O Anticristo

Autor: Arthur W. Pink



CAPÍTULO 6

A Carreira do Anticristo


Chegamos agora à parte mais interessante e também a mais difícil do nosso assunto. Quando o Anticristo se manifestará? Onde ele aparecerá? O que ele fará? Estas são questões que prontamente ocorrem a todos que param para pensar no assunto. Não é nosso propósito procurar satisfazer o curioso fútil, e menos ainda agradar aqueles que gostam do sensacionalismo. Estamos bem cientes que o tema atual tem um forte apelo para aqueles que são muito curiosos e, se não fosse pela importância da nossa investigação, nós o deixaríamos de lado. Mas, sem a devida consideração à pessoa e ao local do aparecimento do vindouro super-homem, é impossível compreender a escatologia do Velho ou do Novo Testamento.

A principal dificuldade é organizar em sequência cronológica as muitas passagens que tratam do Anticristo. Não é tarefa fácil descobrir a ordem exata em que as profecias que lidam com o Homem do Pecado receberão seu cumprimento. Há grande necessidade de um estudo acompanhado por muita oração nesta linha. Somente podemos escrever de acordo com a luz que temos agora e nossos leitores precisam examinar por si mesmos aquilo que dizemos à luz das Escrituras. Não é sábio ser dogmático quando a própria Palavra não diz claramente o tempo exato em que certas profecias serão cumpridas.

Neste capítulo, estamos em uma posição de desvantagem, pois seremos obrigados a fazer breves exposições de muitas escrituras onde será impossível fazer uma pausa e fornecer as provas ou apresentar as razões para cada interpretação. Por exemplo, é nossa firme convicção que o Assírio de Is. 10, o rei de Babilônia de Is. 14, o chifre pequeno de Dn. 7, o chifre pequeno de Dn. 8, e a primeira besta de Ap. 13, são todos eles o Anticristo em diferentes relacionamentos. Existem alguns estudantes da Bíblia que podem discordar nesses pontos e reclamar, porque neste capítulo fazemos afirmações sem nos preocupar em prová-las. Lamentamos isto, mas pedimos que você continue pacientemente a leitura. Em capítulos posteriores, dedicaremos estudos separados ao Anticristo nos Salmos, nos Profetas, nos Evangelhos, nas Epístolas e no Apocalipse, quando então tentaremos examinar cada passagem separadamente e tentaremos provar nas Escrituras cada interpretação adotada.

Embora seja admitidamente difícil e, talvez até impossível, encaixar cada profecia com relação ao Anticristo em sua própria posição cronológica, somos capazes de determinar a posição relativa da maioria delas. A carreira do Anticristo está dividida em duas partes distintas e há uma linha divisória claramente definida entre elas. Nos capítulos anteriores, salientamos que o nome "Anticristo" tem um significado duplo, podendo significar alguém que imita a Cristo, mas também alguém que se opõe a Cristo. Esse duplo significado do seu nome corresponde exatamente às duas partes principais da sua carreira. Na primeira, ele posará como o verdadeiro Cristo, afirmando ser o Messias de Israel. Essa afirmação será apoiada pelas mais imponentes credenciais e todos, exceto os eleitos de Deus, serão enganados. Ele se assentará no Templo (um templo judaico reconstruído em Jerusalém), apresentando-se como Deus e honras divinas lhe serão prestadas. Mas, em um estágio posterior, ele tirará a máscara e aparecerá em seu verdadeiro caráter de opositor a Cristo e desafiante de Deus. Então, em vez de se mostrar um amigo dos judeus, ele se voltará contra eles e procurará exterminá-los da face da Terra. Assim, com muitas das Escrituras que descrevem a pessoa e a carreira do Anticristo, é uma questão relativamente fácil determinar se elas pertencem ao primeiro ou ao segundo estágio da sua carreira. Mas, com outras Escrituras, é difícil determinar exatamente a posição cronológica delas.

Agora, consideraremos primeiro o tempo do aparecimento do Anticristo. Praticamente não é necessário entrarmos em uma discussão minuciosa para mostrar que o Anticristo (como tal) ainda não apareceu. Muitos anticristos já apareceram e desapareceram, e alguns deles estão no mundo neste exato momento; o mesmo é igualmente verdadeiro com relação aos muitos falsos profetas preditos nas Escrituras; mas todos esses são apenas prenúncios e precursores do Anticristo e do Falso Profeta, que ainda haverão de aparecer e que receberão sua derrota final quando o Senhor Jesus retornar a este mundo. Antes de o Anticristo aparecer, o Espírito Santo precisa ser retirado do caminho (2 Ts. 2:7); o antigo Império Romano precisa ser restaurado e assumir sua forma final — dividido sob o domínio de dez reis — antes que o "chifre pequeno" assuma a proeminência (em Dn. 7:24 ele aparece após esses reis); Israel precisará ser restaurado à sua terra e o Templo precisará ser reconstruído, etc.

No tempo presente, o desenvolvimento final do "Mistério da Injustiça" está sendo impedido. O povo de Deus é o sal da terra e sua presença aqui impede a putrefação do "cadáver" (Mt. 24:28 — o "cadáver" é a antítese do "corpo" de Cristo). Os santos são a luz do mundo e, enquanto permanecerem aqui, é impossível para as "trevas cobrirem a terra, e a escuridão os povos" (Is. 60:2). O Espírito de Deus está aqui, habitando nos cristãos e Sua santa presença impede a execução dos planos finais de Satanás. Mas, quando todos os crentes desta dispensação forem "arrebatados para encontrar o Senhor nos ares" (1 Ts. 4:16) e o Espírito Santo tiver partido da Terra, toda a restrição será removida e Satanás terá a permissão para apresentar seu falso cristo, que será revelado no seu tempo (2 Ts. 2:6) e parece que agora os sinais não mostram que Deus já deu permissão para Satanás preparar o cenário para a pavorosa concretização de seus esforços malignos. Não pode haver dúvida que o Diabo sempre desejou revelar o Filho da Perdição muito antes, para que, por meio dele, possa colocar todo o mundo em submissão. Entretanto, a mão restritora de Deus, que em breve será removida, até aqui o tem impedido.

Portanto, o tempo em que o Anticristo será revelado é após esta presente Dispensação da Graça terminar, após o corpo místico de Cristo ter sido completado, após todo o povo de Deus ser tomado para encontrar o Senhor nos ares, após o Espírito Santo se retirar deste mundo. Quanto tempo depois, não podemos afirmar com certeza. A maioria dos estudantes de assuntos proféticos parece pensar que o último grande César virá à proeminência quase que imediatamente após o arrebatamento dos santos. Pessoalmente, acreditamos que haverá um intervalo, longo ou curto, entre os dois eventos. Como houve um período de trinta anos após o nascimento do Senhor Jesus — um período de silêncio — antes de Seu ministério público começar, assim também poderá existir um intervalo similar entre o arrebatamento e a revelação do Anticristo.

O Anticristo entrará na arena da vida pública após o início da septuagésima semana de Daniel, pois no início dela ele fará um pacto de sete anos com os judeus, então já em sua terra. Neste ponto, ele será o ditador político do mundo e, como ele iniciará em relativa obscuridade (pelo menos do ponto de vista governamental), algum tempo — provavelmente anos — precisará existir para permitir sua ascensão gradual à supremacia política. Sua carreira meteórica terminará somente quando o próprio Senhor descer a este mundo para dar início ao Milênio. Exatamente como o reinado de Saul precedeu o de Davi, assim também o reinado do Anticristo antecederá o do verdadeiro Cristo.

Vamos agora considerar o local do aparecimento do Anticristo. Tanto quanto este autor saiba, existem somente duas escrituras que dão informações diretas sobre este ponto e ambas se encontram na profecia de Daniel. Referenciamos as passagens que falam do "chifre pequeno". Em Dn. 7:7-8, lemos: "Depois disto eu continuei olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres. Estando eu a considerar os chifres, eis que, entre eles subiu outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas." Essa quarta besta é o último império mundial, antes do estabelecimento do reino messiânico. Inicialmente, esse império será governado por dez reis — os "dez chifres" do verso 7 e definidos como dez reis no verso 24. Depois deles se levantará outro, o "chifre pequeno", o que significa outro "rei" — veja o v. 24. Ele é chamado de "pequeno" porque neste estágio seu reino será pequeno em comparação com os dos outros e o poder que ele terá será insignificante quando comparado com os dez reis. Entretanto, ele não permanecerá fraco e insignificante por muito tempo. Os dez reis logo farão uma declaração de fidelidade a esse décimo primeiro rei — veja Ap. 17:12-13. Reservamos para um capítulo posterior as provas que esse "chifre pequeno" é o Anticristo e pedimos que os leitores estudem atentamente a descrição fornecida sobre ele em Dn. 7:8,20-27; 8:9-12,23-25.

Dando por certo (no momento) que o chifre pequeno de Dn. 7 é o Anticristo, vamos ver como aquilo que é dito dele ali nos ajuda a determinar a região de onde ele surgirá. Em Dn. 7:7, a quarta besta é descrita e, em 7:23, lemos: "O quarto animal será o quarto reino na terra, o qual será diferente de todos os reinos; e devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços." Esse reino estará dividido em dez partes, sobre as quais haverá dez reis (7:24). Esse reino será, acreditamos, o antigo Império Romano restaurado em sua forma final e dividido em duas grandes metades — a Oriental e a Ocidental. Esse quarto reino incluirá em seu interior todo o território e perpetuará todas as características dominantes dos outros três reinos que o precederam, isto é, o Babilônio, o Medo-Persa e o Grego. Voltando agora para Dn. 7:8, lemos: "Estando eu a considerar os chifres, eis que, entre eles subiu outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas." Portanto, o Anticristo surgirá a partir de dentro dos limites do antigo Império Romano. Isso reduz consideravelmente nosso círculo de investigação. A próxima pergunta é: Podemos determinar de qual parte do império ele surgirá — da Oriental ou da Ocidental? Dn. 8 fornece esclarecimento sobre este ponto.

Em Dn. 8:8-9, lemos: "E vi-o chegar perto do carneiro, enfurecido contra ele, e ferindo-o quebrou-lhe os dois chifres, pois não havia força no carneiro para lhe resistir, e o bode o lançou por terra, e o pisou aos pés; não houve quem pudesse livrar o carneiro da sua mão. E o bode se engrandeceu sobremaneira; mas, estando na sua maior força, aquele grande chifre foi quebrado; e no seu lugar subiram outros quatro também insignes, para os quatro ventos do céu." Agora, o v. 21 deste mesmo capítulo diz: "Mas o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei" e o v. 22 diz: "O ter sido quebrado, levantando-se quatro em lugar dele, significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, mas não com a força dele." Isto, é claro, refere-se a Alexandre, o Grande, que dividiu seu reino em quatro partes — Grécia, Egito, Síria e o restante dos domínios na Turquia — para seus quatro generais: Ptolomeu, Cassandro, Lisímaco e Selêuco. Isto, novamente, reduz em muito nosso círculo de investigação. Dn. 7 diz que o chifre pequeno aparecerá em uma parte do território coberto pelo antigo Império Romano, que gradualmente incluiu em seus domínios os impérios precedentes. Agora aqui em Dn. 8, ficamos sabendo que o chifre pequeno surgirá daquela parte do Império Romano restaurado, que estava incluída no Império Grego. Mas isto não é tudo o que Dn. 8 nos diz. O Império Grego é visto aqui desintegrado em quatro partes, ou reinos. De qual dessas partes, então, podemos esperar que o Anticristo venha — Macedônia, Egito, Síria ou Trácia? Esta questão, acreditamos, recebe resposta em Dn. 8, onde somos informados que o chifre pequeno "cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa". Praticamente todos os estudantes de assuntos proféticos concordam que "o sul" aqui se refere ao Egito, o "oriente" se refere à Pérsia e à Grécia e "a terra formosa" à Palestina, de onde parece que o país em que o Anticristo primeiro se manifestará é a Síria. Pode-se observar que nada é dito em Dn. 8:9 a respeito do chifre pequeno "crescer muito" em direção ao norte, e acreditamos que a razão para isto é porque esta é a região de onde ele surgirá. Isto é confirmado pelo fato de "o rei da Assíria" em Is. 10:12 ser claramente ninguém menos que o Anticristo. Podemos dizer que esta era a opinião dos autores cristãos de assuntos proféticos durante os dez primeiros séculos da era cristã. O falecido W. B. Newton, em seu esplêndido Aids to the Study of Prophetic Inquiry resumiu sucintamente os vários argumentos dos antigos autores com as seguintes palavras:

"Em primeiro lugar, como Ninrode — o fundador de Babel, isto é, da Torre de Babilônia — um tirano selvagem e um opressor cruel dos homens, foi a primeira pessoa que declarou guerra aberta contra Deus; assim é apropriado que ali, na mesma Babilônia, surja o último e mais atroz perseguidor dos santos — o Anticristo. Além disso, tendo em vista que Nabucodonosor e Antíoco Epifânio — dois monstros que colocaram o poder massacrante da destruição sobre o povo de Deus, e que foram os anticristos do Velho Testamento e tipos notáveis do vindouro Anticristo, e tendo em vista que esses monarcas reinaram em Babilônia, faz sentido que o verdadeiro Anticristo do Novo Testamento também surja da mesma Babilônia."

"Além do mais, nenhum outro lugar pode ser considerado mais apropriado para a natividade do Anticristo do que Babilônia, pois essa é a Cidade do Diabo — sempre diametralmente oposta a Jerusalém, que é considerada a Cidade de Deus. Babilônia, a primeira cidade, sendo a mãe e disseminadora de todo tipo de confusão, idolatrias, impiedades — um local onde imperavam a degradação moral, crimes e iniquidades — a primeira cidade no mundo que se separou da adoração ao verdadeiro Deus — o que a transformou na cidade do vício universal, que perpetuamente (de acordo com os registros nas Escrituras Sagradas) leva adiante o mistério da iniquidade, e tem inscrito em sua fronte uma blasfêmia contra o nome de Deus. Portanto, o máximo da impiedade, que é ter sua recapitulação no Anticristo, não poderia surgir de um local mais apropriado do que Babilônia."

Agora que já tratamos com certa profundidade do tempo e do local do aparecimento do Anticristo, tentaremos apresentar uma visão geral dos principais eventos em sua carreira. Vimos que as escrituras que nos ajudam a determinar a direção de onde ele surgirá falam dele com o título de "chifre pequeno". A primeira coisa que esse título indica é que ele será um rei, o rei da Assíria. Alguns, sem dúvida, se perguntarão como um judeu conseguirá obter o trono da Síria. Várias respostas podem ser sugeridas — por exemplo, como o líder de uma rebelião bem-sucedida — o espetáculo de um obscuro plebeu rapidamente ascender ao cargo de ditador nacional, foi exibido diante de nossos olhos na Rússia alguns anos atrás. Entretanto, neste ponto, não precisamos especular. Dn. 11:21 nos diz que um "homem vil" virá caladamente e tomará o reino por meio de intrigas. Com isto concorda Ap. 6:2, que mostra o Anticristo montado em um cavalo branco de guerra e com um arco na mão, porém sem flechas. Este símbolo sugere vitórias sem derramamento de sangue.

Assim que esse judeu adquirir a coroa da Síria, ele rapidamente alargará seus domínios. Como Ap. 6:2 nos diz, ele "saiu vitorioso e para vencer" e, como somos informados em Hc. 2:5: "Tanto mais que, por ser dado ao vinho é desleal; homem soberbo que não permanecerá; que alarga como o inferno a sua alma; e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos." A primeira coisa que está predita sobre ele (como o "chifre pequeno") é que "abaterá a três reis" (Dn. 7:24). Sobre quais poderão ser esses reis, parece estar indicado em Dn. 8:9, onde somos informados: "E de um deles saiu um chifre muito pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa." Ele crescerá muito primeiro em direção ao sul, isto é, muito provavelmente, por uma expedição vitoriosa ao Egito. Em seguida, ele é visto se dirigindo ao oriente, reduzindo, em uma extensão em que não somos informados, os domínios da Pérsia e da Grécia; finalmente, ele voltará sua face em direção à terra formosa, que é a Palestina. Sem sermos dogmáticos, sugerimos que os três reis que ele subjugará serão os do Egito, Pérsia e Grécia.

Tendo subjugado os três reis usando seu gênio militar, um "acordo" será feito com ele (veja Dn. 11:23). Provavelmente serão os sete reis restantes do Império Romano restaurado, mais os três vassalos do Anticristo, que tomarão o lugar dos reis que ele depôs, que entrarão nesse acordo com o chifre pequeno, ou o rei da Assíria; mas ele trabalhará de forma enganosa, e se tornará forte com pouca gente (Dn. 11:23). Tão forte ele se tornará que em um curto espaço de tempo alcançará a supremacia política, e todos os dez reis "darão o seu reino à besta" (Ap. 17:17) e ele então será reconhecido com o Imperador. Assim, como rei de reis, ele ditará as políticas da Europa e da Ásia.

"O chifre pequeno restaurará em si mesmo toda a glória personificada da Babilônia, Média-Pérsia, Grécia e Roma. Não vamos considerar que este seja um evento incrível. Precisamos lembrar que o Anticristo será a obra-prima de Satanás e virá apoiado por toda a influência e riquezas para tomar o cetro das mãos Daquele que o ganhou por Sua humilhação na cruz. A respeito do Anticristo se diz que ele 'se levantará contra o Deus dos deuses'. As honras acumuladas e restauradas de cada sucessor real serão para coroar a cabeça desse último e maior dos monarcas gentios. E assim ele ficará, em sua magnificência inigualável, até que a Pedra despedace a ele e ao seu poder, e reduza tudo ao pó." (G. Needham).

Após o Anticristo ter adquirido a soberania política da terra profética, ele então entrará em seu papel religioso, afirmando ser o Cristo de Deus e exigindo honras divinas. À primeira vista parece estranho, para não dizer incongruente, que um déspota militar queira ocupar o papel de um impostor religioso. Entretanto, a história mostra que há um ponto em que um papel prontamente se funde no outro. A ambição política, embriagada pelo sucesso, descobre o passo fácil da autoglorificação e da autodivinização, e o tolo amor popular passa facilmente da adulação abjeta ao tirano para a adoração ao deus. Ou então, um impostor religioso, incentivado pelo domínio que obteve sobre as mentes dos homens, toma o cetro do poder secular e se transforma no mais arbitrário dos déspotas. Ap. 13:4 deixa bem claro que as façanhas militares do Anticristo é que primeiro induzirão os homens a lhe prestarem homenagem como se fosse uma divindade: "E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?" Entretanto, honrarias ordinárias não serão suficientes para ele. Suas ambições religiosas serão tão insaciáveis quanto as políticas, pois ele "se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus" (2 Ts. 2:4). Essa pretensão de querer parecer ser o próprio Deus encarnado será apoiada por suas credenciais impressionantes, pois sua vinda será "segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira" (2 Ts. 2:9). Esses milagres não serão meras falsificações, mas verdadeiros prodígios de poder.

Os judeus, que já terão retornado à Palestina e com o templo de Jerusalém reconstruído, receberão esse Filho da Perdição como seu longamente aguardado Messias. (veja Jo. 5:43). Imitando o verdadeiro Cristo, que, em Seu retorno a este mundo, "com a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerá uma nova aliança" (Hb. 8:8, compare com Jr. 31 e Ez. 36), o Anticristo fará uma aliança com os judeus (veja Dn. 9:27 e 11:22). Com um tratado de sete anos de duração e sob o disfarce da amizade, ele ganhará supremacia em Jerusalém, somente para mais tarde tirar a máscara e denunciar o acordo.

Cerca de sete meses após o Anticristo, o "príncipe" (isto é, do Império Romano) de Dn. 9:27 estabelecer a aliança com os judeus, ele começará a "praticar" em Jerusalém. (Dn. 8:24). Acreditamos que esta seja a explicação para os dois mil e trezentos dias de Dn. 8:14, que deixa tantos comentaristas confusos e sem explicações. Esses dois mil e trezentos dias são o período total durante o qual o falso messias praticará em Jerusalém e terá poder sobre o "santuário": dois mil e trezentos dias são sete anos, menos sete meses e dez dias.

Ali, em Jerusalém, ele posará como o Cristo de Deus, o Príncipe da Paz. O mundo imaginará que o longamente aguardado Milênio chegou. Todos os indícios que a tão desejada Era Dourada, finalmente se iniciou, estarão presentes. As grandes potências da Europa e da Ásia estarão unidas em um Império de dez reinos. Todos esperarão que a Liga das Nações garanta a paz mundial. Por um período de tempo, a calma e a compreensão mútua prevalecerão. Ninguém se atreverá a se opor ao poderoso Imperador. Todavia, o horrendo espectro da guerra não se ocultará por um período muito longo. Depois de pouco tempo, o "cavalo branco" de Ap. 6 mudará de tonalidade. O "cavalo vermelho" aparecerá e então a paz será retirada da terra (Ap. 6). Exatamente no momento em que todos estiverem se congratulando com a normalidade e a frase do momento for "Paz e Segurança", então repentina destruição virá sobre eles (1 Ts. 5:3).

Na metade dos sete anos o Anticristo tirará sua máscara, denunciará o tratado com Israel e se apresentará como o mais atrevido idólatra que já viveu neste mundo. Após ter "praticado" em Jerusalém por dois anos e cinco meses, ele tirará o sacrifício contínuo (Dn. 8:11; 9:27) do templo e, em seu lugar, colocará uma imagem de si mesmo no santo lugar, o que será a "abominação da desolação" referenciada por Cristo em Mateus 24:15.

Isto nos traz à grande linha divisória de sua carreira, que referenciamos no início deste capítulo. É um ponto não somente de interesse, mas de considerável importância, entender o que causará essa impressionante mudança de fachada, de posar como o verdadeiro Cristo para passar a ser um desafiante declarado de Deus. Existem diversas escrituras que lançam luz sobre este ponto. Satanás fará o Homem do Pecado coroar sua atrevida imitação do Cristo de Deus sendo morto e ressuscitando novamente.

Tanto o Velho quanto o Novo Testamento referenciam a morte do Anticristo e a atribuem à espada. Em Ap. 13:14, lemos que o Falso Profeta dirá àqueles que vivem sobre a terra que façam uma imagem à besta, que tinha sido ferida à espada e vivia. Em harmonia com isto, lemos em Zc. 11:17: "Ai do pastor inútil, que abandona o rebanho! A espada cairá sobre o seu braço e sobre o seu olho direito; e o seu braço completamente se secará, e o seu olho direito completamente se escurecerá." Deve ser observado que antes de lermos que "a espada cairá sobre ele", somos informados que ele "abandonará o rebanho", e o verso anterior nos diz que ele será "suscitado na terra', o que somente pode significar que governará a Palestina. Portanto, é claro que ele deixará a terra antes de receber seu ferimento mortal à espada. Em perfeita concordância com isto está aquilo que lemos em Is. 37:6-7 (em um capítulo posterior trataremos detalhadamente da futura Babilônia, que será restaurada; a conexão do Anticristo com ela e o típico e profético significado de Is. 37 e 38): "E Isaías lhes disse: Assim direis a vosso senhor: Assim diz o SENHOR: Não temas à vista das palavras que ouviste, com as quais os servos do rei da Assíria me blasfemaram. Eis que porei nele um espírito, e ele ouvirá um rumor, e voltará para a sua terra; e fá-lo-ei cair morto à espada na sua terra."

Deixando a Palestina, o Anticristo "voltará para a sua própria terra", isto é, retornará para seu país natal — a Assíria — o que confirma aquilo que dissemos anteriormente sobre a Assíria ser o país onde o Anticristo se manifestará inicialmente. Ali, em sua própria terra, ele cairá à espada. Mais provavelmente, ele será morto por seus inimigos políticos, que invejarão seu poder e estarão irritados por sua arrogante autocracia. Na morte, ele será odiado e desonrado, e o sepultamento lhe será negado. É a isto que Is. 14 (falando do rei de Babilônia, veja o v. 4) se refere: "Porém tu és lançado da tua sepultura, como um renovo abominável, como as vestes dos que foram mortos atravessados à espada, como os que descem ao covil de pedras, como um cadáver pisado. Com eles não te reunirás na sepultura; porque destruíste a tua terra e mataste o teu povo; a descendência dos malignos não será jamais nomeada." (versos 19-20). Entretanto, seus inimigos serão subitamente tomados por consternação e, depois, por admiração, pois, para sua surpresa, esse que foi morto à espada ressuscitará e sua ferida mortal será curada — observe como isto está implícito em Is. 14, pois o v. 25 o mostra uma vez mais na terra dos viventes, somente para encontrar sua condenação final pelas mãos do próprio Senhor. É a essa surpreendente ressurreição do Anticristo que Ap. 13:3-4 se refere: "E vi uma das suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta. E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?" Os detalhes de sua ressurreição são fornecidos em Ap. 9, de onde podemos ver que exatamente como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos por Deus, o Pai, assim também o Anticristo será ressuscitado dos mortos pelo seu pai, o Diabo — veja o v. 1, onde a "estrela" caída, uma referência a Satanás, recebe a "chave do poço do abismo" e, quando abre a tampa, misteriosos gafanhotos saem do poço, e o rei deles é chamado de Destruidor (v. 11), um título do Anticristo.

Uma referência adicional à ressurreição do Anticristo, sua vinda do poço do abismo encontra-se em Ap. 17:8: "A besta que viste foi e já não é, e há de subir do abismo, e irá à perdição; e os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá." Devemos observar que aqueles que habitam na terra se maravilharão ao verem a besta que era (esteve viva), e já não é (está morta agora), mas que virá (ressuscitará novamente). O mundo assistirá ao espetáculo da ressurreição de um homem. Todos o conhecem, pois sua carreira e incrível progresso foram observados com atenção; suas extraordinárias realizações e suas campanhas militares foram o assunto das notícias diárias; seu gênio superior despertou a admiração geral. Eles testemunharam sua morte e, sem dúvida, ficaram tomados de temor com a queda do rei dos reis. E agora ele está vivo novamente; sua ferida mortal foi curada e todo o mundo se maravilha e adora a besta.

Aparentemente, é por volta deste tempo que o Falso Profeta (Ap. 13:11-16), a terceira pessoa na Trindade do Mal, aparecerá em cena. A partir de diversas escrituras, é evidente que o Anticristo não passará o tempo todo na Palestina durante os últimos três anos e meio de sua carreira. Parece que logo após a metade da "semana", a besta voltará sua face novamente para Babilônia, deixando o Falso Profeta atuar como seu vice-gerente, dizendo a todos em Jerusalém que adorem a imagem da besta, e fazendo morrer todos os que rejeitarem (Ap. 13:15). Também devemos observar que Hc. 2:5 nos diz que o Anticristo é um "homem soberbo que não permanecerá; que alarga como o inferno a sua alma; e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos."

A razão para o Anticristo retornar a Babilônia não é difícil de entender. Tendo removido sua máscara do fingimento religioso, ele se colocará agora como o desafiante de Deus. Sua primeira ação será erradicar da terra tudo o que leve o nome de Deus. Para realizar isto, o povo judeu precisará ser exterminado e, com esta finalidade, ele colocará todo o seu poder para banir Israel de ser uma nação na Terra. Ele fará guerra contra os santos (os santos entre o povo judeu) e prevalecerá contra eles (Dn. 7:21; 8:24); esta é a cavalgada do "cavalo vermelho" de Ap. 6:4.

Os integrantes do remanescente fiel a Deus "fugirão para os montes" (Mt. 24:16) e serão caçados como perdizes. Neste tempo eles clamarão: "Ó Deus, não estejas em silêncio; não te cales, nem te aquietes, ó Deus, porque eis que teus inimigos fazem tumulto, e os que te odeiam levantaram a cabeça. Tomaram astuto conselho contra o teu povo, e consultaram contra os teus escondidos. Disseram: Vinde, e desarraiguemo-los para que não sejam nação, nem haja mais memória do nome de Israel." (Sl. 83:1-4). Então, como muitos dos judeus estarão naquele tempo vivendo em Babilônia (veja Jr. 50:8; 51:6, 45; Ap. 18:4), o Anticristo irá para lá para derramar sua vingança sobre eles. Mas ele não continuará sua carreira sanguinária e blasfema por muito tempo. O céu responderá aos clamores do remanescente fiel de Israel e terrível será a punição dada ao seu último inimigo. Isto, porém, será deixado para consideração no próximo capítulo, quando trataremos dos últimos dias e da condenação do Anticristo.

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Data da publicação: 3/9/2010
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