O Anticristo

Autor: Arthur W. Pink



CAPÍTULO 10

O Anticristo nos Evangelhos e nas Epístolas


O Velho e o Novo Testamentos têm muitas coisas em comum — muito mais do que alguns mestres da verdade "dispensacional" parecem saber — mas existem também alguns contrastes notáveis entre eles. Falando em termos gerais, o primeiro é principalmente profético; o segundo é principalmente didático. Há muito mais que é dito no primeiro sobre o futuro de Israel do que há no segundo. Muito mais espaço é dedicado no Velho Testamento para descrever as condições que existirão no período da Tribulação. E muito mais foi revelado por meio dos profetas sobre o Anticristo do que foi dado a conhecer por meio dos apóstolos. Há, porém, um livro no Novo Testamento que é uma notável exceção e que é peculiarmente profético em seu caráter e conteúdo — o Apocalipse. Ali, talvez, mais é dito sobre a pessoa e a carreira do Homem do Pecado do que em todo o restante do Novo Testamento junto.

As passagens que referenciam diretamente o Anticristo nos quatro evangelhos são poucas em número, mas, além delas, existem várias referências indiretas a ele, e essas requerem um exame mais cuidadoso por causa de sua aparente obscuridade. O autor acredita que possam existir outras passagens nos Evangelhos que tratem do Homem do Pecado em suas variadas relações, e que contenham uma visão esotérica dele, mas que o Espírito Santo ainda não quis revelar aos estudantes das profecias. Portanto, o leitor não deve considerar este capítulo como um tratamento completo ou exaustivo do assunto; ao contrário, ele deve servir de estímulo para o leitor fazer, por conta própria, um exame paciente e acompanhado por muita oração.

O Anticristo recebe uma atenção ainda menor nas epístolas que nos quatro primeiros evangelhos. Até aqui, fomos capazes de descobrir que ele é referenciado somente em 2 Ts. 2 e nas epístolas do apóstolo João. A razão para isto não é difícil de descobrir. As epístolas se destinam àqueles que são membros do Corpo de Cristo e, ao tempo em que o Anticristo aparecerá no cenário da história humana, eles estarão muito acima desta cena terreal — com seu bendito Senhor na casa do Pai. Entretanto, "toda Escritura" é proveitosa para nossa instrução e é necessária para nosso esclarecimento. Deus quis revelar muito sobre as coisas que em breve devem acontecer, e pode ser que aqueles que ignoram ou negligenciam o estudo das porções proféticas das Escrituras sejam tomados de surpresa quando, em um dia vindouro, contemplarem com admiração o cumprimento da profecia; e, possivelmente, essa surpresa (devido à ignorância por causa da negligência) está incluída naquilo que o apóstolo se refere quando diz "e não sejamos confundidos por ele na sua vinda" (1 Jo. 2:28). Certamente, é nosso dever, bem como nosso privilégio, examinar diligentemente tudo o que Deus se agradou em nos revelar em Sua Palavra.

1. Passando pelo típico ensino de Mt. 2, que virá diante de nós em um capítulo posterior, vamos nos voltar primeiro para Mt. 12, que é um dos mais importantes capítulos nesse Evangelho, e que fornece umas das principais chaves para sua interpretação dispensacional. Nele, está registrada a primeira grande ruptura entre os judeus e Cristo, que eventualmente terminou com eles o crucificando. No v. 14, lemos: "E os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem." Esta é a primeira vez que lemos algo assim no Evangelho de Mateus. Em seguida, lemos: "Trouxeram-lhe, então, um endemoninhado cego e mudo; e, de tal modo o curou, que o cego e mudo falava e via." (v. 22) Até este tempo, este foi, de longe, o milagre mais notável que nosso Senhor tinha realizado. O efeito sobre aqueles que o testemunharam foi geral e profundo — "E toda a multidão se admirava e dizia: Não é este o Filho de Davi?" (v. 23). Tinha de ser o longamente aguardado Messias que agora estava ali no meio deles. Mas, os fariseus estavam cegos pelo ódio contra ele e cometeram o pecado para o qual não existe perdão: "Mas os fariseus, ouvindo isto, diziam: Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios." (v. 24). Então, seguindo Sua resposta à terrível blasfêmia deles e chamando-os de "raça de víboras" (v. 34), nosso Senhor proferiu uma parábola profética que está diretamente relacionada com o nosso tema:

"E, quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para a minha casa, de onde saí. E, voltando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e são os últimos atos desse homem piores do que os primeiros. Assim acontecerá também a esta geração má." (versos 43-45). A primeira coisa a observar com relação a esta misteriosa e notável passagem é seu pano de fundo. Isto, como tentamos indicar anteriormente, tem a ver com o solene pronunciamento de Cristo sobre aqueles que estavam determinados a destruí-Lo, e que eram culpados do pecado imperdoável. Nesse pronunciamento, Ele declara o julgamento que Deus ainda enviará sobre o apóstata Israel.

Nossa próxima preocupação é compreender o significado dessa parábola. A figura central é o "espírito imundo". Esse espírito imundo é visto aqui em três conexões: primeiro, habitando em um homem; segundo, saindo do homem; terceiro, retornando ao homem e habitando nele novamente. No v. 44 o homem é chamado pelo espírito imundo de "minha casa". Esse homem inquestionavelmente representa Israel, pois no fim da parábola, Cristo diz: "Assim acontecerá também a esta geração má." Quem, então, está sendo referido por "espírito imundo"? Acreditamos que seja o Filho da Perdição. As seguintes razões nos levam a esta conclusão. Primeira, marque atentamente o uso do artigo definitivo; ele não é simplesmente "um" espírito imundo, mas "o" espírito imundo. Segunda, observe sua relação tripla com Israel. No tempo em que o Salvador proferiu essas palavras, o Filho da Perdição estava presente no meio de Israel. Mas, um pouco mais tarde, ele não estaria mais. Quando ele se enforcou, passou da cena deste mundo terreal para o outro mundo; conforme Atos 1:25 comparado com Ap. 11:7 nos diz, para o abismo. Seu estado atual no abismo é gráfica e solenemente mostrado — "... anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra." (v. 43). Então, ele diz: "Voltarei para a minha casa, de onde saí." Isto, entendemos, se refere à reencarnação do Filho da Perdição, quando ele aparece na Terra pela segunda vez como o Homem do Pecado. Então, em um sentido especial, Israel será "sua casa". Uma terceira razão por que acreditamos que o "espírito imundo" é o Filho da Perdição é fornecida por Zc. 13:2: "E acontecerá naquele dia, diz o SENHOR dos Exércitos, que tirarei da terra os nomes dos ídolos, e deles não haverá mais memória; e também farei sair da terra os profetas e o espírito da impureza." Claramente, este verso fala do fim dos tempos. O que vem em seguida é muito interessante. Os versos 3 e 4 tratam dos profetas que profetizam falsamente. Mas, no v. 5, há uma mudança notável do gênero plural para o singular: "Mas dirão: Não sou profeta, sou lavrador da terra..", etc. O único antecedente a esse pronome é o "espírito da impureza" do v. 2, que aqui no v. 5 parece ser não uma mera abstração, mas uma pessoa definida. Em seguida, no v. 6, é feita a seguinte pergunta: "E se alguém lhe disser: Que feridas são estas nas tuas mãos? Dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos." Acreditamos que isso indique que Deus até mesmo permitirá que esse Homem do Pecado imite o Salvador ao ponto de aparecer com feridas em suas mãos; destarte, ele poderá mais facilmente posar como o verdadeiro Cristo.

Quando o Filho da Perdição retornar a Israel, encontrará sua casa "desocupada, varrida e adornada". Isto retrata a condição moral e espiritual dos judeus no tempo em que o Anticristo se manifestar. Embora limpo das terríveis idolatrias que o contaminaram no passado e adornado com tudo o que a prosperidade material lhe propiciará, Israel, apesar disto, estará vazio da glória do Senhor e não terá o Espírito Santo habitando em seu povo. Em seguida, somos informados: "Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e são os últimos atos desse homem piores do que os primeiros." Acreditamos que isto tenha um duplo significado. Um mais sete são oito e, nas Escrituras, oito significa um novo começo. Isto está em conformidade com a reencarnação do Filho da Perdição. Mas, achamos que há também aqui uma referência à blasfema imitação de Satanás daquilo que lemos em Ap. 5:6, onde somos informados que o Cordeiro tem sete olhos, "que são os sete espíritos de Deus". Exatamente como o Cristo de Deus voltará ao mundo investido com a plenitude setuplicada do poder do Espírito de Deus, assim também o Anticristo se apresentará a Israel na plenitude setuplicada do poder e impureza satânicos. Então, de fato, o último estado de Israel será pior do que o primeiro — isto é, quando rejeitou a Cristo nos dias de Judas.

2. Vamos agora nos voltar para Mt. 24, que contém a longa predição referente ao fim dos tempos. Aqui, encontramos nosso Senhor descrevendo as condições que existirão durante o período da Tribulação. Cristo anuncia com considerável detalhe as coisas que precederão Seu retorno a este mundo. Todo o capítulo apresenta as respostas do Mestre às três perguntas feitas pelos discípulos: quando o templo seria destruído, qual seria o sinal de Sua vinda e do fim do mundo (veja o v. 3). Uma profecia similar, mas de modo algum idêntica, pode ser encontrada em Lucas 21. A principal diferença entre elas é que Lucas 21 trata das condições vigentes antes da destruição de Jerusalém no ano 70 — somente no v. 25 é que o Período da Tribulação é alcançado, enquanto que todo o capítulo 24 de Mateus é ainda futuro.

É interessante observar que nosso Senhor inicia Sua profecia dizendo: "Acautelai-vos, que ninguém vos engane; porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos." (vs. 4-5). O significado disto aparece comparando com o v. 11: "E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos." Esses falsos cristos e falso profetas culminarão no Anticristo e no Falso Profeta, que serão os arquienganadores. Quando chegamos ao v. 15, é feita uma clara alusão ao Homem do Pecado: "Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, entenda." Essa referência de Cristo à "abominação da desolação" que se colocará no "santo lugar", nos leva a Dn 12:11: "E desde o tempo em que o sacrifício contínuo for tirado, e posta a abominação desoladora, haverá mil duzentos e noventa dias." Isto, por sua vez, nos leva a Dn. 9:27: "E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador." Com esses versos deve-se comparar Ap. 13:11-15, em que somos informados que o Falso Profeta, que realizará grandes sinais, dirá aos homens que façam uma imagem à besta. O Falso Profeta terá o poder de dar espírito à imagem da besta, para que também a imagem fale e faça que sejam mortos todos os que não adorarem a imagem da besta. Vinculando essas escrituras juntas, os seguintes fatos aparecem:

Primeiro, uma "imagem" será feita do Anticristo (Ap. 13:15). Segundo, essa "imagem" será colocada no "santo lugar" (Mt. 24:15), isto é, no templo reconstruído em Jerusalém. Terceiro, essa "imagem" possuirá um poder sobrenatural, pois poderá falar (Ap. 13:15). Quarto, essa "imagem" será um objeto de adoração e aqueles que se recusarem a adorá-la serão mortos (Ap. 13:14-15). Quinto, essa "imagem" é chamada de "abominação da desolação". O termo "abominação" é uma expressão do Velho Testamento conectada com a idolatria e significa algum ídolo especial, ou um falso deus (veja Dn. 7:26; 1 Re. 11:5-7). Sexto, essa abominação, ou ídolo-deus será criada durante a metade da setuagésima semana de Daniel, ou três anos e meio antes do fim da carreira do Anticristo. Isto é claro a partir de Dn. 12:11 e Dn. 9:27. A remoção do "sacrifício diário" ocorrerá quando o Anticristo tirar sua máscara e se colocar como desafiante dos céus. No templo reconstruído pelos judeus, eles novamente oferecerão sacrifícios a Deus. Enquanto estiver posando como messias, o rei deles permitirá o oferecimento desses sacrifícios. Entretanto, quando ele colocar de lado seus fingimentos religiosos e desafiar os céus e a terra, os "sacrifícios" serão removidos e, em seu lugar, será estabelecida a adoração de uma imagem dele mesmo. Sétimo, o estabelecimento dessa "imagem" ao Anticristo será, muito provavelmente, acompanhada por fenômenos sobrenaturais. Podemos entender isto a partir de Dn. 9:27, em que lemos: "... e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador..." Agora, a palavra que foi traduzida aqui como "asa" ocorre setenta vezes com esse significado. Ela é a palavra usada para as asas do querubim em Ex. 25:20 e Ez. 10:5, etc. Além disso, em Salmos 18:10, lemos a respeito de Jeová: "E montou num querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento."

Um profundo conhecedor da língua hebraica traduziu a última sentença de Dn. 9:27 da seguinte forma: "E sobre a asa das abominações ele virá desolando." Lembrando que "abominação" tem referência a um ídolo ou a um falso deus, a força estaria então "sobre as asas de um falso deus ele virá desolando". Agora, em vista de Sl. 18:10, é altamente provável que Dn. 9:27 se refira a uma imitação satânica do querubim-carruagem. Isto é corroborado por 1 Co. 10:20: "Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios." — que mostra a natureza demoníaca dos "ídolos" ou das "abominações" adoradas. Se esta visão estiver correta, então o Anticristo será sobrenaturalmente aerotransportado (por demônios invisíveis), descerá do alto (em uma imitação blasfema de Mal. 3:1) e finalmente persuadirá o mundo a adorá-lo como Deus. Os judeus apóstatas, sem dúvida, acreditarão que seus olhos finalmente contemplaram o longamente aguardado sinal dos céus e o retorno da glória ao templo, pois é para lá que o falso cristo será aerotransportado e onde a imagem será colocada. Acreditamos que as palavras de 2 Ts. 2:4: "O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus" estejam, muito provavelmente, relacionadas com esse mesmo evento.

Voltando agora às palavras de Cristo em Mateus 24:15, acreditamos que elas serão muito mais inteligíveis. Aquilo que nosso Senhor disse ali foi destinado especialmente ao remanescente judaico fiel que estará na Palestina durante o período da Tribulação. Quando a "abominação da desolação" for colocada no lugar santo, "quem lê, entenda". De que forma maravilhosa isto combina com outras escrituras e que valor coloca sobre a Palavra escrita! Nenhuma revelação sobrenatural será dada — a revelação cessou quando o cânon das Escrituras foi concluído. Portanto, naquele tempo, como agora, o "entendimento" dependerá da leitura daquilo que Deus já revelou.

O que, então aqueles judeus piedosos devem "entender"? Que uma crise está ocorrendo. O Anticristo agora está plenamente revelado como o ímpio impostor que ele é. E, agora que a carreira dele está claramente manifesta, eles devem se acautelar. Que eles se voltem para Ap. 13:14-15 e descubram que a morte os aguarda se tardarem em deixar Jerusalém. Portanto, Cristo diz: "Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; e quem estiver sobre o telhado não desça a tirar alguma coisa de sua casa; e quem estiver no campo não volte atrás a buscar as suas vestes. Mas ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias! E orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado; porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver." (Mt. 24:16-21). De que forma maravilhosa uma escritura lança luz sobre a outra! De que forma clara Ap. 13:14-15 explica a necessidade dessa fuga apressada do remanescente fiel!

Há outra referência ao Anticristo no capítulo 24 do Evangelho de Mateus, nos versos 23-26: "Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais. Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis." A referência aos "grandes sinais e prodígios" é explicada, pelo menos em parte, em Ap. 13. Já vimos que o Falso Profeta terá poder de dar "vida", ou "espírito" à imagem da besta, para que a imagem possa falar (v. 15). Além disso, está registrado que ele "faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta." (vs. 13-14).

Esperávamos poder dizer alguma coisa a mais sobre as "câmaras secretas" (traduzido como "o interior da casa" na ACF) de Mt. 24:26, mas, na ausência de uma luz clara de outras escrituras, evitaremos fazer especulações. Entretanto, parece claro a partir de outras escrituras que a referência é aos poderes e às atividades ocultistas do Iníquo, que sempre amará mais as trevas do que a luz.

3. Nossa próxima passagem serão os oito primeiros versos de Lucas 18, em que, em uma parábola, o Senhor nos dá outra visão do Anticristo. "E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer, dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem. Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário. E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens, todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito. E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles? Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?"

Como muitas das parábolas de Cristo, esta é claramente profética em seu caráter. Ela se refere a um dia futuro e trata das condições que existirão durante o período da Tribulação. Isto pode ser visto facilmente pelo contexto. Lucas 18 começa com a conjunção "e" e os dezoito últimos versos do capítulo anterior, com os quais o capítulo 18 está conectado, tratam das coisas que precederão imediatamente o estabelecimento do Reino do Messias — observe particularmente o v. 26. Assim também, as palavras finais da parábola que está agora diante de nós: "Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?"

Tendo definido o tempo em que esta parábola profética receberá seu cumprimento, nossa próxima preocupação é entender o significado dos termos usados. A parábola gira em torno de uma "viúva" e um "injusto juiz". Uma vez que descobrimos quem eles representam, tudo se torna simples. Nossa tarefa não deve ser difícil, tendo em vista que já sabemos em que tempo esses personagens aparecerão.

Nas Escrituras, "viúva" sempre é uma figura de desolação, solidão e fraqueza. Dispensacionalmente, Israel é a nação viúva, que perdeu espiritualmente seu Marido Divino. Aqui, na parábola de Lucas 18, é o novo Israel, o "Israel de Deus", o remanescente fiel, que está em vista. Citar uma escritura será suficiente para estabelecer isto: "Não temas, porque não serás envergonhada; e não te envergonhes, porque não serás humilhada; antes te esquecerás da vergonha da tua mocidade, e não te lembrarás mais do opróbrio da tua viuvez. Porque o teu Criador é o teu marido; o SENHOR dos Exércitos é o seu nome; e o Santo de Israel é o teu Redentor; que é chamado o Deus de toda a terra. Porque o SENHOR te chamou como a mulher desamparada e triste de espírito; como a mulher da mocidade, que fora desprezada, diz o teu Deus. Por um breve momento te deixei, mas com grandes misericórdias te recolherei." (Is. 54:4-7). Estas são as palavras que Cristo proferirá ao remanescente fiel no início do Milênio, após eles terem feito de Is. 53 sua própria confissão de arrependimento.

No capítulo intitulado "O Anticristo nos Salmos", demos atenção às passagens que tratam das condições do remanescente judaico fiel durante o período da Tribulação. Vimos que o remanescente terá um tempo de amargura. Severas serão as provações e terríveis os sofrimentos. Uma experiência não menos dolorosa será a feroz oposição de seus irmãos incrédulos. Exatamente como os piores inimigos do Salvador estavam entre Seus irmãos segundo a carne e, do mesmo modo, os mais implacáveis perseguidores dos santos durante esta atual dispensação têm sido aqueles que professam serem seguidores de Cristo, assim também o inimigo mais cruel do remanescente judaico será a porção incrédula da própria nação. Essa porção, também, é observada em nossa parábola: "é o adversário" contra quem a viúva apela ao juiz — "Faze-me justiça contra o meu adversário" é a petição que ela faz.

À luz daquilo que foi dito acima é fácil descobrir quem é representado por aquele a quem a "viúva" apela — apela, sem dúvida algum tempo antes do fim do período da Tribulação ser alcançado. Claramente, é o próprio Anticristo, e aquilo que é dito sobre ele estabelece isto sem qualquer dúvida. Primeiro, ele é chamado de "juiz", de modo que é visto aqui em uma posição de autoridade; podemos acrescentar, é a mesma palavra traduzida como "juiz" em Tiago 5:9, que fala do Senhor Jesus. Segundo, ele está situado em "uma cidade"; se é Jerusalém, ou Babilônia, não podemos dizer, mas preferimos pensar que seja a última. Em terceiro lugar, a respeito desse juiz, se diz que "não temia a Deus nem respeitava o homem". Não precisamos parar para mostrar como isso combina com aquilo que é dito a respeito do Homem do Pecado em outras passagens. Falta de temor a Deus e iniquidade serão os dois elementos mais proeminentes em seu caráter. Em quarto lugar, o Senhor o chama especificamente de "injusto juiz" (v. 6). Essa palavra aponta para uma antítese entre ele e o verdadeiro Cristo, que reinará em justiça. Em quinto lugar, sua insensibilidade é observada nas seguinte palavras: "E por algum tempo não quis atendê-la" (v. 4). O verbo grego no original do verso 3 significa que a viúva veio a esse "juiz" repetidas vezes. Mas, em sua dureza de coração, ele repetidamente se fez de surdo às suas petições. Tal será a brutal indiferença do Anticristo aos sofrimentos dos judeus fiéis. Em sexto lugar, sua falsidade e perfídia ficam claramente implícitas. No v. 5, esse injusto juiz diz: "Todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito." Entretanto, que ele deixa de manter sua palavra é claro a partir daquilo que lemos no v. 7: "E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?" O Anticristo não fará justiça, porém Deus fará. Finalmente, a condenação dele é indicada pelas últimas palavras no texto citado. Quando Deus "fizer justiça", ao remanescente eleito, o Anticristo será destruído junto com seus seguidores que participaram na perseguição.

Há somente uma dificuldade com a interpretação acima: o apelo do remanescente judaico ao Anticristo. Será possível que eles busquem a ajuda dele? Mas, há alguma dificuldade nisto? Vamos consultar nossa própria experiência e procurar uma resposta. Com que frequência, na hora da provação, não nos voltamos para o braço da carne em busca de algum alívio? Até mesmo o apóstolo Paulo apelou para César! Mas, para que alguém não pense que esta é uma invenção nossa para responder a uma objeção pertinente contra a interpretação dada acima, observe atentamente as palavras no v. 7: "E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles? Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?" As palavras "ainda que tardio para com eles" não indicam que embora eles tenham clamado a Deus dia e noite, não tenham também buscado ajuda de alguém mais. Ainda mais claro é o testemunho de Is. 10:20: "E acontecerá naquele dia que os restantes de Israel, e os que tiverem escapado da casa de Jacó, nunca mais se estribarão sobre aquele que os feriu; antes estribar-se-ão verdadeiramente sobre o SENHOR, o Santo de Israel."

4. "Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis." (Jo. 5:43). Esta escritura já esteve diante de nós (veja o Cap. 3, seção I), de modo que não precisamos nos deter muito aqui. Ela fala a respeito do Anticristo em conexão com o Israel incrédulo e traça um duplo contraste entre o Filho de Deus e o Filho da Perdição. O Cristo de Deus veio, não em Seu próprio nome, mas em nome de Seu Pai — em perfeita submissão; por outro lado, o cristo de Satanás, em grande arrogância, virá em seu próprio nome. Isto terá um forte apelo aos corações corrompidos dos homens caídos. A simples mansidão do Senhor Jesus foi uma ofensa aos judeus, porém o orgulho e egolatria do Homem do Pecado o tornarão aceitável a eles. Cristo não foi aceito pela nação apóstata. Como lemos no mesmo Evangelho, "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam." (Jo. 1:11). O Anticristo, porém, receberá as boas-vindas — "a esse aceitareis", disse o Senhor. Eles o aceitarão como seu longamente aguardado Messias, como seu rei e como seu libertador. O jugo dele será aceito e honras divinas lhe serão prestadas. Mas, amargamente eles se arrependerão, e terrível será o julgamento de Deus sobre eles.

5. "Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira." (Jo. 8:44). A palavra grega para "mentira" é pseudos. Ela ocorre somente nove vezes no Novo Testamento — o número do julgamento. Ela sempre tem referência com aquilo que é o oposto da verdade. Ela é uma designação apropriada para o Anticristo, que é filho daquele que é o arquimentiroso, o Diabo. O Cristo de Deus é "a Verdade"; o cristo de Satanás é "a Mentira". Que este é um dos muitos nomes do Homem do Pecado é claro a partir de 2 Ts. 2:9-12. Ali, somos informados que a vinda dele "é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem." Em seguida, lemos: "E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade." (confira nossos comentários sobre esta passagem no Cap. 3).

Sobre Jo. 8:44 não podemos fazer nada melhor do que citar um comentário de Sir Robert Anderson:

"'Proferir mentira' não é a forma natural de dizer; em nosso idioma, a expressão correta é 'contar mentira'. Mas, ninguém traduziria assim as palavras no original grego aqui. Não é a falsidade no abstrato que está em vista, mas uma ocorrência concreta dela. E assim, a conexão é clara entre Satanás, o mentiroso, e Satanás, o homicida. Ele não é instigador de todos os homicídios, mas do homicídio, ali e então em questão, o assassinato de Cristo; ele não é o pai das mentiras, mas o pai da Mentira. Em 2 Ts. 2:11 aparece novamente a Mentira de Jo. 8:44. Deus não incita os homens a contarem mentiras, ou a crerem em mentiras. Mas, a respeito daqueles que rejeitam a verdade, está escrito: "E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira." Como eles rejeitaram o Cristo de Deus, uma cegueira judicial cairá sobre eles, para que aceitem o Cristo do homem, que será Satanás encarnado." (The Silence of God).

6. "Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse." (Jo. 17:12). Que nosso Senhor estava aqui se referindo ao Anticristo é inequivocamente estabelecido por 2 Ts. 2:3, em que o Homem do Pecado é denominado "Filho da Perdição". Que Judas, aqui chamado de Filho da Perdição, era mais do que um homem, é claro a partir de Jo. 6:70, em que lemos: "Respondeu-lhe Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo." Em nenhuma outra passagem a palavra Diabolos é aplicada a alguém que não seja o próprio Satanás. Exatamente como o Senhor Jesus era Deus encarnado, assim Judas será o Diabo encarnado; além disso, como mostramos no Cap. 3 (na terceira seção principal), Judas estará reencarnado no Anticristo.

Talvez outra observação deva ser feita sobre Jo. 17:12 antes de deixarmos o capítulo. Alguns pensam que esse verso enfraqueça a doutrina da segurança absoluta dos santos, mas, na verdade, ele não faz nada disso. Observe que Cristo disse: "... e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse." A palavra "senão" é usada adversativamente, não para indicar uma exceção, isto é, Judas está aqui em oposição àqueles que foram dados a Cristo (para outras escrituras com construção similar, veja Mt. 11:4, At. 27:22, Ap. 21:27). Esta interpretação é inequivocamente estabelecida por Jo. 18:9 — "Para que se cumprisse a palavra que tinha dito: Dos que me deste nenhum deles perdi."

7. 2 Ts. 2 contém a passagem principal nas Epístolas referentes ao Anticristo. Aqui, ele é denominado "homem do pecado, o filho da perdição" (v. 3). É solenemente verdade que todos os homens são pecadores (Rm. 3:23), mas o Anticristo será mais do que um pecador, ele será o Homem do Pecado. Como tal, ele será o oposto direto de Cristo, que é o Santo de Deus. O pecado em toda sua terrível corrupção satânica, atrevida blasfêmia e tremendo apelo ao coração corrupto dos homens, estará representado em sua forma máxima nesse monstro pavoroso. Para notas mais completas sobre a força desse título, novamente referimos o leitor para o Cap. 3.

Com relação ao Homem do Pecado está escrito: "O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus." (v. 4). Aqui, ele alcança o clímax de sua pavorosa blasfêmia. Ele assumirá honras divinas e, sob pena de morte (Ap. 13:15) exigirá a adoração de todos. Ao fazer suas ímpias reivindicações, forçará os homens a considerarem seus mandados superiores a todas as leis e costumes, sejam eles de origem humana ou divina (Dn. 7:25). Por um tempo, o Deus Onipotente suportará essa impiedade satânica, pois o Restritor terá sido retirado do caminho (v. 7). Nenhum raio cairá do céu para lançar o Anticristo ao pó. A terra não abrirá sua boca para engoli-lo vivo. O Anjo do Senhor, que feriu o rei Herodes com morte por causa de uma blasfêmia muito menor, restringirá Sua mão de desembainhar a espada. Por um tempo, o céu permanecerá silencioso enquanto esse rebelde soberbamente fizer tudo de acordo com sua própria vontade. Mas, na hora indicada, o "Senhor o desfará pelo assopro da sua boca, e o aniquilará pelo esplendor da sua vinda." (v. 8).

"A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira." (v. 9). O Anticristo será a representação e a culminação da astúcia e do gênio de Satanás. Ele estará capacitado por uma energia sobrenatural, para que possa operar milagres que não serão meras fraudes, mas verdadeiros prodígios de poder. Com esses milagres e sinais ele enganará o mundo inteiro. Sem dúvida, ele simulará os milagres de Cristo, da mesma forma como Janes e Jambres duplicaram os milagres de Moisés. Suas obras maravilhosas alcançarão o clímax em sua própria ressurreição dos mortos.

8. "Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho." (1 Jo. 2:22). Para nossos comentários sobre o significado do nome "Anticristo", consulte o Cap. 4. Você verá ali que compreendemos que esse título oficial tem um significado duplo, que corresponde às duas principais divisões em sua carreira. Primeiro, ele posará como o verdadeiro Cristo; depois, se apresentará como o opositor jurado de Cristo. O verso acima o apresenta como o arquiapóstata. Eventualmente, ele repudiará a verdade de distinção do judaísmo, ou seja, que "Jesus é o Messias"; ele também se colocará contra a verdade que é vital no cristianismo — a revelação do "Pai e do Filho".

9. Uma rápida palavra sobre 1 Jo. 4:3 e então precisaremos terminar. "E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo." É para a última frase aqui que dirigimos a atenção. O espírito do Anticristo, aquilo que está preparando o caminho para o aparecimento dele, já está agora no mundo. Essa afirmação está em paralelo com 2 Ts. 2:7: "Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado." O Mistério da Injustiça, que se refere à encarnação de Satanás, é a antítese direta ao "Mistério da Piedade" (1 Tm. 3:16), que tem a ver com a encarnação do Verbo. Exatamente como houve um longo preparativo por parte de Deus e que precedeu o advento de Seu Filho, assim também o Diabo está agora pavimentando o caminho para o advento do Filho da Perdição. O Mistério da Injustiça "já opera", de modo que em 1 Jo. 4:3, a respeito do espírito do Anticristo, lemos: "e eis que já está no mundo"! Quão avançados estão os preparativos de Satanás para a apresentação de sua obra-prima estão agora se tornando cada vez mais evidentes para aqueles que receberam a sabedoria para discernir os sinais dos tempos.

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Data da publicação: 16/9/2010
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A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/anticisto-cp10.asp