O Anticristo

Autor: Arthur W. Pink



CAPÍTULO 17

Israel e o Anticristo


É motivo de ação de graças que durante as três ou quatro últimas gerações o povo de Deus tenha dado considerável atenção às profecias bíblicas que tratam do futuro de Israel. O antigo método de "espiritualizar" essas predições e aplicá-las à igreja da presente dispensação foi descartado pela maioria dos pré-milenistas. Para um número cada vez maior de estudantes da Bíblia é agora questão resolvida que Israel, como nação, será salvo (Rm. 11:26), e que as promessas de Deus aos patriarcas serão literalmente cumpridas no reino messiânico do Senhor Jesus (Rm. 9:4). Jerusalém, que por tantos séculos tem sido um provérbio na Terra, será então conhecida como "a cidade do grande Rei" (Mt. 5:35). O trono Dele será estabelecido lá e a cidade será o local de encontro para todas as nações (Zc. 8:23; 14:16-21). Então, os menosprezados descendentes de Jacó serão a cabeça das nações, e não a cauda (Dt. 28:13), o povo da antiga aliança de Deus será o centro de Seu governo terreno e a figueira, há tanto tempo estéril, "florescerá e brotará" e encherá de "fruto a face do mundo" (Is. 27:6). Tudo isto é conhecimento notório entre aqueles que estão familiarizados com a verdade dispensacional.

Entretanto, a mesma Palavra profética que anuncia o glorioso futuro que aguarda os filhos de Israel, contém também outro episódio na história desse povo singular, um capítulo ainda não concluído, que apresenta um período em sua história que será mais tenebroso e triste do que qualquer outra experiência anterior. Tanto o Velho quanto o Novo Testamento falam claramente a respeito de um período de sofrimento para os judeus, que será muito mais intenso que suas tribulações no passado. Dn. 12:1 diz: "E haverá um tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo." Em Mt. 24:21-22 lemos: "Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver. E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria."

As razões, ou causas, desse sofrimento futuro de Israel são as seguintes: Primeiro, Deus não visitou inteiramente os filhos de Israel pelos pecados de seus pais. "Quando Salomão e os demais reis de Israel, por causa da transgressão perderam suas bênçãos, e a glória do reinado de Salomão se desvaneceu, a supremacia, que foi tirada deles, foi dada a certas nações gentílicas, que foram sucessivamente surgindo e exercendo domínio na terra, durante todo o período da rejeição de Israel. A primeira dessas nações foi o Império Caldeu, sob o rei Nabucodonosor. O período denominado por nosso Senhor 'Tempo dos Gentios', inicia-se com a captura de Jerusalém por Nabucodonosor. É um período que coincide, do início ao fim, com Jerusalém sendo tripudiada. 'Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem.' Nabucodonosor, por esta razão, e os impérios dos gentios que o sucederam, somente receberam proeminência como consequência do pecado de Jerusalém. A razão por que eles receberam essa proeminência foi para que pudessem punir Jerusalém e, quando tiverem cumprido esse propósito, serão eles próprios deixados de lado e feitos, por causa de seu próprio pecado, 'como pragana das eiras do estio'. Nisto, temos outra evidência de que os desígnios terrenos de Deus giram em torno dos judeus como seu centro" (B. W. Newton).

Outra razão, ou causa, do sofrimento futuro de Israel foi a rejeição de seu Messias. Em primeiro lugar, Cristo foi "ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais" (Rm. 15:8). Ele foi enviado às "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt. 15:24). Em Sua maravilhosa graça, Ele tabernaculou entre eles. Mas, Ele não foi aceito. "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam." (Jo. 1:11). Não somente não O receberam, mas também O desprezaram, rejeitaram, e odiaram sem causa. Tão intensa foi a inimizade deles contra Deus que a uma voz clamaram: "Fora! Fora! Crucifica-o!". Somente quando Seu sagrado sangue foi derramado, e Ele morreu a morte dos amaldiçoados, que a terrível malícia deles ficou satisfeita. Por causa disto, eles ainda têm de responder a Deus. A vingança é dEle, e Ele retribuirá. Ainda não foi completamente vingado o assassinato do Filho de Deus. [1] Isto não poderá ocorrer durante o "Dia da Salvação". Entretanto, o Dia da Salvação acabará em breve, e será seguido pelo "grande dia da Sua ira" (Ap. 6:17; Jl. 2:11). Então, Deus visitará a terra com Seus severos julgamentos e, embora as nações não venham a escapar da justa retribuição devida à sua parte na crucificação de Cristo, serão punidos com maior severidade aqueles que chefiaram o maior de todos os crimes.

A forma como o julgamento de Deus cairá sobre os judeus estará em plena harmonia com a imutável lei da retribuição — aquilo que eles plantaram, também terão de ceifar. Isto foi expressamente declarado pelo Senhor Jesus: "Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis." (Jo. 5:43). Porque rejeitou o Cristo de Deus, Israel receberá o Anticristo. O mesmo é afirmado em 2 Te. 2:11-12: "E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade." A referência imediata aqui, acreditamos, é aos judeus, embora o princípio especificado também tenha sua aplicação mais ampla à cristandade apóstata. O motivo principal pelo qual Deus permitirá que o Homem do Pecado entre em cena e siga seu terrível curso de ação é para infligir uma punição ao culpável Israel. Isso é claramente ensinado em Is. 10:5, em que Deus fala assim a respeito do Anticristo: "Ai do Assírio, a vara da minha ira, porque a minha indignação é como bordão nas suas mãos. Enviá-lo-ei contra uma nação hipócrita, e contra o povo do meu furor lhe darei ordem, para que lhe roube a presa, e lhe tome o despojo, e o ponha para ser pisado aos pés, como a lama das ruas", (NR: Substituímos aqui "Assíria" por "Assírio", conforme a tradução KJV.) Confira também nossos breves comentários sobre Jr. 6:26-27 e 15:8 no Capítulo 9 deste livro.

É preciso ter em mente que os judeus deverão retornar para a Palestina e reassumir uma posição nacional, mas ainda em incredulidade. Existem muitas passagens que confirmam isso sem sombra de dúvidas. Por exemplo, Ez. 22:19-22 diz: "Portanto assim diz o SENHOR Deus: Pois que todos vós vos tornastes em escórias, por isso eis que eu vos ajuntarei no meio de Jerusalém. Como se ajuntam a prata, e o bronze, e o ferro, e o chumbo, e o estanho, no meio do forno, para assoprar o fogo sobre eles, a fim de se fundirem, assim vos ajuntarei na minha ira e no meu furor, e ali vos deixarei e fundirei. E congregar-vos-ei, e assoprarei sobre vós o fogo do meu furor; e sereis fundidos no meio dela. Como se funde a prata no meio do forno, assim sereis fundidos no meio dela; e sabereis que eu, o SENHOR, derramei o meu furor sobre vós." Os primeiros seis versos de Is. 18 descrevem como o Senhor reunirá os judeus em Jerusalém, para ali serem presas das "aves e animais". Os últimos capítulos de Zacarias levam à inevitável conclusão de que os judeus retornam à sua terra em incredulidade, pois, se sua conversão nacional ocorre em Jerusalém (Zc. 12:10), eles têm de retornar para ela incrédulos.

Quando o Anticristo se manifestar, grandes contingentes de judeus já estarão na Palestina, vivendo em uma condição próspera. Qual, então, será sua relação com eles? Fornecer uma resposta detalhada sobre isso não é nada fácil e, na melhor das hipóteses, podemos apenas fazer conjeturas. Sem dúvida, existem muitas particularidades relativas a este e a outros assuntos relacionados, que não serão esclarecidas até que as profecias concernentes a esses assuntos sejam cumpridas. Hoje, ocupamos uma posição similar com relação às profecias referentes ao Anticristo que os santos do Velho Testamento ocuparam com relação às muitas passagens que prenunciavam a vinda do Messias. A dificuldade era organizar as passagens na ordem em que estavam para se cumprir, e distinguir entre aquelas que falavam sobre Jesus em humilhação e aquelas que prenunciavam Sua glória vindoura. Uma perplexidade semelhante nos confronta hoje. Determinar a sequência das profecias referentes ao Anticristo é um verdadeiro problema. Mesmo quando nos limitamos àquelas passagens que falam do Anticristo em conexão com Israel, temos de distinguir entre as que se referem apenas ao remanescente fiel e as que se referem à grande massa apóstata da nação; além disso, temos ainda de fazer separação entre as profecias relativas ao tempo em que o Anticristo estará se portando como o verdadeiro Cristo, e as que o retratam na fase final de sua carreira, depois de ter retirado a máscara do fingimento religioso.

Parece que a primeira coisa revelada na profecia a respeito das relações entre o Anticristo e Israel é o estabelecimento de uma "aliança" com eles. Isto é mencionado em Dn. 9:27: "E ele firmará aliança com muitos por uma semana", ou seja, por sete anos. Os "muitos" referidos aqui não podem ser outros senão a massa do povo judeu, pois esse povo é o tema principal da profecia. Quem faz essa aliança é o "príncipe que há de vir" do verso anterior, o líder do Império Romano restaurado. Assim, a relação entre esse príncipe, o Anticristo, e a massa dos judeus deverá ser, à princípio, uma relação aparente de amizade e aliança pública. Que essa aliança não será forçada sobre Israel, mas, ao contrário, aceita voluntariamente por eles, como se estivessem buscando o patrocínio do Anticristo, fica evidente em Is. 28:18, em que Deus, indignado, dirige-se a eles da seguinte forma: "E a vossa aliança com a morte se anulará; e o vosso acordo com o inferno não subsistirá; e, quando o dilúvio do açoite passar, então sereis por ele pisados." E isto, acreditamos, fornece a chave para Dn. 2:43.

A visão de Nabucodonosor da grande estátua e a interpretação dada por Daniel, descreve a história governamental do mundo no que se refere à Palestina; detalhes adicionais são fornecidos em outras visões encontradas no livro de Daniel. "Os desígnios terrenos de Deus giram em torno de Jerusalém como centro. O método que aprouve a Deus adotar, dando a história profética dessas nações, está em concordância com este princípio. Logo que se elevaram à supremacia e suplantaram Jerusalém, profetas foram enviados, especialmente Daniel, para descrever seu rumo. Poderíamos, talvez, esperar que sua história fosse dada minuciosa e consecutivamente, desde o início até o fim. Mas, ao invés disso, ela só é dada em sua conexão com Jerusalém, e assim que Jerusalém foi finalmente destruída pelos romanos e deixou de ocupar uma posição nacional, toda a história detalhada dos impérios gentílicos está em suspense. Muitos personagens importantes da história mundial surgiram desde então. Carlos Magno, Napoleão, muitos outros monarcas, muitos outros conquistadores, batalhas foram travadas, reinos se levantaram e reinos foram subvertidos — porém a Escritura passa silenciosamente sobre eles, apesar de terem sido notáveis na história dos gentios. Como Jerusalém deixou de ser uma nação há 1800 anos, o detalhe da história gentílica ficou em suspense — e ainda está em suspense, e não será retomado até que Jerusalém reassuma uma postura nacional. Então, novamente a história dos gentios será dada minuciosamente, e a glória e o domínio de seu último grande rei descritos. Ele estará especialmente conectado com Jerusalém e com a terra... O assunto do livro de Daniel como um todo, é a indignação de Deus dirigida por meio da instrumentalidade dos impérios gentílicos sobre Jerusalém" (B. W. Newton, Aids to Prophetic Enquiry, First Series).

O método utilizado pelo Espírito Santo no livro de Daniel é nos dar uma descrição geral do domínio gentílico sobre Jerusalém, e isto é encontrado na visão da estátua no capítulo 2; depois, completar essa descrição, o que é feito nos seis últimos capítulos do livro. É com o primeiro ponto que estamos mais particularmente interessados. Grande parte da visão profética de Dn. 2 já se tornou parte da história. A cabeça de ouro (Babilônia), o peito e braços de prata (Média-Pérsia), a barriga e coxas de bronze (Grécia) e as pernas de ferro (Roma), já se apresentaram diante dos homens. Mas os pés da estátua, "em parte de ferro e em parte de barro", tem que ver com um tempo ainda futuro. A divisão entre as pernas e os pés corresponde à separação entre a sexagésima nona e a septuagésima "semanas" de Daniel 9:24-27. A presente dispensação vem como um parêntesis durante o tempo em que Israel está fora de sua terra, disperso entre as nações.

O que, então, é representado pelos dedos de "ferro e barro" dos pés da estátua? Se tivermos em mente que essa parte da estátua corresponde exatamente à septuagésima semana, teremos uma chave importante para a interpretação. Dn. 9:26-27 trata da septuagésima semana — a "semana" remanescente. Esses versos falam do príncipe (do Império Romano restaurado) que fará uma aliança de sete anos com os judeus. Assim, a profecia referente à septuagésima semana apresenta dois assuntos proeminentes — os romanos, cujo líder é o Anticristo, e o Israel apóstata, com o qual a aliança é feita. Retornando agora a Daniel 2 vemos que, ao interpretar o sonho do rei sobre a estátua, o profeta declara que o "ferro" é o símbolo do "quarto reino" (v. 40), que foi Roma, que sucedeu Babilônia, Pérsia e Grécia, e os pés com seus dez dedos predizem esse império em seu aspecto final. Destarte, temos autoridade divina para dizer que o "ferro" nos pés da estátua representa os povos que ainda devem ocupar o território controlado pelo antigo Império Romano. Em resumo, o "ferro" simboliza os gentios — especificamente aqueles que se encontram nos territórios que serão governados pelos "dez reis".

Quem, então, é simbolizado pelo "barro"? Somos obrigados aqui a nos distanciar dos comentaristas que, unanimemente, acreditam que o barro seja uma figura da Democracia. Até onde estamos cientes nenhum deles ofereceu um único texto de prova para apoiar essa interpretação e, como a Bíblia é a única autoridade, é para ela que devemos olhar. Sabendo que a Bíblia interpreta a si própria, consultamos uma Concordância Bíblica para descobrir o que o "barro" significa em outras partes, quando usado simbolicamente. Em Is. 64, que relata o clamor do remanescente no tempo do fim, nós o vemos dizer: "Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos." Novamente, em Jr. 18, a mesma figura é empregada. Nesse capítulo, o profeta foi mandado à casa do oleiro, onde observou a fabricação de um vaso. O vaso se quebrou nas mãos do oleiro, de modo que ele "tornou a fazer dele outro vaso". Claramente, este é um retrato de Israel no passado e no futuro. A interpretação é expressamente fixada no verso 6: "Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel." Quão evidente, então, é que esse "barro" seja o símbolo de Deus para Israel. [2]

Portanto, em seu aspecto final, o Império Romano restaurado — o reino do Anticristo — será parcialmente gentílico e parcialmente israelita. E não é isto o que deveríamos esperar? Não seria esse o caráter do reino Daquele a quem o Anticristo imitará? Passagens como Sl. 2:6-8, Is. 11:10; 42:6, Ap. 11:15, etc., deixam claro o caráter duplo do reino sobre o qual o Senhor reinará durante o Milênio. Que o Anticristo estará intimamente associado aos judeus e gentios, provamos muitas vezes nos capítulos anteriores — Ap. 9:11 é suficiente para estabelecer a questão. Portanto, não deveríamos ficar surpresos ao descobrir que aquela parte da estátua que descreve especificamente o reino sobre o qual o Homem do Pecado reinará, deve ser composta por "ferro" e "barro". Do contrário, seria estranho. É realmente impressionante observar que o "barro" é mencionado em Dn. 2 exatamente nove vezes — o número do juízo!

Em Dn. 2:43 lemos: "Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão com semente humana, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro" — um verso que confundiu extremamente os intérpretes. Acreditamos que a referência seja à intimidade entre judeus e gentios. Os judeus apóstatas (membros da Mulher Corrupta) devem misturar-se com "semente humana" — os gentios. Isto é reforçado em Ap. 17, onde lemos sobre a grande prostituta: "Com a qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua prostituição." "Mas não se ligarão um ao outro" (Dn. 2:43) é explicado em Ap. 17:16 — "E os dez chifres que viste na besta são os que odiarão a prostituta, e a colocarão desolada e nua", etc.! Há um verso notável em Hb. 2, que confirma nossas observações acima, e conecta o Anticristo ao "barro". A passagem começa com o terceiro verso, que, a partir de sua citação em Hb. 10:37-38, sabemos tratar-se do período imediatamente anterior ao retorno de nosso Senhor. Nos versos 4 e 5 temos uma descrição do Anticristo e, em seguida, no v. 6 lemos: "Não levantarão, pois, todos estes contra ele uma parábola e um provérbio sarcástico contra ele? E se dirá: Ai daquele que multiplica o que não é seu! (até quando?) e daquele que carrega sobre si dívidas!" A referência é claramente à associação deste "homem orgulhoso" com o Israel apóstata. Acreditamos que exista um paralelo entre Hb. 2:6-8 e Is. 14:9-12. Is. 14 nos dá um vislumbre do Anticristo sendo escarnecido no inferno pelos "chefes da terra" porque ele, também, não foi capaz de escapar de seu terrível destino. Então, em Hb. 2, após afirmar que ele "ajunta a si todas as nações" (v. 5) o profeta continua dizendo: "Não levantarão, pois, todos estes contra ele uma parábola e um provérbio sarcástico." O provérbio é que embora ele tenha se associado com a massa de Israel (carregando-se com barro espesso), contudo será "o remanescente" desse mesmo povo que o despojará (v. 8).

Outra passagem que mostra que no tempo do fim o Israel apóstata não será mais dividido e odiado pelos gentios é encontrada em Is. 2, em que lemos: "e associam-se com os filhos dos estrangeiros" (v. 6). Como o contexto aqui é de profundo interesse, e como todo o capítulo nos fornece uma imagem mais vívida dos judeus na Palestina antes do Milênio, devemos parar e fazer uma breve consideração. Os primeiros cinco versos nos apresentam uma cena milenar e, em seguida, como frequentemente é o caso nas profecias de Isaías, somos levados de volta para nos ser mostrado algo sobre as condições que devem preceder o estabelecimento da casa do Senhor no cume dos montes. Isto fica claro a partir do verso 12, que define este período, precedente ao Milênio, como "o Dia do Senhor". A parte, então, que descreve as condições que devem existir na Palestina imediatamente antes de iniciar-se o dia do Senhor, começa com o v. 6. Citamos aqui do v. 6 até o fim do v. 10: "Mas tu desamparaste o teu povo, a casa de Jacó, porque se encheram dos costumes do oriente e são agoureiros como os filisteus; e associam-se com os filhos dos estrangeiros, e a sua terra está cheia de prata e ouro, e não têm fim os seus tesouros; também a sua terra está cheia de cavalos, e os seus carros não têm fim. Também a sua terra está cheia de ídolos; inclinam-se perante a obra das suas mãos, diante daquilo que fabricaram os seus dedos. E o povo se abate, e os nobres se humilham; portanto não lhes perdoarás. Entra nas rochas, e esconde-te no pó, do terror do SENHOR e da glória da sua majestade." Esta passagem interessantíssima nos mostra que o Israel apóstata estará, intimamente ligado com os gentios, será dono de grande riqueza e se entregará à idolatria. Sua condição moral é descrita nos versos de 11 a 17 — Observe as repetidas referências aos "olhos altivos", "arrogância do homem", "altivo e soberbo", etc.

Se Zc. 5 for lido antes de Is. 2:6-9, temos o elo de conexão entre ele e Ap. 17. Is. 2 mostra os judeus como proprietários de uma fabulosa riqueza, culpados pela associação com os "estrangeiros" e como totalmente entregues à idolatria. Zc. 5 revela a emigração do Israel apóstata (a mulher no meio do efa) e a transferência da sua riqueza para a terra de Sinar. Ap. 17 e 18 dão a conclusão resultante disso. Aqui, vemos o Israel apóstata em toda sua glória corrupta. Primeiro, ele é retratado assentado sobre muitas águas (v. 1), o que significa "povos, e multidões, e nações, e línguas" (v. 15). Estes irão apoiá-lo, contribuindo para as suas receitas. As enormes emissões de títulos feitas pelos governos das nações para obterem empréstimos, estão rapidamente caindo nas mãos dos judeus e, sem dúvida, os juros acumulados sobre esses empréstimos em breve farão dos judeus o povo mais rico do mundo. Aquilo que levou metade da Europa à bancarrota será em breve usado para adornar a Mulher com púrpura e cor de escarlata, ouro, pedras preciosas e pérolas. (v. 4).

Em segundo lugar, a Mulher é vista assentada sobre a besta (v. 3), o que significa que o Anticristo usará seu grande poder governamental para garantir a proteção dos judeus. Como isto se harmoniza com Dn. 9:27, em que lemos sobre a aliança de sete anos entre o Anticristo e os judeus, não precisa ser apontado. Em seguida, o pobre e cego Israel acreditará que o Milênio chegou. Ele não mais será o povo de pés cansados e estrangeiro sem lar, mas o dono da maior cidade do mundo. Não mais pobre e necessitado, mas proprietário da riqueza da Terra. Não mais a "cauda" das nações, mas reinando sobre elas como seu credor financeiro e ditador. Não mais desprezado pelos grandes e poderosos, mas procurado pelos reis da Terra. Nada que a carne possa desejar lhe será negado. Tendo o falso príncipe da paz como seu benfeitor, o cego Israel concluirá que finalmente a era milenar chegou. Tal será a imitação do Diabo daquele tempo abençoado que será iniciado com o retorno do Filho de Deus a este mundo.

Mas, esse encanto satânico não será desfrutado por muito tempo. Rudemente ele será quebrado. Ap. 17 mostra que os dez chifres e a besta se voltarão contra a prostituta, a despirão de sua riqueza e a despojarão de sua glória (v. 16). Isto, também, corresponde com a profecia do Velho Testamento, pois lemos ali que o Anticristo romperá sua aliança com Israel! Como é dito no Salmo 55:20: "Tal homem pôs as suas mãos naqueles que têm paz com ele; quebrou a sua aliança", veja também Is. 33:8. Essa quebra da aliança será o cumprimento dos planos de Deus. Milhares de anos atrás, Deus se dirigiu por intermédio de Isaías ao Israel apóstata, dizendo: "E a vossa aliança com a morte se anulará; e o vosso acordo com o inferno não subsistirá; e, quando o dilúvio do açoite passar, então sereis por ele pisados."

As relações do Anticristo com o remanescente judaico fiel já foi discutido em capítulos anteriores, como também seu ataque final a Jerusalém e sua derrota e destruição no Vale do Armagedom. O Israel apóstata, a besta e todos os seus seguidores gentios serão destruídos. O remanescente fiel de Israel e os gentios que os ajudarem em sua hora de necessidade, terão sua parte no reino milenar do Filho e Senhor de Davi (Mt. 25).

Assim, Deus se agradou em nos desvendar o futuro e nos revelar "as coisas que brevemente devem acontecer". Que seja nosso desejo examinar reverentemente e com crescente interesse a Palavra de profecia, e que uma constante e profunda gratidão possa encher nosso coração e ser expressa por nossos lábios, porque todos os que são salvos agora pela graça mediante a fé, estarão com nosso bendito Senhor na Casa do Pai, quando a Grande Tribulação e todos seus consequentes horrores vierem sobre o mundo.


[1] O que eles sofreram no ano 70 foi, primeiro, por causa dos pecados de seus pais — veja Lucas 11:50 e, em segundo lugar, por causa do assassinato de Cristo — veja Mateus 22:7.

[2] Que a palavra hebraica para "barro" nesta passagem seja diferente da empregada em Dn. 2 é exatamente o que poderíamos esperar. Is. 64 e Jr. 18 tratam do Israel que deve ser restaurado, enquanto que Dn. 2 fala sobre a parte apóstata de Israel, irrevogavelmente entregue para o julgamento. Em impressionante harmonia, podemos acrescentar que a palavra usada em Is. 64 e Jr. 18 refere-se ao barro em seu estado natural e moldável, porém a palavra em Dn. 2 significa "barro queimado", o que indica sua condição final: aqui, como sempre, "queima" refere-se ao julgamento de Deus.


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Tradução: Talita Mendes
Data da publicação: 21/10/2010
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