de judeu que, de modo profano, reivindicava honra divina. Portanto, ao conduzi-Lo à morte, eles estavam simplesmente obedecendo ao mais claro dos mandamentos da lei de Deus.

Então, repito a pergunta: O que significa a expiação? O total incrédulo encara essa questão com audácia e exige: "O que a morte de Jesus efetuou de modo oculto, a fim de tornar possível que Deus nos perdoe?" E aqui temos a sua resposta: "Nada demais e nada que fosse necessário... Pois Jesus era filho de José e Maria e não existe essa história de castigo, Dia do Julgamento, Grande Trono Branco e nem um Juiz que vai julgar a nós todos!" [Eles também poderiam acrescentar: "A Bíblia é um livro repleto de lendas, nada mais"!].

Isso seria tão consistente quanto inteligível. Pois nenhuma pessoa, cuja mente não esteja cega e crivada de superstições religiosas, poderia tolerar a ilusão que a morte de um carpinteiro judeu pudesse influenciar de algum modo nossas atuais relações com Deus, ou o nosso destino futuro. O incrédulo se norteia e permanece fiel à razão humana. A fé cristã repousa sobre a revelação divina. Uma posição, efetivamente, é tão inatacável quanto a outra. Porém... "Com tantos conhecimentos do lado dos céticos e com tanta fraqueza pelo orgulho dos estóicos, o cético cristianizado fica suspenso entre ambos."

Ao citar o sermão de Natal, não tive a intenção de atacar o indivíduo. O pregador é um representante excepcionalmente considerado de uma classe ampla e crescente de professores religiosos, os quais estão usando os púlpitos cristãos para espalhar amplamente a incredulidade neste país. Foi, portanto, com o objetivo de fortalecer o meu apelo aos cristãos espirituais que citei, para que diante da apostasia em franco desenvolvimento nos dias atuais, eles evitem o hábito prevalecente de nomear o Senhor da Glória com uma familiaridade não permitida pelas Escrituras e, assim, em cada citação do Seu Nome, esses cristãos possam dar prova que pertencem ao número dos que O têm como Senhor e honram o Seu Nome.

Tendo respeito à solene declaração de irrestrita crença na Escritura Sagrada, que é exigida do candidato à ordenação, à linguagem do credo que o clérigo repete continuamente e aos ensinos doutrinários com os quais ele publicamente concorda, para receber o benefício de uma prebenda, sermões como o supracitado parecem indicar que a moralidade clerical é diferente daquela que conduz os homens honrados no centro financeiro e nos clubes londrinos. Cinqüenta anos atrás, um sermão como esse teria recebido um feroz protesto de indignação, mas hoje em dia passa totalmente despercebido.



CAPÍTULO 5

No início de minha vida cristã, privei da amizade de um ilustre teólogo daquele tempo e, certa vez, pedi que me explicasse qual seria a melhor maneira de lidar com as diferenças entre as epístolas do Novo Testamento e os escritos dos Pais. Ele era muito paciente ao tratar com minhas dificuldades, por isso fiquei aguardando uma resposta elaborada. Contudo, após uma pausa, ele me indagou abruptamente se eu já havia estudado a Teologia Patrística. Quando respondi negativamente, ele acrescentou: "Depois que você ler algumas das melhores obras, então vou discutir com você". Assumi a tarefa que ele me impôs e o resultado é que não precisei perturbá-lo novamente. As melhores obras dos pais são, de fato, uma herança inestimável, porém um golfo as separa das Escrituras inspiradas.

Tendo em mente que dentro de dois anos de êxodo a "igreja judaica" apostatou de Deus, não precisamos nos admirar de que a "igreja cristã" tenha resvalado seriamente da fé, em apenas dois séculos após o Pentecostes. E quando cessou a árdua disciplina da perseguição, a decadência se tornou mais acentuada. De fato, os erros que deploramos na apostasia totalmente desenvolvida da cristandade é fruto da semente plantada pelos escritos patrísticos. E quando comparamos "os pais" com os apóstolos, não podemos deixar de ver a que extensão o "Jesus" da "religião cristã" já estava suplantando o Senhor vivo da verdadeira fé cristã. E o "religioso cristão" que levar em conta a igreja patrística, como corte de apelação em todas as questões de fé e prática, irá encontrar motivo suficiente para nomear o Senhor Jesus Cristo da maneira comum dos cristãos da atualidade. Mas todos os cristãos que se orientam apenas pelas Sagradas Escrituras acatarão uma admoestação e protesto contra essa prática desconhecida nos tempos do Novo Testamento.

(Nota: Um exemplo ilustrativo explicará o que quero dizer. Os evangelistas contam que na última ceia "Jesus tomou o pão". Mas em 1 Coríntios 11:23 lemos "O Senhor Jesus tomou o pão" e vejam que a declaração do apóstolo é que ele recebeu esta fórmula do próprio Senhor.).

"O moderno uso familiar do nome simples 'Jesus' tem pouca autoridade no uso apostólico". Se substituirmos o "pouco" por "nenhum" estaremos falando a pura verdade. Com um exame das várias passagens em que o "nome simples" ocorre nas epístolas, veremos claramente que o uso moderno não tem qualquer respaldo apostólico. Uma olhada na Concordância vai indicar que essa tarefa não é tão laboriosa. Pois embora nos evangelhos as ocorrências do "nome simples" possam chegar a centenas, as passagens em que ele é usado nas epístolas são apenas algumas. E aqui outro fato surpreendente nos chama a atenção. Nos evangelhos, as narrativas que mencionam Cristo, sempre o fazem segundo o nome de Sua humilhação, mas isso nunca acontece nas epístolas. Como pode acontecer isso? Se a ordem cronológica dos escritos do Novo Testamento fosse diferente, e uma porção de anos tivesse separado as epístolas dos evangelhos, uma explicação óbvia poderia ser sugerida. Mas em vista dos fatos conhecidos, devemos procurar uma solução de outro tipo. E se a solução seguinte for rejeitada, o enigma deve continuar sem solução. Como todos os que adoram o Homem de Belém e Nazaré como sendo o Filho de Deus, certamente deve parecer inacreditável que Deus não tivesse feito provisão no sentido de que possuíssemos um registro exato da missão e ministério do Senhor na terra. E esse tipo de provisão, que é chamado "Providência", seria totalmente inadequado em se tratando dos evangelhos. Uma prova cabal disso necessitaria de um tratado, porém até mesmo algumas sentenças podem ser suficientes. Seus autores têm compartilhado o mesmo ensino. E o seu íntimo acompanhamento durante todo o Seu ministério continuou após a Ressurreição. Como, então, podemos dar conta das extraordinárias diferenças que caracterizam os Seus evangelhos, diferenças que o racionalista aponta como prova de que estes são desesperadamente conflitantes? O Primeiro Evangelho — Mateus — começa com a genealogia do Senhor, como sendo filho de Abraão e filho de Davi — os recipientes das duas grandes Alianças de bênçãos e da soberania terrena de Israel — e prossegue dando particularidades sobre Seu nascimento e infância. E ao lidar com essa abertura, o grosso do livro, da primeira até a última página, trata da apresentação de Cristo como o Messias de Israel. Em contraste com este, o Quarto Evangelho começa com a declaração: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." (João 1:1) E em lugar de uma narrativa sobre o crescimento do Salvador, lemos: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade." (v. 14) E a única referência especial à missão do Senhor a Israel é encontrada nas palavras: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam." (v. 11).

Não é que o apóstolo João não tivesse conhecimento dos detalhes apresentados nos dois primeiros capítulos de Mateus. Pelo contrário, ele devia ter um conhecimento mais completo destes do que os demais evangelistas. Afinal, foi com ele que, após a crucificação, a mãe do Senhor encontrou um lar. Dos lábios dela ele deve ter ouvido, sempre e sempre repetido, tudo que um coração materno poderia recordar sobre o nascimento sagrado em Belém e a não menos santificada vida do Senhor em Nazaré. Contudo, nem uma só palavra a respeito disso nos é dada nesse Evangelho. Embora ele tenha sido o único dos evangelistas a testemunhar a transfiguração, o registro da mesma não aparece, sendo o único a não conter esse relato. Não são esses os únicos exemplos de um silêncio tão extraordinário em seu evangelho, mas esses nos bastam para o objetivo atual. Qual a explicação que poderia ser dada para isso?

"Ponha-se no lugar dele" é um desafio que gentilmente lançamos àqueles que zombam da inspiração. Poderia um homem possuidor de tão especial conhecimento sobre um assunto de tão extraordinário interesse escrever um tratado a ele relacionado sem fazer a mais leve menção dos detalhes extremamente importantes e de modo peculiar, dele próprio? Uma inspiração tão limitada que significa nada mais além da razão humana agindo sob direção providencial, não adianta nada aqui. A não ser que os evangelhos sejam o "sopro divino", no melhor sentido, eles apresentam um fenômeno psicológico sem paralelo, em toda a literatura mundial, quer seja moderna ou antiga.

Ao cristão inteligente e observador, a autoria divina da Escritura é tão claramente manifesta como a da autoridade humana que todos os homens reconhecem. Portanto, tendo sido o discípulo amado comissionado para escrever sobre Ele como sendo o Filho de Deus, o Divino Espírito o conduziu estritamente à trilha dourada e controlou todo o seu anseio natural de contar sobre o nascimento humano virginal do Senhor em Belém e a visão do Monte Santo, que manifestou o Senhor em Sua glória como o "Filho do Homem".

Aqui temos, portanto, a solução do problema. Foi o próprio Senhor quem nos deu o registro dessa "Vinda", a qual foi o grosso de todas as Escrituras, desde a promessa do Éden sobre a semente da mulher, até a última palavra do último dos profetas hebreus. Portanto, em todos os evangelhos o Filho de Deus sempre é chamado de 'Jesus', visto que foi Seu Pai quem nos deu a história de Sua vida.

Para predizer Sua vinda Ele usou os lábios dos profetas para falar as palavras de Deus, quando eram movidos pelo Espírito Santo. Ele guiou a pena dos apóstolos e evangelistas para emoldurar os registros do Seu Advento, em palavras inspiradas por Deus.

Mesmo assim, alguns vão exclamar: "E as epístolas não são inspiradas por Deus?" Mais que certamente elas são. No entanto, o propósito delas é totalmente diferente e em hipótese alguma isso aparece mais claramente do que pela maneira como os vários escritores das mesmas nomeiam o Senhor. Não que as mudanças sejam devidas às "idiossincrasias" dos autores humanos. De fato, em parte alguma isso é tão notável como nos escritos do apóstolo João. Pois, embora em seu evangelho o "nome simples" seja usado mais de 200 vezes, nem uma só vez ele o usa nas epístolas. E em cada uma de suas quatro ocorrências, ele é usado com uma significação doutrinária e em conjunção com outro título conotando Divindade. Ninguém pode deixar de ver que existe algo de excepcional interesse, merecendo nossa mais profunda atenção.

E quanto mais investigamos, mais clara se torna essa prova de que, enquanto nos evangelhos o Senhor é habitualmente chamado "Jesus", esse nome sozinho nunca é usado nas epístolas, salvo com alguma significação especial de doutrina ou de ênfase. O apóstolo Pedro não o emprega sequer uma vez. E em nem um só caso, "Tiago, o irmão do Senhor" O nomeia sem algum título de Divindade. Nas passagens já citadas de 1 João, o "nome sozinho" é usado com uma significação óbvia. Dizer que Cristo é o Cristo ou que o Filho de Deus é o Filho de Deus não teria significação alguma. Mas crer que Jesus, o homem de Nazaré, "o judeu crucificado" é o Cristo, o Filho de Deus, esta é a fé que vence o mundo, indicando um novo nascimento pelo Espírito de Deus.



CAPÍTULO 6

Ao considerar o uso do "nome simples" em Atos dos Apóstolos, o local e propósito deste livro no Cânon Sagrado nos chamam a atenção. Este é um assunto importante, pois ninguém que entenda o plano construtor da Bíblia pode deixar de ver o que Pusey chama de "harmonia oculta". E saber isso é ter imunidade aos ataques da simulada "Alta Crítica". A Bíblia tem um aspecto tanto exterior como espiritual. Cristo é o objeto do seu ensino espiritual, enquanto em seu lado exterior ela se relaciona principalmente com o povo da aliança. Um breve prefácio de onze capítulos contém tudo que ela nos diz sobre a história mundial durante milhares de anos, antes da chamada de Abraão. E a história dos descendentes de Abraão monopoliza o restante do Velho Testamento. Pois é somente em relação a Israel que os poderes gentílicos entram em cena.

A Abraão foi dada a promessa de bênção terrena e a Davi a promessa de soberania terrena. A revelação mosaica se torna a revelação e complemento da aliança com Abraão. E o Novo Testamento começa com o nascimento de Cristo, filho de Davi, filho de Abraão, Aquele em quem se realiza o cumprimento das promessas de todo o Velho Testamento. Os evangelhos contam a história de Sua vida e morte — Seu ministério e rejeição pelo povo favorecido. O livro de Atos faz o registro de uma dispensação durante a qual esse povo, mesmo com a sua apostasia e culpa, recebeu a oferta do perdão divino com base na graça. É impossível ler bem esse livro se deixarmos de reconhecer a missão e o ministério especiais a Israel, comissionados ao apóstolo Paulo. Por causa dessa comissão é que ele deu testemunho aos judeus, em cada lugar que visitava, sem deixar Roma de lado, mesmo que uma igreja cristã já estivesse ali se reunindo. Isso explica por que o livro de Atos termina abruptamente com o registro da rejeição do evangelho pelos judeus de Roma, sendo que os dois últimos versos contêm tudo que nos é ensinado sobre os seus dois anos de ministério na cidade imperial. Ele ainda explica por que nem uma palavra é acrescentada sobre o ministério do apóstolo, após o relaxamento de sua primeira prisão. Pois o livro não é a história inicial do cristianismo, mas a história, divinamente entregue, da dispensação do Pentecostes, durante a qual Israel recebeu a prioridade da pregação do evangelho.

Quando reconhecemos tanto o propósito como o caráter histórico de Atos, ficamos preparados para encontrar aqui, como nos evangelhos, o porquê de o Senhor ser nomeado pelo Seu nome pessoal nas narrativas. Contudo, essas ocorrências se limitam a sete. A primeira é na sentença de abertura do livro (capítulo 1); a segunda, no verso 14 e a terceira, nas palavras de encerramento do verso 16, que pertence claramente ao parêntese que conclui com o verso 19. A suposição grotesca é que quando o apóstolo Pedro mencionou Judas, ao dirigir-se aos irmãos, alguns dias antes da crucificação, ele teve de explicar que se referia ao traidor com esse nome (versos 16-20)!

As demais passagens de Atos, nas quais o Senhor é narrativamente mencionado como "Jesus", são encontradas nos capítulos 7:55; 8:35, 9:27 e 28:23. Devemos observar que o Senhor foi nomeado dessa maneira pelos mensageiros celestiais que apareceram aos discípulos após Sua ascensão (Atos 1:11). E mais notável ainda é que em cada caso em que o registro contém palavras faladas pelos descrentes o Senhor é sempre nomeado como "Jesus".

A narrativa do martírio de Estevão tem um interesse especial: "Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus." (Atos 7:55). Aqui o nome sozinho também é usado. Quanto ao título "Filho do Homem", que o Senhor usou diante de Caifás (Mateus 26:64), tendo-o retirado do livro de Daniel, este era um título Divino. E que os judeus assim o consideravam está claro, tanto que a aceitação do mesmo pelo Senhor, quando estava diante do conselho e Lhe foi indagado se Ele era o Cristo, o Filho de Deus, o Senhor respondeu afirmativamente e por isso foi condenado à morte. (Lucas 22:70,71) O título "Filho do Homem" nunca é usado na Escritura referindo-se à Encarnação. Como homem Ele nasceu em Belém, mas como "Filho do Homem" desceu do céu. Que Estevão tenha visto "Jesus" à direita de Deus é o registro da narrativa divina, mas "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" foi a sua oração final (Atos 7:59). "Ó Jesus" seria provavelmente a linguagem de muitos dos nossos compositores de hinos, hoje em dia!



CAPÍTULO 7

Ao considerar o uso do "nome simples" nas passagens de Atos, em que o registro mostra os apóstolos Pedro e Paulo usando-o, algumas explicações são necessárias, como o uso na epístola aos Hebreus. O propósito deles era enfatizar a humilhação e rejeição ao Senhor. Muito claramente esse uso aparece no capítulo 13:33 (na KJV e 32 na ACF), a única vez em que o Senhor foi assim nomeado pelo apóstolo Paulo. O leitor inteligente poderá ver que ao dirigir-se aos judeus, se ele tivesse usado outro nome ou título, suas palavras teriam perdido a força especial. E isso se torna igualmente claro no uso do "nome simples" pelo apóstolo Pedro, conforme Atos 2:32,36. Segundo a Versão Autorizada (KJV), excluímos dois textos que nesta versão podem cair dentro da mesma categoria, a saber: Atos 3:13, 26. O "Servo de YAHWEH" é um dos títulos do Senhor no Velho Testamento, conotando Divindade. E é um fato admirável que este aspecto do ministério de Cristo caracteriza o evangelho de Marcos, com o qual se crê que o apóstolo Pedro esteve particularmente associado. Embora o uso desse título pelo próprio Senhor não tenha respaldo sobre o assunto aqui em pauta, não devemos ficar desapercebidos. O nome de "Jesus, o crucificado" foi o que inflamou o ódio de Paulo como perseguidor e foi esse o nome que ele ouviu na visão celestial da glória, que o deixou cego, tendo sido por ela alcançado no caminho de Damasco, quando ia cumprir sua maligna missão de perseguir os cristãos. "Eu sou Jesus, a quem tu persegues." (Atos 9:5) A partir desse momento, a verdade foi impressa em sua alma de que haviam "crucificado ao Senhor da Glória".

Nas treze epístolas atribuídas à autoria do Apóstolo aos Gentios, existem apenas oito passagens nas quais o "nome simples" ocorre. E nessas oito vezes isso acontece na epístola aos Hebreus Essa parte de nossa pesquisa é de excepcional interesse, pois o uso do apóstolo Paulo do "nome simples" está de acordo com o ensino doutrinário. Hebreus foi escrita na linguagem da tipologia do Velho Testamento. E para apreciar a significação do "nome simples" nessa epístola, precisamos entender essa tipologia.

Contudo, introduzir aqui um tratado sobre esse importante assunto seria impraticável e a sentença seguinte da passagem antes citada do Comentário de Ellicot é suficiente: "Na Epístola aos Hebreus esse uso é pelo menos raro (Ver caps. 2:9;6:20;7:22;12:2,24;13:12) e pode-se ver que em todos os casos uma ênfase especial é colocada sobre a humanidade sofredora do Senhor e os fatos históricos do Seu ministério na terra, aos quais ela se refere". O que já foi dito sobre o uso do "nome simples" em 1 João aplica-se igualmente a algumas passagens, como Romanos 3:26. E ao capítulo 8:11: "E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós..."

Citando novamente o Comentário de Ellicot, "A ressurreição de Cristo aponta para o ministério efetivo dEste sobre aqueles de quem Ele é o Mediador".

Uma explicação similar sugere em si mesma o que diz respeito ao uso do "nome simples", no capítulo 4:10,11,14 de 2 Coríntios. O leitor inteligente não deixará de observar o grande contraste entre "Jesus" e "O Senhor Jesus" nas passagens. "A vida de Jesus" (vs. 10, 11) deveria significar Sua vida na terra, enquanto o princípio vital que Ele compartilhou com o Seu povo na terra, seria "A vida de Cristo".

A leitura dos Revisores de Gálatas 6:17 exemplifica o interesse e a importância da pesquisa atual. Sua devoção aos três MSS mais antigos — tolice usual do leigo em dar um indevido valor à "evidência direta" — levou os revisores a destruir a significação do texto. "As marcas de Jesus" significariam que (conforme o caso do lendário Francisco de Assis) o corpo do apóstolo fora marcado com cicatrizes similares àquelas levadas pelo próprio Senhor, após Sua crucificação. Seria possível acreditar que o apóstolo pudesse ter feito essa declaração? A significação das palavras que ele usou não deixa dúvida. Era uma prática normal dos proprietários de escravos marcá-los e as cicatrizes das feridas do apóstolo recebidas em seu ministério por Cristo significavam para ele "as marcas de Jesus", marcas registradas pelas quais o seu Divino Mestre afirmava que ele era o Seu escravo. Nas últimas cartas do apóstolo Paulo, escritas durante seu cativeiro em Roma, o "nome simples" ocorre duas vezes. Essas passagens, mesmo ultrapassando o nosso propósito atual, são Efésios 4:21: "Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus" e Filipenses 2:10: "Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra." "A verdade em Jesus" é um sinônimo popular, embora não escriturístico, para "a verdade evangélica". Na linguagem da Escritura esta deveria ser "A verdade de Cristo". Contudo, a exortação não se relaciona à doutrina, mas à prática. É que a vida cristã deveria ser o reflexo da verdade, conforme foi manifestada pela vida do nosso Divino Salvador, nos dias de Sua humilhação, daí a expressão: "A verdade em Jesus".

Alguns poderiam dizer que em Filipenses 2:10 "Jesus" é o nome de exaltação do Senhor. E como prova disso, apelam às palavras do anjo anunciando o nome divinamente escolhido para a Sua humilhação. Contudo, isso não tem muito suporte e destrói, não apenas a força, mas a significação da passagem. "Jesus" é o Seu nome de nascimento, pois, até mesmo em Sua humilhação, Ele era o Salvador. Mas temos aqui o nome que Lhe foi dado na Glória, em razão de Sua morte na cruz. E não é em relação à Sua obra como Salvador dos pecadores que a cruz é aqui mencionada, mas incidentalmente como exibição da coroação pela desprezível rejeição que Lhe foi dada pelo mundo, principal e enfaticamente, como o ápice de Sua humilhação. E foi por causa da Sua auto-renúncia, da Sua auto-humilhação, se pudermos usar esta palavra, que "Deus o exaltou sobremaneira". E qual pode ser esse nome, senão "o nome grande e tremendo de YAHWEH." (Salmos 99:3) Mesmo assim, é diante do nome de Jesus que todo joelho se dobrará. Claro está que todos irão se prostrar na presença da glória, diante da qual o discípulo amado caiu como morto. Mas, como essa passagem nos diz, sua homenagem será prestada Àquele Deus a Quem estão adorando — o "Jesus", cuja Divindade o incrédulo hoje nega, ou então reconhece apenas na hipócrita recitação de um credo. Não é, conforme o profano ensino dos racionalistas cristãos, que Ele tenha suplantado o "cruel YAHWEH" de Israel, mas que Ele é a manifestação do Deus do Velho Testamento.

E sendo Ele "a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação" (Colossenses 1:15), refulgindo toda a Sua glória como a imagem da substância do Pai, é o único Deus diante de quem o mundo inteiro deverá se prostrar. "E toda língua confessará que Ele é o Senhor", confissão que os discípulos declararam nos dias de Sua humilhação, e que deveria caracterizar os cristãos nestes dias em que Ele está ausente. Daí por que no capítulo 10 de Romanos lemos que, ao contrário da justiça que procede da lei, que consiste em obras, a justiça da qual nos fala a fé em Cristo é esta: "Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." (Romanos 10:9).

Este ensino nos lembra outra passagem vibrante da mesma importância. Em 1 Coríntios 12:3, o apóstolo nos dá a entender que "ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o SENHOR, senão pelo Espírito Santo". Contudo, poucos entendem que ninguém pode dizer "Senhor Jesus", assim como é fácil a qualquer incrédulo dizer simplesmente "Jesus". Qualquer pessoa pode papaguear o que aprendeu a falar, mas dificilmente escutamos esta expressão "Senhor Jesus" dos lábios de um incrédulo. Para este o Senhor é "Jesus", "o Salvador", ou simplesmente "Jesus Cristo", (nome este usado com a significação de nome e sobrenome), mas nunca "o Senhor Jesus" ou "o Senhor Jesus Cristo", como Ele deve ser nomeado.

O capítulo 4 de 1 Tessalonicenses nos chama a atenção neste sentido. Dean Alford escreve: "As palavras são a expressão do pensamento e quando encontramos uma construção incomum, ela demonstra uma razão especial na mente do escritor no sentido de usá-la. [NT: Conhecemos este pensamento mais desenvolvido como: "Você pensa o que lê; fala o que pensa e é o que fala", daí que a pessoa que estuda a Bíblia com sincera dedicação tem um linguajar mais saudável e pode melhor dar um bom testemunho de sua fé.] Contudo, nos versos finais deste capítulo os tradutores nos entregam o que supõem que o apóstolo quis dizer e não o que ele realmente escreveu. E assim eles fazem a tradução do verso 14: "Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele", como simplesmente "os mortos em Cristo" [Ou "os que nele dormiram", como na NVI]. A frase "dormir em Jesus" está de tal modo incrustada no pensamento cristão que chamá-la de antiescriturística até parece um sacrilégio! E, contudo ela nos rouba o profundo e importante ensino desta maravilhosa passagem. Uma tradução literal e acurada das palavras do apóstolo seria: "Aqueles que foram postos a dormir por (ou através de) Jesus, Deus os trará com Ele." A explicação desta aparentemente estranha declaração pode ser encontrada nas circunstâncias que levaram o apóstolo a escrever esta carta. Quem são esses "que dormem" e o que lhes causou a morte? A resposta a esta pergunta encontra-se na explicação da passagem e pode ser deduzida em 1 Tessalonicenses 2:14-16.

Aprendemos em Atos 17 que, depois que o apóstolo chegou a Beréia, partindo de Tessalônica, os judeus o expulsaram e ele fugiu para Atenas. Sua estada em Atenas foi ainda mais breve do que em Beréia. Mas, antes de seguir para Corinto, ele recebeu notícias que provocaram o receio de que o seu trabalho em Tessalônica tivesse sido em vão (1 Ts. 3:5). Então ele comissionou Timóteo a voltar depressa a Tessalônica e o registro de Timóteo, que o alcançou em Corinto, foi o que levou o apóstolo a escrever esta carta. É que nos primeiros meses, desde que o apóstolo havia estado com eles, havia acontecido uma porção de mortes numa comunidade pequena demais como a dos tessalonicenses convertidos e isso parecia estranho. E era inacreditável que quaisquer mortes naturais tivessem afetado tanto a fé dos cristãos do tipo descrito no capítulo 1. Claro está que o que havia testado a fé deles não fora o fato dessas mortes, mas a maneira como elas haviam acontecido... E a epístola indica claramente que elas tinham sido fruto de uma tempestuosa perseguição surgida naquela cidade. Numa palavra, alguns dos seus líderes haviam sido martirizados. Ora, eles não tinham ouvido dizer que o Senhor "tem todo o poder nos céus e na terra" e que jamais abandona Seu povo? Como então haviam caído presa dos seus inimigos? Ou o ensino era errôneo ou então seus entes queridos haviam caído no desagrado divino, daí por que eles os estavam pranteando "como alguns que não têm esperança." (4:13) Eles deveriam lembrar-se de que o próprio Senhor Jesus havia sido morto pelo seu inimigo comum (2:15) e que os apóstolos, quando estava com eles, já os havia advertido no sentido de esperarem tribulações iguais às que estes estavam sofrendo (1 Ts 3:4). Finalmente ele lhes envia uma mensagem de esperança, recebida diretamente do Senhor para o seu conforto (3:11-13). Por isso ele diz: "nas palavras do Senhor". Esta é uma das revelações especiais (como as de 1 Coríntios 11:23 e 15:3) que o apóstolo teria recebido.

Os "mortos em Cristo" do verso 16 são os santos mortos em geral, mas os que dormem, dos versos 13 e 14, são as pessoas individuais, cujas mortes os tessalonicenses estavam pranteando. E porque fora por amor do Seu nome que eles haviam sofrido, é que o Senhor fala deles como os tendo posto a dormir. É como se Ele dissesse: "Bem, eu fui a causa de sua morte, mas mesmo assim não falhei com eles. Não fui eu mesmo levado à morte? E tão certo como eu morri e ressuscitei, eles também vão ressuscitar e Deus os trará comigo em minha vinda". E a infinita graça e ternura são intensificadas pelo fato de que a mensagem de conforto e esperança é entregue em o nome de Sua humilhação — o nome sob o qual Ele foi assassinado! Esta é a Sua primeira mensagem registrada para os santos na terra, após Sua ascensão. E com esse mesmo nome Ele entregou sua mensagem final em Apocalipse 22:16: "Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã." Então, vamos dar a resposta que o Espírito Santo colocou em nossos lábios: "Ora vem, Senhor Jesus!" Ele se dirige ao Seu povo com o nome de Sua humilhação, esperando que estes respondam confiantemente usando o Seu Nome de Glória!



CAPÍTULO 8

O capítulo 8, completando esta breve revisão das passagens da Escritura, vai observar o último livro do cânon sagrado. Os evangelhos estão de tal modo ligados às Escrituras hebraicas e ao povo da aliança, que se o livro de Atos tivesse se perdido, a transição às epístolas das comunidades gentílicas iria parecer um estranho enigma. Se o livro de Apocalipse tivesse desaparecido, esse enigma tornar-se-ia insolúvel. De fato, uma Bíblia assim mutilada teria proporcionado uma justificativa à profana zombaria do incrédulo, de que Deus havia sido frustrado em Sua tentativa de realizar Seus declarados propósitos na terra, portanto agora pretende destruir seus problemas com um foguetório.

Mas o Apocalipse é o livro da grande prestação de contas das permanentes promessas divinas. Em suas páginas, todos os retalhos da história e tipos de profecias que estavam dispersos nas antigas Escrituras, são reunidos e conduzidos à sua destinada consumação. E com todo o respeito pela narrativa e solenidade do livro, a aparição do "nome simples" em cada capítulo do mesmo não oferece desculpa alguma para o uso familiar desse nome, como tem sido comum hoje em dia. Embora suas ocorrências sejam poucas, limitando-se ao uso do mesmo pelo próprio Senhor, e a certas passagens onde é empregado, nas seguintes frases:

"No reino e paciência de Jesus" — (Apocalipse 1:9)
"O testemunho de Jesus" — (1:9;19:10;20:4)
"A fé em Jesus" — (14:12)
"Testemunhas de Jesus" — (17:6)

Nenhum cristão poderia atribuir estas frases contundentes ao capricho do escritor sagrado, mesmo não sendo elas encontradas em parte alguma da Escritura. O caráter e propósito do Apocalipse talvez nos dêem uma visão sobre a sua significação.

Que a atual "dispensação cristã" é o clímax do cumprimento de todos os propósitos e bênçãos divinas sobre a terra é uma heresia pela qual os Pais latinos prepararam a apostasia romanista [conforme a teologia de Agostinho de Hipona] que se autodenomina "Santa Igreja Católica Romana". Essa heresia tem permeado de tal maneira a teologia da cristandade que nos enormes cabeçalhos das edições da última porção de Isaías, na Bíblia Inglesa, todos os julgamentos e ais se destinam exclusivamente aos judeus, enquanto as visões de bem-aventuranças se destinam ao triunfo espiritual da "Igreja". Tanto se coloca a presente dispensação de ser o cumprimento das profecias de bênçãos terrenas que ela acentua a mais definitiva maneira de ir postergando o seu cumprimento. Os propósitos divinos revelados para a terra estão relacionados ao Seu povo terreno e a sua realização aguarda o "fim dos tempos dos gentios", cujo poder terreno — transferido de Jerusalém para a Babilônia há 25 séculos — continua nas mãos dos gentios. Até que sejam consumados "os tempos dos gentios", o Reino de Cristo não será estabelecido. [NT: O que prova a falácia da Teologia do Reconstrucionismo, tão comumente adotada pelos líderes das seitas neopentecostais.] A dispensação pentecostal [não nos referimos a esta denominação pseudo-pentecostal, mas à verdadeira, vigente nos dois primeiros anos após o Pentecostes] poderia ter conduzido o povo de Deus a um grande evento. Mas em razão da constante apostasia de Israel [consumada em sua rejeição ao Messias Jesus Cristo] essa dispensação foi interrompida.

O assassinato de Estevão foi a resposta dos importantes líderes judeus à inspirada proclamação apostólica de uma anistia divina. Estevão foi o mensageiro como que enviado pelo rei para dizer: "Não queremos que esse homem reine sobre nós". Logo depois, o Apóstolo aos Gentios recebeu a comissão divina e, por meio dele, foram reveladas as grandes verdades do "mistério" da atual dispensação, verdades que haviam, até então, sido mantidas em segredo, nenhuma delas tendo sido revelada no Velho Testamento. Elas constituem o "mistério" do Reino da Graça, o qual é, certamente, incompatível com o governo divino da retidão, antes expressamente declarado. O "mistério da igreja" — o corpo de Cristo — uma relação celestial com uma glória celestial, é o "mistério" dessa fase especial da Vinda do Senhor, que conduzirá esta dispensação ao seu término. [Reconhecer-se com um pecador indigno de salvação; aceitar pela fé o sacrifício de Cristo na cruz e nele confiar plenamente e viver uma vida reta por amor do Seu nome, é tudo que um cristão deve fazer para ficar em paz com Deus (Romanos 5:1) e aguardar confiantemente Sua gloriosa vinda.].

E no fim da mesma, a legítima dispensação pentecostal do início será restaurada. Seu estágio inicial incluirá o cumprimento da profecia de Joel referida por Pedro em Atos 2:16 e seguintes [a partir daí e até a consumação dos tempos dos gentios não haveria revelações do tipo mencionado em Joel 2:28-32, como tem sido propagado pelos segmentos ditos pentecostais da atualidade]. Esse retorno à dispensação pentecostal será marcado pelas mais terríveis perseguições que o povo de Deus jamais terá sofrido na terra (Mateus 24:21,22). [Quem aplica o livro de Mateus aos gentios está perdendo a maravilhosa mensagem que aí existe, destinada exclusivamente ao povo de Deus.].

O cânon sagrado é encerrado e a Escritura Sagrada é a Palavra de Deus para o Seu povo na terra, até que o fim dos tempos se concretize. Ela contém ensinos que têm provado serem definitivamente aplicáveis às mais variadas circunstâncias pelas quais têm passado os filhos da fé, em eras passadas e, especialmente, no contexto atual. Pode-se acreditar que ela não contenha mensagem alguma de admoestação e conforto para os dias tenebrosos que estão no porvir? Será que devemos considerar essas mensagens agora? As visões do Apocalipse, embora limitadas ao povo de Deus para os dias da provação de sofrimentos e perigos sem precedentes, conforme Mateus 24:21,22, podem significar que naqueles dias os "eleitos" estarão ligados ao próprio Senhor pelo nome de Sua humilhação — um nome tão evocativo de memórias do Seu sofrimento e dor. Haverá aquelas "testemunhas de Jesus" (Apocalipse 17:6), que serão Sua propriedade, em um sentido muito especial.

Eles terão a "fé em Jesus" (Apocalipse 14:12), a fé que os sustenta na trilha que terminou na cruz. É "o testemunho de Jesus", que foi dado por Ele diante de Pilatos, quando com algumas palavras Ele poderia ter-se livrado da condenação e obtido Sua liberdade, recebendo proteção do poder romano contra Seus perseguidores.

Levando tudo isso em consideração, não é como "apóstolo do Senhor" que o vidente escreve, mas como "irmão e companheiro na aflição": "Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo." (Apocalipse 1:9).

Aqui o Senhor não é apresentado conforme a Sua glória, mas ainda sofrendo, em vista do Seu povo estar sofrendo, também, e esperando pacientemente, do mesmo modo como Ele tem estado esperando. É certo traçar uma conexão entre as palavras de 1 Timóteo 6:13 e as "testemunhas de Jesus" nestas passagens. O verbo usado na passagem supracitada é martu’reo e aqui o nome é marturia. E certamente ambas as cláusulas da sentença "os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus" (Apocalipse 12:17) devem ser lidas do mesmo modo como se lê Apocalipse 14:12: "Aqui está a paciência dos santos; aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus."



CAPÍTULO 9

Ninguém que possua uma mente aberta e tenha seguido esta pesquisa sobre o nome pessoal do Senhor no Novo Testamento pode resistir à conclusão a que ela conduz: "O uso moderno familiar do 'nome simples' — Jesus — não tem qualquer autoridade no uso apostólico." Alguns cristãos que reconhecem ser essa prática comum errada e não condizente com as Escrituras, adotam o que pode ser descrito como um compromisso de acrescentar sempre a palavra "Cristo" ao nome simples. O motivo deles é por demais louvável, mas faríamos bem em considerar, não apenas a profundidade da significação que o nome completo "Jesus Cristo" possa ter com os que o usam assim, mas o que significa à vasta maioria das pessoas que os escutam ou lêem as suas palavras. Os incrédulos têm usado "Jesus Cristo" da mesma maneira livre como os cristãos o fazem. Até mesmo com os cristãos, por mais consagrado que seja, e evoque memórias sagradas, ele é obviamente considerado (como "Jesus") apenas um nome pessoal, o qual aponta, não para o Senhor da Glória, assentado no trono eterno, mas retrocede ao "Jesus histórico". Alguns teólogos poderiam nos levar a crer que até mesmo no Novo Testamento "Cristo" é algumas vezes usado meramente como um sobrenome — uma ilusão que demonstra quão totalmente pode estar a exegese gentílica fora de harmonia com o pensamento judaico. Pois para um judeu devoto, bem como para um hebreu cristão, esse era um título divino de grande solenidade. Vamos verificar melhor o seu pressuposto na Escritura: se para "Cristo" (no grego) lemos "Messias" (em hebraico) e para "Jesus Cristo", "Jesus, o Messias", isso nada significava para os ouvidos dos gentios e os gentios convertidos precisavam receber o ensino do seu significado sagrado.

A maioria dos cristãos peca neste sentido e costuma se desculpar, dizendo que esse erro provém do mau treinamento ou falta de concentração. Mas dando atenção ao assunto, eles bem poderiam ser guiados pelo próprio ensino e prática primitiva da Escritura. As pesquisas do Dr. Adolph Deissmann concluíram que na era apostólica, falar de Cristo como "o Senhor" era um modo total e definitivo de reconhecer Sua Divindade. Ele diz: "No tempo do apóstolo Paulo, ‘Senhor’ era por todo o mundo oriental uma concepção religiosa universalmente compreendida. A confissão do apóstolo do seu mestre como "nosso Senhor Jesus Cristo"... era logo entendida na totalidade de sua significação em todo o oriente grego". Sob a perseguição dos imperadores, conforme nos conta novamente o mesmo escritor, tal confissão "levava os cristãos ao martírio". Se falar de Cristo como "o Senhor" fosse encarado com esses mesmos perigos, hoje em dia os cristãos seriam mais cuidadosos em evitar essa prática, do que agora parecem ser.

E as pesquisas do Dr. Deissmann podem nos capacitar a melhor entender a narrativa de Atos 2:36: "Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo", conforme a pregação do apóstolo Pedro no Dia de Pentecostes. "Senhor e Cristo". Conquanto o testemunho especial dado aos judeus é que Ele era o Cristo, entre os gentios era dada a ênfase sobre a verdade de que Ele era o Senhor. Do mesmo modo como lemos que em Jerusalém os apóstolos pregavam "a Jesus Cristo" (Atos 5:42). Porém quando os cristãos foram dispersos, após a morte de Estevão, entraram em contato com os gentios e começaram a pregar o Senhor Jesus Cristo como "o Filho de Deus". (Atos 9:20) Aos coríntios, o apóstolo Paulo declarou enfaticamente: "Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o SENHOR; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus." (2 Coríntios 5:4) Os escritos do apóstolo Pedro mostram como esta consideração o influenciou, ao nomear o Senhor na Primeira Epístola de Pedro endereçada aos cristãos hebreus, conforme 1 Pedro 1:1-2: "Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas." O Senhor é nomeado oito vezes como "Jesus Cristo", enquanto na Segunda Epístola dirigida aos crentes gentílicos, ele escreve: "Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo: graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor."

Ao estudar as epístolas nesta conexão, devemos levar em conta o texto revisado. Pois em muitas ocorrências de "Cristo Jesus", na V. A. King James, a leitura revisada coloca "Jesus Cristo", o que demonstra como a autoridade dos MSS é conflitante. Na versão de Dean Alford, por exemplo, lemos "Cristo" em 2 Coríntios 4:6 e "Cristo Jesus" em Filipenses 1:6, sendo assim em toda parte. De fato, a leitura correta é duvidosa em quase metade das passagens onde ocorre "Jesus Cristo" em nossa V. A. Essa distinção tem uma significação doutrinária. Pois "Jesus Cristo" nos fala do Senhor como Pessoa, enquanto "Cristo Jesus" é, segundo o termo de alguns escritores, o "Cristo Oficial" — o Cristo em relação ao Seu povo. Comparem, por exemplo, "o homem Jesus Cristo", em Romanos 5:15, com "Batizados em Jesus Cristo" em Romanos 6:3. [Na KJV e na ACF lemos "Jesus Cristo", na BLH e na NVI é "Cristo Jesus", conforme defendido pelo escritor]. Em 2 Coríntios 13:5, se o texto adotado nas duas versões inglesas for aceito, deve ser entregue como "Jesus Cristo está em vós" (KJV e ACF), exatamente como em 1 Coríntios 14:25, onde o apóstolo fala de "Deus entre eles". A Escritura não fala de um cristão estar em Jesus Cristo, ou de Jesus Cristo estar em um cristão, pois a verdade "em Cristo" ou "em Cristo Jesus" é tão clara como preciosa. (2 Coríntios 5:17).

Muitos estudiosos da Bíblia poderiam encontrar resultados surpreendentes no estudo do uso do nome "Jesus Cristo" no Novo Testamento. Por exemplo, em todos os quatro evangelhos ele ocorre cinco vezes, oito vezes incluindo o seu uso pelo próprio Senhor em João 17:3. Ele é usado sete vezes em Atos e nunca de maneira incidental ou narrativa, conforme é tão comum nos dias de hoje. Com respeito às epístolas, tendo em vista as diferentes leituras, uma completa análise das passagens onde Ele é citado envolveria uma digressão séria demais. Basta que se diga, primeiro, que nos escritos apostólicos o uso de um ou outro dos nomes ou títulos do Senhor tem sempre uma significação definida e não é, como acontece conosco, devido meramente à eufonia ou ao capricho. Segundo, todos os que crêem na inspiração divina da Sagrada Escritura devem reconhecer que até mesmo as declarações humanas mais formais e solenes estão em nível diferente e inferior. Portanto, um assunto desse tipo, ao que nos concerne, não é copiar a linguagem da Palavra de Deus, mas ser governados pelos seus preceitos e pelo exemplo daqueles, cujos caminhos e palavras foram controlados pela presença e pelo ensino individual do Senhor.

"O que faria Jesus?" é a mais do que irreverente fórmula pela qual algumas pessoas desejariam estabelecer cada questão. Há alguns anos, segundo o relato dos jornais, os criados da casa de certo nobre inglês, onde o socialismo havia se estabelecido, foram encorajados a dirigir-se ao nobre patrão pelo nome cristão. Mas, certamente, até mesmo na degradação de um lar como esse, a linguagem de saudação dos criados não era "O que Jorge faria?" Mas "O que ele deseja que façamos?"

E neste assunto não devemos apenas nos mirar nos exemplos dos santos antigos, pois temos palavras de definida direção do próprio Senhor: "Vós me chamais mestre e Senhor e fazeis bem..." E certamente isso deveria bastar para todos nós que O amamos e tememos. Mas também devemos nos lembrar de Suas palavras registradas em João 5:22,23, palavras por demais explícitas e solenes, apoiando exatamente essa questão diante de nós: "Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer. E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo."

Elas são lidas, geralmente, como se nada significassem além de que devemos honrar o Pai, mas também o filho. Contudo a linguagem não pode ser mais definitiva e clara. A prerrogativa divina do Julgamento foi a Ele confiada, a fim de que Ele, o Filho, possa receber a mesma homenagem que é prestada ao Pai. Suas palavras não podem ter outra significação. E cada um de nós deve fixar bem isso na consciência, tendo em vista o Tribunal de Cristo, meditando se estamos agindo da mesma maneira pela qual Ele é nomeado hoje em dia, não apenas na conversação normal, mas também nos púlpitos e na literatura "cristã".

O fato tão definitivamente observado nas páginas anteriores é que, nas epístolas, o Senhor é ocasionalmente chamado "Jesus" ou "Jesus Cristo", nomes tão apropriados por muitos com a desculpa de relaxamento ou indiferença neste sentido. Não é para esses que estou fazendo o apelo, embora até mesmo esses devessem estudar os versos iniciais de 1 Coríntios, como ilustração do pensamento e uso apostólico. Citando a edição revisada, o apóstolo se dirige aos coríntios como "santificados em Cristo Jesus" (KJV e ACF). Após a saudação em Jesus Cristo, ele agradece a Deus pela graça que lhes foi dada em Jesus Cristo, falando do testemunho de Cristo, etc., abrindo a epístola com a nomeação de "nosso Senhor Jesus Cristo" (v. 8). Pois em muitos livros cristãos, em 200 páginas, esse título de glória não é encontrado tão freqüentemente como aqui ocorre em menos de 200 palavras.

Este capítulo deve terminar apropriadamente chamando a atenção para um preceito que o texto da edição revisada recobrou para nós: "Santificai a Cristo em vossos corações como Senhor." [Na KJV é "Lord God", na ACF é "Senhor Deus", enquanto na BLH é "respeito por Cristo" e na NVI é "Santificai a Cristo"]. Alguns cristãos, ansiosos para confessá-Lo diante dos homens, muitas vezes se retraem pelo temor de causar escândalo. Temos aqui, então, uma maneira de confessá-Lo, tão eficiente como inofensiva. Se esses cristãos se habituarem a nomeá-Lo sempre com a reverência que Lhe é devida, a confissão habitual dos lábios irá ajudar a santificá-Lo como Senhor na vida diária.

Um documento que me tem tocado, desde que este capítulo foi escrito, supre um vibrante comentário sobre minhas palavras na página 58 [do livro original]. Um trabalho apresentado diante do Victoria Institute por um dos eminentes bispos irlandeses dá a seguinte resposta à questão onde deve ser encontrada a base para a verdade. "Devemos encontrá-la, não em um mero livro, mas na revelação que ele contém. Ao longo de todas as eras, a fonte do poder tem sido, não a simples letra de certos documentos, mas a personalidade e a influência de Jesus Cristo... O maravilhoso caráter de nosso Senhor... Isso é o que torna Jesus Cristo a personalidade mais vívida na história da literatura".

Tais pensamentos são expressos com muito maior entusiasmo por Renan, o incrédulo. Mas não é isso que o apóstolo quer dizer com "conhecer Cristo segundo a carne"? Uma vívida personalidade na história e na literatura bem pode ser uma base permanente para a "religião cristã", mas não para a fé em Cristo. Ela não trará paz à consciência despertada às tremendas realidades do pecado e do juízo vindouro. O cristianismo está embasado na revelação de Jesus Cristo, que viveu e morreu, mas que agora está entronizado em glória — uma revelação que vem a nós não em um mero livro, mas em escritos sagrados inspirados pelo Divino Espírito. Nenhum pensador mais esclarecido e destemido pode encontrar qualquer contemporização inteligente entre a "fé simples" e o agnosticismo.



CAPÍTULO 10

Diz Renan que "o deismo do século 18 e certo tipo de Protestantismo têm nos habituado a pensar sobre o fundador da fé cristã como sendo apenas um grande moralista, um benfeitor da humanidade". Esse é o "Jesus" do racionalista — o "Jesus" de muitos livros "cristãos" e de certos púlpitos "cristãos". Mas o racionalismo é apenas um dos três "R"s pelos quais tem sido solapado o cristianismo. O romanismo e certa fase do reavivalismo, embora se opondo ao racionalismo e um ao outro, tende em vários graus a produzir idênticos resultados. A autoridade da "Igreja" é o lábaro de um; o sentimentalismo é a característica de ambos e a descrença é a base do Racionalismo. Sob o engodo do romanismo encontramos um erudito e grande pensador bestificando a si mesmo pelas superstições da sua religião e, em seguida, apelando a uma "luz tremulante" para conduzi-lo "pelo nevoeiro religioso que o cerca", nevoeiro esse decorrente de ter ele fechado os olhos, tanto à razão como à revelação. E essa "luz tremulante" o leva a adorar a mítica "Mãe de Deus", a qual excede até mesmo ao "Homem Deus" em ternura e piedade.

O bispo Whatley ensinou que os erros de Roma têm suas raízes na natureza humana. E a mesma tendência que leva o católico romano a criar a mitológica Virgem Maria, conduz o protestante a personalizar as suas qualidades femininas no mítico "Jesus" de certos populares livros de devoção e alguns dos nossos hinos.

A hinologia é um assunto delicado de tratar. E mesmo sendo tão grande a influência dos hinos, seria bom que os cristãos considerassem, com atenção inteligente, as letras que estão cantando. Não me refiro aqui aos hinos sentimentalistas e irreverentes, que nenhum cristão deveria tolerar, mas ao verso de um hino familiar, muito menos tolerável do que possa ilustrar a minha objetividade.

Salvo nos braços de Jesus
salvo em seu terno seio
ali coberto pelo seu amor
docemente minha alma deve repousar.
Ouço a voz dos anjos
cantando uma canção para mim
nos umbrais da glória
sobre o mar de jaspe.

Temos aqui "os braços maternais e o seio terno", que nada combinam com o Senhor da Glória. Temos ainda "a voz dos anjos, nos umbrais da glória", tudo isso navegando "num mar de jaspe", totalmente embasado no sentimentalismo.

Quanta diferença das palavras e pensamentos dos homens poderosos na fé, que conquistaram para nós a liberdade, trazendo-nos de volta a Bíblia! Quanta diferença das palavras e ações dos apóstolos do Senhor! Poderia alguém imaginar o discípulo amado cantando um hino com essas palavras tolas? Mesmo tendo mantido um lugar de proximidade com o Senhor e tendo até se debruçado sobre o seu seio, durante a última ceia, ele também caiu aos Seus pés, quando O viu na glória celestial que Ele desfruta hoje, à destra do Pai.

Existem outros hinos, nos quais o pensamento deveria se levantar em louvor, mas que se expandem em puro sentimentalismo. E muitos deles são considerados de alto nível. O hino que inicia com "Vinde a mim, vós cansados!" pode servir de exemplo. Poderia realmente ser um belo hino, se como uma ode a "Jesus", ele fosse mudado como segue para uma letra de fé e adoração ao Senhor.

Vinde a mim, vós cansados
e eu vos darei descanso.
A bendita voz, Senhor Jesus
que chega ao coração oprimido
Ela fala de bênção,
de perdão, de graça e paz
Oh, alegria sem fim
amor que não pode cessar.

Dou estes exemplos e muitos hinos deveriam ser testados do mesmo modo.

Vinde a mim, vós errantes
e luz eu vos darei
é a voz amorosa do Senhor Jesus,
que nos chega para confortar a noite.

Nossos corações estão cheios de tristeza
e perdemos nosso rumo
Mas Tu nos trouxeste alegria
e canções no romper do dia.

Vinde a mim, vós desmaiados
e vida vos darei.
Tua voz consoladora, Senhor Jesus
põe fim à nossa tristeza.

O inimigo é forte, tenaz e ansioso
a luta é feroz e longa
Mas Tu nos tens dado força
e nos tornado mais fortes que os fortes

Qualquer um que venha
não o lançarás fora
Vossa voz bem-vinda, Senhor Jesus,
jogas para longe as nossas dúvidas.

Que nos chama, grandes pecadores
embora sendo indignos
de amor tão gracioso e sem fronteiras
para vir, Senhor, a Ti.

As exigências de ritmo e rima têm muito a ver em nossa hinologia. Mas, até mesmo sem essa desculpa, alguns dos nossos hinos são maculados em nome destes, o que tem acontecido até mesmo em nossos hinos mais nobres.

Por todos os santos que descansam de suas obras
que pela fé Te confessam diante do mundo
Teu Nome, ó Jesus, para sempre bendito seja, Aleluia!

Até mesmo como um poema este hino poderia ser melhorado, se a confissão fosse mudada para "Senhor Jesus" em lugar do anticristão "Ó Jesus" da terceira linha. Se algum membro da família real se dirigisse a Sua Majestade como "Ó Jorge!", a indignação do palácio seria maior do que aquela causada nos dias antigos, se algum ministro, ao conduzir as orações de louvor na igreja, tivesse se dirigido ao Senhor como "Ó Jesus!" E o que dizer dos "hinos infantis"?

Muitos livros escritos para os jovens nos causam grande tristeza. A idéia prevalecente é que no caso dos pequeninos é necessário recorrer ao que um cínico descreveria como "bobos". Deus é deixado no pano de fundo, para policiá-los e castigá-los, quando se comportarem mal. Esse mesmo "Jesus" é apresentado como um ser gentil, o qual lhes dará carinho, se forem bons meninos. Estes hinos deveriam ser repelidos pela verdade, tal como mudam o caráter e as guerras antigas de Samuel e do Rei Davi, de João Batista e de Timóteo. Será que já existiu uma tolice assim?

Nenhum livro de "bondade-bondade" é tão fascinante para uma criança como a grande alegoria de John Bunyan. E nenhum desses hinos irreverentes poderia atrair e encantar esses meninos como os Salmos de Davi. As crianças nunca se impressionam em tristeza no que é inspirado com ais. E para elas o que é sentimental e familiar é mais prejudicial, até mesmo do que para as pessoas maduras. Se desejamos "santificar a Cristo como Senhor em nossos corações", é na vida inicial que os hábitos podem ser mais facilmente formados. Mesmo assim, em muitos lares cristãos é permitido que as crianças falem sobre o tio predileto da família. O que admira é que os filhos dos cristãos precisem se converter. Converter-se é voltar-se para Deus, abandonando os maus caminhos, mas um pai que cria seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor deve confiar que o Senhor cumprirá Sua promessa de que a criança que foi ensinada no caminho em que deve andar nunca se apartará dele.

"Nunca podemos chamar o Senhor de Jesus ou de Jesus Cristo?" Essa pergunta vem de um lar que é considerado, não apenas pelo refinamento e cultura, mas por um alto teor de cristianismo. Não é extraordinário que essas pessoas, em vez de buscar oportunidades de confessá-Lo como Senhor, desejem encontrar ocasião de negar-Lhe a reverência e a honra que Ele exige de todos os que O conhecem?

Estas páginas já excederam os limites previstos originalmente. Contudo, não posso concluir sem antes declamar com ênfase a intenção ou desejo de baixar regras para guiar os outros nesse assunto. Meu propósito foi despertar um inteligente interesse no assunto e tornar urgente entre os cristãos a importância de também seguirem aquele instinto espiritual ao qual apela o apóstolo João, quando escreveu: "E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis." (1 João 2:27) Como indica o contexto, não é que o apóstolo credite os discípulos com a compreensão de todos os mistérios e todos os conhecimentos, mas está apelando aos instintos espirituais deles, a fim de torná-los intolerantes a tudo que possa manchar a honra do Senhor.

Nas cartas de Wiliam Carey (o sapateiro que se tornou, não apenas um pioneiro e um príncipe entre os missionários, mas um conselheiro e amigo de três grandes vice-reis da Índia), encontraremos a seguinte frase inspiradora: "Ser cavalheiro é o mais próximo melhor caráter de um cristão e ser cristão inclui ser cavalheiro!" No espírito dessas palavras eu sugeriria que à parte, até mesmo dos instintos espirituais, se o povo bem considerado seguisse seu sentido natural do que é certo e adequado, descobriria a impropriedade de nomear o Senhor Jesus Cristo como um herói morto, ou coisa assim...

O caráter de um cavalheiro não é formado a partir de um "livro de boas maneiras". É por um instinto de cortesia que nossas palavras e atos são regulados. Contudo, se o socialismo tivesse prevalecido nesta terra, até mesmo por uma geração apenas, e pelo intercurso diário com os seus degradados aderentes tivéssemos esquecido aquele código que não foi escrito, o qual Edmund Burke descreve como "a gratuita graça da vida", precisaríamos de uma não pequena escolaridade hoje em dia na esfera social. Então, não é estranho que, após tantos séculos de "Religião da Cristandade", precisemos ter nossos instintos espirituais acelerados e treinados por meio de um estreito e habitual contato com a Escritura Sagrada?

"Cingi os lombos de vossas mentes" é um preceito do qual ninguém é mais carente e negligente. Pois na esfera da verdade cristã a "mente relapsa" é o que mais existe por aí. Em nenhuma outra esfera ela seria tolerada. Na literatura, na arte e na ciência, a exatidão e o cuidado na terminologia de cada assunto são considerados essenciais. Contudo, nesta sagrada esfera, honoráveis professores exibem uma chocante indiferença e ignorância da terminologia cristã bíblica.

A mente relapsa influencia a conduta. Ela tende a fazer com que se esqueça "o temor do Senhor" e a solenidade do julgamento de Cristo. Daí que alguns de quem coisas melhores poderiam ser esperadas, mantêm comunhão com homens que não apenas difamam o Senhor, desprezando Sua Santa Palavra, mas pela falsa afirmação de serem Seus ministros, cometem o pecado de Judas de traí-Lo com um beijo. Nestes dias de apostasia é nosso dever buscar a presença de nosso Mestre e Senhor, tanto pela denúncia como pela demonstração de intolerância a homens tão degradados. Não com os pecadores comuns — pelos quais eles não nutrem qualquer compaixão — mas com os pecadores das "sinagogas", para quem Ele tem reservado apenas advertências e ais. A Reforma Protestante resgatou a doutrina da salvação exclusivamente pela fé, mas a salvação pela graça tem sido a grande verdade do reavivamento evangélico.

Esta verdade descortinada como um sol de abril, nos escritos dos reformadores protestantes, tornou-se novamente obscurecida pelo agrupamento de nuvens. Logo foi esquecido que a graça que traz salvação também ensina o salvo a viver sóbria, reta e piedosamente neste mundo. O cristão foi relegado à escola da lei, quando deveria viver com a "liberdade com que Cristo nos libertou" (Gálatas 5:1). Mas do que tudo, devemos nos lembrar que a verdade distintiva do cristão de modo algum anulou a revelação procedente de um Deus de infinita santidade e majestade. Nem um pouco da pregação e do ensino atual sugere que o Cristo dos evangelhos suplantou "o grande e tremendo Deus" da antiga Aliança. Mas o "Jesus" apresentado nesse tipo de ensino é apenas um mito. "Aquele que foi manifestado em carne" não é outro senão o Deus do Sinai, e o "nosso Deus é um fogo consumidor". Na presença da glória do Sinai Moisés falou: "Grande temor e terremoto". Mas quando o discípulo amado contemplou a Sua Glória, mesmo tendo se reclinado em Seu seio, na noite da traição, caiu aos seus pés como morto.

Entre os que proclamam em altíssima voz que "toda Escritura é inspirada por Deus..." (2 Timóteo 3:16) quão poucos são os que realmente dão importância ao Apocalipse, como sendo realmente a Palavra de Deus, tanto quanto o sermão a Nicodemos, no capítulo 3 do Evangelho de João! O Apocalipse é tratado como um apêndice desprezível do Novo Testamento, um livro a ser estudado pelas pessoas cultas e com tempo livre. Não existe um livro mais necessário para os nossos dias. Para uma mente esclarecida pelo capítulo de abertura, cada detalhe apresentado na narrativa da humilhação do Senhor tem um significado mais completo e brilha com uma luz celestial. Vamos ao registro dessa visão, conforme Apocalipse 1:13-18:

"E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro. E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas. E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece. E eu, quando vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último; e o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno."

Na presença de uma glória tão tremenda, uma pessoa que depende da "religião do crucifixo" [ou da prosperidade], a figura de um "Jesus" criado segundo a imagem do homem se desvanece como a neblina à luz do sol. Mas o fulgor "do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus" (2 Coríntios 4:4) traz uma paz eterna e infalível. Não que devamos desistir de um "jota" ou um "til" do registro de Sua obra terrena, mas nossa fé deve repousar sobre isso, resultando na glorificação do Senhor que há de voltar. E, voltando do Cristo da glória para o Cristo da humilhação, o Seu "Está consumado" dito na cruz é coroado pelo "não temas" do trono.

E se os "olhos do nosso coração" ficarem repletos de Sua glória, em vez de indagar: "Nunca devemos chamá-Lo Jesus?" será o nosso mais profundo e incessante objetivo "servi-Lo com reverência e temor divino", a fim de ganharmos um lugar no Livro de Memória escrito diante Dele, onde estão inscritos todos os nomes dos que O temem e meditam no Seu Nome.

Fim de "A Glória do Seu Nome"

Traduzido a partir do original em http://www.newble.co.uk/anderson/literature.html



Tradução: Mary Schultze
Data da publicação: 2/10/2005
Revisão: http://www.TextoExato.com
A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/gsn.htm

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