O Anticristo

Autor: Arthur W. Pink



CAPÍTULO 15

O Anticristo e Babilônia


No capítulo anterior ficamos confinados ao Velho Testamento; neste e no seguinte trataremos principalmente de Babilônia em Apocalipse 17 e 18; entretanto, por necessidade, examinaremos esses capítulos à luz de passagens do Velho Testamento. No capítulo anterior, analisamos rapidamente a evidência no Velho Testamento que prova que Babilônia será reconstruída e que o Anticristo reinará sobre ela durante o tempo do fim. Agora, como tanto o Velho quanto o Novo Testamento têm um mesmo autor divino, não é possível que o Novo esteja em conflito com o Velho.

"Se o Velho e o Novo Testamento tratam das circunstâncias que precederão imediatamente o advento do Senhor em glória, os fatos substantivos desse período precisam ser da mesma forma referidos em ambos. Se o Velho Testamento declara que Babilônia e a 'terra de Sinar' serão o foco da malignidade que influenciará todo o mundo no tempo do fim, é impossível que o Apocalipse, quando trata do mesmo período, esteja silencioso a respeito dessa malignidade, ou com relação ao local de sua concentração. Se o Velho Testamento fala de um indivíduo de grande poder que estará conectado com essa malignidade e que será rei de Babilônia, e que se exaltará como se fosse Deus, não se deve supor que o Apocalipse trate do mesmo período e esteja silencioso a respeito desse evento. Portanto, se no Velho Testamento a esfera está fixada, a localidade nomeada e o indivíduo definido — é impossível que o Apocalipse, ao detalhar os eventos do mesmo período, altere as localidades ou os indivíduos. Não podem existir dois indivíduos soberanos, nem duas cidades soberanas na mesma esfera e ao mesmo tempo. Se a menção da 'terra de Sinar', da Assíria, e do 'rei de Babilônia', têm a intenção no Velho Testamento de tornar nossos pensamentos fixos e definidos, por que deveriam termos similares, aplicados no Apocalipse para reconhecidamente o mesmo período, serem menos definidos?" (B. W. Newton).

De Ap. 17 e 18 já foi bem dito: "Talvez não exista outra seção do Apocalipse mais carregada com dificuldades que as predições referentes a Babilônia. Enigmáticas e inconsistentes uma com a outra, como elas parecem ser à primeira vista, precisamos prestar muita atenção a cada detalhe em particular e fazer uma investigação paciente em outras escrituras se quisermos penetrar em seus significados e conhecer seus segredos." (G. H. Pember). Dando continuidade ao nosso estudo atual, não podemos fazer melhor do que tomar emprestadas novamente as palavras de Pember: "O presente ensaio, necessariamente breve e imperfeito, não é escrito em um espírito de certeza dogmática que soluciona o mistério; mas somente como a conclusão, pela luz que até aqui foi concedida, por parte de alguém que, tendo recebido misericórdia do Senhor, foi levado a muito considerar este e outros assuntos similares."

Uma exposição do Apocalipse ou de qualquer parte dele deve ser o último lugar para o dogmatismo. Tanto no início quanto no fim do livro, o Espírito Santo diz expressamente que o Apocalipse é uma "profecia" (1:3; 22:19), e a profecia é, admitidamente, o assunto mais difícil para estudo nas Escrituras. É verdade que durante o último século Deus se agradou em dar ao Seu povo não pouca luz sobre as porções preditivas de Sua Palavra, e o Apocalipse não é exceção. Todavia, quanto mais lemos a literatura sobre o assunto, mais nos convencemos que o dogmatismo aqui é totalmente inapropriado. Durante os últimos quinze anos este autor estabeleceu como meta ler o Apocalipse atentamente pelo menos três vezes por ano e, durante esse período, também leu mais de trinta comentários sobre o último livro da Bíblia. A leitura das várias e conflitantes interpretações avançadas me ensinaram duas coisas. Primeira, a sabedoria de ser cauteloso em adotar qualquer uma das opiniões prevalecentes; segunda, a necessidade de espera paciente em Deus em busca de luz adicional. Podemos também acrescentar uma terceira: a possibilidade, ou a probabilidade, de muitas das profecias do Apocalipse receberem um duplo e, em alguns casos, um triplo cumprimento.

"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar..." Isto se aplica igualmente aos profetas e às epístolas e foi tão verdadeiro quinhentos anos atrás como é hoje. Assim sendo, a correta compreensão do cumprimento final das profecias no Apocalipse não pode ser o único valor que o livro possui. O conteúdo do Apocalipse teve uma mensagem pertinente e apropriada para o povo de Deus desta dispensação em cada geração. Algo nele deve ter fortalecido a fé daqueles santos que leram o livro durante a "Idade das Trevas" e os capacitou a detectarem e se afastarem daquilo que se opunha a Deus e ao Seu Cristo. Em outras palavras, as profecias do Apocalipse devem ter recebido um cumprimento gradual e parcial ao longo dos séculos da era cristã, embora o cumprimento final ainda esteja no futuro. Tal é o caso com Ap. 17 e 18. Desde que João recebeu o Apocalipse, sempre existiu um sistema que, em suas características morais, corresponde com a Babilônia de Ap. 17. Esse sistema existe hoje; existirá após a igreja ser arrebatada e surgirá outro e final sistema que esgotará a abrangência da profecia.

A posição que o Apocalipse ocupa no Cânon Sagrado é certamente indicativa do caráter do seu conteúdo. O fato que ele está colocado no fim, sugere imediatamente que ele trata daquilo que se refere ao fim das coisas. Além do mais, é dado como certo que o estudante desse sexagésimo sexto livro da Bíblia já esteja familiarizado com os sessenta e cinco livros precedentes. A Escritura interpreta a si mesma e podemos estar certos que tudo aquilo que parece vago ou difícil nesse último livro das Escrituras se deve à nossa ignorância do significado dos livros que o precedem e, particularmente, dos profetas. No Apocalipse, os vários rios de predição, que podem ser rastreados nas Escrituras do Velho Testamento, são vistos esvaziando-se no mar do cumprimento histórico. Ou, para mudar a figura de linguagem, aqui somos dados a contemplar o último ato do grande drama dispensacional, os atos preliminares do qual foram tratados nos escritos dos profetas de Israel. Todavia, como indicado anteriormente, essas cenas finais já tiveram um ensaio preliminar durante o curso dos séculos da era cristã.

Portanto, estamos longe de compartilhar as visões daqueles que limitam as profecias do Apocalipse a um único cumprimento. Acreditamos que há muita verdade nas interpretações das escolas Histórica e Futurista. Estamos em total concordância com as seguintes palavras da pena de nosso estimado irmão F. C. Jennings: "Quantas das controvérsias que infelizmente prevalecem entre o povo do Senhor se devem a um modo estreito de limitar os pensamentos de Deus, e procurar confiná-los ou torcê-los de acordo com nossa própria compreensão deles. Quão frequentemente dois ou mais sistemas opostos de interpretação podem realmente estar ambos corretos; a largura, comprimento, altura e profundidade da mente de Deus, inclui e ultrapassa ambos." Vamos agora entrar mais diretamente no nosso tema atual.

A primeira vez que Babilônia é mencionada no Apocalipse é em 14:8: "E outro anjo seguiu, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, aquela grande cidade, que a todas as nações deu a beber do vinho da ira da sua prostituição." Agora, o que há aqui para rejeitar a conclusão natural que "Babilônia" significa Babilônia? Duas ou três gerações atrás, os estudantes das profecias bíblicas receberam ajuda incalculável com a simples descoberta que quando o Espírito Santo falava da Judéia e de Jerusalém no Velho Testamento, Ele realmente queria dizer Judéia e Jerusalém, não Inglaterra e Londres; e que quando mencionava Sião, não estava se referindo à igreja. Mas, é estranho que poucos desses irmãos aplicaram a mesma regra para o Apocalipse. Aqui, eles são culpados por fazerem exatamente a mesma coisa que condenaram em seus antepassados em conexão com o Velho Testamento — eles "espiritualizaram". Eles concluíram, ou melhor, aceitaram as conclusões dos Reformadores, que Babilônia representava a Roma papal, o que mais tarde foi refinado para significar o cristianismo apóstata. Mas, o que há em Ap. 14:8 que dê qualquer indicação que "Babilônia" ali se refere ao sistema papal? Não; acreditamos que esta escritura significa aquilo que diz, e que não precisamos dos anais da história secular para nos ajudar a compreender isto. E então? Se considerar que "Jerusalém" significa Jerusalém é um teste de inteligência nas profecias do Velho Testamento, devemos ser considerados heréticos se considerarmos que "Babilônia" significa Babilônia, e não Roma ou a cristandade apóstata?

A próxima referência à Babilônia está em Ap. 16:18-19: "E houve vozes, e trovões, e relâmpagos, e um grande terremoto, como nunca tinha havido desde que há homens sobre a terra; tal foi este tão grande terremoto. E a grande cidade fendeu-se em três partes, e as cidades das nações caíram; e da grande Babilônia se lembrou Deus, para lhe dar o cálice do vinho da indignação da sua ira." Os comentários feitos anteriormente aplicam-se com igual força a esta passagem também. Certamente, é uma cidade literal que está em vista e que é dividida em três partes por um terremoto literal. Se o significado não é este, então o leitor simples pode se afastar do Apocalipse em total desânimo. Mais do que uma indicação da literalidade dessa grande cidade Babilônia é encontrada no contexto, em que lemos sobre o rio Eufrates (v. 12). Isto é suficiente para este autor; se é ou não para o leitor, não é da nossa conta.

Chegamos agora a Ap. 17, e tão logo lemos seu conteúdo, chama imediatamente nossa atenção a notável diferença que há entre ele e as outras passagens que acabaram de estar diante de nós. Aqui, a linguagem não é mais para ser compreendida literalmente, mas simbolicamente; aqui os termos não são claros e simples, porém ocultos e misteriosos. Deus, porém, em Sua graça, nos fornece ajuda. Ele nos diz que aqui há "mistério" (v. 5). Além do mais, Ele explica a maioria (se não todos) os símbolos para nós — veja os versos 9, 12, 15 e 18. Com esse auxílio fornecido, não deve ser difícil compreender o esboço geral.

As figuras centrais em Ap. 17 são "a grande prostituta", a "besta de cor escarlata", e os "dez chifres". A besta, evidentemente, é a primeira besta de Ap. 13. Os "dez chifres" são definidos como "dez reis" (v. 12). Quem, então, está retratado pela "grande prostituta"? Existem diversas afirmações feitas com relação à "grande prostituta" — a "mulher" — "a mãe das prostituições' — que são de grande ajuda para fornecer uma resposta a esta questão. Primeiro, é dito que ela "está assentada sobre muitas águas" (v. 1), e no v. 15, se diz que as águas significam "povos, multidões, nações e línguas". Segundo, é dito que "os reis da terra se prostituíram com ela" (v. 2). Terceiro, ela está sendo carregada por uma "besta de cor escarlata" (v. 3), e a partir do que é dito dessa besta no v. 8, é claro que ela é o Anticristo, visto aqui na liderança do último império mundial. Quarto, a mulher "estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas" (v. 4). Quinto, "na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande Babilônia" (v. 5) Sexto, a mulher "estava embriagada do sangue dos santos, e do sangue das testemunhas de Jesus." (v. 6). Sétimo, o último verso diz: "E a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra." Estes sete pontos dão um resumo daquilo que é aqui dito sobre essa "mulher".

Agora, a interpretação que tem sido mais amplamente aceita é que a "prostituta" de Ap. 17 retrata o sistema da Igreja Católica Romana. Apela-se ao fato que embora essa igreja pose como uma virgem, é culpada da mais terrível fornicação espiritual. Ao contrário de Cristo, que, em Sua condescendência e humilhação, não tinha onde repousar a cabeça, o romanismo tem cobiçado a prata e o ouro e tem se exibido com grande luxo. Ele derramou ilicitamente o sangue dos santos. Outros paralelismos entre a mulher de Ap. 17 e o sistema católico romano podem ser indicados. O que, então, diremos destas coisas?

Os pontos de correspondência entre Ap. 17 e a história do romanismo são numerosos e marcantes demais para serem considerados como meras coincidências. Indubitavelmente, o papado forneceu um cumprimento da profecia simbólica encontrada em Ap. 17. E aqui está o valor prático que o Apocalipse teve para o povo de Deus durante toda a Idade das Trevas. Ele apresentou uma advertência clara demais para ser desconsiderada. Ele foi o meio de manter as vestes dos valdenses (e de muitos outros) incontaminadas pela imundície. Ele confirmou a fé de Lutero e de seus contemporâneos, que eles estavam agindo de acordo com a vontade revelada de Deus quando se separaram daquilo que estava manifestamente em oposição à Sua verdade. Apesar disso, porém, existem outros aspectos nessa profecia que não se aplicam ao romanismo e que nos levam a olhar para outra parte, para o cumprimento total e final. Destacaremos apenas dois desses aspectos.

Em Ap. 17:5 Babilônia é chamada de "mãe das prostituições e abominações da terra". É esta uma descrição exata do romanismo? Não houve sistemas prostituídos antes dele? É o papado a mãe das "abominações da terra"? Vamos permitir que as escrituras interpretem as escrituras. Em 1 Re. 11:5-7, lemos: "Porque Salomão seguiu a Astarote, deusa dos sidônios, e Milcom, a abominação dos amonitas... Então edificou Salomão um alto a Quemós, a abominação dos moabitas, sobre o monte que está diante de Jerusalém, e a Moloque, a abominação dos filhos de Amom."! O papado não existia quando João escreveu o Apocalipse, de modo que não pode ser considerado responsável por todas as abominações que o precederam. Novamente, em Ap. 17:2, lemos da "grande prostituta" com quem "os reis da terra se prostituíram". Isto é aplicável em sua totalidade a Roma? Os reis da Ásia e da África se prostituíram com o papado? É verdade que os pontífices italianos governaram sobre um grande território, porém é também verdade que existem muitas terras que permaneceram intocadas por sua influência religiosa.

É evidente a partir desses dois pontos somente que temos de voltar para algo que antecede em muito a ascensão do papado e para algo que tem exercido uma influência muito maior do que qualquer um dos papas. O que, então, é isto? e onde procuraremos? A resposta não é difícil de encontrar: a palavra "Babilônia" nos fornece a chave necessária. Babilônia nos leva ao passado, não meramente aos dias de Nabucodonosor, mas ao tempo de Ninrode. Foi nos dias do filho de Cuxe que Babilônia teve início. Foi a partir da planície de Sinar que fluiu aquele rio de águas sujas cujos tributários chegaram a toda parte na Terra. Foi ali e naquele tempo que a idolatria teve início. Em seu livro The Two Babylons, [1] o Dr. Alexander Hislop prova conclusivamente que todos os sistemas idólatras das nações tiveram sua origem na cidade que foi fundada pelo poderoso Rebelde, cujo reino teve origem em Babel. (Gn. 10:10) Entretanto, não poderemos agora entrar nos detalhes. Pedimos que o leitor consulte nossos comentários sobre Ninrode no Cap. 13. Babilônia foi fundada em rebelião contra Deus. O próprio nome que Ninrode deu à sua cidade prova que ele foi um idólatra — o primeiro mencionado nas Escrituras, pois Bab-El significa "A porta de Deus"; de modo que ele, como seu antítipo, procurou se exaltar acima de tudo o que se chama Deus (2 Ts. 2:4). Esta, então, foi a fonte e a origem de toda a idolatria. A Roma pagã, que mais tarde se transformou na Roma papal, foi somente um dos rios poluídos que surgiu a partir dessa fonte corrompida — uma das "filhas" imundas dessa impura Mãe das Prostituições.

Retornando a Apocalipse 17, lemos no verso 5: "E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra." Acreditamos que os tradutores erraram ao imprimir (por sua própria conta) a palavra "mistério" em maiúsculas, fazendo-a assim parecer que é parte do nome da mulher. Estamos certos que isto foi um erro. Que o "mistério" está conectado com a "mulher" e não com seu "nome" é claro a partir do v. 7, em o anjo diz a João: "Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres."

A palavra "mistério" é usada no Novo Testamento de duas formas. Primeiro, como um segredo, incompreensível ao homem, mas explicado por Deus; veja Mt. 13:11; Rm. 16:26; Ef. 3:3,6, etc. Segundo, a palavra "mistério" significa um sinal, ou símbolo. Este é seu significado em Ef. 5:32, em que a união de um homem com sua mulher para que os dois se tornem uma só carne é chamada de um grande mistério (isto é, um grande sinal, ou símbolo) de Cristo e da igreja. Assim, novamente, em Ap. 1:20, lemos do "mistério (sinal ou símbolo) das sete estrelas, etc.

Como vimos, o termo "mistério" tem dois significados em seu uso no Novo Testamento e acreditamos que tenha um duplo significado em Ap. 17:5, em que está conectado com a "mulher". A palavra significa tanto um símbolo e um segredo, isto é, algo que anteriormente não foi revelado. Também deve ser observado que, em harmonia com isto, o nome dado à mulher é duplo — "Babilônia, a grande" e "a mãe das prostituições e das abominações da terra". O que, então, está simbolizado pela mulher com esse nome dual? O v. 18 nos diz: "E a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra." Agora, para entender a força disto é essencial que tenhamos em mente que, no Apocalipse, as palavras "é" e são" quase sempre (em suas seções simbólicas) significam "representam". Assim, em Ap. 1:20, as "sete estrelas são as sete igrejas" significa "as sete estrelas representam as sete igrejas"; e "os sete castiçais são as sete igrejas", significa "os sete castiçais representam as sete igrejas". Portanto, em Ap. 17:9, "as sete cabeças são (representam) sete montes"; Ap. 17:12 "os dez chifres são (representam) dez reis", Ap. 17:15 "as águas que viste ... são (representam) povos", etc. Portanto, em Ap. 17:18, "A mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra" precisa significar: "a mulher representa a grande cidade". Qual é, então, o significado de "grande cidade"?

Em harmonia com o que acabamos de dizer acima, isto é, que o termo "mistério" em Ap. 17:5 tem um duplo significado e que a mulher tenha um nome dual, acreditamos que "a grande cidade" tem uma dupla força e aplicação. Primeiro, significa uma cidade literal, que ainda será construída na terra de Sinar, às margens do rio Eufrates. Prova disto foi fornecida no nosso capítulo anterior, de modo que não precisamos parar aqui para apresentar as evidências. Seis vezes (um número significativo!) "Babilônia" é referida no Apocalipse e em parte alguma há uma indicação que o nome não deva ser compreendido literalmente. Em segundo lugar, a grande cidade" (não nomeada) significa um sistema idólatra — "mãe das prostituições" um sistema de idolatria que se originou em Babilônia nos dias de Ninrode, e um sistema que culminará e terminará em outra Babilônia em um dia por vir em breve. Acreditamos que isto seja claro e esteja na superfície. Qual é, então, o segredo aqui revelado, que até então tinha sido tão bem guardado?

Ao procurar a resposta para a última questão é importante observar que há outra "mulher" no Apocalipse, entre a qual e esta no capítulo 17 existem algumas chocantes comparações e alguns vívidos contrastes. Vamos observar alguns deles. Primeiro, em Ap. 12:1, lemos a respeito de uma "mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça", o que simbolicamente significa que ela ocupa uma posição de autoridade e governo (confira Gn. 37:9). Segundo, essa mulher de Ap. 12 é uma mãe, pois dá à luz um filho homem que regerá todas as nações (v. 5); assim também a mulher de Ap. 17 é a "mãe das prostituições". Terceiro, em 12:3 lemos de um grande dragão vermelho "que tinha sete cabeças e dez chifres" (v. 3). Quarto, em Ap. 19:7 a mulher do cap. 12 é chamada de "esposa do Cordeiro" (v. 7), enquanto que a mulher de Ap. 17 é a prostituta do Diabo. Quinto, a esposa de Ap. 19 está "vestida de linho fino, puro e resplandecente" (v. 8); mas, a prostituta do cap. 17 está vestida de púrpura e escarlate e tem em sua mão um cálice "repleto das abominações e imundícias da sua prostituição" (v. 4). Sexto, a esposa do Cordeiro também está inseparavelmente conectada com uma grande cidade, a santa Jerusalém (21:10); a prostituta de Ap. 17 está conectada com uma grande cidade, Babilônia. Sétimo, a mulher casta habitará com o Cordeiro para sempre; a prostituta sofrerá tormentos infindáveis no lago de fogo.

Uma vez que aprendemos quem está simbolizado pela mulher casta, estamos em condições de identificar a mulher corrupta, que é comparada e contrastada com ela. Com relação a quem é significado pela primeira, certamente existe pouco espaço para dúvida — é a porção fiel de Israel. Ela é aquela que deu à luz o filho homem — isto é Judá, em contraste com as dez tribos infiéis que, por causa da idolatria, estavam, no tempo da encarnação, no cativeiro. Assim, em Ap. 19 e 21 existem diversas coisas que mostram claramente (para a mente sem preconceitos) que a noiva, a esposa do Cordeiro, é o Israel redimido, e não a igreja. Por exemplo, em Ap. 19:6,7, quando o louvor é entoado por causa da chegada das bodas do Cordeiro, uma grande multidão exclama: "Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina. Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou." Aleluia (que não ocorre em parte alguma no Novo Testamento, exceto neste capítulo) é uma expressão peculiarmente hebraica que significa "Louvai ao Senhor". Em segundo lugar, a palavra para bodas (gamos), ou "festa de casamento" é a mesma que é usada em Mt. 22:2,3,8,11,12, em que, claramente, é Israel que está em vista. Em terceiro lugar, observe que somos informados: "Sua esposa já se aprontou" (v. 7). Contraste isto com Ef. 5:26, em que aprendemos que Cristo preparará a igreja — veja Mt. 23:29 para Israel se aprontando. Em quarto lugar, em 19:8 lemos: "E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos." A igreja estará vestida e adornada anos antes do tempo contemplado aqui. Em quinto lugar, observe que é dito que "vindas são as bodas do Cordeiro" (v. 7), exatamente quando Ele está no ponto de deixar o céu e vir para a Terra (v. 11); mas a igreja estará com Ele na casa do Pai há pelo menos sete anos (provavelmente quarenta anos, ou mais) quando essa hora chegar. Em sexto lugar, em Ap. 21:9,10, a esposa do Cordeiro está inseparavelmente conectada com aquela grande cidade, a santa Jerusalém e, na descrição que se segue, somos informados que nas doze portas da cidade estão escritos os nomes das doze tribos dos filhos de Israel" (v. 12)! Certamente, esta é uma evidência conclusiva que não é a igreja que está aqui em vista. Em sétimo lugar, em Ap. 21:14, somos informados que doze fundamentos do muro da cidade tinham "os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro" (confira Mt.19:28!). É imaginável que o nome do apóstolo Paulo teria sido omitido se a igreja estivesse ali simbolicamente retratada? [2].

Se, então, a mulher casta de Ap. 12:19,21 simboliza o Israel fiel, a mulher corrompida não precisa representar o Israel descrente? Mas, em caso afirmativo, por que conectá-la tão intimamente com Babilônia, a grande cidade? Será de ajuda aqui lembrar que a mulher casta do Apocalipse também está indissoluvelmente unida com uma cidade. Em Ap. 21:9, lemos que um dos sete anjos disse a João: "Vem, mostrar-te-ei a esposa, a mulher do Cordeiro." Em seguida, lemos: "E levou-me em espírito a um grande e alto monte, e mostrou-me a grande cidade, a santa Jerusalém, que de Deus descia do céu." Assim, embora separadas, as duas estão intimamente conectadas. A noiva habitará na santa Jerusalém. Assim, aqui em Ap. 17, embora distinta, a prostituta está intimamente relacionada com a cidade de Babilônia. Uma das muitas provas relacionadas com a prostituta de Ap. 17 ser o Israel apóstata se encontra em Is. 1, em que lemos: "Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora homicidas." (v. 21). Nos versos seguintes, o Senhor dos Exércitos se dirige a Israel e descreve as condições que prevalecerão no tempo do fim. Após indiciar Israel por seus pecados, o Senhor declara: "Ah! tomarei satisfações dos meus adversários, e vingar-me-ei dos meus inimigos." Claramente, isto tem referência com o período da Tribulação. Em seguida, o Senhor continua: "E voltarei contra ti a minha mão, e purificarei inteiramente as tuas escórias; e tirar-te-ei toda a impureza", e então acrescenta: "E te restituirei os teus juízes, como foram dantes; e os teus conselheiros, como antigamente; e então te chamarão cidade de justiça, cidade fiel." Quão claro é então que Deus chame Israel de "prostituta" por causa de sua infidelidade. Para provas adicionais, veja Jr. 2:20; 3:6,8; Ez. 16:15; 20:30; 43:8,9; Oséias 2:5, etc.

Em seguida, chamamos a atenção para algumas escrituras que provam que haverá israelitas em Babilônia e na terra da Assíria no tempo do fim. Em Jr. 50:4-7, lemos: "Naqueles dias, e naquele tempo, diz o SENHOR, os filhos de Israel virão, eles e os filhos de Judá juntamente; andando e chorando virão, e buscarão ao SENHOR seu Deus. Pelo caminho de Sião perguntarão, para ali voltarão os seus rostos, dizendo: Vinde, e unamo-nos ao SENHOR, numa aliança eterna que nunca será esquecida." Claramente, estes versos tratam dos dias finais do tempo das "angústias de Jacó". Na sequência imediata lemos: "Fugi do meio de Babilônia, e saí da terra dos caldeus, e sede como os bodes diante do rebanho." (v. 8). Em seguida, no próximo verso, é dada uma razão, mostrando a urgência desse chamado para os judeus fiéis se retirarem de Babilônia: "Porque eis que eu suscitarei e farei subir contra a Babilônia uma congregação de grandes nações da terra do norte, e se prepararão contra ela; dali será tomada; as suas flechas serão como as de valente herói, nenhuma tornará sem efeito." (v. 9). Novamente, em Jr. 51:44, o Senhor diz: "E castigarei a Bel em Babilônia, e tirarei da sua boca o que tragou, e nunca mais concorrerão a ele as nações; também o muro de Babilônia caiu." Em seguida, vem o chamado para os judeus fiéis se separarem da massa de seus irmãos apóstatas em Babilônia — "Saí do meio dela, ó povo meu, e livrai cada um a sua alma do ardor da ira do SENHOR." Is. 11:11; 27:13; Mq. 4:10, todos mostram que Israel estará intimamente conectado com Babilônia no tempo do fim.

Foi uma ajuda incalculável para os estudantes de assuntos proféticos no passado descobrir que Israel é a chave que destrava a profecia e que as nações são referidas somente quando afetam o destino dos descendentes de Jacó. Existiram outras nações poderosas na antiguidade, além dos egípcios e caldeus, mas o Espírito Santo as ignorou porque a história delas não tinha relação com a da nação escolhida. A mesma razão explica por que os Impérios Babilônio, Medo-Persa, Grego e Romano ocupam um lugar proeminente no livro de Daniel — eles foram os inimigos em cujas mãos Deus entregou Seu povo rebelde. Esses princípios receberam amplo reconhecimento por parte dos estudiosos de assuntos proféticos e, portanto, é mais do que estranho que tão poucos tenham aplicado esses princípios no estudo do livro profético final. Israel é a chave para o Apocalipse, e as nações são mencionadas ali somente quando afetam imediatamente o destino de Israel. O objetivo final do Apocalipse não é o de chamar a atenção para homens como Nero, Carlos Magno, ou Napoleão, nem para sistemas como o Islamismo e o papado. Tanto não seria dito sobre Babilônia, a não ser que essa "grande cidade" ainda será o lugar de habitação para o Israel apóstata. Após estas considerações preliminares, extensas, porém necessárias, estamos agora preparados para examinar alguns dos detalhes fornecidos por Ap. 17 e 18. Poderemos aqui oferecer apenas uma visão básica, porém mesmo assim será necessário um capítulo adicional para tratar Ap. 18.

"E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas; com a qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua prostituição." (Ap. 17:1-2). A "grande prostituta" no cumprimento final dessa profecia, descreve o Israel apóstata no tempo do fim — isto é, a setuagésima semana de Daniel. A figura de uma mulher infiel para representar o Israel apóstata é comum nas Escrituras — veja Jr. 2:20; 3:6; Ez:16:15; 20:30; 43:8-9; Os. 2:5, etc. Ela é chamada aqui de "grande prostituta" por duas razões: primeira, porque (como veremos posteriormente) irá, no fim, adorar Mamom como nunca fez no passado; segunda, por causa de sua aliança idólatra com a besta. O apóstolo vê aqui o "julgamento" da prostituta. Isto está em contraste com o que temos em Ap. 12, em que aprendemos que a "mulher" casta será preservada. O Israel apóstata estará "assentado sobre muitas águas" (povos, nações, línguas, etc. — v. 15) e que os reis da terra se prostituirão com ele, reservaremos para consideração no próximo capítulo.

"E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres. E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua prostituição." (vs. 3-4). O fato de a mulher estar assentada sobre a besta não significa que controlará a besta, mas indica que a besta a apoiará. A referência final aqui é à imitação do Diabo do milênio, quando os judeus (que agora mesmo estão rapidamente vindo à proeminência) não mais serão a cauda das nações, mas a cabeça. Como o Diabo fará isso acontecer ficará aparente quando examinarmos Ap. 18. Como resultado do suporte da besta (v. 3), o apóstata Israel será elevado às alturas do poder e da glória terreais. (v. 4).

"E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra." (v. 5). Em uma Babilônia reconstruída culminarão os vários sistemas de idolatria que tiveram sua origem na primeira Babilônia dos dias de Ninrode. É nessa cidade que os judeus mais influentes se congregarão no tempo do fim. Dali, os financistas judeus controlarão os governos da Terra. Que o apóstata Israel, em Babilônia, deva estar vestido em "púrpura e escarlata" (emblemas da realeza e da glória terreal) antes do Reinado do Messias ser estabelecido, foi de fato um "mistério" (segredo) não revelado pelos profetas, mas agora é tornado conhecido no Apocalipse.

"E vi que a mulher estava embriagada do sangue dos santos, e do sangue das testemunhas de Jesus. E, vendo-a eu, maravilhei-me com grande admiração." (v. 6). A referência final é, novamente, ao Israel apóstata no tempo do fim. Os mais implacáveis inimigos dos judeus piedosos serão seus próprios irmãos apóstatas — confira nossas observações sobre Lucas 19 no Cap. 9. A segunda metade do v. 6, "E, vendo-a eu, maravilhei-me com grande admiração" deve nos mostrar que não é o romanismo que está em vista aqui. Por que deveria João, que estava ele mesmo sofrendo com a perseguição de Roma (pagã) se maravilhar com o fato de Roma (papal) estar vestida com poder e glória governamental, e embriagada com o sangue dos santos? Mas que os reis da Terra (seus piores inimigos por três mil anos) pratiquem fornicação com Israel, e que a porção apóstata da nação esteja embriagada com o sangue de seus próprios irmãos segundo a carne, foi bem calculado para enchê-lo com admiração.

"E o anjo me disse: Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres." (v. 7). Deve ser observado que na interpretação que se segue, muito mais é dito sobre a besta do que sobre a mulher. Acreditamos que a razão principal para isto é porque o verso 18 nos diz que a mulher representa "a grande cidade que reina sobre os reis da terra", e a cidade recebe uma atenção mais completa no capítulo seguinte — Ap. 18.

"Aqui o sentido, que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada. E são também sete reis; cinco já caíram, e um existe; outro ainda não é vindo; e, quando vier, convém que dure um pouco de tempo. E a besta que era e já não é, é ela também o oitavo, e é dos sete, e vai à perdição." (v. 9-11). "Aqui o sentido, que tem sabedoria." (v. 9): "Esta repetição de 13:18 identifica e conecta esses dois capítulos. A palavra traduzida como "sabedoria" em 17:9 e "entendimento" em 13:18 é a mesma. Essa "sabedoria" é compreender que, embora uma besta seja vista na visão, ela não representa um animal selvagem, mas uma grande personalidade final sobre-humana; isto é, um homem energizado pelo poder satânico." (E. W. Bullinger).

O verso 9 deveria terminar com a palavra "sabedoria"; o que segue pertence ao v. 10. "As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada. E são também sete reis; cinco já caíram, e um existe; outro ainda não é vindo; e, quando vier, convém que dure um pouco de tempo." Isto afasta imediatamente a interpretação popular que considera esses sete montes com uma referência às sete colinas sobre as quais a cidade de Roma foi construída. O Espírito Santo nos diz expressamente que os sete montes são (representam) sete reis. Desses sete reis é dito: "cinco já caíram, e um existe (isto é, o sexto existia quando João escreveu o Apocalipse) e o outro (o sétimo) ainda não é vindo; e, quando vier, convém que dure um pouco de tempo." Em seguida, no v. 11, lemos: "E a besta que era e já não é, é ela também o oitavo, e é dos sete, e vai à perdição." Sobre esses versos não podemos fazer nada melhor do que apresentar um excerto de Thoughts on the Apocalypse, de B. W. Newton:

"A passagem tem evidentemente o objetivo de direcionar nossos pensamentos para as várias formas de governo executivo ou monárquico que existiram, existem ou existirão no mundo, até a hora em que a soberania se tornará do Senhor e do Seu Cristo. Podemos esperar encontrar essa referência em um capítulo que professadamente trata daquele que virá para encerrar a história do governo humano introduzindo uma nova e maravilhosa forma de poder — uma forma nova com relação ao seu modo de administração e de desenvolvimento, porém não desconectada do passado, pois será construída com base em princípios extraídos das experiências das épocas precedentes e terá os fundamentos de sua grandiosidade lançados pelos primeiros esforços da humanidade. Ele será o oitavo rei, mas é dos sete."

"A energia intrínseca e a intrepidez daquele de quem se diz que foi um poderoso caçador diante do Senhor — uma energia essencial para os homens que estavam se estabelecendo em uma terra ainda não subjugada, cercados por animais selvagens na floresta e incontáveis dificuldades e perigos, muito naturalmente gerou a primeira forma de monarquia, e pode-se dizer que foi sua origem. 'O princípio de seu reino foi Babel'. A supremacia de Ninrode não se derivou de outro sistema previamente existente. Ele não herdou seu poder de um antecessor. Ele também não recebeu esse poder como um dom de Deus, como Nabucodonosor séculos mais tarde recebeu. Ninrode conquistou esse poder por si mesmo, pela força de seu próprio caráter individual — porém isto foi sem Deus. Grande progresso foi realizado no reino que ele estabeleceu na terra de Sinar em termos de civilização e refinamento; pois lemos nos relatos bíblicos a respeito da boa capa babilônica e das habilidades e conhecimentos dos caldeus; porém o domínio deles foi represado e contido, da forma como estava, e foi mantido em suspenso pela mão de Deus, até que Israel, Seu povo, tivesse sido plenamente provado, para ver se seria digno de obter a supremacia mundial."

"A forma de governo em Israel era um teocracia; com foi visto nos reinos de Davi e Salomão, que foram tipos (bastante imperfeitos, é claro) Daquele que virá. O monarca era independente e não era controlado pelos seus súditos, mas era dependente de Deus, que habitava no templo, sempre pronto para ser consultado, e cuja lei foi dada como o padrão final de apelação. O monarca ficava entre Deus e o povo, não para ser um funcionário e escravo do povo, não para ser a expressão de seus julgamentos e o reflexo de suas vontades, mas como alguém que tinha sido colocado sobre eles por princípios que ele próprio tinha recebido do alto. Todavia, a posse de um poder como esse, exercido na comunhão com Deus, requeria uma santidade que não foi encontrada no homem carnal e, portanto, em pouco tempo esse poder foi deturpado. Entretanto, desde então, a sanção divina tem sido muitas vezes cobiçada, e o nome de 'ungido do Senhor' tem sido assumido. O último grande rei dos gentios, de fato, fará mais do que isso, pois tomará o lugar da própria divindade e se assentará no monte da congregação, nas bandas do norte, e declarará ser semelhante ao Altíssimo. Mas, tudo isto, é claro, será uma presunção não autorizada.

"A terceira forma foi revelada quando a dinastia gentia foi formalmente constituída por Deus na pessoa de Nabucodonosor. Ele, como os monarcas de Israel, recebeu soberania absoluta em suas mãos — mas Deus não estava com ele. Nabucodonosor e seus sucessores receberam essa soberania como um poder delegado a ser exercido de acordo com sua própria vontade, embora em responsabilidade final a Deus. Não é necessário aqui descrever a dolorosa história dos gentios. É suficiente dizer com relação à história do poder, que desde o início os monarcas gentios, não conhecendo a Deus para se apoiarem Nele, e fracos demais para ficarem sozinhos, se expuseram à inveja e ao ódio daqueles a quem governavam — uma inveja frequentemente provocada por sua própria maldade — e acharam necessário se apoiarem em algo inferior a si mesmos. Destarte, o caráter do poder tem se deteriorado com o passar do tempo, até que finalmente a monarquia destes últimos dias tem consentido não somente em reconhecer o povo como a base e a fonte de seu poder, mas também em ser dirigida no exercício desse poder por regras prescritas pelos seus próprios súditos."

"A monarquia nativa de Ninrode, a teocracia de Israel, a autoridade despótica de Nabucodonosor, a monarquia aristocrática da Pérsia, a monarquia militar de Alexandre e de seus sucessores, tinham todas passado quando João recebeu a visão do Apocalipse. Todos esses métodos tinham sido experimentados — nenhum deles tinha respondido aos propósitos do homem; e agora outro método tinha surgido — a monarquia metade militar e metade popular dos Césares — o império de ferro de Roma. 'Cinco já caíram, e um existe; outro ainda não é vindo; e, quando vier, convém que dure um pouco de tempo.'"

"Esse outro (embora ainda não se possa dizer que já tenha vindo para cumprir esse verso) [3] (estamos inclinados a acreditar que o 'sétimo' é o comercialismo, isto é, os interesses do dinheiro no controle — A. W. P.) e, com uma breve exceção, a última forma que será exibida antes do fim chegar, e é sob essa forma que o sistema de Babilônia amadurecerá. É óbvio que uma monarquia, guiada não pelo povo numericamente, mas por certas classes de pessoas, e com essas classes determinadas pela posse de propriedade, precisa ser a forma adaptada para a acumulação de riqueza e crescimento do poder comercial, pois oferece (o que a pura democracia nunca conseguiu fazer) a melhor segurança para a propriedade, sem restringir indevidamente a liberdade da iniciativa individual."

Por falta de espaço aqui, seremos obrigados a pular os versos intermediários agora. Para encerrar este capítulo, oferecemos algumas rápidas palavras sobre o v. 18. "E a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra." Este verso nos diz que a prostituta representa uma cidade. A cidade é nomeada em Ap. 14:8; 16:19; 17:5; 18:2,10,21 e é certamente significativo que ela seja assim nomeada no Apocalipse seis vezes — o número do homem; enquanto que a nova Jerusalém é referenciada três vezes (Ap. 3:12; 21:2,10) — o número de Deus. Portanto, Babilônia precisa ser compreendida literalmente; caso contrário, teremos a anomalia de uma figura representar uma figura. Mas, a partir do simples fato de sermos aqui informados que a mulher representa uma cidade, sabemos que ela não é literal, mas figurativa. No próximo capítulo analisaremos mais Ap. 17 e ofereceremos alguns comentários sobre Ap. 18.


[1] Um livro de grande interesse para o antiquário, mas árido e cansativo para o leitor mediano.

[2] "Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já este meu gozo está cumprido." (Jo. 3:29; dito por João Batista) — O "amigo do esposo" — demonstra que a "esposa" estava em vista durante o ministério de nosso Senhor às ovelhas perdidas da casa de Israel. O remanescente fiel que O recebeu forma o núcleo e é representativo do Israel redimido, o Israel milenar, a noiva do Cordeiro.

[3] Não virá no sentido deste verso, até que permeie o mundo romano. Quando todos os dez reinos tiverem sido constituídos, poder-se-á dizer que terá vindo.


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Data da publicação: 9/10/2010
Transferido para a área pública em 21/4/2020
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A Espada do Espírito: http://www.espada.eti.br/anticristo-cp15.asp