O Anticristo

Autor: Arthur W. Pink



CAPÍTULO 13

Tipos do Anticristo


"No princípio do livro está escrito de mim" (Hb. 10.7), disse o Senhor Jesus. Cristo é a chave para as Escrituras — "Examinai as Escrituras, pois elas testificam de mim", são Suas palavras, e as Escrituras que Ele referenciou não foram os quatro Evangelhos, pois eles ainda não tinham sido escritos, mas os livros de Moisés e dos profetas. Portanto, as Escrituras do Velho Testamento são mais do que uma simples compilação de narrativas históricas, mais do que o simples registro de um sistema de legislação social e religiosa, ou mais do que um código de ética. As Escrituras do Velho Testamento são, fundamentalmente, um estágio em que são apresentados, em vívida simbologia, eventos estupendos do futuro. Os eventos registrados no Velho Testamento foram acontecimentos reais, porém também foram prefigurações por meio de tipos. Em todas as dispensações do Velho Testamento Deus fez serem prefiguradas as coisas que ainda devem acontecer. Isto está em total harmonia com a lei básica da economia divina. Nada é trazido à maturidade de forma imediata. Como é no mundo natural, assim é no mundo espiritual; há primeiro o grão de milho, depois o broto, depois a espiga completa. Assim também, há primeiro a sombra e depois a substância; o tipo e depois o antítipo.

"Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança." (Rm. 15:4). O tabernáculo de Israel foi "uma alegoria para o tempo presente" (Hb. 9:8-9), bem como "exemplo e sombra das coisas celestiais" (Hb. 8:5). Com relação à história de Abraão, suas mulheres e seus filhos, o apóstolo foi inspirado a escrever "o que se entende por alegoria" (Gl. 4:24). Esta e outras passagens que poderiam ser citadas testemunham claramente o significado típico de porções do Velho Testamento. Entretanto, existem alguns irmãos que reconhecem o significado alegórico dessas coisas, mas que se recusam a reconhecer que algo mais no Velho Testamento tenha um significado típico, exceto aqueles que são expressamente interpretados ou mencionados no Novo Testamento. Mas, é obvio que isto é um engano. Não deveríamos considerar aqueles tipos do Velho Testamento que são expostos no Novo Testamento como amostras de outros que não são explicados? Não existem mais profecias no Velho Testamento do que aquelas que no Novo Testamento são expressamente declaradas como "cumpridas"? Certamente que sim. Então, por que não admitir o mesmo em conexão com os tipos? O Novo Testamento não diz que a história de José tenha um profundo e maravilhoso significado alegórico; porém, quem pode deixar de ver nas experiências do filho favorito de Jacó uma impressionante prefiguração da pessoa e da obra de Cristo?

Provavelmente apenas alguns poucos lerão este capítulo e questionarão aquilo que dissemos acima. Sem dúvida, a maioria dos nossos leitores já foi instruída em grande parte na tipologia do Velho Testamento. Muitos servos de Deus já escreveram detalhadamente sobre a Páscoa, a serpente de bronze, o Tabernáculo, etc., bem como sobre os muitos modos como Abel, Noé, Isaque, Moisés, Davi, etc. prefiguraram o Salvador. Mas, é estranho que muito pouco parece ter sido escrito sobre aqueles que prefiguraram o Anticristo. Tanto quanto estejamos cientes, praticamente nada já foi apresentado com relação aos muitos personagens bíblicos de má fama, que prefiguraram aquele que virá, que ocupa um lugar proeminente nas escrituras proféticas. Um amplo campo está aqui aberto para o estudo e nos alegramos em apresentar agora para a cuidadosa consideração dos leitores os resultados de nossas próprias pesquisas imperfeitas, esperando que elas possam levar outros a fazerem um exame mais completo do assunto por si mesmos.

Como bem disse um dos puritanos continentais: "Quando lemos as Escrituras, devemos ter em mente que somente as compreendemos quando descobrimos nelas uma sabedoria inescrutável e digna de Deus" (Witsius). Tal é a plenitude inextinguível da Palavra escrita de Deus que não somente são suas palavras significativas das coisas, mas até as coisas que são primeiro significadas pelas palavras, também representam outras coisas, que elas foram escolhidas para prefigurarem muito antes de elas acontecerem. Além do sentido claro e literal das Escrituras, há também um sentido místico, oculto abaixo da superfície e que somente pode ser descoberto à medida que nós, na dependência do Espírito Santo, comparamos diligentemente escritura com escritura. Em busca deste último sentido, precisamos não somente avançar com a devida cautela, mas também em "temor e tremor", para não inventar mistérios com nossa própria imaginação e assim perverter para um uso aquilo que pertence a outro. O princípio que nos salvaguardará é nos habituarmos completamente com os antítipos. Que nada seja considerado como um tipo a não ser que estejamos certos que existe uma correspondência exata com o antítipo. Isso nos preservará de supor erroneamente que qualquer pessoa que seja claramente um tipo de Cristo ou do Anticristo será assim em cada detalhe de sua vida. Assim, Moisés foi claramente um tipo de Cristo como nosso mediador e em muitos outros aspectos também, mas em suas falhas e em outros detalhes de sua história pessoal ele não foi um tipo de Cristo. Assim também com aqueles que prefiguraram o Anticristo: nem tudo registrado a respeito deles prefigura o caráter ou as obras do Homem do Pecado. Se alguém ainda perguntar: "Como podemos saber em que aspectos as ações dos personagens do Velho Testamento foram e não foram tipos? A resposta, conforme dada anteriormente, é: Comparando o antítipo. Isto nos protegerá das alegorias malucas de Orígenes e de outros "pais da igreja". Veremos agora dez personagens bíblicos, cada um dos quais tipificaram de uma forma admirável o Anticristo.

1. Caim. É realmente solene descobrir que o primeiro homem que nasceu neste mundo prefigurou o Homem do Pecado. Ele fez isto em pelo menos sete aspectos. Primeiro, podemos observar que 1 Jo. 3:12 diz que Caim "era do maligno, e matou a seu irmão". Para ninguém mais essa expressão específica é usada. O Anticristo também será, em um sentido especial, "do Maligno", pois o Diabo é chamado de seu pai (Jo. 8:44). Segundo, Caim foi um hipócrita religioso. Isto pode ser observado pelo fato de ele inicialmente posar como um adorador de Deus, mas o vazio de suas pretensões foi rapidamente evidenciado; quando o Senhor rejeitou sua oferta, "irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante" (Gn. 4:5) Como tal, ele claramente prefigurou aquele que primeiro afirmará ser o Cristo, somente para depois se colocar como aquele que nega a Cristo (1 Jo. 2:22). Terceiro, por sua primogenitura Caim ocupava a posição de governante, uma posição de superioridade sobre Abel. O Senhor lhe disse: "Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar." Assim também será a posição ocupada pelo Anticristo — ele será um governante sobre os homens. Quarto, ao matar seu irmão Abel, Caim prefigurou o ímpio martírio dos santos pelo Filho da Perdição durante o período da Tribulação. Quinto, Caim foi um mentiroso. Após o assassinato de Abel, quando o Senhor lhe perguntou "Onde está Abel, teu irmão?", ele respondeu: "Não sei; sou eu guardador do meu irmão?" (Gn. 4:9). Da mesma maneira, engano e falsidade caracterizarão aquele que é apropriadamente chamado de "a Mentira" (2 Ts. 2:11). Sexto, o julgamento de Deus caiu sobre Caim. Tanto quanto sabemos a partir das Escrituras, nenhum olho humano testemunhou o covarde assassinato de Abel e, sem dúvida, Caim se considerou protegido de qualquer consequência penal. Mas, ele não levou em conta a onisciência de Deus. O Senhor anunciou para ele: "A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra." (Gn. 4:10). Assim também, em seu conceito inconsequente o Anticristo imaginará que pode desafiar Deus e matar Seu povo impunemente. Mas, sua blasfema ilusão será rapidamente desfeita. Sétimo, Caim foi levado a exclamar: "É maior a minha maldade que a que possa ser perdoada." (Gn. 4:13). Tal será a terrível punição dada ao Anticristo — ele será "lançado vivo no lago de fogo e enxofre" (Ap. 19:20).

2. Lameque. "E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar. Porque sete vezes Caim será castigado; mas Lameque setenta vezes sete." (Gn. 4:23-24). O registro da vida deste homem é extremamento curto, mas a partir do pouco que está registrado sobre ele podemos descobrir pelo menos sete paralelismos entre ele e o Anticristo. Primeiro, o significado de seu nome; Lameque significa "poderoso". Este foi um nome apropriado para aquele que prefigura o Homem do Pecado, que, como o líder do Mundo Unido terá um grande poder governamental. Ele também será poderoso como pessoa, pois somos informados que o dragão lhe dará o seu poder, seu trono e grande autoridade (Ap. 13:4). Segundo, pelo fato de Lameque ser um descendente de Caim (Gn 4:17-19), e não de Sete, vemos que ele veio da linhagem do mal. Terceiro, ele foi o sétimo depois do caído Adão, como que para indicar que o ciclo da depravação foi completado nele. Do mesmo modo, o Anticristo será a culminação do engenho e do poder satânicos, mas também o clímax da iniquidade humana — o Homem do Pecado. Quarto, a primeira coisa predita de Lameque é sua impiedade. Lameque tomou para si duas mulheres. (Gn. 4:19). Portanto, ele violou a lei do matrimônio e desobedeceu à ordem de Deus (Gn. 2:24). Claramente, então, ele prefigurou o "Iníquo" (2 Ts. 2:8). Quinto, como Caim antes dele, Lameque foi um homicida. A confissão dele é esta: "Matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar." (Gn. 4:23). Nisto, também, ele prefigura o homem sanguinário e violento. Sexto, ele se encheu de soberba. Isto aparece em dois detalhes. Primeiro, ele diz às suas mulheres: "Sete vezes Caim será castigado, mas Lameque setenta vezes sete." (Gn. 4:24). Isto parece indicar que Lameque matou um homem que o feriu e, louco com o prazer de matar, zomba ironicamente do modo como Deus tratou Caim. Sétimo, pelo fato que a próxima coisa registrada após o breve relato sobre Lameque é o nascimento de Sete (aquele a partir de quem, segundo a carne, Cristo descende) que colocou de lado a linhagem de Caim — pois no nascimento dele, Eva exclamou: "Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou." (Gn. 4:25) — assim temos uma bela prefiguração do reino milenar do Senhor Jesus, que seguirá a derrota do Anticristo.

3. Ninrode. Este tipo pessoal do Anticristo é profundamente interessante e completo em seus detalhes. Os feitos de Ninrode estão registrados em Gn. 10 e 11 e é muito significativo que sua pessoa e história sejam apresentadas no ponto imediatamente anterior em que Deus chama Abraão do meio dos gentios e o leva até a terra prometida. Assim, a história se repetirá. Antes de Deus novamente reunir os descendentes de Abraão das terras dos gentios (muitos, talvez a maioria deles, estarão vivendo na Caldéia, na Assíria, o "país do norte" — veja Is. 11:11; Jr. 3:18, etc.) surgirá aquele que preencherá o retrato aqui delineado tipicamente por Ninrode.

Vamos examinar os detalhes deste tipo do Anticristo. Primeiro, o significado de seu nome é muito sugestivo. Ninrode significa "o Rebelde". Esta é uma designação adequada para um homem que prefigurou o Iníquo, "que se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora" (2 Ts. 2:4) e que "e se levantará contra o Príncipe dos príncipes" (Dn. 8:25). Segundo, somos informados que ele era um filho de Cuxe — "E Cuxe gerou a Ninrode; este começou a ser poderoso na terra." (Gn. 10:8); Cuxe era filho de Cão, que foi amaldiçoado por Noé. Portanto, Ninrode não foi um descendente de Sem, a partir de quem Cristo veio ao mundo, nem de Jafé, mas veio da linhagem de Cão. É interessante observar que esses homens que tipificaram o Anticristo vieram de linhagens malignas. Terceiro, somos informados que Ninrode "começou a ser poderoso na terra." (Gn. 10:8). Quatro vezes o adjetivo "poderoso" está conectado com esse homem que prefigurou aquele "cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira" (2 Ts. 2:9) Mas, observe o que é dito: "Este começou a ser poderoso na terra", o que parece sugerir que ele lutou para obter a proeminência e a obteve por mera força de vontade. É preciso salientar que isto corresponde com o fato que o Homem do Pecado aparecerá primeiro como "o chifre pequeno" e que, por meio de suas conquistas, alcançará a posição de Rei dos reis. É também significativo que a palavra hebraica para "poderoso" em Gn. 10:9 é gibbor, que é traduzida diversas vezes como "chefe" ou "maioral". Quarto, também está acrescentado "Ninrode, poderoso caçador diante do SENHOR", o que significa que ele fez avançar seus desígnios em desafio aberto ao Criador. As palavras "poderoso caçador diante do SENHOR" são encontradas duas vezes em Gn. 10:9. Essa repetição em uma narrativa tão curta é altamente significativa. Se compararmos a expressão com uma similar em Gn. 6:11 "A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência." — a impressão que dá é que esse Rebelde executou seus ímpios desígnios em desafio aberto ao Todo-Poderoso. O conteúdo de Gn. 11 confirma abundantemente esta interpretação. De um modo similar, a respeito do Anticristo está escrito: "E este rei fará conforme a sua vontade, e levantar-se-á, e engrandecer-se-á sobre todo deus; e contra o Deus dos deuses falará coisas espantosas, e será próspero, até que a ira se complete; porque aquilo que está determinado será feito." (Dn. 11:36). Quinto, Ninrode foi um homem sanguinário. A expressão "poderoso caçador diante do SENHOR" sugere que ele buscou incansavelmente matar o povo de Deus. Como tal, ele foi um retrato fiel do homem sanguinário e fraudulento (Sl. 5:6), o homem violento (Sl. 140:1). Sexto, Ninrode foi um rei — "E o princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar." (Gn. 10:10). Portanto, ele foi rei de Babilônia, o que é também um dos muitos títulos do Anticristo (Is. 14:4). Nos versos que se seguem em Gn. 10, lemos: "Desta mesma terra saiu à Assíria e edificou a Nínive, Reobote-Ir, Calá, e Resen, entre Nínive e Calá (esta é a grande cidade)." (Gn. 10:11-12.) A partir dessas declarações, é evidente que a ambição de Ninrode era estabelecer um império mundial. Sétimo, observe seu desejo insaciável pela fama. A vontade dele era fazer para si mesmo um nome. Aqui novamente o antítipo corresponde maravilhosamente com o tipo, pois o Homem do Pecado é denominado expressamente de "rei sobre todos os filhos da soberba" (Jó 41:34).

Aquilo que está registrado em Gn. 10 a respeito de Ninrode fornece a chave para a compreensão da primeira metade de Gn. 11, que descreve a construção da Torre de Babel. Gn. 10:10 nos diz que o princípio do reino de Ninrode foi Babel. Na linguagem daquele tempo, Babel significava "a porta de Deus", mas depois, por causa do julgamento que o Senhor infligiu ali, o nome passou a significar "confusão". O fato de que quando Ninrode fundou Babel o nome da cidade significava "a porta (a figura da posição oficial) de Deus", indica que ele não somente organizou um governo imperial sobre o qual era o rei, mas que também instituiu um novo e idólatra sistema de adoração. Se o tipo for correto, e estamos certos que está, então, como o Iníquo ainda fará, Ninrode exigiu e recebia honras divinas. Com toda a certeza, foi neste momento histórico que a idolatria foi introduzida.

Ninrode não é diretamente mencionado em Gn. 11, mas a partir das declarações feitas sobre ele em Gn. 10, não pode haver dúvida que foi ele quem organizou e liderou o movimento e a rebelião ali descritas. "E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra." (Gn. 11:4). Vemos aqui o mais descarado desafio a Deus, uma recusa deliberada de obedecer às ordens dadas por meio de Noé — "Frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra." (Gn. 9:1). Mas eles disseram: "Que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra". Como vimos, Ninrode tinha a ambição de estabelecer um império mundial. Para conseguir isto, pelo menos duas coisas eram necessárias. Primeiro, um centro, um grande quartel-general; segundo, um motivo para a inspiração e encorajamento de seus seguidores. O primeiro foi fornecido na cidade de Babilônia; o segundo seria fornecido no "façamos-nos um nome" Era um desejo insaciável pela fama. A ideia da Torre (considerada à luz de seu posicionamento) parece ser de força, uma fortaleza, e não de eminência.

Resumindo: Em Ninrode e em seus esquemas vemos a primeira tentativa de Satanás de levantar um governante universal sobre os homens. Em seu desejo incontrolável pela fama, no poder que obteve, na brutalidade de seus métodos, em seu descarado desafio ao Criador, na fundação do reino de Babel, no fato de assumir para si honras divinas, pelo fato de o Espírito Santo ter registrado estas coisas imediatamente antes do relato de Abrão ser chamado por Deus para ir a Canaã — apontando para a reunião de Israel na Palestina, imediatamente após a derrota do Iníquo — e, finalmente, na destruição divina do seu reino — descrita nas seguintes palavras: "Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro." (Gn. 11:7), que maravilhosamente retrata a descida de Cristo dos céus para derrotar Seu ímpio rival — não podemos deixar de ver que temos um retrato completo de um homem que tipificou a pessoa, a obra e a destruição do Anticristo.

4. Quedorlaomer. A história deste homem está registrada em Gn. 14, que é um capítulo de profundo interesse para o estudante de tipologia. O capítulo se inicia com as palavras "E aconteceu nos dias de..." Esta expressão ocorre seis vezes (no hebraico) e sempre marca um tempo de dificuldades que termina em bênçãos — confira Rute 1:11; Is. 7:1; Jr. 1:3; Ester 1:1-2; 2 Sm. 21:1. Este é exatamente o caso aqui. A primeira metade de Gn. 14 retrata as condições da Tribulação e depois vem uma cena que prefigura a glória do Milênio. O tempo em que Quedorlaomer viveu é o primeiro ponto no tipo. A história desse rei está registrada imediatamente antes da primeira menção de Melquisedeque, o rei-sacerdote, que veio se encontrar com Abraão e o abençoou. Segundo, o nome desse homem é altamente significativo. Gesenius, em seu léxico, diz que o nome significa "punhado de feixes'... talvez sua verdadeira etimologia deva ser procurada na antiga língua dos persas." Isto provavelmente está correto, pois Elão, a nação sobre a qual Quedorlaomer reinava, é um antigo nome para a Pérsia. O coronel Rawlinson procurou o nome desse rei nas tábuas de argila da antiga Assíria e descobriu que seu título oficial era "O Devastador do Ocidente"! Portanto, Quedorlaomer foi um verdadeiro tipo daquele que caminhará por um mar de sangue até alcançar sua cobiçada posição de Imperador do mundo. Terceiro, é impressionante descobrir que exatamente como Ap. 13:1 nos mostra que o império sobre o qual o Anticristo será o líder (veja nossas notas sobre esse verso no Cap. 11) inclui dentro dele os territórios e perpetua as características dos impérios anteriores (Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma), assim domínios: "E aconteceu nos dias de Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim." Agora, Sinar é um dos nomes de Babilônia (veja Dn. 1:2); Elão é o antigo nome da Pérsia; Elasar está traduzido como "Hellas" na Septuaginta, que é o antigo nome da Grécia, enquanto que Tidal, rei de nações, evidentemente representa Roma, o último dos impérios mundiais. Quarto, mas o que é mais chocante é o fato que em Gn. 14:5, Quedorlaomer é visto na liderança dos reis mencionados no v. 1. Esses reis agem como vassalos e assim se submetem à superioridade desse que é evidentemente um rei de reis. Quinto, Quedorlaomer era um guerreiro de renome. Ele era o Átila, o Napoleão do seu tempo. Ele derrotou na batalha os rei de Sodoma e Gomorra e os colocou em submissão e servidão (veja Gn. 14:2-4). Mais tarde, eles se rebelaram e Quedorlaomer reuniu suas forças, partiu, pelejou contra eles e os derrotou (14:9-10). Assim, ele prefigurou os Destruidor dos Gentios (Jr. 4:7). Sexto, em Gn. 14:12, lemos: "Também tomaram a Ló, que habitava em Sodoma, filho do irmão de Abrão, e os seus bens, e foram-se." Isso prefigura a perseguição de Israel pelo Anticristo e seus subordinados em um dia vindouro. Finalmente, somos informados que Abraão e seus servos perseguiram e mataram a Quedorlaomer, seu exército e os reis que estavam com ele "no vale do rei" (14:17), o que admiravelmente prefigurou a futura derrota do Anticristo e dos reis que estiverem com ele, no vale do Megido (veja Ap. 19:19).

5. Faraó. Temos aqui em vista o Faraó do livro do Êxodo. Sua história e caráter são descritas em muito mais extensão do que os outros tipos pessoais do Anticristo que estiveram diante de nós, de modo que mais paralelismos podem ser encontrados aqui. Nosso propósito será fazer algumas sugestões, mas sem esgotar as possibilidades. Primeiro, Faraó era o rei do Egito, que nas Escrituras é o símbolo do mundo. De maneira similar, aquele que ele prefigurou de forma tão interessante será o chefe dos reinos deste mundo. Segundo, o Faraó do Êxodo veio da Assíria (Is. 52:4); assim também o Anticristo virá dessa terra. Terceiro, Ex. 1 o apresenta como um perseguidor implacável dos hebreus, amargurando suas vidas com uma dura servidão. Quarto, ele é em seguida visto como aquele que tentou impedir Israel de ser uma nação, dando ordens para que todos os bebês do sexo masculino fossem mortos ao nascer. Quinto, ele foi o desafiante declarado de Deus. Quando Moisés e Arão compareceram diante dele e disseram: "Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto", sua arrogante resposta foi: "Quem é o SENHOR, cuja voz eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não conheço o SENHOR, nem tampouco deixarei ir Israel." (Ex. 5:1-2). Sexto, as duas testemunhas de Deus realizaram milagres diante do Faraó (Ex. 7:10); assim também as duas testemunhas de Deus durante o período da Tribulação operarão milagres diante da besta (Ap. 11:6-7). Sétimo, o Faraó tinha recursos mágicos à sua disposição (Ex. 7:11); o Anticristo também terá (2 Ts. 2:9). Oitavo, o Faraó fez belas promessas para os hebreus, somente para quebrá-las depois (Ex. 8:8,15). Nisso também ele prefigurou o Anticristo em sua perfídia e dissimulação com relação a Israel. Nono, ele recebeu um drástico fim nas mãos de Deus (Sl. 136:15). Décimo, ele foi derrubado no tempo em que Israel partiu para a terra prometida; assim também o Anticristo será lançado no lago de fogo imediatamente antes de Israel tomar posse perpétua de sua herança prometida. Em todos esses dez aspectos (e em outros que o estudante pode descobrir por sua própria conta), o Faraó foi um tipo admirável e exato do Anticristo.

6. Abimeleque. Primeiro, Abimeleque significa "Pai do rei". Gideão, o libertador de Israel, foi seu pai. Sua mãe, porém, era uma concubina, e esse nome foi dado a ele, sem dúvida, para o propósito de encobrir a vergonha do seu nascimento. Olhando a partir do tipo para o antítipo — "Pai do Rei" — toda a atenção à origem satânica do Anticristo. Segundo, Abimeleque matou setenta de seus próprios irmãos (Jz. 9:5) e foi, portanto, um perseguidor sanguinário de Israel. Terceiro, Jz. 9:6,22 nos diz ele ele reinou sobre Israel. Quarto, é significativo observar que ele ocupou o trono durante um tempo de apostasia (veja Jz. 8:33-34). Quinto, é também muito sugestivo que sejamos informados que ele iniciou sua carreira na pedra (Jz. 9:6), ou pilar, que Josué erigiu em Ebal (diante de Gerizim), o monte em que todas as maldições por desobedecer a lei foram proferidas — Dt. 11:29; 27:4,12-13; Js. 8:30. Sexto, ele foi um guerreiro poderoso, um homem dado à violência (veja Jz 9:40-50 e confira Sl. 140:1 que mostra o Anticristo como um homem violento). Sétimo, ele foi morto à espada (Jz. 9:54 e veja Zc. 11:7; Ap. 13:3 para o antítipo).

7. Saul. Em pelo menos dez aspectos Saul prefigurou o Anticristo. Quase a primeira coisa que ficamos sabendo sobre Saul era que ele era " tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro homem mais belo do que ele; desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo." (1 Sm. 9:2, que é repetido em 10:23). Como tal, ele prefigurou adequadamente o vindouro super-homem, que, em inteligência, poder governamental e poder satânico, estará tão acima de seus contemporâneos que os homens exclamarão: "Quem é semelhante à besta?" (Ap. 13:4). Segundo, Saul foi rei de Israel (1 Sm. 10:24), e o Anticristo também será. Terceiro, Saul foi um rei-sacerdote, ocupando atrevidamente o ofício de um levita (veja 1 Sm. 13:9 e confirma Ez. 21:25-26). Quarto, o tempo do seu reinado foi imediatamente antes do de Davi; da mesma forma, o reinado do Anticristo precederá imediatamente o do Filho e Senhor de Davi. Quinto, ele foi um guerreiro poderoso (veja 1 Sm. 11:11; 13:1-4; 15:4; 7:8). Sexto, ele foi um rebelde contra Deus (1 Sm. 15:11). Sétimo, ele odiava Davi (1 Sm. 18:7-8,11; 26:2, etc.) Oitavo, ele matou os servos de Deus (1 Sm 22:17-18). Nono, ele buscou os poderes do mal (1 Sm. 29). Décimo, ele morreu à espada (1 Sm. 31:4).

8. Golias. Primeiro, seu nome significa "Adivinho", o que o conecta imediatamente com os poderes do mal. Segundo, ele foi um gigante e, como Saul, prefigurou o super-homem. Terceiro, ele foi inimigo de Israel. Quarto, ele exibiu sua egolatria em seu atrevido desafio: "Hoje desafio as companhias de Israel, dizendo: Dai-me um homem, para que ambos pelejemos." (1 Sm. 17:10). Quinto, o misterioso número 666 (o número do Anticristo) está conectado com Golias. Observe os três seis: (a) Ele tinha seis côvados e um palmo de altura (1 Sm. 17:4); (b) seis peças de armadura são enumeradas — capacete, couraça de escamas, grevas, escudo, haste e ponta da lança. (1 Sm. 17:5-7); (c) a ponta de sua lança pesava seiscentos siclos de ferro (1 Sm. 17:7). Sexto, ele foi morto à espada (veja 1 Sm. 17:51). Sétimo, ele foi morto por Davi — um tipo de Cristo. Em cada um desses aspectos Golias prefigurou o Anticristo.

9. Absalão. Primeiro, o sentido do seu nome é muito significativo. Absalão significa "Pai da paz". Uma leitura cuidadosa de sua história revela o fato que ele repetidamente posou como um homem de paz, ao mesmo tempo que a guerra estava em seu coração. Assim também o Anticristo posará como o prometido Príncipe da paz e por um tempo parecerá que ele realmente dará início a um período de paz. Mas não demorará muito para que seu caráter violento e sanguinário seja revelado. Segundo, Absalão era filho de Davi e, portanto, um judeu. Terceiro, Absalão era filho de Davi com Maaca, a filha do rei gentio de Gesur (2 Sm. 3:3). Assim, também, o Anticristo será um verdadeiro rei entre os homens. Quinto, Absalão era um homem sanguinário (2 Sm 13, etc.) Sexto, Absalão procurou conquistar o reino por meio de lisonjas (2 Sm. 15:2-6); confira Dn. 11:21,23. Sétimo, ele revestiu sua rebelião com a capa da religião (leia 2 Sm. 15:7-8). Oitavo, ele foi a causa imediata para os seguidores fiéis de Davi precisarem deixar Jerusalém e irem para o deserto (2 Sm. 15:14-16). Nono, ele ergueu um pilar para si mesmo (2 Sm. 18:18), o que claramente prefigurou a imagem que o Anticristo também fará para si mesmo. Décimo, ele teve uma morte violenta (2 Sm. 18:14).

Existem diversos outros personagens que prefiguraram o Anticristo em um ou mais dos principais aspectos de seu caráter e carreira. Por exemplo, Balaque, que acompanhado pelo profeta Balaão, procurou amaldiçoar e destruir Israel — uma interessante prefiguração da besta e de seu aliado, o Falso Profeta. Há também Adoni-Zedeque, mencionado em Josué 10, que presidiu uma federação de dez reis; é interessante que seu nome significa "Senhor da justiça", que é aquilo que o Anticristo afirmará ser quando se apresentar assentado sobre o cavalo branco (Ap. 6). Depois, há Adonicão, com quem o número místico 666 está associado — veja Esdras 2:13; e quão profundamente significativo é que seu nome signifique "o Senhor ressuscitou". Acreditamos que esse número místico em conexão com o Anticristo se aplicará a ele somente após sua ressurreição — e seis é o número do homem! Senaqueribe (2 Re. 18) prefigurou o Anticristo de diversas formas; como rei da Assíria, o ousado desafiante de Deus, ferido à espada, etc. Hamã, quatro vezes denominado "adversário dos judeus" (Ester 3:10, etc.) e chamado de "inimigo" (Et. 7:6) foi outro personagem que tipificou o Anticristo. Nabucodonosor, rei dos reis, que exigiu adoração universal, que ergueu uma imagem para si mesmo e decretou que todos deveriam adorá-la, sob pena de morte, etc., manifestadamente apontou para o Homem do Pecado, e assim poderíamos continuar. Quase todo aspecto proeminente da pessoa e carreira do Anticristo foi prefigurado por algum personagem do Velho Testamento. O assunto é imensamente interessante e acreditamos que muitos de nossos leitores se sentirão encorajados a pesquisá-lo mais por conta própria. Para encerrar este capítulo, veremos um tipo do Anticristo no Novo Testamento.

10. Herodes. No início do Novo Testamento encontramos um tipo que prefigura o Anticristo. Referenciamos aquilo que está registrado em Mt. 2. A descrição ali fornecida de Herodes obviamente contém uma prefiguração profética de seu grande protótipo. Observe primeiro que por três vezes ele é denominado de "rei" (versos 1, 3, 9); como tal ele prefigurou o último grande rei, antes do aparecimento do Rei dos reis. Segundo, observe sua hipocrisia. Quando os magos que tinham seguido a estrela que anunciava o nascimento do Salvador foram chamados à presença de Herodes, ele lhes disse: "Ide, e perguntai diligentemente pelo menino e, quando o achardes, participai-mo, para que também eu vá e o adore." (v. 8). Que nada poderia estar mais longe de suas reais intenções é claro a partir de seus atos subsequentes. Mas, apesar de tudo, ele primeiro posou como um adorador devoto. Este será o papel que o Anticristo exercerá primeiro na Palestina. Terceiro, em seguida, ele removeu sua máscara religiosa e mostrou seu coração mau: "Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos." (v. 16). Similarmente, o Anticristo agirá em Jerusalém. Três anos e meio antes do seu fim chegar ele colocará de lado suas pretensões religiosas e se mostrará em seu verdadeiro caráter. Quarto, em seu édito de matar as crianças pequenas em Belém e em seus arredores, Herodes visava, é claro, matar ao próprio Cristo. Assim, ele prefigurou com exatidão aquele que ainda cumprirá os termos de Gn. 3:15, onde lemos a respeito de uma dupla inimizade — entre Satanás e a mulher (Israel) e entre a semente da mulher (Cristo) e a semente da Serpente (o Anticristo). Em quinto lugar, podemos também descobrir na destruição das crianças por Herodes um prenúncio dos ataques cruéis que o Anticristo fará contra os judeus, que ele procurará exterminar e impedir que sejam uma nação. Em sexto lugar, podemos observar como as consequências da crueldade de Herodes reaparecerão no futuro — "Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, e não querendo ser consolada, porque já não existem." (Mt. 2:18). Esta é uma citação de Jr. 31:15. Entretanto, como a maioria, se não todas as profecias, esta receberá outro e final cumprimento no fim do período da Tribulação. Nossa autoridade para afirmar isto se encontra nas palavras que seguem imediatamente em Jr. 31: "Assim diz o SENHOR: Reprime a tua voz de choro, e as lágrimas de teus olhos; porque há galardão para o teu trabalho, diz o SENHOR, pois eles voltarão da terra do inimigo. E há esperança quanto ao teu futuro, diz o SENHOR, porque teus filhos voltarão para os seus termos." Portanto, é claro que "choro e grande pranto" serão novamente ouvidos em Ramá imediatamente antes de Cristo retornar e restaurar Israel. Sétimo, a precisão do retrato do tipo fornecido por Mateus 2 pode ser descoberto no fracasso de Herodes em destruir o Cristo-menino. Exatamente como Deus estorvou os planos de Herodes, assim também estorvará os projetos malignos do Anticristo; e, exatamente como lemos de Cristo vir e habitar em Nazaré após a morte de Herodes, assim também Cristo habitará novamente naquela terra após a morte do falso rei. Certamente, esse impressionante retrato de um tipo do Anticristo deve nos fazer examinar mais diligentemente outras alusões misteriosas a ele no Novo Testamento.

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Data da publicação: 2/10/2010
Transferido para a área pública em 21/4/2020
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A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/anticristo-cp13.asp